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segunda-feira, 27 de julho de 2015

A leitura de uma ficção: A História Sem Fim

É inevitável recortarmos os textos que lemos, de acordo com este ou aquele momento de nosso interesse, à maneira como a pulsão recorta o campo do Outro em busca de um objeto que, ali, acena como possibilidade. Neste trajeto que se repete indefinidamente alguns fragmentos, conceitos, ou até mesmo palavras, permanecem vivas em nossa memória, insistindo. Um destes fragmentos se encontra no texto “O estádio do espelho...”, de J. Lacan: “A assunção jubilatória de sua imagem especular pelo ser ainda mergulhado na impotência motriz e na dependência da amamentação, que é o pequeno homem neste estado de infans nos parece, desde então, manifestar em uma situação exemplar, a matriz simbólica.”
Se for verdade que várias questões se apresentam a partir deste parágrafo, a que escolho para levar a termo, hoje, diz respeito à matriz simbólica e pode ser exposta da seguinte maneira: Qual é a relação desta matriz simbólica com o conceito lacaniano de traço unário e o conceito freudiano de Ideal do Eu? Esta questão se coloca, pois é, exatamente, deste traço unário que se constrói uma ficção. Ficção que se fixa em uma cena e estrutura uma história, estabelecendo os rumos de uma vida.

Para tentar dar conta do que me proponho vou recorrer à literatura, “A História Sem Fim”, de Michael Ende: Bastian Baltazar Bux é um menino de mais ou menos 11 anos, gordo, desajeitado, desprezado por seus professores, seus colegas, e por si mesmo. Tendo perdido a mãe, viu-se abandonado pelo pai, absorvido que este estava em seu próprio luto. Sua única satisfação era os “livros que contavam as aventuras fabulosas de criaturas fantásticas e em que se podia imaginar tudo o que se quisesse. ... talvez  a única coisa que  (Bastian) soubesse fazer bem (era) imaginar uma coisa com tanta clareza, que era quase capaz de a ver e ouvir”.
 Freud, em seu texto sobre “Escritores criativos ...” nos diz que “uma das razões para as fantasias são os desejos insatisfeitos e, cada fantasia é a satisfação de um desejo, uma correção da realidade”.
Foi com esta disposição imaginativa que Bastian se assentou num pequeno sótão de seu colégio para começar a ler um livro que acabara de roubar. Na verdade ele apenas pegou um exemplar que estava lhe sendo oferecido pelo livreiro, numa espécie de faz de conta que eu não estou vendo e você pensa que o roubou. O interessante é que Bastian entrou na livraria em busca de socorro, de uma garantia, contra uma ameaça que estava sofrendo por parte de seus colegas. O livro trata da história do Reino de Fantásia, que se encontrava ameaçado por um perigo incrível: 

- Na nossa terra, dizia  um personagem, aconteceu uma coisa ... inacreditável... Ou melhor, está para acontecer ... é difícil de explicar ... começou assim: a leste de nossa terra há um lago... ou melhor dizendo, havia... Tudo começou quando, certo dia o lago desapareceu... pela manhã, não estava mais ali. Compreenderam?
- Não, quer dizer que secou? Disse um outro.
- Não. Se assim fosse, haveria ali um lago seco. No lugar onde havia o lago não havia nada... Nada mesmo, compreendem?
- Havia um buraco?
- Não, não havia um buraco.... um buraco ainda é alguma coisa. E ali não há nada e isso é que é difícil de explicar.
É como se uma pessoa ficasse cega, quando olhasse para esse lugar...” 

Em nenhum outro lugar encontrei uma descrição do REAL lacaniano, com tanta precisão, como nesta passagem, nos dizendo que ali onde o simbólico não se apresenta para que o imaginário promova a consistência borromeana, o que resta é nada. E reforçando esta aproximação, acreditem, este nada que ameaçava o mundo de fantásia só poderia ser contido se, “um filho do homem” viesse colocar fim à doença da Imperatriz Criança, a Princesa do Reino, dando-lhe um nome, como explicou o oráculo. 
À medida que Bastian lia o livro, ia identificando-se com o herói, o pequeno guerreiro Atreiú. Afinal, “cada história tem um herói, nos diz Freud,  que é o centro do interesse, para o qual o escritor tenta ganhar nossa simpatia por todas as maneiras e quem ele parece colocar sob a proteção de uma Provi­dência especial (...) ‘Nada pode acontecer comigo!’. Parece que através desta reveladora característica de invulnerabilidade, podemos imediatamente reco­nhecer ‘His Majesty The Ego’, o mesmo herói de todo sonho diurno e toda história.” A identificação de Bastian com o seu herói, seu duplo, segue num crescendo até um momento em que, quando Atreiú se olha no espelho dos hor­rores, vê Bastian e este o vê.
 Este ponto antecede o primeiro clímax do livro. Bastian se sente chamado, com insistência, a participar e, identificando-se cada vez mais vigorosamente com esta ou aquela passagem, vai criando a cada letra, a cada palavra, um contorno, um certo espaço, até o momento  em que surge um vácuo no mundo de Fantásia, provocando em Bastian uma reação inesperada: ele grita um nome para a Imperatriz Criança: “Filha da Lua”, e diz em seguida : “aqui vou eu”. 
Tomado por um enorme júbilo, ele passa a habitar o seio de Fantásia. 
É a “assunção jubilatória” de sua imagem, que vai se tornar o signo que verifica, aposteriori, a efetivação da identificação unificadora. Ela pode ser conside­rada, como nos diz Guy Trobas, juntamente com a angústia e a agressividade, “o triângulo dos afetos especulares”: Este afeto é a tradução subjetiva do sentido existencial que os juízos de atribuição e existência constroem a partir desta  identificação, na medida em que ela implica uma matriz antecipada, imaginária, disto que é causa da angústia: a não-especularidade do objeto. Conseqüência imediata da constatação de que o objeto está perdido, a constitu­ição do Outro se faz a partir desta marca simbólica que aí permanece como um pinçamento do imaginário, fornecendo-lhe um quadro da realidade, aonde o “eu” vai se precipitar em sua forma primordial para ser “o tronco das identificações secundárias”, passando, a imagem, a ser o umbral do mundo visível.
Seguindo o momento da entrada de Bastian no mundo de Fantásia, uma escuridão se fez presente, e aconteceu  uma “conversa como em sonhos...”: 
-  Onde estamos Filha da Lua?
-  Eu estou com você e você está comigo. 
-  Filha da Lua, é este o final? murmurou ele.
- Não, é o princípio, respondeu ela. 
- Onde está Fantásia, Filha da Lua? Onde estão todos os outros? ... Já não existem?
- Fantásia vai renascer dos seus desejos, Bastian, com minha ajuda, eles se transformarão em realidade. 
- Dos meus desejos? repetiu Bastian, admirado.
- Você bem sabe, ouviu ele dizer com a voz doce, que me chamam  a Senhora dos Desejos. Que deseja você?
- Quantos desejos posso formular?
- Tantos quantos quiser... quanto mais, melhor, Bastian. Fantásia será assim mais rica e variada. 
Bastian ficou surpreso e confuso. Mas exatamente porque se via perante possibilidades ilimitadas, não se lembrou de nenhum desejo. 
- Não sei, disse ele finalmente.
Reinou o silêncio durante algum tempo, e depois tornou a ouvir a voz de passarinho. 
- Isso é mau
- Por que?
- Porque assim não haverá Fantásia. 
Bastian ficou calado, sem saber o que fazer. Sua sensação de liberdade era perturbada pelo pensamento de que tudo dependia dele.
- Por que está tão escuro, Filha da Lua?, perguntou ele.
- O princípio é sempre escuro, Bastian. 
- Gostaria de voltar a vê-la, Filha da Lua! Sabe? Como a vi no mo­mento em que olhou para mim. 
Ouviu outra vez o riso suave e cantante.
- Por que está rindo?
- Porque estou contente.
- Por que?
- Porque você formulou seu primeiro desejo.
- Vai satisfazê-lo?
- Sim. Estenda a mão!
Ele obedeceu e sentiu que lhe punham alguma coisa na palma da mão. Era uma coisa minúscula, mas muito pesada. Irradiava frio e era dura e morta ao tato. 
- O que é isto, Filha da Lua?  
- Um grão de areia, respondeu ela. É tudo o que resta do meu reino sem fronteiras. Ofereço-o a você. 
- Obrigado, disse Bastian, espantado. A verdade é que não sabia o que fazer com aquele presente. Se ao menos fosse uma coisa viva!
Enquanto pensava no que a Filha da Lua realmente queria dele, sentiu umas leves picadinhas na mão. Olhou melhor para o que havia ali. 
- Olhe, Filha da Lua!, murmurou ele. Começa a brilhar! E agora, está vendo?, começa a sair do grão de areia uma chamazinha minúscula. É uma sementinha brilhante que começa a germinar!”

Este grão de areia é o que podemos dizer, uma segunda fase da matriz simbólica que estrutura a antecipação do eu (je). Neste momento, o que era uma matriz vai se constituir num grão-traço que se ordena, a partir de um dito primeiro que decreta, legisla e vai conferir ao outro real, sua obscura autoridade. Enquanto a matriz denuncia a “Coisa”, o nada, o traço é o que vai apagá-la. “Lacan  vai nos dar essa fórmula : Wo es war, da durch das Eins werde Ich - aí onde estava (a Coisa), aí pelo um advirei eu, e é o traço unário que vai fazer aparecer o sujeito como aquele que conta”. e, permanecendo um, pode estruturar a cena imaginária dando realização aos desejos e mergulhando Bastian num reino sem fronteiras, onde tudo se transforma... 
Em outras palavras, podemos dizer que este traço é o que vem no lugar original do sujeito que vai, como conseqüência, ser elidido para se reencontrar nas marcas das respostas que se fizeram capazes de traduzir seus gritos em apelos. Nasce daí uma possibilidade de que algo se repita, insista, neste ponto mesmo de impossibilidade que o lugar vazio do sujeito vai abrir no seio do Outro. É neste ponto que virá se servir o eu (moi) para fazer revalidar o seu poder enquanto o que vai estender o campo da ignorância, pois a função deste eu (moi) é manter este vazio, o desconhecimento. Do que se trata por­tanto, é de uma transformação do que era, na antecipação apenas uma matriz simbólica, em um traço de sustentação do significante enquanto tal : o traço unário
Se por um lado, o traço unário vai ser o que se repete na cadeia que se forma em conseqüência mesmo de seu surgimento, por outro lado, será a sustentação desta cadeia que vai circunscrever, envolver, dar forma a uma realidade onde os traços dos significantes vão constituir o Outro enquanto todo poderoso, colocando-o como tendo o poder de resposta. Esta será a constelação das insígnias que constituirão, para o sujeito, o Ideal do Eu  [I(A)], esta formação que virá neste lugar simbólico, ligando-se, por esta via, às coordenadas in­conscientes do eu, para dar-lhes consistência onde as imagens só fazem intro­duzir uma tensão sem fim : “eu não sou senão no outro e, ao mesmo tempo, ele permanece alheio, estranho; este outro que sou eu mesmo é outro diferente de mim mesmo”. Esta é a dialética que se estabelece entre Bastian e Atreiú.
Matriz simbólica, traço unário, ideal do eu, vários nomes para dizer do que vai propiciar a que uma imagem possa se estabilizar, mesmo com suas instabilidades, num eu ideal [i(a)] que carrega em si a marca de sua própria impossibilidade: este objeto a, impossível a negativar e que vai permanecer como opacidade subjetiva. É esta opacidade subjetiva que vai sustentar a cadeia significante, como efeito de discurso, e uma certa distância entre o Ideal do Eu e o Eu Ideal poderá ser mantida. Distância que vai apontar para a angústia de se deparar com desejo do Outro, e que o neurótico  tenta apaziguar respondendo às demandas do Outro como se elas fossem o seu desejo. Assim, o que falta [S(A)] ficará sempre num segundo plano. Esta é a ilusão que a fantasia propícia. “Uma resposta antecipada à questão radical do Outro”.
No entanto esta distância entre o ideal do eu e o eu ideal, só vai se sustentar se aconteceu um consentimento do sujeito para que o traço unário seja traduzido em um significante, o Nome-do-Pai. Significante este que, ao fazer-se herdeiro do Complexo de Édipo, vai sustentar-se como suplência entre o simbólico e o real fornecendo um limite para que o desejo saia do desvario imaginário para se suportar de uma cadeia simbólica. Caso contrário, a enfatuação da imagem, com seu curto circuito [no Grafo do Desejo - i(a) -m - I(A)] só vai dificultar o que há de transmissível da castração. 

À medida que a “História sem fim” segue o seu caminho, acompanhamos o nosso herói ir se perdendo neste curto-circuito, nos meandros das imagens plásticas, sempre confiando no símbolo que lhe fora entregue pela Imperatriz, a Senhora dos Desejos, que trazia no seu torso a seguinte inscrição: “Faça o que quiser”. A loucura, pouco a pouco ia tomando conta. Suas realizações nunca chegavam ao fim, pois não havia um eixo diretor. Enquanto isso, seu “eu” (moi) ia ocupando um espaço enorme, até o ponto em que, confrontando-se num combate por puro prestígio (a - a’), Bastian mata Atreiú. Isto, ao contrá­rio de aliviá-lo, só faz aumentar a angústia da falta de limites.  No entanto, Bastian havia consentido com a entrada de um traço, com a “bejahung” pri­mordial e sabia que se persistisse neste caminho iria ficar,  para sempre, no seio deste Outro, submetido a este desejo enlouquecido. 
Desesperado, sem conseguir fazer seu, o símbolo que havia recebido da Senhora dos Desejos, ele vai a busca de uma saída. 
Depois de percorrer vários capítulos, que o autor faz iniciar com letras que tem a seqüência  do alfabeto, Bastian se depara com o velho Yor, o mi­neiro. Solitário e cego, Yor tem  passado sua vida cuidando do que os homens já não se importam mais: as imagens de seus sonhos e fantasias. 
Bastian é acolhido pelo velho que, diante de sua angústia vai dizer-lhe  que será necessário buscar uma recordação, uma imagem qualquer que possa levá-lo até as “Águas da vida”, a porta de saída do Reino de Fantásia. Este objetivo, no entanto, só poderá ser alcançado se ele deixasse esvaziar da enfatuação que ainda apresentava. 
Vários dias se passaram, durante os quais, dentro dos labirintos das cavernas que formavam a base de Fantásia, Bastian aprendeu a localizar, na escuridão dos subterrâneos,  as pequenas placas de mica com as imagens dos sonhos dos homens, em busca das que lhe pertenciam. Durante este tempo, pouco a pouco, ele ia se esquecendo de si mesmo, até que, após muito procurar,  se deparou com uma imagem conhecida. Era uma imagem de seu pai. Quando isto acontece, ele percebe que já não se lembra mais de seu nome. Não havia mais nenhum significante que o pudesse garantir como ser, deixando à mostra o que é “a essência ausente do corpo, (...)  este ponto de ausência que o nome próprio recobre na sua função de designar o individuo, não como indivíduo, mas como alguém  que pode faltar ou desaparecer: feito para obturar os buracos e dar uma falsa aparência de sutura, o nome próprio sugere, ao mesmo tempo, o nível radical da falta”. O esquecimento do nome representava, portanto, o sinal de que a enfatuação narcísica chegava ao fim e uma passagem podia ser reali­zada, para além das garantias imaginárias. 
Sem nome e de posse da cena do pai, ele se despede do velho e caminha em direção à saída. Este é o segundo clímax da história. Diante da fonte das “Águas da vida”, Bastian, auxiliado pelo seu duplo, o herói Atreiú,  que ressurge trazendo no peito a ferida do combate, consegue gritar o Nome-do-Pai e, passando para além do Portal, para além do Pai, retorna à realidade, deixando defini­tivamente, o desvario de um mundo sem fronteiras.

Referências Bibliográficas:

Ende, Michael. A historia sem fim.Trás. Maria do Carmo Cary. São Paulo. Martins Fontes/Editorial Presença, 1985.
Freud, Sigmund. Edição Standard Brasileira. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1976.
Julien, Philippe. “Le retour a Freud de Jacques Lacan, Littoral, Toulose
Lacan, Jacques. Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.
Trobas, G. - Le triangle des ‘affects speculaires’. Actes d’Ecole de la Cause freudienne nº X. Paris, 1986.

Le clivage du sujet et son identification, Scilicet, Paris, n.2-3, p. 103-136, Seuil, 1970.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Analista, uma função do Pai Real?

"Pour tout dire, l'ininterprétable dans l'analyse, c'est la présence
de l'analyste. C'est pourquoi interpréter celle-ci, comme il s'est vu,
comme il s'est même imprimé, est proprement ouvrir la porte,
appeler à cette place l'acting out.(1)"
(J.Lacan)

Hoje só podemos trabalhar a Metáfora Paterna na perspectiva da função do Pai Real. Para isto proponho um trajeto que vai de Freud a Lacan no que diz respeito ao Édipo e ao mais-além. 
J-A. Miller nomeia o capítulo VIII, do Seminário XVII(2) - O Avesso da Psicanálise - "Do mito à estrutura" para chamar a nossa atenção ao movimento que está presente ali e que pode ser resumido como uma passagem do Pai Imaginário ao Pai Real. Desta maneira ele desfaz a crença de que a castração seja uma fantasia: ela é uma operação real introduzida pela incidência do significante. 
A psicanálise, antes de ser uma religião, refere-se a um ateísmo. À morte de Deus responde um "nada é permitido". Nietzsche nos lembra que, ao se acreditar que Deus está morto, é preciso que se abandone a garantia do templo.
Freud pensou dar conta da questão do gozo através do mito do Pai morto. Lacan, por sua vez, parte da morte do pai, como Freud a anuncia - dizendo-a "chave do gozo, do gozo do objeto supremo identificado à mãe, a mãe visada do incesto"(3). Do assassinato do pai que vai edificar a interdição desse gozo como primária, Lacan vai nos levar para além do Pai.
Pode-se identificar aqui a estrutura do matema da "Metáfora Paterna": "O mito de Édipo, no nível trágico em que Freud se apropria dele, mostra precisamente que o assassinato do pai é a condição do gozo"(4).
Uma primeira passagem acontece quando Lacan pergunta se é à custa desse assassinato que Édipo obtém o gozo no leito de Jocasta. Esta é a forma encontrada para introduzir a função da linguagem a partir do lugar do enigma que propõe a Esfinge. Do que se trata é de uma resposta que acaba "suprimindo o suspense que a questão da verdade introduz no povo"(5), pois ao lhe ser proposta uma escolha, Édipo acaba caindo na armadilha desta verdade.
A verdade tem uma relação estreita com a castração, por isso a castração, ou essa verdade, se renova para Édipo. Mesmo advertido por "sua mulher-mãe" de que todos os homens sonham deitar-se com suas mães, ele vai buscar o que "podemos identificar como alguma coisa que, ao menos, tem ligação com o preço pago de uma castração"(6). A queda dos olhos não deixa Édipo, como nos lembra Lacan, "sofrer a castração, mas antes, a ser a própria castração, ou seja, aquilo que resta quando desaparece dele, na forma de seus olhos um dos suportes preferenciais do objeto a”. 
No que diz respeito à questão do significante como aquele que determina a estrutura subjetiva, é importante a articulação entre a sucessão de pai a filho e a castração, ou seja, o que aí se transmite. Édipo pagou por ter acedido ao trono como faz o mestre: "apagando a questão da verdade" da transmissão, sucedendo o pai pela via da tradição.
Na segunda parte da lição do Seminário XVII, ao qual nos referimos no início, Lacan faz uma articulação entre o pai morto e o gozo. Para isso ele relembra uma de suas elaborações quando, utilizando o Grafo do Desejo, distribuiu os dizeres de um sonho que Freud trabalhou no livro "A interpretação dos sonhos"(7) nos andares da enunciação e do enunciado no Grafo do Desejo. Trata-se do sonho de um paciente obsessivo que, depois de masturbar-se à frente de um espelho encontra-se com o vulto de seu pai morto há algum tempo. Neste ponto ele enuncia: “ele não sabia que estava morto". Este é um sonho que diz do ponto de impossível que define a retomada, por Lacan, do mito do assassinato do pai em "Totem e Tabu". Este é o texto freudiano onde se coloca a equivalência entre o pai morto e o gozo. Em outras palavras, para além do mito encontramos o pai morto que tem o gozo sob sua guarda sendo, a ele, atribuída a interdição do gozo: "Eis o que podemos qualificar como operador estrutural" nos diz Lacan. 
Para além do Édipo, portanto, encontramos um operador estrutural: o pai real, “que liga o sujeito ao impossível”(8). O que é o pai real? "A ciência buscou esse pai real e encontrou o espermatozóide."(9) O espermatozóide, diz Lacan com todas as letras nesse capitulo, é o pai real. Só que ninguém vai dizer-se filho de um espermatozóide X ou Y. O pai real, portanto, não pode ser localizado pela ciência. Afinal, o espermatozóide não nomeia! O pai real, operador estrutural, deste a ciência não dá conta, mas desloca o mito no que ele pode ter de psicológico, para estabelecer uma referência outra no que diz respeito à castração, quando ela é definida a partir do princípio do significante-mestre e da interpretação. O pai real produz um furo e um resto.
Isto se demonstra na própria estrutura do discurso chamado do Mestre, “onde a linguagem não obtém o gozo a não ser insistindo até produzir a perda onde o mais-de-gozar toma corpo"(10).
A castração é função essencialmente simbólica, ou seja, concebida exclusivamente na articulação significante e a partir da própria definição do significante que se estrutura por uma diferença! Um significante não se significa a si mesmo. Ele apenas representa um sujeito para outro significante. E é nessa articulação que a transferência vai apontar algo de real. É o resíduo, é um resto, - a frustração é do imaginário, a privação do real. Aqui se tem uma privação que se articula à castração a partir de uma perda imaginaria. Essa perda retorna pelo viés do imaginário, pois só podemos acessar o objeto pelo viés do semblante, do que parece, mas não do é.
No Seminário “A Angústia” o estádio do espelho é relembrado para dizer que se faz do objeto "a" essencialmente uma imagem. Trata-se de uma tentativa de restabelecer a homeostase perdida no confronto especular quando se depara com esse objeto-resto que não é especularizável, que não tem um correspondente.
O pai real, se tomarmos esta referência do espelho, é aquele que faz um sulco traduzido na relação mãe-filho pela privação. É o Traço Unário (einziger Zug). Uma separação se define, por um lado, por um simples: "você não reintegrará seu produto", e por outro por: “não se pode ter acesso à mulher" se se optou pelo falo.
A partir do que se demonstrou até aqui, pode-se dizer que o S1 é uma escritura que, ao promover a separação, abre a possibilidade de uma interpretação. Somente a interpretação deste S1 - a castração - pode sustentar a ex-sistência de um sujeito.
Quando Lacan constrói o novo estatuto do objeto como resto, ele modifica a maneira de abordar a castração. A castração construída por Freud em Totem e Tabu e no complexo de castração, consequência do Complexo de Édipo, é abordada de forma diferente depois da construção do objeto “a” como resto. Do que se trata, como já foi dito, é de uma perda real. A entrada do significante produz uma perda real, ou seja, há algo que se perde realmente. Dai podermos dizer: "O pai, o pai real, nada mais é do que o agente da castração". Somente a partir desta nova perspectiva é que se pode afirmar o pai real como impossível, impossível de ser falado. 
Acompanhemos "o Pai" neste caminho de Freud a Lacan: o pai morto freudiano era um pai impossível e os teóricos da época se contentaram com isso. Esse pai morto, impossível, não há como ter acesso a ele. Ele é correlativo ao final da análise como o encontro com o rochedo da castração. O pai morto freudiano, como impossível, Lacan o diz com todas as letras: está destinado a mascarar o pai real como agente da castração. É o pai guardião do gozo, o Pai que a Igreja cultua: um Pai-Deus que goza e que se sustenta de todo um ritual feito para preservar o lugar do pai morto.
Um passo importante acontece quando Lacan estabelece o pai como operador estrutural, efeito de linguagem. O pai lacaniano, ao mesmo tempo em que interdita e legisla uma lei, sustenta um lugar vazio onde um desejo pode acontecer. Um pai que aponta, também, para um gozo possível, na medida em que ele se dirige a uma mulher. Esta é a consequência de uma operação que só se conclui se o pai foi capaz de “afrontar o gozo de uma mulher”(11), fazendo dessa mulher causa de seu desejo. Causa que está articulada no campo do Outro, na linguagem, mas não é o Outro. 
O pai real, agente da castração, aponta por sua operação, a um objeto causa de desejo abrindo espaço para que uma pulsão possa percorrer seu trajeto. Este é o pai que se pode dispensar à condição de dele se servir.
Até aqui se tem um trajeto que, partindo da metáfora paterna, passa pela construção do objeto “a” no Seminário “A Angústia”(12) e chega até o mais-além do Édipo. Este percurso diz como Lacan pode ir do significante à letra, da enunciação ao dizer, do objeto causa do desejo ao objeto resto - excesso de gozo - e da estrutura ao aparelho. Com isso pode-se desmascarar o pai impossível que leva muitos finais de análise a esbarrarem, via identificação, no rochedo da castração. Esse trajeto nos diz, também, da pluralização dos Nomes-do-Pai, na medida em que o nome próprio, singular a cada sujeito, é a conseqüência do ato de um “operador estrutural” que inscreve um Nome-do-Pai a partir do resto. Resto que antecede ao sujeito: afinal cada sujeito é de início, determinado como objeto pequeno “a”, sendo assim resposta do real. 

Para concluir uma palavra a mais sobre o que pode definir um analista como função do pai real: 
Trata-se do pai real que não se articula, propriamente, ao que se conserva do pai imaginário no que concerne à interdição do gozo, mas com a transmissão de um gozo possível, ao dizer da castração da mulher e da impossibilidade da relação sexual.
Nos matemas dos discursos, o Discurso do Mestre diz da fundação do inconsciente, e de uma interdição que produz um ponto de fuga, o objeto “a” como resto, mais-de-gozar. O Discurso do Analista, por sua vez, ao fazer reinar o objeto “a” como semblante diz de uma função que re-inscreve a falta, fazendo silêncio ali onde se espera uma resposta. O que se produz é um S1, assemântico, que permite ao sujeito consentir com a impossibilidade da relação sexual. A consequência é um novo enlaçamento a partir do sinthome. Em outras palavras, a partir da desarticulação da fantasia fundamental, quando o ponto de gozo que a animava cessa, cessa também o apelo ao Pai. Isto porque, para-além dos Nomes que vestem o pai real, este se revela idêntico à letra que cifra o objeto pequeno “a”. 
Penso não haver palavra que defina o Pai Real enquanto tal. Pode-se dizer que ele se limita a ser o pai do furo, de um espaço onde um sujeito pode advir e um objeto ser capturado como causa. Se isso acontece, constrói-se uma interpretação que traduz a posse da herança transmitida: o nome próprio, um nome para o particular de gozo possível. 
Notas

(1) Lacan, J., « Le Séminaire, D'un Autre à l'autre, Chapitre XXI, page 350, Le Seuil, 2006.
(2) Lacan, J. O Seminário Livro XVII “O avesso da psicanálise”, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro.
(3) Idem.
(4) Idem
(5) Idem
(6) Idem
(7) Freud, S., “A interpretação dos sonhos”, Vols. IV,V da Edição Standard Brasileira, Imago Editora Ltda, Rio de Janeiro, 1972.
(8) Solano, E., “O retorno do pai”, in Opção Lacaniana, nº 20. Publicação da EBP, Dez. 1977.
(9) Lacan, L., Idem,
(10) Idem
(11) Idem,
(12) Lacan, J., Seminário X, “A Angústia”, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2005

sábado, 4 de julho de 2015

Fin de l'anayse - un nouveau partenariat ?

Lors de sa première rencontre avec l’Autre, conséquence de l’incidence d’un signifiant, le sujet fait face à un réel qui n’est pas subjectivable. Point d’opacité, nous dit Lacan, point de silence, qui indique le lieu où pourra s’édifier la détermination signifiante susceptible d’écrire le phénomène symptomatique, pour que l’impossibilité installée dans la contingence de cette première rencontre soit constatée. Le symptôme, c’est ce qui ira représenter, manifester, signifier la vérité de cette rencontre, vérité qui nous parle du réel de la jouissance produite par l’inclusion du signifiant traumatique chez le sujet. Cela dit, le symptôme pourra être considéré sous deux versants : d’un côté nous avons le symptôme comme une métaphore dans la mesure où il met en route le signifiant du traumatisme, un signifiant qui fonctionnera comme un index de la mémoire de cNão e qui a été trouvé comme traumatique.

Le symptôme comme métaphore est un symptôme signifiant qui se trouve connecté à la jouissance sans pour autant se confondre avec elle. D’un autre côté, si l’on suit le développement de la théorie de J. Lacan, on va traiter le symptôme comme une fonction de la lettre, comme le signe de la distance irréductible vis-à-vis du réel. La distinction entre lettre et signifiant est, ici, fondamentale car la lettre se réfère directement à la jouissance tandis que le signifiant se réfère au jouis-sens.

Donc, nous avons d’un côté un « mémorial de jouissance » et de l’autre un « capteur de jouissance ». Quel que soit le versant considéré, nous avons dans le symptôme le signe que quelque chose ne va pas, puisqu’un réel existe qui apparaît comme un obstacle sur le chemin du sujet : il s’agit du réel de la privation, explicité par le fait que les hommes et les femmes se trouvent, depuis toujours, privés de l’élément qui pourrait rendre possible l’écriture du rapport sexuel. Cette impossibilité, qui ne cesse de s’écrire, promeut le symptôme comme la seule possibilité de faire lien. En même temps, elle rend possible une lecture, vu que le symptôme participe d’une écriture, fonction de la lettre.

À ce propos, J.- A. Miller affirme dans son cours L’Autre qui n’existe pas...(1), « que le symptôme est un mensonge sur le réel, surtout un mensonge sur ce réel qui est l’inexistence du rapport sexuel. C’est dans ce sens que Lacan peut dire que c’est bien le symptôme que nous mettons à la place de cet Autre qui n’existe pas. Voire même, c’est le symptôme que nous mettons à la place de l’autre sexe. Ainsi, le symptôme est peut être le seul Autre qui existe ».Il y a néanmoins un vide sur lequel le symptôme s’appuie et à partir duquel il construit son enveloppe formelle. Vide qui s’installe au point même où une jouissance singulière et scandaleuse fut refusée et refoulée par le sujet. (Lacan nous rappelle dans son Séminaire R.S.I (2), que « le névrosé est celui qui n’est pas arrivé à atteindre ce qui pour lui est le mirage d’où il trouverait satisfaction, à savoir une perversion. Une névrose étant alors une perversion ratée »). D’après Freud, ce qui est refoulé, c’est la pulsion, qui se présent sous son aspect intraitable, rebelle et réfractaire au lien social.

Cependant le refoulement échoue et le symptôme surgit comme une façon d’inscrire ce qui insiste, à savoir les marques de la singularité et des fixations du sujet. Le symptôme, tout comme la scène du fantasme fondamental, n’est rien d’autre qu’une enveloppe formelle de la pulsion, une modalité de son exercice, ou encore une forme par laquelle le sujet cherche à appréhender un objet, un partenaire, dans le champ de l’Autre(3). L’objet appelé par J. Lacan petit a, se définit à partir des orifices du corps en marquant le point où le sens ne se laisse pas appréhender dans les maillons du discours. Cet objet petit a circonscrit le vide autour duquel la pulsion fait son circuit, en dessinant par là une écriture qui situe la répétition du symptôme. Une scène concernant et l’acte d’écrire et un regard a défini un point de fixation de la jouissance, en déterminant ainsi un chemin et en établissant une forme symptomatique. La recherche de satisfaction passait par la conquête d’idéaux déterminés par la demande de l’Autre. Dans l’impossibilité d’y répondre, un reste se répétait dans le regard d’une femme. La marque du manque présente dans ce regard était recherchée comme le seul signe de l’existence d’un Autre qui pourrait rendre possible le rapport sexuel. Ce symptôme s’est fixé en créant tout une série de symptômes dont la résolution était indéfiniment ajournée Lacan nous dit que « l’Autre est une matrice avec deux entrées(4) ». L’objet petit a constitue l’une de ces entrées, l’autre étant l’Un du signifiant. Dissoudre la présence de cet Autre était fondamental pour que le sujet pût se libérer des contraintes qui déterminaient la fixation du circuit pulsionnel.

Le symptôme, pour comporter un effet de sens, subit l’action de l’interprétation. Puisque il y a une antinomie entre sens et valeur de jouissance, celle-ci n’est appréhendée que par l’équivoque ; de là on déduit la fonction de la lettre. La réduction du symptôme à la lettre est une façon de renouveler le statut du symbolique, en réduisant ainsi la pulsion à la fonction de trou. C’est bien pour cette raison que l’interprétation de l’analyste a pu pointer le vide et éclairer le circuit qui délimitait l’objet, ce qui se trouvait auparavant voilé par l’interprétation faite par l’inconscient de la rencontre traumatique avec l’Autre sexe.

Cet objet, dès la pétrification du sens dans la scène traumatique, s’incrustait à tous ceux qui présentaient un trait susceptible de répéter la scène fondamentale, nous indiquant ainsi un point de fixation pulsionnelle. Or, la pulsion constitue la forme réelle du fantasme en même temps qu’elle dénonce la limite du symptôme dans l’action symbolique. Le reste qui échappait, qui fuyait, revenait sous la forme de malaise et relançait le vecteur pulsionnel toujours dans la direction déterminée par l’impératif du surmoi. Défaire ce circuit en rendant à l’objet sa caractéristique d’être un objet quelconque, en mobilisant sa valeur de jouissance, est l’un des objectifs d’une analyse.


Dans ce but la stratégie dont s’est servi la psychanalyse a consisté à offrir à celui qui l’a cherchait comme solution, la possibilité que cette scène se répète sous transfert : elle a installé dans le point de non-savoir, un sujet supposé savoir quant à la signification de sa souffrance. Cette stratégie s’est basé sur le fait que l’inconscient repose sur l’inexistence du rapport sexuel et sur le fait que la sexualité ne se représente dans l’inconscient que par la pulsion.


Par le biais de l’objet petit a en tant qu’agalma, il a été possible d’avoir une entrée chez l’Autre ; la construction de la scène fondamentale a été possible à partir de la détermination même de la constante par laquelle le sujet a rapport au réel de la jouissance. Balisée par cette construction, une interprétation s’est opérée en séparant S1 du S2, et en créant un intervalle là où régnait l’opacité propre à la jouissance du symptôme. Ce moment fut celui où la production d’un signifiant a eu lieu en indexant le manque. Un nom est venu établir de nouveaux horizons en faisant ainsi disparaître les points de suspension symptomatique et en faisant intervenir la lettre comme bord au réel.


L’amour, réponse au réel du non-rapport sexuel, a soutenu le travail du transfert dans la relation à l’Autre du Savoir, et il a disparu par l’action de l’interprétation qui a défait le mystère de la différence sexuelle. Ce moment fut celui où « l’analysant a fait de l’objet a le représentant de la représentation de son analyste5 ». Par là, un nouveau rapport au savoir et le consentement à sa propre façon de jouir ont été inaugurés.

Ce passage a établi une subversion du symptôme qui, dès lors, repose sur l’aliénation, sur l’Autre barré et marqué par le silence de la pulsion, et non plus sur l’Autre du Savoir, l’Autre non barré, comme le définit Lacan. Nous pouvons dire que l’objet a, cause de désir, fut extrait de la jouissance qui soutenait le symptôme. Par conséquent, et du fait de vouloir ce qu’il désire, le sujet a assumé une responsabilité là où auparavant une garantie était attendue. Cette responsabilité constitue alors la seule position politique possible. Elle est d’ailleurs définie par J.-A. Miller de la façon suivante : « si tout était calculé nous n’aurions alors plus de responsabilité. Il y a responsabilité justement parce qu’une béance existe et qu’il faut la recouvrir par l’acte 6».


Le travail de transfert fut alors remplacé par le transfert de travail, ce qui a dénoté une alliance nouvelle avec la pulsion. Cette alliance n’a pu avoir lieu que par la revitalisation de la marque de nom propre, ce qui a instauré un savoir y faire avec le symptôme. Savoir y faire avec le symptôme constitue l’une des formules possible de la liberté. Le « y » marque la suspension d’un être qui ira nommer le savoir ou le produire..., un être qui nomme le savoir y faire comme ce qui est au-delà de son nom propre, un nom au-delà de l’image de son nom propre (...) C’est précisément du nom propre dont nous parle Lacan à partir de la formule savoir y faire avec son symptôme.


Après la production d’un nom et la rectification du circuit pulsionnel, il a été possible de dire à l’analyste que dorénavant le sujet ne s’adresserait plus à lui mais à l’Ecole, en établissant par là les paramètres d’un nouveau partenariat.

Notes
1 Miller, J.-A. et Laurent, E., in L’Autre qui n’existe pas et ses comités d’éthique, leçon du 18/12/96, inédit.
2 Lacan, J. in Séminaire R.S.I, leçon du 18/02/75, inédit.
3 Miller, J-A. L”Autre que n’existe pas...”
4 Lacan,J., RSI, leçon du 21/01/75.
5 Lacan, J. “Proposition du 9 october 1967.
6 Miller, J-A.