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terça-feira, 26 de maio de 2015

A REAÇÃO TERAPÊUTICA NEGATIVA UMA FORMULAÇÃO DA CLÍNICA (II)

Proponho continuar pelas fórmulas que Lacan reúne num quadro e que são conhecidas como “fórmulas quânticas da sexuação” - que podem ser encontrada no Seminário XX à página 105 da Edição da Zahar Editores no início do capítulo que se intitula: Letra de Uma Carta de Amor.
Após descrever as fórmulas de quantificação lógica que se encontram nos dois espaços superiores, - estes espaços que nos dizem “das únicas definições possíveis da parte dita homem ou mulher por esse que se acha estar na posição de habitar a linguagem” – Lacan nos diz o que se passa “sob a barra transversal onde se cruza a divisão vertical disso que se chama impropriamente humanidade, na medida em que ela se reparte em identificações sexuais”.
É neste ponto, onde as “identificações sexuais” se repartem que penso encontrarmos subsídios para trabalharmos o sintoma que lhes descrevi e que se apresenta, na transferência, durante o tratamento das histéricas. Assim fazendo, chegaremos a uma estrutura que possa nos dizer das “primeiras relações objetais”.
Se observarmos o lado homem, no quadro acima, veremos que quem se posta aí, estará inteiramente submetido à função fálica, a partir mesmo da exceção que se impõe. É o sujeito barrado e o φ “que o sustenta como significante ... este significante do qual não há significado, e que quanto ao sentido, aí simboliza o fracasso. É o meio-sentido ... esse $ que só tem a ver enquanto parceiro, com o objeto ‘a’ inscrito do outro lado da barra. Só lhe é dado atingir seu parceiro sexual que é o Outro, por intermédio disto, de ele ser a causa de seu desejo ... ”
Do outro lado, à direita, vemos surgir aqueles que “assumem o estatuto da mulher”. Aqueles que, pelo fato de não existir a exceção que possa fazer a regra: ser toda submetida à função fálica, permanecem como “não-toda”, apontando para o que poderíamos chamar uma falha na metáfora paterna: “na substituição da mãe pelo pai, no Édipo feminino, não se forma um significado novo que daria, como conseqüência, uma identidade propriamente feminina”.
Assim, parte submetida ao falo, parte numa relação ao Outro exatamente aí onde é não-toda, a mulher tem “que optar entre três soluções: ou aceita sua falta de identidade e se presta à mascarada fálica à qual convida a lei do significante (o matena $———>a, apresentado no quadro da sexuação, talvez possa nos dizer disto); ou recusa o que considera como derrota e se obstina numa reivindicação de tipo histérico (é o matema La/ ———>S(A/)); ou ainda retorna à fase anterior e se entrincheira numa posição toda masculina, como a homossexual (La/—-> φ).”
 Três opções. Três maneiras diferentes de lidar com o que escapa à função do significante fálico e a joga de encontro “a este lugar onde a verdade balbucia”. Talvez por isso Lacan tenha dito que as mulheres são as melhores analistas... ou as piores. Se lhes é possível, já que sabem como ninguém desta falta-a-ser, prestarem-se a sustentar este lugar do analista enquanto falta, vamos ter efetivada a primeira parte do dito lacaniano. Se não, vamos encontra-las fazendo de sua opção um sintoma onde tentam sustentar a possibilidade da relação sexual, negando esta parte de sombra inexplorável que permanece em consequência de, talvez, terem tido uma mãe que, se interpondo em curto-circuito na relação da menina ao objeto de seu desejo, interditou-lhes uma relação própria à ordem simbólica, condenando-lhes à imitação, à repetição e a recriminação sem fim. Ou seja, instalou-se nesta relação especular a violência de um Ideal do eu em que a demanda de manter inteira esta Outra tornou-se seu sintoma. Assim, é enquanto sintoma que a mascarada fálica se instala na transferência repetindo aí a tentativa de “dar conta” desta demanda, vestindo-se imaginariamente deste objeto causa de desejo, ao mesmo tempo em que empresta ao outro o significante amo (S1), do qual espera obter o saber sobre o mais-de-gozo com que se fantasia                          ($<>a —->A/)
Desta forma um circuito se inaugura, onde vemos se esgotar toda as tentativas de sustentar a ciranda que tem como centro exatamente isto que, traduzido como impotência ante a enorme demanda do Outro, faz circular o sintoma a partir mesmo do que escapa à cadeia simbólica na sua tentativa de estabelecer um sentido qualquer. Isto que escapa, e que Freud nos diz estar sinalizado pela angústia presente no ponto onde “não se deu conta das demandas feitas pelo seu ideal, o super-eu”, não é outra coisa senão o que verdadeiramente vai dar sentido ao sintomas: “o real, na medida em que se coloca em cruz para impedir que as coisas andem”.
E assim, enquanto circula esta ciranda que, certamente tem a quem endereçar-se, a histérica se coloca sob o regimento homeostático do princípio do prazer, deslocando para o outro o gozo que não tem como delimitar no próprio corpo. Aceitá-lo seria aceitar sua própria falta. É o outro, enquanto semblante do significante amo que pode sustentá-la neste lugar, deixando-lhe apenas a angústia onde um desejo deveria existir.
E o analista ?
Se ele, como nos diz Freud, não desmascara estas relações objetais primárias, não pode nunca ter certo o final de seu trabalho. Mas se, por ventura, deslocar-se prematuramente através de uma conduta puramente interpretativa, privando a histérica da identificação que o sintoma lhe confere, ou seja, privando-lhe de “conservar este pouquinho de gozo fálico que lhe possibilita a inscrição de um passado e que mantém sua esperança de um futuro melhor”,  pode-se deparar com um final que se resume na dissolução imaginária.
Estando essencialmente ligada ao tempo e a seu manejo, a transferência é o campo onde a reação terapêutica negativa vai se resolver. É aí, neste campo, que vamos poder abordar este sujeito “que não pode ser outro que o sujeito da ciência” este que se encontra suspenso entre a verdade e o saber, com o qual mantém uma relação apenas pontual e evanescente. É aí, nesta divisão do sujeito por onde se estrutura o campo psicanalítico: o objeto ‘a’.

Assim, se há um saber em jogo na transferência, este é o do sujeito suposto saber, que deverá deixar lugar para um outro saber que advém da ética própria à psicanálise: não devemos ceder do nosso desejo, se é nosso objetivo manter viva a causa que impulsiona o analisando a entrar onde não sabia para lá, produzir um saber textual que o traga de volta desta transcendência seguindo as marca que deixou pelo caminho percorrido, ancorado na estrutura fundamental do seu desejo que se articula na cena da fantasia fundamental.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A REAÇÃO TERAPÊUTICA NEGATIVA UMA FORMULAÇÃO DA CLÍNICA (I)


“Entrei onde não sabia
e assim fiquei não sabendo
toda ciência transcendendo”
    (San Juan de La Cruz)


Várias são as dificuldades com as quais se depara quem trabalha com a psicanálise. Aliás, se não por estes, quais outros motivos nos fariam estar aqui hoje, escrevendo? Que outros, senão estes pontos, nos incitam ao convite feito por Freud, e retomado por Lacan, de reinventar a cada passo? Reinventar, claro, dentro dos limites de um campo onde se “constitui um discurso forjado por um dito e fundado sobre o impossível”: o campo freudiano.
Dentre estas muitas dificuldades que batem à nossa porta no dia-a-dia, escolhi trabalhar uma situação clínica bem específica: a reação terapêutica negativa.
Escutemos Freud, nos momentos de sua obra em que tratou de conceituar a reação terapêutica negativa. Em 1918, no texto que ficou conhecido como “o caso do homem dos lobos” aparece pela primeira vez a referência explicita a uma reação terapêutica negativa. “Durante o tratamento analítico ... (o paciente) tinha o hábito de produzir “reações negativas” transitórias; cada vez que alguma coisa tenha sido conclusivamente posta às claras ele tentava contradizer o efeito, por um certo espaço de tempo, agravando o sintoma que havia sido elucidado.”
Mas, no entanto, é no texto “O Eu e o Isso” e num outro, escrito um ano após, “O Problema Econômico do Masoquismo, que Freud vai tentar formular, definitivamente, o conceito de reação terapêutica negativa: “... cada solução parcial que deveria resultar, e em outras pessoas realmente resulta, numa melhora ou uma suspensão temporária dos sintomas, produz (nestes pacientes) uma exacerbação de sua doença momentaneamente; eles pioram durante o tratamento ao invés de melhorarem... a recuperação é vista como ameaçadora, como se ela fosse um perigo ... (esta reação) se revela como o mais poderoso de todos os obstáculos à recuperação. Mais poderoso do que os já conhecidos: inacessibilidade narcísica, atitude negativa em direção ao médico e o apego ao ganho secundário da doença”. 
Continuando sua conceituação, Freud associa a reação terapêutica negativa a fatores “morais”: “sentimentos de culpa que estariam encontrando sua satisfação na doença e que se recusa a abrir mão da punição de sofrimento”.
Mais alguns parágrafos e ele nos aponta a presença desta “reação” em um número de casos cínicos maior do que poderíamos supor, “talvez em todos os casos comparativamente severos de neuroses. De fato, continua Freud, pode ser precisamente este elemento na situação, a atitude do Ideal do Eu, que determina a severidade da doença neurótica”.
No texto, O Problema Econômico do Masoquismo, vemos delinear-se, definitivamente, a articulação desta “reação” com o super-eu, a partir da introdução do conceito de masoquismo primário: “porção da pulsão de morte que permanece dentro do organismo e que, com a ajuda da excitação sexual que o acompanha, ... torna-se libidinalmente ligado aí. É neste texto que Freud corrige o termo que ele mesmo havia criado: “sentimento de culpa inconsciente” para: “necessidade de punição”, e atribui ao “sofrimento produzido pelas neuroses, o fator que as faz valiosas às tendências masoquistas”. Sofrimento este que tem, entre outras causas, a angústia com a qual o eu reage “à percepção de que ele não deu conta das demandas feitas pelo seu ideal, o Super-eu”.
Pois bem, escolhido o conceito a ser trabalhado, resta-nos saber qual, dentre as muitas formas com que se apresenta este tipo de “resistência” ao trabalho analítico vamos tomar como motivo nesta nossa tentativa de formulação.  Escolhi uma forma que há muito vem me causando indagações. Refiro àquelas situações, tão freqüentes, nas quais nos deparamos com os “bons analisandos”. Aqueles que fazem “tudo o que podem” para que a análise dê os melhores resultados mas que, mesmo assim, seus sintomas pioram ou, no mínimo, não se modificam em nada: “nada adianta”. Aqueles que, tão logo o analista faça uma pontuação qualquer no relato de um sonho, vários outros são trazidos na sessão seguinte. Ou, num outro momento, é a escanção de um significante que é prontamente seguida de uma séria infinda de outros. Ou, ainda, um corte de sessão é logo acompanhado de um relato de situações semelhantes ao fato que precipitou o corte anterior, na expectativa de que um outro corte aconteça. Assim, a cada passo, onde algo deveria ocorrer no sentido de uma “melhora” ou, para dizer de um outro lugar, no sentido de uma mudança de posição do sujeito a partir do que seria um despertar, escutamo-los dizerem: “continuo na mesma”, ou então, “estou cada vez mais angustiado... É ... realmente ... nada adianta.”
 Em outra palavra podemos dizer que nossas intervenções parecem sempre não surpreender o sujeito naquele ponto onde elas poderiam produzir algum efeito: no vacilo, naquele instante “pontual e evanescente” em que ele, já quase sabendo, se apresenta no só-depois de sua construção como apenas um representante. Ao contrário, o que percebemos desenrolar-se nestas situações é a presença de um analisando sempre alerta, atento a tudo, e que está sempre tomando cada intervenção do analista com uma demanda. Demanda que, confundida com o desejo do Outro, opera como imperativo do super – eu: GOZE ! E para que isto possa acontecer, “nada” pode faltar. Para que isto possa acontecer é fundamental que o acesso do sujeito barrado – que o discurso sustentado por estes analisandos coloca no lugar de agente ao Outro seja estabelecido plenamente.
 $  ——->  S1
a        //       S2
A razão disto nos sabemos: agindo assim pode-se continuar sustentando uma certa crença: a relação sexual existe !! , mesmo que já esteja mais do que sabida a existência de uma certa falta que, enquanto furo no simbólico, está todo o tempo dizendo exatamente o contrário.

Dito isto, um caminho se apresenta para trabalharmos esta situação clínica que identifico como sendo uma reação terapêutica negativa: partindo do que podemos chamar, com Lacan, “o envelope formal do sintoma” tentaremos “desmascarar as primeiras relações objetais que se acham por traz” dele, como nos indica Freud.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A Segunda Entrada em análise: Consentir com o Inconsciente


Um sujeito procura análise porque o saber constituído de seu sintoma claudica. Este é o momento em que o sintoma se  apresenta como impossível a assumir, porque o rompimento de seu envelope formal coloca a céu aberto o que escapa à representação, à ação do pensamento (gedanken) e que permanece como um resto que Freud, no seu “Projeto ...” denomina de “a coisa” (das Ding). Em consequência, a angústia surge como sinal.
Buscar um analista torna-se, então, uma das saídas possíveis. Busca-se, no analista, um saber que possa restituir a eficácia do envelope rompido, na esperança que seja devolvido, ao sujeito, a sua certeza de ser na singularidade própria de seu sintoma. É Albert Camus, numa passagem que só os escritores criativos produzem, quem diz muito bem do que se trata: “Ele não era nada senão esse coração angustiado, ávido de viver, revoltado contra a ordem mortal do mundo que o tinha acompanhado durante quarenta anos, esse coração que batia sempre com a mesma força contra o muro que o separava de toda e qualquer vida, querendo ir mais longe, ir além e sobretudo saber*, saber antes de morrer, saber finalmente para ser*, uma só vez, um só segundo, mas para sempre.”  
É, portanto, pela via do saber que começa uma análise e neste começo está a transferência: o amor ao saber. 
 Responder deste lugar de saber, no entanto,  poderá produzir alguns efeitos, mas nunca uma análise. Por isso é importante distinguirmos, com Gerard Miller, “a entrada em análise de seu começo (...) se quisermos dar conta desses alongamentos que se estiram sob o nome de uma análise, sem jamais iniciarem”.
Para que uma análise possa acontecer é fundamental a intervenção de um analista. 
Novamente uma distinção se faz necessária. Quando Lacan, em sua conferência intitulada “A terceira” nos diz que “chama sintoma ao que vem do real”, ele explicita que este, o sintoma, só se acalma se lhe nutrem de sentido, de tal maneira que só há duas saídas: ou o sintoma prolifera ou se reinventa. Ora, proliferar o sintoma não é bem o objetivo de uma análise, nem muito menos é seu objetivo extinguí-lo.  O fundamental é que não nos esqueçamos de que na base do sintoma está uma impossibilidade que, sendo de estrutura, se define por: “não há relação sexual”. É a partir mesmo desta impossibilidade que o sentido insiste no ‘automaton’ da cadeia significante.
Não nutrir o sintoma para que este prolifere, ou como usualmente escutamos: não responder às demandas do analisante propiciando a ele a oportunidade de escutar por detrás dos ditos, é função do analista. Uma interpretação não é, pois, aberta a todos os sentidos mas ao real que constitui o núcleo do sintoma e aí se coloca como um x impedindo que as coisas andem. Ao visar este núcleo, este para-além da significação, a interpretação ou o dizer silencioso do analista - e aqui me refiro ao silêncio da falta de palavras [S(A/)] - é que vai promover uma volta a mais a partir mesmo do um-a-menos de sua resposta.
Esta volta a mais só será possível se o analista não ceder de seu desejo, permitindo que os efeitos do reinado do objeto ‘a’, enquanto semblante, levem o sujeito à experiência de desamparo (Hilflösigkeit), condição primordial ao surgimento do desejo. É o que se pode mostrar ao desenhar sobre a topologia do Grafo do Desejo, um Oito Interior.
Esta volta a mais pode-se dizê-la correlativa de um tempo para compreender na medida que, frente à frente com a demanda do Outro, e não mais submetido a um “querer” do analista, o analisante poderá dizer, como o fez outro dia uma cliente: “Saí daqui preocupada com a última sessão. Parece que eu estava sempre querendo falar coisas que lhe interessassem.” Este é um sinal claro da presença de uma transferência e, mais ainda, de um certo saber que aponta para um mais-além da demanda, dizendo que uma análise poderá acontecer. 
No entanto, muitas vezes este percurso é paralisado, é interrompido, ou pode até ir um pouco além deste ponto, quando o saber que o sujeito adquiriu durante este tempo de compreender apresenta-se como suficiente. Para manter-se não sabendo o analisante faz a opção pelo luto do analista para, assim, poder sustentar seus ideais e a crença num Outro. Esta é a esperança de poder evitar saber da “perda forçada” que a entrada na linguagem impõe ao sujeito.
Podemos denominar este momento de uma saída terapêutica aí, onde uma análise didática poderia ter começado.
Em sua “Nota aos Italianos” Lacan já dizia desta possibilidade ao afirmar que a humanidade não deseja saber e que “não há analista, senão quando um desejo lhe vem”..
Quando, ao contrário, um passo a mais pode ser dado, o que temos é uma “segunda entrada em análise”. Este termo, introduzido por Gerard Miller é relembrado por J. A. Miller em seu artigo sobre “As saídas de Análise”: “poderíamos nos perguntar se não há sempre, em certo sentido, uma segunda entrada em análise. O sujeito entra em análise antes de efetivamente saber o que é uma análise; por isso é necessário que o analista intervenha para confirmar sua opção”.
A confirmação desta opção, acredito, não se faz pela via do saber, mas sim por um consentimento com a experiência do inconsciente. Quando me refiro a consentimento, tenho em mente o que Lacan nos diz em seu Seminário VII - A Ética da Psicanálise: quando, uma vez cumprido o ato do assassinato do pai da horda primitiva, “se instaura um consentimento inaugural que é um tempo essencial na instituição da lei, quanto à qual a arte de Freud será vinculá-la ao assassinato do pai, de identifica-la à ambivalência que então funda as relações do filho com o pai, isto é, ao retorno do amor após efetuado o ato.”
Destaco o “retorno do amor” para dizer que aqui também, nesta passagem, o amor de transferência se enlaça neste ponto onde o sujeito vê, para além do narcisismo, o Outro como a própria presença da morte, espreitando. É o momento em que, já não mais  podendo ter a garantia da sobrevivência deste Outro de suas virtudes, o sujeito encontra no amor o signo que vai sustentar o giro de quarto de volta do discurso. Uma segunda entrada em análise poderá acontecer.

Esta é uma passagem que podemos definir como sendo de um saber sobre o inconsciente para, consentir com a experiência do inconsciente

terça-feira, 28 de abril de 2015

Psicanálise Aplicada, Psicanálise Pura e o Passe (IV)

Retomando a questão da identificação que é uma das balizas que podemos estabelecer entre a psicanálise e a psicoterapia, vamos observar que ela ocorre a partir da escolha que o sujeito faz de um certo traço no Outro. Não é um traço qualquer. É um traço tal que o sujeito acredita poder dizer do desejo deste Outro. É um traço que vai dizer que, deste ponto, o sujeito vai ser amado pelo Outro. Este traço idealizado vai constituir o núcleo de sua fantasia, a borda do enquadre da realidade para este sujeito, porque é a partir deste traço que vai se constituir sua fantasia fundamental e que vai dizer como o sujeito interpretou o desejo do Outro. Esse traço é o traço unário (Einzeger Zug). Em outras palavras, este traço é o S1 ao qual o sujeito se encontra assujeitado. É o mestre que dita o caminho que o sujeito deve seguir para ser amado. Quando Lacan diz que a interpretação deve visar, para além da significação, a qual significante o sujeito se encontra assujeitado, é a isso que ele alude. Ora, tudo isto poderá ser traduzido pela fórmula lacaniana: "o desejo é sua interpretação". 
A identificação especular imediata é apenas a sustentação da identificação que está em jogo nesta entrada do S1, já que é esta identificação primeira que sustenta a perspectiva do sujeito no campo do Outro. Em outras palavras: eu desejo o que o Outro deseja que eu deseje. Esta é a perspectiva do sujeito no campo do Outro, onde a identificação especular poderá ser vista como algo que satisfaz. Esta identificação estabiliza a imagem e sustenta o sujeito no mundo de alguma maneira. Na verdade, sempre vão existir pontos de identificação, de ancoragem, afinal Lacan coloca no fim do seu Grafo do Desejo o matema I(A). Estes pontos de ancoragem deverão se sustentar na articulação lógica que vem se instalar ali onde a fantasia fundamental ditava as regras. Isto diz de um novo enlaçamento que se estrutura a partir da responsabilidade e não mais na hipotética garantia do Outro. 
No percurso pelo grafo sempre se esbarra em pontos de ancoragens identificadoras. Na verdade cada ponto de estofo nada mais é que um ponto de identificação significante. 
 Retornando ao percurso de uma análise, vamos dizer que o mal-estar a partir da claudicação do sintoma produz uma demanda ao Outro para que seja reconstituído o sintoma. Uma vez feito o percurso e experimentado o vazio no ponto onde a falta no e do Outro se apresenta, acontece a possibilidade de mudar o endereçamento da demanda que não será mais de reconstituição do sintoma, mas de relançamento do desejo de saber. Não mais de apaziguamento no sintoma, mas de uma inquietação produtiva. 
De volta ao ponto do Ideal do Eu, - o ponto no campo do Outro que o sujeito elege como sendo aquele onde ele pode ser amado e pode ser visto pelo Outro - esse ponto que  permitirá ao sujeito se suportar numa situação dual. Caso não houvesse esse ponto de ancoragem, de identificação no campo do Outro, esta dualidade especular seria insuportável. É o que acontece na psicose, quando a Bejahung fundamental não acontece e, como consequência, falta ao sujeito este ponto de ancoragem produzindo uma tendência a fazer desaparecer o intervalo entre um e outro, sempre que a dualidade especular ocorrer. Na psicose a saída é o delírio, a erotomania; na neurose é o amor. A diferença entre um e outro fica por conta da certeza que o psicótico tem. Para o neurótico, mesmo que seu amor seja tão intenso que o faça sentir-se colado ao outro, vai existir uma certa distância colocada pela dúvida: será que ele me ama mesmo? Na psicose a certeza é plena: ele me ama, ou ele me odeia.
Na relação especular, o amor sustenta o engano, mas é nesta relação que se instala o significante necessário à introdução de uma perspectiva centrada sobre o ponto do ideal.  Este ponto, este traço, para que ele possa se tornar um ponto de visada do sujeito, tem que ser um traço que se refere ao objeto 'a'. Ele é o traço que marca a borda de onde o objeto foi subtraído. O “I” é o significante que desenha o contorno nesta borda. É um significante qualquer, mas não pode ser qualquer um. É aquele eleito por estar mais próximo do objeto perdido, por isso Lacan matemiza assim este ideal: I(a). Sustentado por este traço instala-se o sujeito suposto saber a partir do significante da transferência. Todo o trabalho de análise, todo o trabalho da interpretação, vai à direção de promover a separação deste I do a, para reconstituir, no final, o I(A) na transferência de trabalho. 
Nesta coalescência do traço com o objeto, um dando suporte ao outro, um fazendo o outro existir na sua ausência é que vai se estabelecer o engano da transferência. Este engano pode-se dizer, muito simplesmente, é o seguinte: se você tem o traço da borda do objeto, você tem o objeto. Neste ponto acontece algo de paradoxal, pois, ao perceber que as coisas não são bem assim, ao se deparar com o vazio deste objeto vai acontecer, como diz Lacan, a descoberta do analista, pois dirigindo-se ao sujeito suposto saber para se sustentar na alienação do seu sintoma, o analisante vai encontrar um analista e se deparar com este vazio, com esta inconsistência do Outro.
Sabemos que toda intervenção do analista aponta para o final de análise. Em outras palavras, não há final de análise sem interpretação. Cumpre ressaltar que há intervenções do analista que não são interpretações. É preciso que haja pelo menos uma interpretação que faça descolar o I do a para que se possa alcançar o final de análise.  
Um analista é aquele que escuta por detrás dos ditos do analisante. É preciso que ele saiba que existe um para-além da demanda endereçada ao sujeito suposto saber, que é uma demanda de amor. É preciso que ele saiba que, se a demanda de amor aponta para um mais-além, o desejo aponta para um mais-aquém. Por isso Lacan forjou esta frase tão contundente quando ele tratou do amor de transferência: "Eu te amo, mas porque, inexplicavelmente eu amo em ti qualquer coisa mais do que tu, o objeto a, eu te mutilo". E Lacan continua dizendo que apesar desta fala apontar para o oral, ela nada tem a ver com a nutrição pois seu acento recai totalmente neste efeito de mutilação. É o que vai nos apontar a possível continuação da fala do analisante: "Eu me dou a ti, mas esse dom de minha pessoa - mistério!, se transforma, inexplicavelmente em presente de merda". 
Na verdade, se pensamos no agalma, este que sustenta a transferência, este que está dentro do Sileno e que ninguém viu, ele é resto. Quando após esta passagem em que o psicanalista se transforma em resto, pode-se dizer que será possível dar-nos conta da vertigem que acontece quando estamos diante de uma página em branco. Esta distância entre o ideal e o objeto criado, estabelecido pelo princípio de realidade é que promove esta desidealização aterrorizadora.
A liquidação da transferência é um assunto de destituição do sujeito suposto saber que se transforma num resto, exatamente este resto que nunca foi absorvido pelo saber suposto e que ao final, será elevado à condição de causa de desejo. É quando, finalmente, o analista estará reduzido ao representante da representação do objeto "a".

sábado, 18 de abril de 2015

Psicanálise Aplicada, Psicanálise Pura e o Passe (III)

Um pouco de topologia pode nos auxiliar a definir como esse caminho se desenha e ajudar a diferenciar uma psicoterapia de uma psicanálise.
Não fazendo silêncio, o analista impede que o objeto "a" possa reinar como semblante. O que vai acontecer, como consequência, é o favorecimento a uma identificação a partir mesmo da ação da sugestão através do convencimento, como vimos nos textos anteriores. Este movimento dirige o vetor para o andar inferior do Grafo estabelecendo duas posições distintas para os dois sujeitos em questão: o terapeuta e o paciente. Eles permanecerão, indefinidamente, cada qual do seu lado sem que as intervenções possam produzir efeito. Teremos então uma topologia da banda circular, com suas duas bordas e suas duas faces, para mostrar que estão presentes dois sujeitos e, portanto dois sentidos sem que nenhum, nunca, possa intervir sobre o outro. 
Quando, no entanto, o desejo do analista opera fazendo reinar o objeto "a" ali onde uma resposta é esperada, o vetor é lançado na direção do andar superior do Grafo e, em função mesmo da não resposta, sofre uma meia volta e retorna, ao sujeito, como sua própria mensagem invertida. A topologia que se desenha não é mais a da banda circular, mas sim a da Banda de Moebius, dizendo que em uma análise temos apenas um sujeito em questão, pois a estrutura desta superfície demonstra a existência de um só lado e de um só corte.
Esta articulação coloca uma questão e abre a possibilidade de discutir um outro aspecto desta diferenciação entre psicanálise e psicoterapia: trata-se do que encontramos no momento em que Lacan trabalha, especificamente no Seminário XI, o conceito de liquidação da transferência. Ali ele estabelece um dialogo com os conceitos estabelecidos pela IPA, no que diz respeito ao final de análise. O corpo teórico que sustenta o trabalho na IPA vai na direção de acreditar que no final da análise a transferência poderia ser liquidada. Para tanto, seria fundamental que o analista levasse o sujeito a não deixar resto algum, já que a identificação, como é de nosso conhecimento, se estrutura em torno do eixo imaginário e a partir da idealização. Desta forma, um "Eu" (moi) surgiria ali onde um sujeito, enquanto resposta do real, deveria surgir. Teríamos, então, um reforço da alienação e não a separação buscada.
Retomando o Grafo, lembro-lhes que Lacan, ao construí-lo, descreve este pequeno (d), como índice do estado de desamparo (detresse - hilflosigkeit) no qual se encontra a criança em seu primeiro encontro com o Outro (descrito por Freud como Nebemmensch). O passo seguinte é a passagem pelas demandas do Outro ($ <> D) onde vão se estruturar as pulsões em seu movimento de ir e vir  em torno do vazio da falta no Outro S(A/). Uma relação muito especial vai se estabelecer a partir da interpretação que se faz desta falta, construindo-se uma cena ($<>a) que precisa ser retificada para que um saber aí fazer com seu sintoma possa advir em s(A). Isso só é possível porque uma nova referência ao desejo (d) pode ser mantida. É por isso que afirmamos que só há um sujeito em questão na análise, o analisante, e que é somente a partir de um ponto fora da linha - que correlaciono, nesta situação, à função do desejo do analista - será possível sustentar o corte de uma linha sem pontos.  
Retomo o que acabo de dizer por um outro caminho. Partindo do conceito de Sujeito Suposto Saber, Lacan vai nos dizer que esse sujeito, que supostamente sabe sobre o analisante, na verdade nada sabe. O que se liquida na transferência, portanto, é esta suposição de saber, já que durante o processo, a cada intervenção do analista ela vai sendo desfeita. Em outras palavras, como nos diz Lacan, este sujeito suposto saber deve ser considerado liquidado exatamente no momento da análise em que se começa, a saber, alguma coisa. Por isso ele pode, neste momento, ser chamado de sujeito suposto vaporizado. Ainda uma outra forma de se dizer isto, com Lacan, é que a sustentação da transferência se dá pelo fato do analista se colocar como um "X" para o analisante. Quando o analisante vai, passo a passo, esburacando este lugar, o analista vai perdendo esta aura de suposição de saber. A conseqüência disto é que o analista não vai mais ter o poder de relançar o sujeito para mais uma volta no seu percurso. Espera-se que este momento seja aquele que venha encerrar um tempo de compreender e o sujeito em questão possa fazer uma passagem a partir mesmo do resto em que o sujeito suposto saber se transforma. 
Para além de suas vestimentas imaginárias, semblantes que o analista pode encarnar para um sujeito, ver-se-á cair do lugar do Outro do saber para o lugar do "a", objeto libidinal. 
 Esta passagem, como a conhecemos na teoria de Lacan, é a passagem de analisante a analista, quando este sujeito deseja, ele mesmo prestar-se a sustentar este lugar de causa.
Este termo "liquidação da transferência", se ele tem um sentido, é o da liquidação permanente deste engano através do qual a transferência tende a exercer o fechamento do inconsciente. Ou seja, no duplo movimento da transferência onde o sujeito se engancha supondo um saber ao Outro - estabelecendo o amor de transferência - vamos ver acontecer o engodo do tamponamento da falta do Outro. Este mecanismo é o da relação narcísica onde o sujeito tenta se colocar no lugar em que ele acredita poder ser amado pelo Outro. É na relação de miragem, proposta pelo eixo a-a’, que o sujeito irá se referenciar para convencer-se amável. 
Podemos tomar o esquema L, na tentativa de explicitar este mecanismo:
Vamos instalar o sujeito que chega no lugar de S, dizendo que ele aí está na mais pura ignorância do que lhe causa mal. O que este sujeito vem buscar no Outro a quem ele supõe um saber é um traço qualquer que possa dizer-lhe o que na verdade ele é. Este traço poderá ser tomado aqui na sua referência ao objeto 'a', na medida que é este traço que faz a borda deste objeto que, na verdade é um vazio no espelho. A partir daí, vai se estabelecer uma relação de transferência e o sujeito vai se identificar a este traço na esperança de que, assim colocado, seja amado pelo Outro que vai lhe fornecer a resposta para a questão de sua existência.
Alguns esclarecimentos são necessários: Na verdade a questão da existência do sujeito se coloca a partir de um Outro lugar, e não a partir de um outro sujeito como se tenta acreditar na relação transferencial, que se sustenta no eixo a - a', eixo narcísico, lugar do engodo amoroso.
Cada vez que o analista intervém, ele o faz como se fosse a boca do Outro (A) visando o sujeito do inconsciente ($), naquilo que ele tem de mais íntimo, kern unseres wessen, o coração do nosso ser, ou seja, o que não tem palavra S(A/), ou ainda a causa de desejo.
O que se espera liquidar, então, é esta suposição de saber que se estabelece no eixo da relação narcísica e que tende a exercer o fechamento do inconsciente.
Lacan chamou este eixo narcísico, imaginário, de muro da linguagem. Isto pode parecer estranho, colocar a linguagem no eixo imaginário, uma vez que a linguagem seria simbólica. No entanto, o que temos aqui é um muro da linguagem que se constitui pelo véu do sentido que impregna a fala do sujeito quando ele se dirige ao outro, exatamente para escamotear a sua relação ao Outro. Desta forma estará impedido o acesso do Simbólico ao Real, estabelecido, aqui, pelo eixo A - S. Ora, cada vez que o analista intervém, ele o faz do lugar do Outro, como nos diz Lacan em "A direção do tratamento...", promovendo uma brecha neste muro da linguagem, esburacando esta cortina de sentido que cega o sujeito. Este momento se traduz, na clínica, por aquela surpresa que têm, analista e analisante, quando o sujeito que está falando no divã, imerso e gozando de um sentido preestabelecido, percebe-se pego em um vazio que produz uma mudança. Este momento é fugaz, mas fundamental. É o momento quando podemos testemunhar o aparecimento do sujeito como resposta do real no estabelecimento de um novo sentido que se apresenta promovendo o fechamento do inconsciente. Podemos dizer que é isto que produz um ato: relança o sujeito em uma nova cadeia significante, uma nova série produzindo no lugar da verdade um saber que possa sustentar a causa de desejo”.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Psicanálise Aplicada, Psicanálise Pura e o Passe (II)

É somente deste lugar, a partir da instalação do amor de transferência, que uma interpretação pode operar. A interpretação que deverá apontar para o vazio, assim como o dedo de São João no conhecido quadro de Leonardo Da Vinci. Em outras palavras, a interpretação, como Freud a apresenta, é onde as pontas que se tem, os clarões de verdade que se tem,   podem fazer uma construção. Isso, do lado do analista. Freud nos diz que essa construção deve ser comunicada ao paciente quando convém. Nisso ele se distingue de Lacan que nos apresentou o ato. Do lado do analisante, o mesmo termo de construção se impõe. Fala-se de construção da fantasia fundamental.
O que se objetiva, no final das contas, é uma primeira desarticulação do binário S1-S2 que, enquanto enunciado, enquanto sentido, sustenta sob a barra a relação de um sujeito com um objeto que ele escolheu a partir da interpretação que ele fez do desejo do Outro ($<>a). Objeto esse que ele acredita poder consistir o Outro. A interpretação, portanto, abre um buraco no sentido até então estabelecido. Este vazio cria um estado de desamparo (hilflösigkeit) não deixando outra saída ao sujeito senão o bem-dizer, pois deslocando-se do eixo do enunciado para o da enunciação, ele se depara com a verdade que circula entre o gozo e a castração e que se elabora como uma relação do sujeito à pulsão. É neste ponto, e somente aí, que o sujeito poderá saber da causa de seu desejo, pois pela via da fantasia, esta causa está dissimulada pelos benefícios secundários.

Este é o trajeto que vai preparar o momento em que um ato analítico poderá acontecer e possibilitar a que experiência da fantasia  fundamental possa tornar-se pulsão.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Psicanálise Aplicada, Psicanálise Pura e o Passe (I)

O que lhes trago hoje é uma re-elaboração de conceitos que operam na clínica: Psicanálise pura, psicanálise aplicada e psicoterapia.
É a claudicação do saber, da crença no sintoma que abre um espaço para que um endereçamento possa ser feito a um Outro lugar, na esperança de que o estranho possa ser decifrado. Sim, decifrado, por que o sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, plena de sentido, traz em si o ciframento do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido, como um estranho, como um "x" no caminho do sujeito. Miller nos lembra a propósito do sintoma e a crença que sustenta este sintoma: “Lacan reenvia o sintoma analítico a um fato de crença. Como ele diz, acredita-se. Acredita-se que isso pode falar e que isso pode ser decifrado. Acredita-se no sentido.
Esse "acredita-se" acentua a relatividade transferencial do sintoma. "O sintoma, acredita-se nele", que tanto surpreendeu na sua formulação, é a conseqüência do sujeito suposto saber.” Este é o momento de claudicação, portanto, é quando se instala, no ponto de inconsistência do Outro, um Sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria a sua verdade. Aqui também acrescentaremos uma passagem importante: “Quando se diz "suposto", ninguém supõe. Lacan tinha insistido nisso. O sujeito é suposto, mas ninguém supõe, ele é suposto ao significante.” Para que isto possa acontecer, uma escolha, forçada sem dúvida,  deverá ser feita para que um significante qualquer venha se alojar aí, onde o saber falhou. Este significante será, ele mesmo, integrante do sintoma que se constituirá neste momento. É a transferência que, agora, pode sustentar estrategicamente a direção do tratamento, enquanto signo de um amor que possibilitará um giro de quarto de volta no discurso. Amor que se sustenta, exatamente na crença transferencial que vem na trilha da instalação do que se chama sintoma analítico. “O amor visa o sujeito”. Esta é a fórmula lacaniana que se contrapõe à fórmula do amor narcísico que visa apenas a imagem. 
No entanto, para que as coisas possam continuar caminhando em função da política do tratamento, é fundamental que este lugar ao qual se dirige o analisante em função do amor de transferência seja "cadaverizado", para usar uma expressão que Lacan utiliza em "A coisa freudiana", e que seja anulada a própria resistência do analista, o que equivale dizer que ele não vai simplesmente insistir na significação que o paciente tenta fazer valer nas suas proposições. Este ponto abre a possibilidade de inserir uma passagem que, acredito, é o eixo da tese defendida por Miller: “É preciso primeiramente perceber que é justamente porque se define o real como excluído do sentido que se pode colocar sentido sobre o real. Eu não digo ”no real", eu digo "sobre". O "nó" supõe um campo, e não existe o “dentro” da rodela de barbante.” E ele continua na construção de um importante algoritmo que indica a disjunção entre o Simbólico e o Real que se esclarece a partir da introdução da teoria dos nós que nos indica que os dois “podem permanecer disjuntos entanto separados”: “Pode-se, sobre o real, colocar o saber, mas na perspectiva do real como excluído do sentido, aí colocar saber não é jamais senão uma metáfora. Escrevemos o sentido sobre o real:
Sentido
Real”
Se tomarmos o Grafo do Desejo e colocarmos a claudicação do sintoma em s(A) teremos, no vetor que daí parte, um endereçamento ao (A), enquanto lugar. Se o analista se deixa levar pelo sentido que lhe é proposto, exaltando o Sq, o traço que lhe foi atribuído, ele estará favorecendo uma identificação e esvaziando sua palavra num discurso do convencimento que só vai se prestar a abrir caminho para a circulação no andar inferior do Grafo: s(A) ----- (A) ----- i(a) --- (m). No entanto, para que uma análise possa acontecer é fundamental que, no amor de transferência que se instala, pelo menos um dos dois saiba que não tem o que lhe está sendo atribuído. Isto é o que se espera de um analista: que coloque em operação o desejo do analista que foi constituído em análise.