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terça-feira, 23 de junho de 2015

De Onde Vêm os Analistas? Do umbigo do sonho (II)

O Passe
Pois bem! Quando falamos de Passe o que estamos objetivando é poder isolar aquilo que é do discurso analítico e que poderia, segundo Lacan, tornar-se mais de acordo com o que deveria ser um verdadeiro recrutamento para a Escola. Ao lado disso, ele deve ser um dispositivo que possa investigar o que permite a alguém pensar que pode ocupar o lugar do analista. Para isso convida-se alguém, que está perto de se autorizar, se é que já não o fez, a comunicar o que o fez decidir-se, o que o fez autorizar-se e, assim, engajar-se num discurso do qual não é nada fácil tornar-se o suporte.
Em sua "Proposição sobre o Psicanalista da Escola", Lacan nos lembra que "existe um Real em jogo na própria formação do psicanalista" e que este real provoca seu próprio desconhecimento, e até mesmo produz sua negação sistemática. Por isso, com o procedimento do Passe, Lacan convida aqueles que possam "testemunhar dos problemas cruciais nos pontos vivos em que se encontram para a análise, especialmente na medida em que eles mesmos estão na tarefa ou pelo menos na via de resolvê-los", com o intuito de iluminar a sombra espessa que recobre essa passagem.
A experiência do Passe tem se mostrado, ao longo de toda a sua existência, uma experiência absolutamente incomum. O que aí se testemunha é a produção de um saber novo que possa dar conta deste ponto de opacidade que sempre produz um sujeito como resposta, quanto se trata de um ser falante. Um clarão, um relâmpago sobre este ponto de opacidade muito bem representado pelo umbigo do sonho.
Isso se esclarece um pouco mais se relembrarmos aqui a frase de Heráclito que Lacan utiliza em seu texto "Sobre o passe": “ta panta oiakizei kerauno”, cuja tradução possível seria: “só o relâmpago faz isto: por um instante num clarão, o universo”. Na língua grega, ta panta, que na proposta acima está traduzido por universo, deveria se traduzir por alguma coisa como “os todos”, mas os todos enquanto diverso, assim como “um monte de todos”.
O que nos interessa no Passe é saber como um sujeito pode se desvencilhar das amarras que o impediam de saber do real que está em jogo na formação do analista e como ele pode se orientar na linguagem. Ou seja, como ele se relaciona ao inconsciente, mais precisamente a esse ponto, essa marca que Freud concebeu como o umbigo do sonho, esse amontoado que muito bem pode ser correlacionado ao "ta panta”, esse “os todos”, mas os todos enquanto diverso, assim como “um monte de todos” e que, no inconsciente é designado como um buraco, um furo, algo não-reconhecido, Unerkannte.

Uma nova aliança
Em seu primeiro encontro com o Outro, consequência da incidência de um significante, o sujeito tem de se haver com um real que não se subjetiva. Ponto de opacidade, nos diz Lacan, ponto de silêncio que indica o lugar onde poderá se edificar a determinação significante capaz de escrever o fenômeno sintomático, na esperança de se dar conta da impossibilidade que se instala na contingência deste primeiro encontro. O sintoma é o que vai representar, manifestar, significar a verdade deste encontro. Verdade que nos diz do real do gozo que é produzido pela inclusão do significante traumático no sujeito.
Desta forma, o sintoma poderá ser tomado em duas vertentes: por um lado temos o sintoma como metáfora, na medida em que faz valer um significante do traumatismo, um significante que vai funcionar como um índex da memória do que foi encontrado como traumático. O sintoma como metáfora é um sintoma significante que está conectado ao gozo, sem sê-lo. Por outro lado, se seguirmos o desenvolvimento da teorização de Lacan, vamos tratar o sintoma como função da letra, como signo do Unerkannt. É fundamental distinguirmos, aqui, a letra do significante, pois esta se relaciona diretamente ao gozo, enquanto o significante está referido ao sentido gozado (jouis-sens). Enquanto letra pode-se definir o sintoma como um "memorial de gozo" e, enquanto significante, como "cativador de gozo".
Seja qual for a vertente, temos no sintoma o sinal de que alguma coisa não anda, pois há um real que se coloca como uma pedra no caminho do sujeito: o real da privação que se explicita no fato de que homens e mulheres, desde sempre, estão privados do elemento que poderia propiciar a escritura da relação sexual.
Esta impossibilidade, marcada pelo Unerkannt, que não cessa de se escrever, promove o sintoma como única possibilidade de se fazer laço, ao mesmo tempo que se permite uma leitura, uma vez que ele participa de uma escritura, função da letra. Por isso J-A. Miller, em seu curso "O Outro que não existe..." , nos diz que "o sintoma é uma mentira sobre o real [...] especialmente uma mentira sobre o real da inexistência da relação sexual [...] É bem por isso que Lacan pode dizer que é o sintoma o que nós colocamos no lugar deste Outro que não existe. E, especialmente, é o sintoma que nós colocamos no lugar do outro sexo [...] talvez o único Outro que existe, seja o sintoma."

Há, portanto, um vazio sobre o qual o sintoma se apóia e vai construir seu envelope formal. Vazio que se instala no ponto mesmo em que a presença de um gozo singular, escandaloso, foi recusado e recalcado pelo sujeito. Isto que é recalcado, Freud definiu como sendo o orifício da pulsão que se apresenta com seu caráter intratável, rebelde e refratário ao laço social. No entanto, este mecanismo falha e o sintoma vai surgir como uma forma de inscrever o que insiste como marcas da singularidade do sujeito e de suas fixações.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

De onde vêm os analistas? Do umbigo do sonho! (I)

O umbigo do sonho
Diante da questão apresentada como tema: "de onde vêm os analistas?", ocorre-me uma resposta simples: do umbigo do sonho!
Esta solução surgiu enquanto trabalhava um texto de Lacan, mais exatamente uma "Resposta" que ele apresentou à questão de Marcel Ritter, por ocasião de sua intervenção em Strasbourg no dia 26 janeiro de 1975. A questão visava algumas palavras que, em alemão, começam por Un: Unbewuste, Unheimlich e Unerkannte. Esta última, que encontramos no texto sobre "A interpretação dos Sonhos", de Freud, é, de acordo com Marcel Ritter, muito mal traduzida por desconhecido, sendo sua melhor tradução não-reconhecido. Esta palavra, Unerkannte, vamos encontra-la articulada à questão do "umbigo do sonho": "O umbigo do sonho é esse ponto onde o sonho é insondável, quer dizer, ponto onde se interrompe o sentido ou toda a possibilidade de sentido". Freud, nesta passagem, afirma que esse ponto do sonho é o mais próximo do Unerkannte, do não-reconhecido. É como se o sujeito estivesse assentado sobre algo, assim como o cavaleiro está sobre o cavalo. É um ponto constituído por uma massa de pensamentos que nunca chegamos a desmanchar, mas que mantém um único ponto de ligação com o restante do conteúdo do sonho: um ponto de falha na malha que o constitui.
Sem dúvidas, poderemos ver, neste ponto, a presença de um ponto de real, não simbolizado e que se coloca como opaco, demonstrando a existência de um ponto fora do sentido.
É, exatamente neste ponto de real, neste ponto onde o sentido desaparece, ou melhor, onde o sujeito não pode ser reconhecido, que vamos encontrar um ponto de passagem, um novo espaço onde um analisante se torna analista. É neste ponto de falha na malha constitutiva do sonho, correlato ao ponto em torno do qual se constitui a fantasia fundamental do sujeito, que vamos ver nascer um novo saber que recoloca esse sujeito diante do real que o constitui como resposta.
Trabalhando sobre "A Transmissão", Lacan nos apresenta a seguinte resposta à questão:
"o que é que faz com que alguém, depois de se ter sido analisado, tornar-se analista?"
“[...] é por isso que fiz minha Proposição, aquela que instaura o que se chama ‘o passe’, no qual eu confio. Isto é algo que chamaria transmissão, se houvesse transmissão da psicanálise”.
Tal como hoje penso, a psicanálise é intransmissível.
É muito tedioso. É muito tedioso que cada psicanalista seja forçado - pois é preciso que ele, aí, seja forçado - a reinventar a psicanálise.
É por isso que é preciso que cada analista reinvente, após o que ele conseguiu retirar do fato de ter sido por um tempo psicanalisante, que cada analista reinvente a maneira como a psicanálise pode durar".
Ora, é certamente, esse movimento de reinvenção que pode estabelecer uma subversão da relação do sujeito ao Outro promovendo uma mudança na topologia que o sustentava até então: "depois da distinção do sujeito em relação ao objeto a, a experiência da fantasia fundamental se torna a pulsão" .
Esta falha, este ponto onde a condensação não se abre ao sentido, nos possibilita pensar que existe um real pulsional que se reduz à função do furo, do buraco, pelo simples fato de que a pulsão está ligada aos orifícios corporais. Freud sempre fez referência a isso e, certamente, esta constância é, por si só, um elemento de real.
Podemos, com Lacan, distinguir o que se passa ao nível do orifício corporal e o que vai funcionar no inconsciente. Nesta linha, vamos ver aparecer ali, onde Freud emprega o termo Unerkannt, como umbigo do sonho, um outro termo que poderá ser esclarecedor: Urverdrängt - o recalque originário. Ora, sabemos que é o destino do recalque original, o que não pode ser dito, que está na base, na raiz da linguagem. Freud nos lembra, em seu texto: "Projeto para uma psicologia científica", que isto que permanece como Coisa (das Ding), não se traduzindo em palavras, resistindo ao sentido, é o principal responsável pela ação do pensamento. Esta mesma articulação ele vai utilizar quando define a pulsão como "uma força constante [que] do ponto de vista biológico nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo”.
Seguindo Lacan, verificamos que esse Urverdrängt, esse recalque originário constitui-se no furo, no buraco, nisso que, de alguma forma está no limite da análise e que tem alguma coisa a ver com o real. Por isso Freud ressalta a função do umbigo do sonho. Este ponto no qual o sujeito se encontra suspenso ao Outro materno por um fio que se liga, não à mãe, mas ao que vai se perder no nascimento (numa analogia à placenta, que é esse objeto que se instala entre a criança e a mãe).
Ora, é pelo simples fato de ter nascido, como nos diz Lacan, deste ventre, e não de outro qualquer, tendo sido ou não desejado, que o ser falante (parlêtre - que é também outra definição de inconsciente), "se encontra excluído de sua própria origem, e a audácia de Freud nesta ocasião é simplesmente de dizer que temos essa marca no próprio sonho". As formações do sonho conservam, em algum lugar, a marca de um ponto onde não há nada a fazer. É deste ponto que sai o fio que nos indica o caminho na medida em que ele permanece conservando-se no nível mesmo da simbolização. Esse ponto permanece como uma matriz simbólica ou como uma cicatriz no corpo que é capaz de se enlaçar à função e ao campo da fala e da linguagem.

É nesse campo da fala e da linguagem que se pode reconhecer, digamos, o que permanece impossível a reconhecer - Unerkannte como Urverdrängt representando o que vem a ser o sentido do Un em alemão: uma impossibilidade, que não se pode nem escrever nem dizer. O Unbewusste, o que permanece impossível de se fazer consciente. Em outras palavras, o que não pára de não se escrever.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A interpretação em Lacan (II)

Em 1964 Lacan vai dar  um passo a mais na sua teorização da interpretação ao dizer que “a interpretação é uma significação que não importa qual. Ela vem aqui no lugar do s (S/s) e reverte a relação que faz com que o significante  tenha por efeito, na linguagem, o significado. Ela tem por efeito fazer surgir um significante irredutível. (...) Por isso a interpretação não está aberta a todos os sentidos. Ela é uma interpretação significativa ...  e o que é essencial é que o sujeito veja, para além desta significação, a qual significante - sem sentido, irredutível, traumático - ele está, como sujeito, assujeitado”.
Em 1969, no seminário sobre o Avesso da psicanálise, Lacan vai dizer que a interpretação, sendo “um saber enquanto verdade” se situa entre enigma e citação, onde o enigma é a presença de uma enunciação que não é de ninguém e que não vai corresponder a nenhum enunciado de saber. Seria uma verdade sem saber. Quanto à citação, ela é mais um enunciado de saber que se sustenta num saber afirmado, com nome de autor, etc. Desta forma ela vai introduzir a dimensão de uma enunciação latente, que ela mesma faz vir à luz.
Finalmente, em L´Étourdit, a interpretação vai ser ins­crita pelo viés do equívoco, ao nível da homofonia onde a ambiguidade homofônica torna possível o que a ortografia impossibilita. É nesta passagem que Lacan vai mencionar que a interpretação joga com o “cristal” lingüístico, com as dispersões das significações. 
Do lado da gramática, também se referindo ao L’Etourdit,   lembro-lhes a intervenção mínima: “eu não te faço dizer”, que deixa a própria ambiguidade agir: aquele que ouve não saberá se o que se diz é um “eu disse”, ou um “eu não te soprei”, já que os dois foram ditos.
Finalmente, no plano da lógica vamos ver agir aquilo sem o qual a interpretação será imbecil. Um exemplo pode ser dado com a formalização freudiana de que o inconsciente é insensível à contradição.

No dia seguinte à minha interpretação, Tereza retorna,  deita-se no divã e diz: “não entendi nada do que aconteceu ontem. Não vá me dizer que aquela estória de ‘matar a ré’ tem a ver com a morte de meu pai...”.
Algo operou pois, no “só depois”, foi possível dar conta de que houve uma mudança subjetiva. Todas as intervenções anteriores, mesmo que tenham feito alusões, direta ou indiretamente, a esta passagem de sua vida, nunca haviam sido escutadas.  Foi necessário um corte para fazer surgir o sujeito das significações pré-estabelecidas na demanda do Outro.
Pode-se formalizar o que se passou naquele momento, utilizando o grafo do desejo e a topologia das bandas.
Em primeiro lugar, vamos esclarecer que não há interpretação sem transferência. A ordenação que Lacan apresenta na “Direção do Tratamento...” deixa isto muito claro: “retificação subjetiva ... transferência... interpretação...”
A claudicação do saber, da certeza do sintoma, quando Tereza se viu ameaçada pela falta financeira, abriu um espaço para que um endereçamento pudesse ser feito a um Outro lugar, na esperança de que o estranho pudesse ser decifrado. Sim, decifrado, por que o sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, plena de sentido, traz em si o ciframento do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido, como um estranho, como um x no caminho do sujeito. Este é o momento em que se instala, no ponto de inconsistência do Outro, um Sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria a sua verdade. Para que isto pudesse acontecer, uma escolha, forçada sem dúvida,  foi feita e um significante qualquer se alojou aí, onde o saber falhou, para ser, ele mesmo, integrante do sintoma. É a transferência que, agora, pode sustentar, estrategicamente, a direção do tratamento, enquanto signo de um amor que possibilitará um giro de quarto de volta no discurso. 
No entanto, para que as coisas pudessem continuar caminhando em função da política do tratamento, foi fundamental que este lugar, primeiramente imaginário, fosse “cadaverizado”, para usar uma expressão de Lacan em “A coisa freudiana”, e que fosse anulada a própria resistência do analista, o que equivale dizer que ele não vai simplesmente matraquear a significação que o paciente tenta fazer valer nas suas proposições.
Tomando o Grafo do Desejo e colocando a claudicação do sintoma em s(A) faremos do vetor que daí parte um endereçamento ao (A), enquanto lugar. Se a posição do analista não é “cadaverizada”, deixando-se levar pelo sentido que lhe é proposto, ele vai exaltar o Sq, o traço que lhe foi atribuído, favorecendo a instalação da identificação e esvaziando sua palavra num discurso do convencimento que só vai se prestar a abrir caminho para a circulação no chamado andar inferior:          s(A) ----- (A) ----- i(a) ----- (m). Podemos também dizer do que se passa neste nível, utilizando a topologia da banda circular, com suas duas bordas e suas duas faces, para mostrar que aí vai existir dois sujeitos em questão e, portanto dois sentidos sem que nenhum, nunca, possa intervir sobre o outro.   
Mas, como nos lembra Lacan desde o seu Discurso de Roma, a interpretação por alusão é uma forma de se evitar este confronto narcísico próprio de um debate sustentado no eixo    a ---- a’. A interpretação deverá, assim como o dedo de São João, apontar para o vazio entre dois significantes. No entanto, é fundamental lembrarmos, com Lacan, que “a interpretação não está aberta a todos os sentidos”. Apesar de ser uma interpretação significativa, o “essencial é que o sujeito vise, para além da significação, a qual significante - sem sentido, irredutível, traumático - ele está, como sujeito, assujeitado.”
Quando Tereza, enunciou o verbo arrematar, a escanção feita desarticulou o binário S1- S2 e abriu um buraco no sentido até então estabelecido, ou melhor até então restabelecido pelo sintoma analítico.  Foi o “dizer” do analista que produziu seus efeitos sobre os “ditos” de Tereza. Dizer que se sustenta na “estrutura da letra que, na medida em que é idêntica a ela mesma, é um significante fora do simbólico, realizado”. Por isso é um dizer sem sujeito, que pode produzir um vazio a partir do deslocamento da letra, criando um estado de desamparo (hilflösigkeit)  e, não deixando a analisante outra saída senão bem-dizer. 
Deslocando-se, assim, do eixo do enunciado para o da enunciação, Tereza pode se deparar com a verdade que circula entre o gozo e a castração e se elabora como uma relação do sujeito à pulsão. É aí, nesse nível, que o sujeito poderá saber da causa de seu desejo pois,  pela via da fantasia, esta causa está dissimulada pelos benefícios secundários.
Esta é a possibilidade de fazer com que a “experiência da fantasia  se torne a pulsão”.
Quanto à topologia das superfícies, o silêncio do analista em ‘A’ fez com que a demanda que lhe era dirigida sofresse uma meia torção, criando uma banda de Möebius e, retornando ao sujeito pela via do desejo indo de ($<> D)  a S(A/) atravessa ($<>a) para se encontrar, um novo sujeito em s(A).  Esta é a maneira de dizer que só há um sujeito em questão na análise, o analisando, e que é somente a partir de um ponto fora da linha que se torna possível sustentar o corte de uma linha sem pontos.  


      

terça-feira, 2 de junho de 2015

A Interpretação em Lacan (i)

          Várias são as possibilidades de se abordar tema tão extenso. Escolho a clínica como ponto de partida para, em seguida, tentar formalizar alguns aspectos da interpretação. 
Tereza procura análise trazendo, na sua bagagem um ponto de certeza: “Eu não consigo concluir nada que começo”. Sua vida tem se estruturado em torno deste ponto: são cursos interrompidos, relações afetivas mal resolvidas, dívidas financeiras e, - a razão última de sua demanda de tratamento - uma tese universitária que já se prolonga por anos, colocando em risco sua sobrevivência profissional. 
Lacan, em seu Seminário XI vai nos dizer que, se por um lado os pacientes se satisfazem com o seu sintoma, é por isso mesmo que eles, aí, se dão muito mal. È, exatamente, este muito mal (ou um “mal-a-mais”, se preferirem traduzir assim o “trop de mal” do texto) que vai autorizar nossa intervenção, como analistas, para que uma retificação possa ser feita ao nível da pulsão.
Assim, autorizado pelo movimento feito por Tereza ao buscar um lugar onde endereçar o seu sintoma para que ele pudesse ser decifrado, foi possível ir construindo sua história: fruto de um amor proibido, Tereza, aos dois anos de idade,  teve seu pai assassinado por seu avô materno, como conseqüência deste não respeitar suas ordens para não mais se encontrar com a mãe de Tereza. Como consequência, ela ficou sem o pai e sem o avô que, até então, desempenhava as funções paternas, pois este passou vários anos na cadeia. 
A partir daí, sua história veio sendo constituída por pontos inconclusos. Estes pontos eram repetidos, insistentemente, a cada sessão, mas com uma particularidade para a qual logo me alertei: a cada vez que ela os repetia,  eram usados significantes diferentes: “Eu não consigo terminar...”, “Eu não consigo concluir...”, “Eu não consigo encerrar...”, até que um dia, tendo chegado  bastante angustiada, deitou-se no divã e exclamou: “Não adianta! Eu não consigo arrematar nada!”. Era a primeira vez que ela utilizava este significante .  Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa eu fiz uma intervenção dizendo: “Como? Não consegue a-ré-matar?”
Quando Lacan, em 1953 com o texto “Função e Campo da Fala e da Linguagem”, resgata para a psicanálise o poder da palavra, redesenhando a função do simbólico diante do enlouquecimento imaginário dos autores pós-freudianos, deu-se o início de um longo caminho: repensar a interpretação analítica, tanto no que diz respeito à sua forma, sua eficácia, como, também, à função do analista.
Num primeiro momento, que podemos definir com J.A.Miller de fase “hegeliana”, se opunham palavra plena e palavra vazia. O que sustentava a interpretação, nesta época, era a possibilidade de um encontro com uma “verdade feita de completude”. A partir desta idéia acreditava-se que as lacunas da história de um sujeito pudessem ser preenchidas e este sujeito seria, então, “incluído no seio da razão universal”. 
A palavra plena era colocada como aquela que “constitui o sujeito na sua verdade” em oposição à palavra vazia, onde o sujeito “se perde no discurso da convicção, em razão das miragens narcísicas que dominam a relação ao outro de seu eu”. Neste contexto ficou estabelecido que era na medida em que o analista fazia calar nele o discurso intermediário para se abrir à cadeia das palavras verdadeiras, que ele poderia, aí, colocar sua interpretação reveladora”.
A partir da própria clínica, no entanto, esta construção “hegeliana” vai sofrer um corte. Será no texto “A instância da letra...”, que a primeira concepção de  “interpretação reconcilia­dora” vai ser substituída pela “concepção de um sujeito definido não pela fala, mas pelo escrito: entre metonímia e metáfora se constitui um sujeito estritamente determinado pela sua relação à escritura ... e reduzido a um vazio, a um corte fundamental”. Este passo foi importantíssimo para que se abrisse um espaço às elaborações futuras da interpretação, na medida que, “como técnica do escrito, ... reenvia a operações que são compatíveis com o silêncio”.
Num texto contemporâneo a este, e que pode ser considerado o texto sobre a interpretação: “ A direção da tratamento...”, Lacan vai introduzir um a mais quando se trata da interpretação. Esta não se resumirá  mais  “apenas ao preenchimento de lacunas produzidas pelo recalque mas, para decifrar a diacronia das repetições inconscientes, (a interpretação) deverá introduzir na sincronia dos significantes que aí se compõem, alguma coisa que, de súbito, tornará a tradução possível”.

Do que se trata portanto é de possibilitar a tradução de algo que, pelo mecanismo do recalque, permanece como um  estranho à sequência significante e que, devido a estar envolvido pela vestimenta significante, se infiltra e se alimenta do sentido que desliza sob esta cadeia de tal forma que só vão existir duas possibilidades para este estranho: ou vai se proliferar indefinidamente, ou vai reinventar, a cada instante, uma nova aparição. A possibilidade desta tradução só vai existir se a interpretação do analista se ativer à condição de que  ela “não faz senão recobrir o fato de que o inconsciente já procedeu, nas suas formações - sonhos, lapsos, chistes ou mesmo o sintoma - à suas interpretações.” É a função do Outro que aí se apresenta enquanto receptáculo do código. Sendo a propósito dele que podemos detectar o elemento faltante,  o estranho. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

A REAÇÃO TERAPÊUTICA NEGATIVA UMA FORMULAÇÃO DA CLÍNICA (II)

Proponho continuar pelas fórmulas que Lacan reúne num quadro e que são conhecidas como “fórmulas quânticas da sexuação” - que podem ser encontrada no Seminário XX à página 105 da Edição da Zahar Editores no início do capítulo que se intitula: Letra de Uma Carta de Amor.
Após descrever as fórmulas de quantificação lógica que se encontram nos dois espaços superiores, - estes espaços que nos dizem “das únicas definições possíveis da parte dita homem ou mulher por esse que se acha estar na posição de habitar a linguagem” – Lacan nos diz o que se passa “sob a barra transversal onde se cruza a divisão vertical disso que se chama impropriamente humanidade, na medida em que ela se reparte em identificações sexuais”.
É neste ponto, onde as “identificações sexuais” se repartem que penso encontrarmos subsídios para trabalharmos o sintoma que lhes descrevi e que se apresenta, na transferência, durante o tratamento das histéricas. Assim fazendo, chegaremos a uma estrutura que possa nos dizer das “primeiras relações objetais”.
Se observarmos o lado homem, no quadro acima, veremos que quem se posta aí, estará inteiramente submetido à função fálica, a partir mesmo da exceção que se impõe. É o sujeito barrado e o φ “que o sustenta como significante ... este significante do qual não há significado, e que quanto ao sentido, aí simboliza o fracasso. É o meio-sentido ... esse $ que só tem a ver enquanto parceiro, com o objeto ‘a’ inscrito do outro lado da barra. Só lhe é dado atingir seu parceiro sexual que é o Outro, por intermédio disto, de ele ser a causa de seu desejo ... ”
Do outro lado, à direita, vemos surgir aqueles que “assumem o estatuto da mulher”. Aqueles que, pelo fato de não existir a exceção que possa fazer a regra: ser toda submetida à função fálica, permanecem como “não-toda”, apontando para o que poderíamos chamar uma falha na metáfora paterna: “na substituição da mãe pelo pai, no Édipo feminino, não se forma um significado novo que daria, como conseqüência, uma identidade propriamente feminina”.
Assim, parte submetida ao falo, parte numa relação ao Outro exatamente aí onde é não-toda, a mulher tem “que optar entre três soluções: ou aceita sua falta de identidade e se presta à mascarada fálica à qual convida a lei do significante (o matena $———>a, apresentado no quadro da sexuação, talvez possa nos dizer disto); ou recusa o que considera como derrota e se obstina numa reivindicação de tipo histérico (é o matema La/ ———>S(A/)); ou ainda retorna à fase anterior e se entrincheira numa posição toda masculina, como a homossexual (La/—-> φ).”
 Três opções. Três maneiras diferentes de lidar com o que escapa à função do significante fálico e a joga de encontro “a este lugar onde a verdade balbucia”. Talvez por isso Lacan tenha dito que as mulheres são as melhores analistas... ou as piores. Se lhes é possível, já que sabem como ninguém desta falta-a-ser, prestarem-se a sustentar este lugar do analista enquanto falta, vamos ter efetivada a primeira parte do dito lacaniano. Se não, vamos encontra-las fazendo de sua opção um sintoma onde tentam sustentar a possibilidade da relação sexual, negando esta parte de sombra inexplorável que permanece em consequência de, talvez, terem tido uma mãe que, se interpondo em curto-circuito na relação da menina ao objeto de seu desejo, interditou-lhes uma relação própria à ordem simbólica, condenando-lhes à imitação, à repetição e a recriminação sem fim. Ou seja, instalou-se nesta relação especular a violência de um Ideal do eu em que a demanda de manter inteira esta Outra tornou-se seu sintoma. Assim, é enquanto sintoma que a mascarada fálica se instala na transferência repetindo aí a tentativa de “dar conta” desta demanda, vestindo-se imaginariamente deste objeto causa de desejo, ao mesmo tempo em que empresta ao outro o significante amo (S1), do qual espera obter o saber sobre o mais-de-gozo com que se fantasia                          ($<>a —->A/)
Desta forma um circuito se inaugura, onde vemos se esgotar toda as tentativas de sustentar a ciranda que tem como centro exatamente isto que, traduzido como impotência ante a enorme demanda do Outro, faz circular o sintoma a partir mesmo do que escapa à cadeia simbólica na sua tentativa de estabelecer um sentido qualquer. Isto que escapa, e que Freud nos diz estar sinalizado pela angústia presente no ponto onde “não se deu conta das demandas feitas pelo seu ideal, o super-eu”, não é outra coisa senão o que verdadeiramente vai dar sentido ao sintomas: “o real, na medida em que se coloca em cruz para impedir que as coisas andem”.
E assim, enquanto circula esta ciranda que, certamente tem a quem endereçar-se, a histérica se coloca sob o regimento homeostático do princípio do prazer, deslocando para o outro o gozo que não tem como delimitar no próprio corpo. Aceitá-lo seria aceitar sua própria falta. É o outro, enquanto semblante do significante amo que pode sustentá-la neste lugar, deixando-lhe apenas a angústia onde um desejo deveria existir.
E o analista ?
Se ele, como nos diz Freud, não desmascara estas relações objetais primárias, não pode nunca ter certo o final de seu trabalho. Mas se, por ventura, deslocar-se prematuramente através de uma conduta puramente interpretativa, privando a histérica da identificação que o sintoma lhe confere, ou seja, privando-lhe de “conservar este pouquinho de gozo fálico que lhe possibilita a inscrição de um passado e que mantém sua esperança de um futuro melhor”,  pode-se deparar com um final que se resume na dissolução imaginária.
Estando essencialmente ligada ao tempo e a seu manejo, a transferência é o campo onde a reação terapêutica negativa vai se resolver. É aí, neste campo, que vamos poder abordar este sujeito “que não pode ser outro que o sujeito da ciência” este que se encontra suspenso entre a verdade e o saber, com o qual mantém uma relação apenas pontual e evanescente. É aí, nesta divisão do sujeito por onde se estrutura o campo psicanalítico: o objeto ‘a’.

Assim, se há um saber em jogo na transferência, este é o do sujeito suposto saber, que deverá deixar lugar para um outro saber que advém da ética própria à psicanálise: não devemos ceder do nosso desejo, se é nosso objetivo manter viva a causa que impulsiona o analisando a entrar onde não sabia para lá, produzir um saber textual que o traga de volta desta transcendência seguindo as marca que deixou pelo caminho percorrido, ancorado na estrutura fundamental do seu desejo que se articula na cena da fantasia fundamental.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A REAÇÃO TERAPÊUTICA NEGATIVA UMA FORMULAÇÃO DA CLÍNICA (I)


“Entrei onde não sabia
e assim fiquei não sabendo
toda ciência transcendendo”
    (San Juan de La Cruz)


Várias são as dificuldades com as quais se depara quem trabalha com a psicanálise. Aliás, se não por estes, quais outros motivos nos fariam estar aqui hoje, escrevendo? Que outros, senão estes pontos, nos incitam ao convite feito por Freud, e retomado por Lacan, de reinventar a cada passo? Reinventar, claro, dentro dos limites de um campo onde se “constitui um discurso forjado por um dito e fundado sobre o impossível”: o campo freudiano.
Dentre estas muitas dificuldades que batem à nossa porta no dia-a-dia, escolhi trabalhar uma situação clínica bem específica: a reação terapêutica negativa.
Escutemos Freud, nos momentos de sua obra em que tratou de conceituar a reação terapêutica negativa. Em 1918, no texto que ficou conhecido como “o caso do homem dos lobos” aparece pela primeira vez a referência explicita a uma reação terapêutica negativa. “Durante o tratamento analítico ... (o paciente) tinha o hábito de produzir “reações negativas” transitórias; cada vez que alguma coisa tenha sido conclusivamente posta às claras ele tentava contradizer o efeito, por um certo espaço de tempo, agravando o sintoma que havia sido elucidado.”
Mas, no entanto, é no texto “O Eu e o Isso” e num outro, escrito um ano após, “O Problema Econômico do Masoquismo, que Freud vai tentar formular, definitivamente, o conceito de reação terapêutica negativa: “... cada solução parcial que deveria resultar, e em outras pessoas realmente resulta, numa melhora ou uma suspensão temporária dos sintomas, produz (nestes pacientes) uma exacerbação de sua doença momentaneamente; eles pioram durante o tratamento ao invés de melhorarem... a recuperação é vista como ameaçadora, como se ela fosse um perigo ... (esta reação) se revela como o mais poderoso de todos os obstáculos à recuperação. Mais poderoso do que os já conhecidos: inacessibilidade narcísica, atitude negativa em direção ao médico e o apego ao ganho secundário da doença”. 
Continuando sua conceituação, Freud associa a reação terapêutica negativa a fatores “morais”: “sentimentos de culpa que estariam encontrando sua satisfação na doença e que se recusa a abrir mão da punição de sofrimento”.
Mais alguns parágrafos e ele nos aponta a presença desta “reação” em um número de casos cínicos maior do que poderíamos supor, “talvez em todos os casos comparativamente severos de neuroses. De fato, continua Freud, pode ser precisamente este elemento na situação, a atitude do Ideal do Eu, que determina a severidade da doença neurótica”.
No texto, O Problema Econômico do Masoquismo, vemos delinear-se, definitivamente, a articulação desta “reação” com o super-eu, a partir da introdução do conceito de masoquismo primário: “porção da pulsão de morte que permanece dentro do organismo e que, com a ajuda da excitação sexual que o acompanha, ... torna-se libidinalmente ligado aí.” É neste texto que Freud corrige o termo que ele mesmo havia criado: “sentimento de culpa inconsciente” para: “necessidade de punição”, e atribui ao “sofrimento produzido pelas neuroses, o fator que as faz valiosas às tendências masoquistas”. Sofrimento este que tem, entre outras causas, a angústia com a qual o eu reage “à percepção de que ele não deu conta das demandas feitas pelo seu ideal, o Super-eu”.
Pois bem, escolhido o conceito a ser trabalhado, resta-nos saber qual, dentre as muitas formas com que se apresenta este tipo de “resistência” ao trabalho analítico vamos tomar como motivo nesta nossa tentativa de formulação.  Escolhi uma forma que há muito vem me causando indagações. Refiro àquelas situações, tão freqüentes, nas quais nos deparamos com os “bons analisandos”. Aqueles que fazem “tudo o que podem” para que a análise dê os melhores resultados mas que, mesmo assim, seus sintomas pioram ou, no mínimo, não se modificam em nada: “nada adianta”. Aqueles que, tão logo o analista faça uma pontuação qualquer no relato de um sonho, vários outros são trazidos na sessão seguinte. Ou, num outro momento, é a escanção de um significante que é prontamente seguida de uma séria infinda de outros. Ou, ainda, um corte de sessão é logo acompanhado de um relato de situações semelhantes ao fato que precipitou o corte anterior, na expectativa de que um outro corte aconteça. Assim, a cada passo, onde algo deveria ocorrer no sentido de uma “melhora” ou, para dizer de um outro lugar, no sentido de uma mudança de posição do sujeito a partir do que seria um despertar, escutamo-los dizerem: “continuo na mesma”, ou então, “estou cada vez mais angustiado... É ... realmente ... nada adianta.”
 Em outra palavra podemos dizer que nossas intervenções parecem sempre não surpreender o sujeito naquele ponto onde elas poderiam produzir algum efeito: no vacilo, naquele instante “pontual e evanescente” em que ele, já quase sabendo, se apresenta no só-depois de sua construção como apenas um representante. Ao contrário, o que percebemos desenrolar-se nestas situações é a presença de um analisando sempre alerta, atento a tudo, e que está sempre tomando cada intervenção do analista com uma demanda. Demanda que, confundida com o desejo do Outro, opera como imperativo do super – eu: GOZE ! E para que isto possa acontecer, “nada” pode faltar. Para que isto possa acontecer é fundamental que o acesso do sujeito barrado – que o discurso sustentado por estes analisandos coloca no lugar de agente ao Outro seja estabelecido plenamente.
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A razão disto nos sabemos: agindo assim pode-se continuar sustentando uma certa crença: a relação sexual existe !! , mesmo que já esteja mais do que sabida a existência de uma certa falta que, enquanto furo no simbólico, está todo o tempo dizendo exatamente o contrário.

Dito isto, um caminho se apresenta para trabalharmos esta situação clínica que identifico como sendo uma reação terapêutica negativa: partindo do que podemos chamar, com Lacan, “o envelope formal do sintoma” tentaremos “desmascarar as primeiras relações objetais que se acham por traz” dele, como nos indica Freud.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A Segunda Entrada em análise: Consentir com o Inconsciente


Um sujeito procura análise porque o saber constituído de seu sintoma claudica. Este é o momento em que o sintoma se  apresenta como impossível a assumir, porque o rompimento de seu envelope formal coloca a céu aberto o que escapa à representação, à ação do pensamento (gedanken) e que permanece como um resto que Freud, no seu “Projeto ...” denomina de “a coisa” (das Ding). Em consequência, a angústia surge como sinal.
Buscar um analista torna-se, então, uma das saídas possíveis. Busca-se, no analista, um saber que possa restituir a eficácia do envelope rompido, na esperança que seja devolvido, ao sujeito, a sua certeza de ser na singularidade própria de seu sintoma. É Albert Camus, numa passagem que só os escritores criativos produzem, quem diz muito bem do que se trata: “Ele não era nada senão esse coração angustiado, ávido de viver, revoltado contra a ordem mortal do mundo que o tinha acompanhado durante quarenta anos, esse coração que batia sempre com a mesma força contra o muro que o separava de toda e qualquer vida, querendo ir mais longe, ir além e sobretudo saber*, saber antes de morrer, saber finalmente para ser*, uma só vez, um só segundo, mas para sempre.”  
É, portanto, pela via do saber que começa uma análise e neste começo está a transferência: o amor ao saber. 
 Responder deste lugar de saber, no entanto,  poderá produzir alguns efeitos, mas nunca uma análise. Por isso é importante distinguirmos, com Gerard Miller, “a entrada em análise de seu começo (...) se quisermos dar conta desses alongamentos que se estiram sob o nome de uma análise, sem jamais iniciarem”.
Para que uma análise possa acontecer é fundamental a intervenção de um analista. 
Novamente uma distinção se faz necessária. Quando Lacan, em sua conferência intitulada “A terceira” nos diz que “chama sintoma ao que vem do real”, ele explicita que este, o sintoma, só se acalma se lhe nutrem de sentido, de tal maneira que só há duas saídas: ou o sintoma prolifera ou se reinventa. Ora, proliferar o sintoma não é bem o objetivo de uma análise, nem muito menos é seu objetivo extinguí-lo.  O fundamental é que não nos esqueçamos de que na base do sintoma está uma impossibilidade que, sendo de estrutura, se define por: “não há relação sexual”. É a partir mesmo desta impossibilidade que o sentido insiste no ‘automaton’ da cadeia significante.
Não nutrir o sintoma para que este prolifere, ou como usualmente escutamos: não responder às demandas do analisante propiciando a ele a oportunidade de escutar por detrás dos ditos, é função do analista. Uma interpretação não é, pois, aberta a todos os sentidos mas ao real que constitui o núcleo do sintoma e aí se coloca como um x impedindo que as coisas andem. Ao visar este núcleo, este para-além da significação, a interpretação ou o dizer silencioso do analista - e aqui me refiro ao silêncio da falta de palavras [S(A/)] - é que vai promover uma volta a mais a partir mesmo do um-a-menos de sua resposta.
Esta volta a mais só será possível se o analista não ceder de seu desejo, permitindo que os efeitos do reinado do objeto ‘a’, enquanto semblante, levem o sujeito à experiência de desamparo (Hilflösigkeit), condição primordial ao surgimento do desejo. É o que se pode mostrar ao desenhar sobre a topologia do Grafo do Desejo, um Oito Interior.
Esta volta a mais pode-se dizê-la correlativa de um tempo para compreender na medida que, frente à frente com a demanda do Outro, e não mais submetido a um “querer” do analista, o analisante poderá dizer, como o fez outro dia uma cliente: “Saí daqui preocupada com a última sessão. Parece que eu estava sempre querendo falar coisas que lhe interessassem.” Este é um sinal claro da presença de uma transferência e, mais ainda, de um certo saber que aponta para um mais-além da demanda, dizendo que uma análise poderá acontecer. 
No entanto, muitas vezes este percurso é paralisado, é interrompido, ou pode até ir um pouco além deste ponto, quando o saber que o sujeito adquiriu durante este tempo de compreender apresenta-se como suficiente. Para manter-se não sabendo o analisante faz a opção pelo luto do analista para, assim, poder sustentar seus ideais e a crença num Outro. Esta é a esperança de poder evitar saber da “perda forçada” que a entrada na linguagem impõe ao sujeito.
Podemos denominar este momento de uma saída terapêutica aí, onde uma análise didática poderia ter começado.
Em sua “Nota aos Italianos” Lacan já dizia desta possibilidade ao afirmar que a humanidade não deseja saber e que “não há analista, senão quando um desejo lhe vem”..
Quando, ao contrário, um passo a mais pode ser dado, o que temos é uma “segunda entrada em análise”. Este termo, introduzido por Gerard Miller é relembrado por J. A. Miller em seu artigo sobre “As saídas de Análise”: “poderíamos nos perguntar se não há sempre, em certo sentido, uma segunda entrada em análise. O sujeito entra em análise antes de efetivamente saber o que é uma análise; por isso é necessário que o analista intervenha para confirmar sua opção”.
A confirmação desta opção, acredito, não se faz pela via do saber, mas sim por um consentimento com a experiência do inconsciente. Quando me refiro a consentimento, tenho em mente o que Lacan nos diz em seu Seminário VII - A Ética da Psicanálise: quando, uma vez cumprido o ato do assassinato do pai da horda primitiva, “se instaura um consentimento inaugural que é um tempo essencial na instituição da lei, quanto à qual a arte de Freud será vinculá-la ao assassinato do pai, de identifica-la à ambivalência que então funda as relações do filho com o pai, isto é, ao retorno do amor após efetuado o ato.”
Destaco o “retorno do amor” para dizer que aqui também, nesta passagem, o amor de transferência se enlaça neste ponto onde o sujeito vê, para além do narcisismo, o Outro como a própria presença da morte, espreitando. É o momento em que, já não mais  podendo ter a garantia da sobrevivência deste Outro de suas virtudes, o sujeito encontra no amor o signo que vai sustentar o giro de quarto de volta do discurso. Uma segunda entrada em análise poderá acontecer.

Esta é uma passagem que podemos definir como sendo de um saber sobre o inconsciente para, consentir com a experiência do inconsciente.