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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Psicanálise ou Psicoterapia: o lugar do analista! (I)


"...le signifiant, c'est comme le style... 
si on ne part pas de ce niveau qui est le niveau de départ, on ne peut absolument rien faire de plus dans I’expérience psychanalytique... on ne peut rien faire de plus que de faire de la bonne psychothérapie"
(Jacques Lacan, Du discours Psychanalytique - Conférence à l'université de Milan, le 12 mai 1972) 

É a claudicação do saber, da certeza do sintoma, que abre um espaço para que um endereçamento possa ser feito a um Outro lugar, na esperança de que o estranho possa ser decifrado. Sim, decifrado, por que o sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, pleno de sentido, traz em si o "ciframento" do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido, como um estranho, como um "x" no caminho do sujeito. Este é o momento em que se instala, no ponto de inconsistência do Outro, um Sujeito a quem se supõe um saber sobre o que seria a sua verdade. Para que isto possa acontecer, uma escolha, forçada sem dúvida, deverá ser feita para que um significante qualquer venha se alojar aí, onde o saber falhou. Este significante será, ele mesmo, integrante do sintoma que se constituirá neste momento. É a transferência que, agora, pode sustentar estrategicamente a direção do tratamento, enquanto signo de um amor que possibilitará um giro de quarto de volta no discurso. 
No entanto, para que as coisas possam continuar caminhando em função da política do tratamento, é fundamental que este lugar, primeiramente imaginário, seja "cadaverizado", para usar uma expressão de Lacan em "A coisa freudiana", e que seja anulada a própria resistência do analista, o que equivale dizer que ele não vai simplesmente matraquear a significação que o paciente tenta fazer valer nas suas proposições. 

                                                  

Se tomarmos o Grafo do Desejo e colocarmos a claudicação do sintoma em s(A) teremos, no vetor que daí parte, um endereçamento ao (A), enquanto lugar. Se o analista se deixa levar pelo sentido que lhe é proposto, exaltando o Sq, o traço que lhe foi atribuído, ele estará favorecendo uma identificação e esvaziando sua palavra num discurso do convencimento que só vai se prestar a abrir caminho para a circulação no chamado andar inferior: s(A) ----- (A) ----- i(a) --- (m). Podemos também dizer do que se passa neste nível, utilizando a topologia da banda circular, com suas duas bordas e suas duas faces, para mostrar que estão presentes dois sujeitos e, portanto dois sentidos sem que nenhum, nunca, possa intervir sobre o outro. 
No entanto, para que uma análise possa acontecer é fundamental que, no amor de transferência que se instala, pelo menos um dos dois saiba que não tem o que lhe está sendo atribuído. Isto é o que se espera de um analista: que coloque em operação o desejo do analista que se constituiu em análise. É somente deste lugar que uma interpretação pode operar. 
Lacan, já em seu Relatório de Roma, nos diz que a interpretação por alusão é uma forma de se evitar este confronto narcísico próprio de um debate sustentado no eixo a ---- a'. A interpretação deverá, assim como o dedo 
de São João, apontar para o vazio. 
O que se objetiva, no final das contas, é uma primeira desarticulação do binário S1- S2 que, enquanto enunciado, sustenta sob a barra a relação de um sujeito com o objeto que ele escolheu a partir da interpretação que ele fez do desejo do Outro. Objeto esse que ele acredita poder consistir o Outro. A interpretação, portanto, abre um buraco no sentido até então estabelecido. Este vazio cria um estado de desamparo (hilflösigkeit) não deixando outra saída ao sujeito senão o bem-dizer pois, deslocando-se do eixo do enunciado para o da enunciação, ele se depara com a verdade que circula entre o gozo e a castração e que se elabora como uma relação do sujeito à pulsão. É neste ponto, e somente aí, que o sujeito poderá saber da causa de seu desejo pois, pela via da fantasia, esta causa está dissimulada pelos benefícios secundários. 
Este é o trajeto que vai, digamos, preparar o momento em que um ato analítico pode acontecer e possibilitar a "experiência da fantasia fundamental tornar-se a pulsão". 
Um pouco de topologia vai nos auxiliar a definir como esse 
caminho se desenha e ajudar a diferenciar uma psicoterapia de uma psicanálise. 
Se o analista não se cala impedindo que o objeto "a" possa reinar como semblante, o que vai acontecer é um favorecimento a uma identificação a partir mesmo da ação da sugestão através do convencimento, como vimos acima. Este movimento vai dirigir o vetor para o andar inferior do Grafo e estabelecer duas posições distintas aos dois sujeitos em questão: o terapeuta e o paciente, que permanecerão indefinidamente cada qual do seu lado sem que as intervenções possam produzir efeito. Teremos então uma topologia da banda circular onde o que se passa de um lado ali permanece. 
               

Mas quando o desejo do analista opera, fazendo reinar o objeto "a" ali onde uma resposta é esperada, veremos o vetor ser lançado na direção do andar superior do Grafo e, em função mesmo da não resposta, sofrer uma meia torção e retorna como mensagem invertida. 
A topologia que se desenha não é mais a da banda circular, mas sim a da Banda de Moebius, nos dizendo que em uma análise temos apenas um sujeito em questão pois a estrutura desta superfície demonstra a existência de um só lado e de um só corte. 

                                                  


Esta articulação coloca uma questão e nos abre a possibilidade de discutirmos um outro aspecto desta diferenciação entre psicanálise e psicoterapia: trata-se do que encontramos no momento em que Lacan trabalha, especificamente no Seminário XI o conceito de liquidação da transferência. Ali ele estabelece um dialogo com os conceitos estabelecidos pela IPA, no que diz respeito ao final de análise. O corpo teórico que sustenta o trabalho na Internacional vai na direção de acreditar que no final da análise a transferência poderia ser liquidada. 
Para tanto, era fundamental que o analista levasse o sujeito a não deixar resto algum, já que a identificação, como é de nosso conhecimento, se estrutura em torno do eixo imaginário e a partir da idealização. Desta forma, um "Eu" (moi) surgiria ali onde um sujeito, como resposta do real, deveria acontecer. É o reforço da alienação onde uma separação deveria acontecer. 
Ao contrário, o silêncio do analista em 'A' faz com que a demanda que lhe é dirigida sofra uma meia torção, criando uma banda de Möebius (como explicitamos acima) e, retorna ao sujeito a partir mesmo do desamparo que se estabelece em (d) - lembro-lhes que Lacan, ao construir seu grafo nos disse que este pequeno (d), num primeiro movimento, indica o estado de desamparo (detresse - hilflosigkeit) no qual se encontra o infans em seu encontro com o homem ao lado (Nebemmensch) - passando pelas demandas do Outro ($ <> D) onde vão se estruturar as pulsões em seu movimento de ir e vir em torno do vazio da falta no Outro S(A/). Uma relação muito especial vai se estabelecer então, a partir da interpretação que se faz desta falta, construindo uma cena ($<>a) que precisa ser retificada para que um novo saber fazer possa se instalar s(A). É por isso que afirmamos que só há um sujeito em questão na análise, o analisando, e que é somente a partir de um ponto fora da linha - que eu correlaciono, nesta situação, à função do desejo do analista - será possível sustentar o corte de uma linha sem pontos. 
Retomo o que acabo de dizer um outro caminho. Partindo do conceito de Sujeito Suposto Saber, Lacan vai nos dizer que esse sujeito, que supostamente sabe sobre o analisante, na verdade não sabe nada. O que se liquida na transferência, portanto é esta suposição de saber, já que, todo o processo de análise vai, à cada intervenção do analista, desfazê-la. Em outras palavras, como nos diz Lacan, este sujeito suposto saber deve ser considerado liquidado exatamente no momento da análise em que ele começa a saber alguma coisa do seu analisante. Por isso ele pode, neste momento, ser chamado de sujeito suposto vaporizado. Ainda uma outra forma de se dizer isto, com Lacan, é que a sustentação da transferência se dá pelo fato do analista se colocar como um "X" para o analisante. Quando o analisante vai, passo a passo, esburacando este lugar, o analista vai perdendo esta aura de suposição de saber. A consequência disto é que o analista não vai mais 
ter o poder de relançar o sujeito para mais uma volta no seu percurso. 
Espera-se que este momento seja aquele que venha encerrar um tempo de compreender e o sujeito em questão possa fazer uma passagem a partir mesmo do resto a que o sujeito suposto saber se transforma. 
Para além de suas vestimentas imaginárias, semblantes que o analista pôde encarnar para um sujeito, este o verá cair do lugar do Outro do saber ao lugar do “a”, objeto libidinal. 
Esta passagem, nós a conhecemos da teorização de Lacan, é a de analisante para analista quando este sujeito deseja, ele mesmo se prestar a sustentar este lugar de causa. 

Este termo "liquidação da transferência", se ele tem um sentido, é o da liquidação permanente deste engano através do qual a transferência tende a exercer o fechamento do inconsciente. Ou seja, no duplo movimento da transferência onde o sujeito se engancha supondo um saber ao Outro - estabelecendo o amor de transferência - vamos ver acontecer o engodo do tamponamento da falta do Outro. Este mecanismo é o da relação narcísica onde o sujeito tenta se colocar no lugar em que ele acredita ser amado pelo Outro. "De sua referência àquele que deve lhe amar, ele tenta induzir o Outro numa relação de miragem onde ele se convence ser amável".

domingo, 16 de outubro de 2016

Sobre o Traço de Perversão: Uma Brecha na Fantasia


     "Isto que a psicanálise nos demonstra concernente ao desejo na sua função que se pode dizer a mais natural, já que é dela que depende a manutenção da espécie, isto não é, somente, que ele seja submisso na sua instância, sua apropriação, sua normalidade para dizer tudo, aos acidentes da história do sujeito (noção do traumatismo com contingência), é que tudo isso exige o concurso de elementos estruturais que, por intervirem, dispensam esses acidentes, e cuja incidência desarmonica, inesperada, difícil a reduzir, parece mais deixar à experiência um resíduo que pode arrancar de Freud a confissão de que a sexualidade deve trazer o traço de alguma rachadura pouco natural”.  (J. Lacan, Écrits pág. 812). 

      Vivenciando a nossa clínica no seu dia-a-dia, Uma questão se me apresenta: o que é traço?
Optei por começar com uma pesquisa: como e em que contextos Freud utiliza a palavra traço em sua obra? Trabalhando com o texto original em alemão e cotejando-o com as traduções em inglês e português, pude observar que em alemão existem, pelo menos, três versões para a palavra traço: Zeichen, Zug e Spur. Como não podia deixar de acontecer, cada uma delas nos remete a recortes conceituais diferentes que, infelizmente, se perdem quando da tradução por uma única palavra em outras línguas.
Com o intuito de dar uma sequência ao trabalho, escolhi algumas passagens da obra de Freud, onde encontramos cada uma dessas palavras. Penso que são passagens representativas e que poderão clarear suas respectivas conceituações.
Encontramos a palavra Zeichen (traço, sinal, distintivo, insígnia, indício), principalmente, no "Projeto para uma psicologia científica", "Carta 52 da correspondência a Fliess" e em "A Interpretação dos sonhos". Tomemos como exemplo a "Carta 52" e vejamos como Freud (1896/1969, p. 254) se dirige a Fliess:

[...] Você sabe, eu trabalho com a suposição de que nosso mecanismo psíquico aparece através de camada sobre camada: o material presente na forma de traços de memória (Erinnerungsspuren) sofre, de tempos em tempos, um rearranjo, uma transcrição após novas relações. O essencialmente novo em minha teoria é a afirmação de que a memória se apresenta não de uma forma, mas de várias formas, em diferentes maneiras de traços (indícios: Zeichen) [...].

Mais adiante, na mesma "Carta 52", quando está a definir o que seja cada uma das "camadas", Freud (1896/1969, p. 254) vai nos dizer que uma delas é a WZ (Wahrnehmungszeichen) - traços de percepção - que consiste no “primeiro registro da percepção [...]”. Sem muito me alongar em citações, posso dizer-lhes que em todas as outras ocasiões por mim analisadas, em que surge a palavra Zeichen, ela vem sempre com o sentido de indicações, insígnias, ou seja, ligada à percepção. Posso inclusive associá-la à palavra Vorstellung (apresentação), tão comum nos escritos freudianos posteriores.
Quanto à palavra Zug (traço, sulco, puxada, puxão), vamos encontrá-la, principalmente, em duas passagens:
1. No texto "Uma criança é batida", primeiro parágrafo da segunda parte: “Uma fantasia desse tipo, proveniente talvez de causas acidentais na infância e mantida para o propósito de satisfação auto-erótica pode, à luz de nosso conhecimento presente, somente ser vista como um traço primário (primaren Zug) de perversão” (FREUD, 1919/1969, p. 228).
2. Em "Psicologia das massas e análise do eu", parte VII – “A identificação”. Essa citação foi a mesma utilizada por Lacan em seu Seminário A identificação, para trabalhar o conceito de traço unário: “Deve também nos surpreender que em ambos os casos a identificação seja parcial e extremamente limitada (höscht beschränkte), tomando emprestado apenas um traço único (einzigen Zug) da pessoa que é seu objeto” (FREUD, 1921/1969, p. 135).
Talvez possamos encontrar outras passagens em que Freud utilize a palavra Zug; a mim, no entanto, não foi possível localizá-las nos textos com os quais trabalhei. Portanto, penso que posso dizer-lhes que o conceito de Zug está, fundamentalmente, associado aos conceitos de primário e unário. Para dar um passo a mais, posso dizer-lhes, também, que o einziger Zug tem como consequência lógica a Bejahung primordial.
Enfim, examinemos a palavra Spur (traço, vestígio, pista, rastro). Esta, talvez, seja a palavra alemã para traço que Freud mais utiliza ao longo de sua obra. Dois textos, no entanto, são de capital importância para apreendermos o conceito de Spur em Freud: "Carta 52" e "Notas sobre o bloco mágico". Na "Carta 52", por exemplo, quando Freud (1896/1969) nos descreve a camada W (Wahrnehmung), ele é bastante claro ao dizer que se trata de neurônios nos quais "nenhum traço" (kein Spur) do que acontece permanece. Só vamos ver surgir os traços (Spuren) quando do segundo registro (UB - Unbewusst): “[...] traços do Inconsciente (UB Spuren) são algo equivalente a lembranças conceituais (Begriffserinnerungen) [...]”.
Posso lembrar-lhes, nesse ponto, que esses UB Spuren são o que Freud vai chamar, mais tarde, de Vorstellungsrepräsentanz, que é, como nos diz Lacan (1998a, p. 723), “o significante que é recalcado, pois não há outro sentido a dar nesses textos” a essa palavra.
No entanto, é no texto "Notas sobre o bloco mágico" que Freud vai trabalhar exaustivamente o conceito de Spur, que estará sempre ligado ao conceito de memória (Erinnerung) e permanência (Dauer).
A partir do que lhes trouxe até aqui, uma hipótese surge: mais do que simples diferenças de traduções ou de grafia, cada uma dessas palavras utilizadas por Freud apontam um recorte conceitual preciso e nos ajudam a pensar não só os vários "tempos" do sujeito, como também questões clínicas como "traços de perversão".
Na "Carta 52", nosso ponto de partida, Freud (1896/1969) nos fornece o seguinte esquema:

W ------ WZ ------ UB ------ VB ------ Bews
         I         II        III

- “W (Wahrnehmung) - São neurônios nos quais a percepção começa, aos quais a consciência se liga. Neles, nenhum traço (kein Spur) do que acontece permanece [...]”.
- “WZ (Wahrnehmungszeichen) é o primeiro registro (Niederschrift) da percepção. Sua conscientização é totalmente incapaz de se fazer (der Bewusstsein ganz unfahig), e são organizados de acordo com associações por simultaneidade (ach Gleichzeitigkeitsassoziation gefüt)”.
- “UB (Unbewusst) - é o segundo registro (Niederschrift); é ordenado conforme algo assim como relacionamento causal. Os traços (Spuren) de UB são equivalentes a algo assim como lembranças conceituais (Begriffserinnerung) e, da mesma forma, inacessíveis à consciência”.
- “VB (Vorbewusst) - é a terceira transcrição (Umschrift), ligada à representação de palavra (Wortvorstellung), e é aquilo que se refere ao nosso eu oficial”.
No desenvolvimento que Freud faz do esquema da "Carta 52", ele utiliza de maneira bastante clara os conceitos Zeichen e Spur. Será possível, nesse ponto, introduzir no esquema da "Carta 52" o conceito de Zug, a partir do que conhecemos da obra posterior de Freud e dos desenvolvimentos lacanianos?
Com toda a ousadia que me é permitida numa situação como esta, introduzo o conceito Zug, mais especificamente, einziger Zug, entre as camadas WZ e UB:

W ------ WZ ------ einziger Zug ------ UB ------ VB ------ Bews

Com o desejo de substanciar teoricamente o que acabo de propor, lanço mão do esquema R, assim como Lacan (1998b, p. 559) o desenvolve no seu texto "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose".



Esquema R

O esquema R é um desdobramento do esquema L, primeiramente desenhado no seminário sobre "A carta roubada". Ele é dividido em três partes:
1. O triângulo imaginário.
2. A faixa do real (leia-se realidade), faixa esta que, uma vez extraído o objeto a, vai sofrer uma meia torção, transformando-se em uma banda de Moebius, para nos dizer do sujeito e do pouco-de-realidade.
3. O triângulo do simbólico.
Em cada um dos seus vértices, Lacan vai instalar uma letra, designando cada uma - o grande A no caminho do sujeito. Essas letras também nos auxiliam a matemizar as três posições do analista na direção do tratamento. São elas: M - no instante de olhar, a mãe enquanto das Ding; I - no tempo para compreender, o ideal do eu enquanto matriz simbólica; e, enfim, em P - o momento de concluir pelo Nome-do-Pai enquanto representante da lei. No que diz respeito ao caminho do sujeito, posso localizar a privação do sujeito no real em M, onde vai faltar um objeto simbólico no real; a frustração na posição I, onde falta um objeto real no imaginário especular; e, finalmente, a castração em P, instalando-se definitivamente a falta no simbólico de um objeto imaginário.
Nesse ponto, uma articulação entre o esquema freudiano e o lacaniano me parece possível: M corresponderia às camadas W e WZ, camadas iniciais do aparelho psíquico freudiano da "Carta 52". Esse momento em que existem apenas e tão somente percepções, ou seja, nem sujeito nem objeto a serem percebidos. Existem apenas percepções que, num certo momento, vão se constituir em traços, insígnias, formando o que Freud (1895/1969) denominou, no "Projeto para uma psicologia científica", de "o complexo do semelhante" (Der Nebenmensch Komplex).
O importante, aqui, fica por conta do fato de que não se distingue ainda a qual desses traços de percepção vai se ligar todo o processo de identificação que irá se constituir no nome próprio, a partir do qual o sujeito advirá para nomear todas as coisas que vão fazer existir o pouco-de-realidade de seu mundo ficcional.
Entre as camadas WZ e UB, no esquema freudiano, e entre M e I, no esquema lacaniano, faço incidir a presença inaugurante do traço unário, que “é aquilo que apaga a Coisa”, como nos diz um autor anônimo em Scilicet (1970, p. 124), n° 2/3,

ele aí apaga tudo, exceto este um que ela foi, e jamais será substituída; Lacan dá esta fórmula: Wo es war, da durch das eins werde ich - aí onde era (a Coisa), aí pelo um advirei eu, e é o traço unário que faz aparecer o sujeito como aquele que conta. Mas o primeiro passo do sujeito não pode ser articulado a não ser como a introdução do nada como tal, no sentido do Nihil Negativum de Kant, objeto vazio sem conceito (Leere Gegenstand Ohne Begriff) [...].

Este é o começo do sujeito: uma vez instalado o traço unário, não vemos aparecer, como se pensa por aí, um “isto-bom que é incluído no eu e um isto-mau que é expulso do eu, mas parece que estamos, antes, autorizados a pensar que não há dois "istos", mas sim um e que o sujeito incorpora, e o que se encontra é que, nesse momento, algo se perde (dechoit) dessa incorporação [...]”.
Assim, com o traço unário, instala-se o que Freud denominou de segundo registro, uma vez que o ordenamento aqui já se faz em função de um relacionamento causal, produzindo lembranças conceituais. É o momento em que um eu ideal é a
imagem que se fixa [...] desde o ponto em que o sujeito se detém como ideal do eu. [...] Na captura que sofre de sua natureza imaginária, ele mascara sua duplicidade, qual seja, que a consciência com que ele garante a si mesmo uma existência incontestável [...] não lhe é de modo algum imanente, mas transcendente, uma vez que se apóia no traço unário do ideal do eu (LACAN, 1998c, p. 823).

É no Outro que o sujeito vai existir, na medida em que, dependente fundamentalmente de seu amor, “isto é, pelo desejo de seu desejo, identifica-se com o objeto imaginário desse desejo, na medida em que a própria mãe o simboliza no falo” (LACAN, 1998b, p. 561).
Passagem fundamental acontece nesse ponto quando, de acordo com o esquema da "Carta 52", a terceira transcrição é possível, ligando lembranças conceituais (Begriffserinnerungen) a representações de palavras (Wortvorstellungen). É o momento de instalação da lei, quando vai ser colocada em relevo a duplicidade que a imagem do eu ideal tentava mascarar. Com isso, precipita-se o ideal do eu como herdeiro desse momento que se resolve na separação. Em outras palavras, é a entrada do significante fálico que vem ordenar, estabelecer uma sequência e um tempo de espera para o que só visava o imediato do gozo sem limites.
E assim, num só-depois, poderemos observar a evolução que os esquemas apontam em sua dimensão cronológica. É a série que, começando no universo perceptivo das imagens ideográficas (Zeichen), vê eleger-se um traço unário (einziger Zug), um “traço distintivo, traço exatamente tanto mais distintivo quanto mais está apagado tudo que o distingue, salvo ser um traço, acentuado o fato de que quanto mais parecido, mais funciona, não digo como signo, mas sim suporte da diferença [...]” (LACAN, 1961-1962, aula de 13/12/1961, inédito) que, ao constituir-se em letra, vai se tornar o que sustenta materialmente o significante enquanto traço de memória (Erinnerungsspur).
Sendo, portanto, recortes conceituais precisos, quando falamos em "traços de perversão", de qual "traço" se trata: Zeichen, Zug ou Spur?
Freud (1924/1969, p. 203), no texto "O problema econômico do masoquismo", nos diz: “A castração, ou seu substituto, a cegueira, deixam, com frequência, um traço negativo (negative Spur) nas fantasias (masoquistas), pois nenhum dano deve ocorrer precisamente aos genitais ou aos olhos”. Seria possível interpretar essa frase de Freud no que diz respeito ao traço negativo, como um traço que, uma vez instalado, foi negativado? (Ou, quem sabe, desmentido?).
Encontro em outro texto de Freud (1896/1969, p. 256) subsídio para tentar responder a essa questão. É na "Carta 52", essa inesgotável fonte teórica:

Uma falha na tradução, isso é o que se chama, clinicamente, recalque [...]. Dentro de uma mesma fase psíquica e entre os registros da mesma espécie, forma-se uma defesa normal devido à produção de desprazer. Já a defesa patológica somente ocorre contra um traço de memória (Erinnerungsspur) de uma fase anterior que não foi traduzido.

Partindo daí, penso poder dizer que um traço negativo é exatamente um traço que, tendo chegado a se constituir em mais um na cadeia, "regride" ao que passa a ser um traço (Zug) que, assim, adquire a função da qual não sofreu tradução, ou seja, passa a não se submeter à ação ordenadora do significante falo, exigindo, portanto, a ação de mecanismos de defesa patológicos.

Uma fantasia desse tipo (perversa), proveniente talvez de causas acidentais na infância e mantida para o propósito de satisfação auto-erótica, pode, à luz de nosso conhecimento presente, somente ser vista como um traço primário (primären Zug) de perversão (FREUD, 1919/1969).

Coloco-lhes, então, minha proposta: localizar a ação da Verleugnung, esse mecanismo de defesa patológico que tenta dar conta do que não sofreu tradução, entre as camadas WZ e UB no esquema modificado da "Carta 52" ou, no esquema lacaniano, entre o I e o P (esquema R). Agindo nesse ponto, a Verleugnung (desmentido) negativa a ação legislativa do significante falo, deixando sobreviver, sem tradução, um traço primário (primären Zug) que se faz o único, nesse momento, a ditar as leis: é a vontade de gozo que surge na brecha aberta da tela protetora da fantasia fundamental. É a marca estrutural que diferencia um traço de perversão de um acting-out, que se caracteriza por ser um signo cênico transitório em seu endereçamento a um outro que não está. Diferencia-se também dos traços da fantasia, esses significantes que surgem no percurso de uma análise, a partir dos quais pode-se, eventualmente, ser construída a fantasia fundamental.



REFERÊNCIAS


FREUD, Sigmund. “Projeto para uma psicologia científica” (1950 [1985]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. I. “Project to a Cientifique Psychology”. In: Standard Edition of the Complete Psychological Works. London: The Hogarth Press, 1966.

FREUD, Sigmund. "Carta 52" (1896). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. I. “Aus den Anfängen der Psychoanalysis”. London: Imago Publishing - CO, LTD, 1950, p. 185, 187. Standard Edition of the Complete Psychological Works. London: The Hogarth Press, 1973, v. I, p. 233, 235.

FREUD, Sigmund. "Uma criança é espancada" (1919). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XVII. Studienausgaben. Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1982, v. VII, p. 233. Standard Edition of the Complete Psychological Works. London: The Hogarth Press, 1973, v. XVII, p. 181.

FREUD, Sigmund. "Psicologia das massas e análise do eu" (1921). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XVII. Studienausgaben. Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1982, v. IX, p. 100. Standard Edition of the Complete Psychological Works. London: The Hogarth Press, 1973, v. XVII, p. 107.

FREUD, Sigmund. "O problema econômico do masoquismo" (1924). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XIX. Studienausgaben. Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag, 1982, v. III, p. 346. Standard Edition of the Complete Psychological Works. London: The Hogarth Press, 1973, v. XIX, p. 162.

LACAN, Jacques. Le Séminaire, livre IX: L’identification (1961-1962). Paris (inédito).

LACAN, Jacques. "À memoria de Ernest Jones: Sobre sua teoria do simbolismo". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998a.

LACAN, Jacques. "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1957-1958)". In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998b.

LACAN, Jacques. “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998c.

Scilicet, n° 2/3. Paris: Seuil, 1970.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Inconsciente, Linguagem, Letra e Sentido (II)

O sentido tem uma propriedade fundamental: ser o que nos fascina, na palavra. É interessante notar a homofonia desta palavra nos dizendo que algo “faz sina” no sentido, traçando o destino do sujeito. O termo fascinação nos indica o que de imaginário permanece na função da palavra. Se sabemos por experiência de nossa própria análise que a palavra faz vacilar o ser do sujeito e pode introduzi-lo na falta a ser, por outro lado sabemos que nesse caminho retém o que aí permanece de fascinação do sentido, relançando o vetor do grafo para os velhos caminhos do sintoma. É aí que Lacan vai opor sentido e signo em seus escritos de 70.
Para esclarecer esta oposição vamos tomar o que se diz sob o termo de mensagem cifrada, tão frequente nos escritos de Lacan quando ele se refere ao sintoma. Esta expressão, mensagem cifrada, traz em si mesmo uma ambiguidade que vai nos permitir caminhar um pouco mais. Ao mesmo tempo que nos remete, atraves do termo mensagem, à comunicação, uma mensagem cifrada pode nos levar ao equivoco de pensarmos que falta um Código que poderia decifrá-la, se pensamos que cifra só se refere ao significante. No entanto esta expressão só poderá ser esclarecida se tomarmos por referência a libido, este mito freudiano, que Lacan vai substituir por seu conceito de gozo. 
A perspectiva lacaniana sobre a experiência analítica se sustenta na formulação sobre o gozo que é descrito como a verdade estrutural do mito freudiano que se constitui nos desfiladeiros lógicos que Freud seguiu para decifrar os fenômenos inconscientes. Partindo deste princípio, o termo mensagem ficaria corroído pelo seu adjetivo cifra. A cifra carcome a mensagem. "O termo cifra está aí introduzido na vertente mesma do signo, reduzindo o gozo ao cifrado. O gozo está no cifrado mesmo: é assim que se isola um efeito que não é do sentido.”
Esta formulação deixa entrever que nas propostas mesmo de metáfora e metonímia - estes dois tipos de articulações significantes - o efeito de sentido que emerge na metáfora e fica retido na metonímia. A proposta do gozo estar na cifra, implica que a articulação do significante produz um efeito distinto do sentido. Este outro efeito Lacan chamou de sentido-gozado (jouis-sens). É este efeito que escapa a observação dos linguistas e que só pode ser percebido se se leva em conta que o inconsciente está aí implicado. E uma das formas de se levar em conta o inconsciente é, sem dúvida, o sintoma que, em outras palavras, foi como efeito de sentido gozado introduzido nos estudos da linguagem. O sintoma que obriga a complementar o efeito de sentido com o de gozo, já foi abordado de várias formas ao longo da experiência analítica, como uma maneira da resistência se manifestar. Uma destas formas muito conhecidas deste Freud é a chamada reação terapêutica negativa. 
É neste ponto, em que a distinção entre significante e significado conduzem ao Outro, que linguagem e discurso se distinguem. De S/s passamos à função do Outro, que vai ocupar o lugar de significante. Tem-se que levar em conta que não é possível implicar o significante, definido por sua diferença com respeito aos outros significantes, sem implicar o Outro como conjunto de significantes. 

S     (A)
s    s(A)

O significado também poderá ser substituído pelo Outro na medida em que ele é também o mestre do sentido.
O significante introduz a diferença consigo mesmo porque para ele não há princípio de identidade. É a partir mesmo deste princípio que a cadeia significante desliza. Em outras palavras podemos afirmar que para o significante é impensável dizer que B = B, ou seja há dois "B". Esta distinção se mantém até o infinito. Esta diferença é o espaço onde vemos surgir o sujeito que, na sua singularidade, é pura diferença. Destacar, no final de uma análise, a partir do desejo do analista, a pura diferença é, em outras palavras, fazer surgir o sujeito ali onde uma identificação ao ideal da não diferença insiste em se apresentar. Com a letra, no entanto, é possível verificar o princípio da identidade onde B = B. 
Quando se trata de um significante podemos plantear ao menos S1 – S2 para ter o Outro, enquanto que para B, que é uma letra, uma só basta e não se concebe colocá-la em cadeia. 
O sentido, portanto, vamos colocá-lo com respeito ao Outro, enquanto que o sentido gozado (Jouis-sens) não pode ser relacionado com o Outro. O sentido como sentido do Outro implica, além do mais, o desejo como desejo do Outro. Essa afirmação nos conduz à problemática mesmo do desejo do analista, ou seja, aquilo que como efeito de sentido, deve ser obtido do enunciado do analista. No entanto, por em relação ao analista o gozo do Outro é algo completamente distinto. 
Em Televisão Lacan vai definir o sintoma como um nó que captura cadeias de gozo. Essa definição esclarece a expressão mensagem cifrada. Este gozo – ou sentido gozado – não é relativo ao Outro, com ele se designa um nível mais fundamental que o Outro, que aparece então como um derivado.
Supostamente a linguagem deve ser prévia ao gozo, quando é o gozo de pequeno "a". Porém neste ponto o conceito de Outro se encontra diferenciado em Lacan. Se consideramos que o gozo é mais fundamental que o Outro, como Lacan vai nos esclarecer, podemos acompanhar porque ele introduz o conceito de lalíngua como anterior ao da linguagem. Considera que a linguagem é uma elucubração de saber sobre lalingua. Neste nível primordial são solidários o gozo e lalingua, e resultam derivados o desejo, o discurso e inclusive a linguagem. 
Ao tomar estas duas referências pode-se verificar em alguns  matemas de Lacan a presença destas articulações. Por exemplo no Grafo do desejo verifica-se:
d   ($<>a)
Fórmula que coloca o desejo frente à fantasia fundamental na medida que o gozo está localizado na fantasia. Nesta fórmula temos uma preeminência dada ao desejo. 
Já no matema:
o objeto a, mais de gozar, está em posição de privilégio em relação ao sujeito do desejo e o orçamento em conta a posição central, operativa, da forma de gozo como o que determina o modo de divisão do sujeito. Deste então se abre uma clínica diferencial a partir das diferentes inscrições que este objeto a pode receber quando se refere ao Outro, o companheiro sexual. Sabe-se que sempre se referência de maneira enganosa, porque neste nível fundamental o gozo é um gozo sem companheiro, um gozo que podemos denominar, com JAMiller, de autista.
Tudo isso esclarece porque se fala de histerização do sujeito numa entrada em análise: o sintoma histérico, por apresentar seu modo de gozar do inconsciente passando pelo Outro, implica em seu gozo mesmo o desejo do Outro.

domingo, 9 de outubro de 2016

Urgência médica e Urgência psicanalítica

Proponho começar pelo princípio e o “princípio era o verbo”! 
O que nos diz o Aurélio sobre o verbo, digo, a palavra Urgência?
Os dicionários são sucintos, assim como exige a própria Urgência: “Qualidade de urgente; pressa; aperto”. Continuando nossa busca, encontro a palavra “Urgente”: “Que urge; que se deve fazer com rapidez. Iminente, impendente” e, finalmente, “imprescindível”. Mas ainda não basta, pois a palavra “Urge” exige esclarecimentos: “Ser urgente, ser imediatamente necessário. Estar iminente. Ser indispensável. Insistir, instar. Forçar, obrigar. Perseguir de perto. Empurrar, compelir e, finalmente, exigir, reclamar”. 
A urgência sempre nos remete a algo que exige uma resposta imediata. Em linguagem lacaniana pode-se dizer que a urgência nos diz de encontros onde a demanda exige o imediatamente necessário. 
Trabalhar o paralelo entre a Urgência Médica e Urgência Psicanalítica é a proposta do tema de hoje. Para levar adiante este trabalho, será necessário verificar o que pode um analista diante de uma urgência. Sabe-se que existem analistas que, por trabalharem em hospitais – Gerais ou Psiquiátricos são chamados a intervir em situações de urgência. Mas também se tem o que dizer das urgências psicanalíticas. Aquelas que podem ocorrer no transcurso de uma análise e que se costuma denominar acting-out e passagem ao ato
Um primeiro ponto se destaca: uma urgência sempre diz de 
alguém que sofre de uma forma aguda e intensa. A dor, na imensa maioria das vezes é o sinal explicito deste sofrimento. Dor física ou psíquica, não importa. Esta dor acontece e diz do rompimento da estabilidade da vida cotidiana de um determinado sujeito. É exatamente esta ruptura que grita na urgência, fazendo um apelo à restituição da estabilidade perdida. 
O analista, quando chamado a intervir, encontra-se muitas vezes no lugar de ser apenas uma testemunha de que ali se encontra algo que não caminha. Lacan já definiu, em várias passagens e de várias maneiras, que a ruptura da estabilidade que se sustenta num sentido qualquer acontece quando o sujeito se depara com um X que se coloca em seu caminho. Uma pedra, como disse nosso poeta Drummond. Um Real, para sermos fieis ao ensino de Lacan. 
Este é o ponto onde se pode testemunhar uma agitação, uma perplexidade ou até mesmo uma agressividade de quem tropeça na pedra no meio do caminho. Estas situações se por um lado podem se apresentar em situações que não caracterizariam uma emergência, sempre vem questionar a psicanálise em seus limites ao calarem o que antes falava. Não porque a palavra foi omitida ou postergada. Trata-se de um encontro com um indizível, com o S(A/)a falta no Outro na álgebra lacaniana. A falta um significante. Estes limites apontam o caráter de urgência de uma situação, sejam elas médicas ou psicanalíticas. O que nos alenta e nos coloca a trabalho é saber que estas situações são as que propiciam a que uma nova invenção possa acontecer. O próprio Freud inventou a psicanálise quando defrontado com situações limites. 
Por isso acreditamos que nossa aposta pode ser sempre 
renovada ali, onde o Real se apresenta como um X no caminho de um sujeito.
Quando se está diante de uma urgência médica, como pode o analista intervir. Sendo analista! Em outras palavras, fazendo valer os princípios da psicanálise mais do que nunca: Colocar-se em posição de escuta para fazer vir à luz os significantes do sujeito. 
Assim será possível restaurar o sentido que sustenta este sujeito na sua relação com o Outro e propiciar a ele a possibilidade de atuar, de alguma forma na sua própria recuperação física. 
Uma situação de urgência se caracteriza por uma ruptura da cadeia significante trazendo o mal-estar, o mais-além do princípio do prazer que aí se apresenta com sua face de horror. 
Vamos examinar uma situação que, certamente, pode ser classificada como urgência em um processo de análise. Sabe-se que o acting-out é um acontecimento onde o gozo irrompe na cena para dizer que o desejo do analista está fora da cena. Este é um momento em que o analista está adormecido nos braços do sujeito que ocupa a poltrona. Momento crucial, quando a interpretação urge e o apelo à retomada do significante em sua relação com a causa do desejo deve insistir como forma de se estabelecer a separação entre o desejo e o gozo do qual o sujeito que sofre busca ser aliviado. 
São situações em que re-introduzir a dimensão da palavra pode ser uma forma de restabelecer a possibilidade discursiva, ou seja, reordenar um lugar para o sujeito, ao mesmo tempo em que recoloca para ele o saber, a verdade e o objeto. A urgência diz de uma destruição da dimensão discursiva da linguagem, uma ruptura no enlaçamento borromeano. O tempo da urgência é um tempo sem Outro. É isso a ruptura da cadeia significante. O acting-out descrito 
acima é um exemplo disto e, para retomar o caminho da análise será necessário que o lugar de endereçamento da demanda seja restituído para que a demanda de análise possa ser restabelecida. 
Quando isto é possível transforma-se a urgência em porta de entrada, ou re-entrada no processo analítico. Uma passagem ao ato, por outro lado, mostra uma ausência do Outro, ausência de qualquer ancoragem significante, deixando cair um resto, o sujeito. 
Sujeito do gozo e não o sujeito dividido do desejo. Neste caso uma intervenção mais efetiva deve ser feita, muitas vezes com auxílio de um terceiro que possa restabelecer a possibilidade de uma intervenção analítica. Mas mesmo aqui, nesta situação extrema que se caracteriza, usualmente, por auto ou hetero-agressões o lugar do analista deve ser preservado com o objetivo de poder subjetivar o que escapou ao simbólico pelo ato.
A chave do que está em jogo na urgência, portanto, é esta ruptura que produz um significante fora do sentido, sinalizando a presença do Real. Este significante fora do sentido, que aparece fora da cadeia, pode ser o ponto por onde um trabalho de restabelecimento das coordenadas acontece. Esta recolocação do significante na trama do relato é um caminho possível. Em outras palavras, trata-se de uma oferta de um marco significante que possibilite a ação discursiva e a transmutação do gozo em demanda. Assim poderá acontecer uma leitura do texto que paciente traz fazendo surgir o dizer por detrás dos ditos. 
Este trabalho de localização de um significante que possa trazer indícios do sujeito já nos coloca na trilha de estabelecer uma clivagem entre gozo e desejo. Esta clivagem, como já foi enunciando acima, não é possível supor como estabelecida no momento da urgência, quando um significante fora do sentido é o que se apresenta. Na verdade, quem está em estado de urgência é comandado por uma ação sem sentido. Se por ventura nos procura, é por supor que podemos encaminha-lo numa certa direção. 
É fundamental saber que, numa situação de urgência, temos, por um lado um corpo que sofre, um corpo como sede muda de gozo, e por outro, a palavra do paciente como o que pode articular seu sofrimento. A esta articulação chamamos demanda. Demanda de significação que o analista não satisfaz, porque sabe que isso é impossível, pois toda demanda é demanda de nada que só o amor responde. Ao invés de satisfaze-la ele a reenvia a um Outro lugar onde ela pode retornar ao sujeito como mensagem invertida. Esta é a consequência que a posição de escuta e abstinência provoca: a articulação de uma demanda de saber a uma verdade sem saber. 
Saber fazer aí com o que lhe chega é função de quem recebe a urgência: restabelecer as coordenadas no que se disse, recolocando o sujeito para falar, advertido de que existe algo para ser escutado no que se diz.
Desde Freud sabemos que o inconsciente só existe se há alguém para escutá-lo. Escutá-lo, por si só já produz efeitos. Fazê-lo escutar implica em um passo a mais. Implica em ocupar uma posição sustentada em um desejo muito especial. Desejo do analista, conforme a formalização que nos legou Lacan. 
É a operação deste desejo que abre as portas para que se escute o que o paciente, na urgência, diz mais do que sabe que diz. Assim, será possível uma confrontação com o Eu, enquanto instância de desconhecimento.
Por existir uma mensagem não decifrada no dito do paciente, mesmo na urgência é fundamental que nossa intervenção se estruture em torno do que o paciente nos diz. Somente o paciente pode nos dizer onde está a borda do que foi rompido. Para isso é fundamental entrar no discurso do paciente, como nos diz Lacan. Cito o exemplo relatado no livro de Gerard Haddad (O dia que Lacan me adotou), quando ele, seguindo os passos de Lacan, entra no discurso do travesti para faze-lo falar de seu sofrimento e das razões de suas constantes passagens ao ato. Se, por acaso, nos afastamos desta direção vamos cair prisioneiros da própria urgência, agitados pela mesma pressa de quem nos procura: fazer alguma coisa sem saber o que e nem para que. Sem escutar de um Outro lugar, estaremos aprisionados pelos efeitos devastadores da urgência. Por isso, pode-se dizer que a definição de urgência não é alheia à abordagem que dela se faz.
O psicanalista pode encontrar-se com situações de urgência de vários tipos:
1 – Muitas vezes encontramos com uma urgência da própria instituição, quando ela parte da equipe ou de algum de seus membros diante de um fato que o angustia. 
2 – Esta segunda forma é, alguma maneira, um derivado da 
primeira: quando se depara com o urgente do impossível de 
suportar que se apresenta numa equipe que se supõe saber fazer com a angústia. 
3 – A urgência diante de uma dor que não cessa e que, de 
alguma forma o médico percebe que existe ali uma dimensão de mensagem.
4 – A urgência da psicose, que pode acontecer tanto em um local de atendimento psiquiátrico como em hospitais gerais, quando a presença de um fato orgânico desencadeia um “surto”.
Aqui, tanto quanto nas situações que tratamos em nossa exposição, carece deixar que a sequência significante possa restabelecer um sentido qualquer. Lacan nos diz, em seu Seminário sobre As Psicoses o seguinte: “Da mesma forma que em todo discurso, um delírio tem de ser julgado em primeiro lugar como um campo de significação que foi organizado por certo significante, de modo que a primeira regra de um bom interrogatório, e de uma boa investigação da psicose, poderia ser a de deixar falar o maior tempo possível.”

Para concluir reafirmamos que o analista não pode prometer nenhum bem estar moral. Ele oferece sua escuta e, a partir dela ele se autoriza a intervir. Sustentando esta intervenção está a ética do bem dizer e a estratégia que o artifício da transferência lhe oferece. Se o final da urgência coincide com a possibilidade de um tratamento analítico é porque aconteceu a presença de um sujeito, na medida em que um significante o representa para outro significante, possibilitando o retorno ao próprio sujeito da pergunta: Que Voui? Que Queres? Em outras palavras, assim pode- se deixar o sujeito no umbral de sua decisão de enfrentá-la: S(A/). 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Inconsciente, Linguagem, Letra e Sentido

A experiência que tem Lacan do inconsciente não é empirista, mas se ocupa do que já está aí, do que é prévio e do que condiciona toda experiência possível para o sujeito: a linguagem. Linguagem que está no lugar, reservado por Descartes, às ideias inatas.
A experiência se desdobra ante a linguagem e sua estrutura. A estrutura condiciona a experiência e se interpõe entre esta e o sujeito vazio. O saber de todos e cada um, como saber inconsciente, é que não há relação sexual. E nenhuma experiência virá desmentir este axioma inscrito pela linguagem. Por isso Lacan, em Televisão, afirma que estava falando para o homem comum: o homem comum é aquele para quem é verdade que não há relação sexual. Ainda que o homem comum não compreenda, de toda maneira, já sabe.
Há que distinguir da linguagem do inconsciente é no fundo, nosso universal, o discurso do analista que, de maneira nenhuma, pode pretender ser equivalente.
O inconsciente está estruturado como uma linguagem” e “o inconsciente é o discurso do Outro” não são duas fórmulas equivalentes. É preciso acrescentar que o último corte produzido no ensino de Lacan passa, precisamente, entre ambos. O fato de que o inconsciente seja linguagem não implica forçosamente que seja discurso. A divisão está acompanhada pela distinção entre gozo e desejo e a proeminência do gozo na teoria do desejo. De modo que quando dizemos que o inconsciente é linguagem estamos acentuado o gozo, enquanto que ao por em primeiro plano o discurso do inconsciente damos preponderância ao desejo. 
No texto “A Instância da Letra…”, os matemas, as fórmulas da metáfora e metonímia, se baseiam no significante, termo que todavia não se distingue claramente da letra. Será em Televisão que Lacan vai introduzir o conceito de signo para incluir a letra e o significante: o significante é o signo na medida em que tem efeito de sentido, enquanto a letra é o signo considerado por seu efeito de gozo. Assim, se o ponto de vista do significante nos conduz de imediato à teoria da comunicação e a implicar o Outro na linguagem, o ponto de vista da letra é, pelo contrário, autista; é a perspectiva de um gozo que não se dirige ao Outro. 
O gozo, na medida em que concerne ao objeto “a” e não ao Outro, é pseudo sexual. 
É a passagem da função da palavra ao campo da linguagem que permite a Lacan introduzir neste último a função, a instância da escritura. Tudo o que concernente ao sinthoma, a nova doutrina do sintoma, e supõe a formulação de que o inconsciente escreve, que isso se escreve.
O inconsciente escreve e no inconsciente Isso se escrever foi o que permitiu a Lacan aproximar-se de Joyce e poder ver comprovada sua tese de que o inconsciente se escreve. O sintoma, desde o texto Função e Campo da Palavra e da Linguagem já estava remetido a um processo de escritura, ficando a palavra insuficiente para dar conta de sua consistência.
Consequência natural deste desenvolvimento foi estabelecer, em “Televisão” que “na medida em que o inconsciente está interessado, a linguagem introduz as vertentes do sentido e do signo”.
A Linguistica, ao contrário da psicanálise, prescindiu-se do fato que o inconsciente aí está interessado ao trabalhar o significante e o significado. Foi, portanto, com Lacan que este fator foi recuperado e, com ele, pode-se esclarecer que o termo mensagem, concernente ao sintoma, está diretamente dependente da distinção entre o significante e o significado. Esta distinção foi o que levou Lacan a tentar esclarecer (me refiro aqui aos seu primeiros escritos, principalmente Função e Campo...) que a análise operava pelo sentido dado pelo preenchimento das lacunas da história do sujeito pelas suas interpretações. Seriam pedaços desta história, experiências que haviam permanecido não assimiladas, que seriam integradas. Esta forma de trabalhar, no entanto, implicava que a experiência analítica fosse abordada a partir do sentido, o que deixa a posição do analista como sendo o senhor da verdade. (Em Função e Campo Lacan chega mesmo a dizer que o analista está no lugar de onde se decide o sentido) É importante ressaltar aqui que sempre que tratamos do sentido o que está implicada é uma relação com a verdade que se coloca antinomicamente em relação ao Real. Esta distinção é fundamental se se quer chegar a alguma conclusão com respeito a identificação ao sintoma no final de uma análise 
Por tudo isso vamos acompanhar Lacan questionando o sentido e seus limites na experiência analítica ao dizer que sempre que manipulamos o sentido só se chega ao sem sentido. Para esclarecer esta afirmação ele vai trabalhar o sentido dito comum e o cômico na direção, exatamente, o que vai do sentido comum ao cômico. “O sentido comum se caracteriza por ignorar o sem sentido e se mantém como sugestão. Quer dizer que a base do sentido comum é o significante amo, que ignora que ele mesmo seja um sem sentido – o ignora no bom sentido, claro. É algo que se ignora quando se faz – com as melhores intenções do mundo, com compaixão – do significante amo o sentido comum.” É exatamente isso que mascara o sem sentido que vai ser desvelado no final da análise. Quando, muitas vezes, falamos que o neurótico passa sua vida tentando salvar o Pai é essa uma das formalizações possíveis. O neurótico, e aqui as histéricas principalmente, procura nada saber do cómico em jogo no sem sentido do significante mestre que o sentido comum procura manter a todo custo. Este significante que mantém o sujeito assujeitado a um sentido pre-estabelecido pelo circuito congelado da sua fantasia estabelecendo o que JAMiller vai chamar de um sintoma fundamental. Este significante que o discurso do mestre aponta no algoritmo S1/$ o que vai se colocar em condições de construir um chiste pois, assim como o “familionário” que Freud descreve no início de seu livro sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, constitui-se em um novo significante. Esta forma deste significante se apresentar justifica-se pelo fato de que o cómico especula com o sentido ao mesmo tempo que tem um saber sobre o sem sentido. “Existe assim o insensato sobre o que pode jogar o cómico ali onde o sentido sugestiona.” 

(Continua)