Total de visualizações de página

sexta-feira, 23 de março de 2018

Seminário na EBP-MG - Sintoma


Seminário na EBP-MG

Consentir com o inconsciente

O Sintoma

Dia 21 de Março de 2018

Quem não sabe o que busca não identifica o que acha! (Immanuel Kant)

A noção de sintoma analítico é muito importante, pois somente ela nos permite diferenciar a psicanálise de toda outra prática que se refere à psicopatologia.
Hoje se fala muito de sintomas, sintomas do corpo, sintomas psíquicos, anorexia, bulimia, toxicomania, depressão, entre outros, como se existissem categorias capazes de definir um conjunto de indivíduos pelo que sofrem. Esse é todo o esforço do DSM.
Frente a esta objetivação do sintoma que se inscreve em uma política de identificação, é fundamental sustentar a definição do sintoma analítico que diz respeito à singularidade de um sujeito em sua relação ao Outro.
A constituição do sintoma analítico supõe, portanto, ir além dos fenômenos e das aparências do sintoma onde se nutre a queixa, para o articular aos significantes decisivos, produzidos pelo sujeito no seu endereçamento ao analista. O sintoma analítico exige, portanto, que seja decifrado.
É nesta perspectiva que, hoje, vamos trabalhar o conceito de sintoma e todas as suas consequências para a prática de uma psicanálise digna deste nome. 
O sintoma, visto pela psicanálise, pode ser definido de uma forma bem simples: é uma solução para se evitar o encontro com a castração ou se preferirem, com a falta. 
A castração, o “ser do sintoma”, pode ser entendida como um “menos-de-gozo" que advém da extração que o significante opera no campo do Outro. Isto esclarece a idéia de que, para o ser humano, o gozo — termo que deve ser situado em oposição a um outro: o prazer — está desde sempre marcado por uma perda, o que implica que a insatisfação é a marca que caracteriza todo psiquismo. Essa é a operação que traz como consequência, como efeito, o sujeito do inconsciente, e instala, no mesmo movimento, o que se denomina um mal-estar, um certo incômodo representado pela presença de um objeto que foi extraído do campo do Outro e que permanece como um resto não absorvido pelo simbólico, ou seja, um resto que permanece como o mais íntimo e, também, absolutamente estranho para cada sujeito. Essa presença, marcando um impossível, vai gerar um movimento de busca incessante. Esse movimento tem a intenção explícita de restituir o status quo anterior na busca do gozo perdido, esclarecendo que é a partir do que se chama “menos-de-gozo" que vai se instalar o que Lacan denominou Automaton — a repetição da impossibilidade na cadeia significante. Essa repetição, ou seja isso que “não cessa de se escrever” é uma necessidade que vem dizer da impossibilidade (o que “não cessa de não se escrever”) que o próprio recalque originário (Urverdrängung) produz. (Lacan, em Le Sinthome, S. 23, nos diz que não há nenhuma redução radical do quarto termo, mesmo na análise, pois Freud pode enunciar, não sabemos por qual via, que há uma Urverdrangung, um recalque que não é jamais anulado. É da natureza mesma do simbólico de comportar este buraco. É esse buraco que eu viso, e onde  eu reconheço a própria Urverdrangung.)    Contudo, todo esse movimento só se sustenta por existirem pontos de encontros — tiqué — que, pelo fato mesmo de serem sempre faltosos, acenam com a possibilidade de uma certa realização. 
Assim, entre o que “não cessa de não se escrever” (o impossível) e o que “não cessa de se escrever” (necessário), depara-se com um sujeito que, como diz Freud, tem que se haver com um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer (Unlust) ou sofrimento (Leiden) que essa situação cria. Sendo isso o que todo ser falante tem como fundamento de sua estrutura, existe, ainda conforme Freud, uma precondição na formação de sintomas para cada sujeito. 
O sintoma, tal como definido por Freud, é “o resultado de um conflito, que surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido (Libidobefriedigung). As duas forças que entraram em luta — que poderiam ser representadas pelos dois movimentos: “não cessa de não se escrever” e “não cessa de se escrever” — encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado. Em outras palavras pode-se dizer que esse “acordo” seria uma negociação feita de tal forma que o sujeito diria assim: “pago um preço para não saber que existe algo que 'não cessa de não escrever', e esse preço é uma satisfação substitutiva que, ao mesmo tempo em que provoca um certo desprazer (Unlust), é onde posso obter minha satisfação". 
Então, aqui tem alguns dados que são muitos importantes para o desenvolvimento deste seminário: o sintoma é uma tentativa de criar uma harmonia, ali, onde um menos se instalou, provocando uma desarmonia. Ou, levando em conta os desenvolvimentos construídos no último ensino de Lacan, podemos dizer que o sinthoma é um arranjo que cada sujeito cria para sustentar funcionando o enlaçamento de RSI. Este arranjo se define pela presença de um quarto nó, o sinthoma. J.A Miller no texto Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas. (JAMiller in Opção Lacaniana, 60. setembro 2011) nos diz: “Parece-me que, para Lacan, trata-se, em certo momento de seu ensino, de aprender a pensar o sintoma sem o conflito, de subtrair a perspectiva do conflito, apesar do sofrimento, e privilegiar o real da satisfação. A clínica dos nós é uma clínica sem conflitos.
O único conflito é que não conseguimos fazer os nós que queremos -  o que gera sofrimento, indicado às vezes por Lacan. Mas a novidade invisível desta clínica, que agora procuro evidencia-la, é que se trata de uma clínica sem conflito. É uma clínica do engodamento e não da oposição, dos arranjos que permitem uma satisfação e conduzem ao gozo. Há dificuldades, mas não há conflito. A estrutura mesma dos nós não permite a dimensão do conflito. 
(…) Nesta clínica não se trata, como em Freud, de resolver o conflito, mas de obter um novo arranjo, um funcionamento menos custoso para o sujeito.
É nesse ponto que se pode ver uma discordância fundamental entre os conceitos de sintoma para a medicina e para a psicanálise. Se, por um lado, a posição médica se refere à noção de harmonia como um objetivo a alcançar quando se está diante de um sintoma — este, portanto, aparecendo como o que perturba e destrói a harmonia —, o sentido do sintoma vai mudar caso a referência não for mais a harmonia que ele vem perturbar, mas, sim, o fato de que ele é harmônico a uma falta, a um menos, ou seja, à castração. J.- A. Miller, em um texto sobre o envelope formal do sintoma, diz que a palavra sintoma contém o radical “sin”, que quer dizer síntese, reunião, conjunto, o que vem junto, o que coincide. Dessa forma, o sintoma é o que faz coincidir duas coisas: a castração e a satisfação. 
A castração é “o ser do sintoma”, seu núcleo. Esse núcleo vai se apresentar embrulhado, envolvido pelo “envelope formal do sintoma” — seu invólucro significante. Esse termo, utilizado por Lacan no texto De nossos antecedentes, surge de um certo retorno à psiquiatria clássica de Clérambault e da “necessidade que levou Lacan à psicanálise” por ocasião do seu famoso caso Aimée: “Pois a fidelidade ao envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico do qual tomamos o gosto, leva-nos a esse limite onde ele retorna em efeitos de criação”. Esta afirmação de Lacan, feita em 1966, aparece como um prenúncio do que, mais tarde, será definido como “saber aí fazer com seu sinthoma”. “É na medida que o o sintoma faz um falso-furo com o simbólico que existe uma prática qualquer, quer dizer, algo que aparece do dizer, o que, no caso, chamarei de a art-dizer para deslizar rumo ao ardor.”(S.23)
E Lacan continua mais adiante neste seminário: “Eu não penso que a psicanálise seja um sinthoma. Eu penso que ela é uma prática cuja eficácia, apesar de tudo tangível, implica, para mim, que faça isso que chamam meu nó, a saber, esse nó triplo (que posso desenhar)no quadro.” (E neste nó) “O Real, sendo desprovido de sentido, eu estou seguro que o sentido desse real não poderia ser esclarecido senão por  tomá-lo por nada menos que um sinthoma.” 
E, para concluir essa passagem ele afirma: “Não é a psicanálise que é um sinthoma, é o psicanálista.”
Retomando a frase de Lacan descrita acima,  sobre o envelope formal, vemos Miller chamar a atenção para os dois eixos do sintoma: (1) existe, por um lado, um núcleo que se pode denominar castração, sofrimento, “mais-de- gozo” em consequência do “menos-de-gozo” da operação significante. (2) Existe, por outro lado, no sintoma, uma mensagem endereçada ao Outro e que espera uma decifração. 
Em outras palavras, é possível um trajeto na formação do sintoma que, a partir de um "menos" que se instala como consequência da extração do objeto "a" pela operação significante, fazer surgir uma intenção de significação que produz uma resposta que, exatamente por ser da ordem do impossível, relança a busca de significação. Essa busca de significação é a transformação da queixa que emerge do fundo do desprazer em mensagem, fazendo existir o sujeito de uma maneira nova no campo do Outro e sob forma constituída. No entanto, quando se formata uma queixa ou, como nos diz M. Silvestre, quando fazemos coincidir uma queixa e um sofrimento, vamos perceber que ela se desnatura, pois há o que se pode dizer e o que não se pode dizer pela própria impossibilidade do significante em dizer tudo. 
Essa dificuldade é o que faz com que a lógica própria do Outro, ao estabelecer essa relação entre queixa e sofrimento, vá congelar e fixar a queixa numa certa cena. Ou seja, do que se trata aqui é de um certo percurso pulsional que se estabelece na relação do sujeito com um dos objetos que havia anteriormente abandonado, porque a libido é induzida a tomar o caminho da regressão pela fixação que deixou atrás de si, nesses pontos do seu desenvolvimento. Pontos em que queixa e sofrimento, gozo e mensagem, castração e envelope formal se fizeram coincidir. 
Quando alguém vai até um analista, o que se espera é que ele faça um relato de sua infelicidade. Nesse relato, pode-se, então, perceber que há uma harmonia, há um arranjo que faz existir uma satisfação ali mesmo onde o sujeito se queixa de dor. Esse é o paradoxo que Lacan define em Televisão, quando nos diz que “o sujeito é feliz”. E continua: “É mesmo sua definição, pois que ele não pode nada dever senão ao momento oportuno (heur), à sorte (fortune) - em francês felizidade é bonheur -  dito de outra forma, e todo momento oportuno é bom para isso que o mantém, ou seja, o porque ele se repete”. 
Por tudo isso se pode afirmar que o sintoma analítico, quando formatado no campo do Outro, constituído como o que se instaura da cadeia significante, tem estrutura de ficção. Isso demonstra-o muito bem o sintoma histérico, à medida que, na histeria, vê-se o sintoma como ser de verdade do sujeito. Quer dizer, no sintoma histérico o objeto ‘a’ como real virá no lugar da verdade, como muito bem o mostra a estrutura do Discurso da Histeria
Pode-se acrescentar, ainda, que, ao se instalar como “ser de verdade”, o sintoma promove a construção de uma suposição de saber no campo do Outro. Partindo da premissa estrutural de que não há relação entre o sujeito e o Outro, o sujeito está, desde sempre, afastado de sua verdade. O laço possível entre o sujeito e o Outro faz-se pelo sintoma. E se faz com a criação de um “ser de saber” ali, onde a verdade lhe está vetada. 
Sintoma: um novo caminho 
Estrutura de ficção, queixa, sofrimento... não importa como a ele se refira, a verdade é que o sintoma é o que vai dizer de algo que não vai bem e o “clamor da humanidade” é pelo apaziguamento do mal-estar que isso provoca. 
No entanto, é preciso repetir aqui uma afirmação que merece toda atenção: o sintoma é o mais particular que cada um tem e, por outra parte, o mais real. O sintoma é, precisamente, o que faz com que cada um, em alguma coisa, não consiga fazer absolutamente o que lhe está prescrito pelo discurso de seu tempo. Esta afirmação alerta para uma questão de ordem prática e, por que não?, ética. É fundamental ao se escutar o relato da infelicidade de alguém, que se tenha em conta o fato de que essa infelicidade é o que há de mais particular, é o que sustenta esse sujeito como constituído e, mesmo que tenha sido por não estar mais funcionando, como antes, que ele procura uma análise, ainda assim é seu traço mais particular: “Eu sou assim!”, dizem de várias maneiras os candidatos à análise. Talvez, por isso, é que, ao se diferenciar o lugar do analista do lugar do terapeuta, diremos de um compromisso que não é com o movimento humanitário que, com seu clamor, espera poder universalizar o que há de mais particular. O compromisso que se estabelece é com a particularidade de cada um. Pôr-se a serviço dessa verdade supõe um desejo que já foi qualificado de inumano. Talvez, por isso, é que Lacan, em sua Nota Italiana, diz que o analista é o rebotalho da humanidade, à medida que quer saber daquilo que todos querem esquecer. Ou seja, Lacan vai afirmar que o mal-estar na civilização consiste em gozar da renúncia ao gozo. Sim, porque, ao estabelecer uma solução de compromisso entre as duas forças opostas que estão em conflito, o sujeito renuncia a uma possibilidade de um gozo possível. Gozo este que só será possível à medida que o Outro é, por sua vez, esvaziado de gozo, ou seja, à medida que o sujeito deixa de acreditar que o Outro quer dele sua castração, que o Outro vai retirar o que ele tem de mais precioso: seu pequeno nada. Uma analisante explicita muito bem essa questão ao pronunciar esta frase: “Percebi que sempre tive medo de perder o que nunca tive.” 
Na verdade, o que estamos falando pode muito bem ser melhor esclarecido quando colocamos a questão da sexualidade em pauta. Ora, o que está no cerne do que se entende por sexo, mais precisamente por relação sexual — e aqui se refere, obviamente, ao que diz a psicanálise — é a sua impossibilidade, o menos, o resto irredutível de gozo que se assinalou há pouco. Assim, a única possibilidade de estabelecer uma relação com o Outro sexo é pelo viés do sintoma, este sustentado pela fantasia fundamental: [($<> a) - A]. É por isso que as tentativas de se curar o “sexo”, seja pela medicina, seja pelas terapias “sexológicas”, acabam, na maioria das vezes, em fracasso, pois apenas reforçam a impossibilidade que já existe ali. 
Mas, seria possível curar o sexo através da psicanálise? Talvez o que se possa dizer é que, diante da impossibilidade da relação sexual, ela deixe claro que homem e mulher estão do mesmo lado, qual seja, ambos têm apenas uma única maneira de representar o sexo: o simulacro fálico. Em outras palavras, pode-se dizer que ambos os gêneros têm em comum uma só espécie de gozo: o gozo fálico. O que vai diferencia-los é o acesso ao Outro. É essa diferença que os reparte em duas espécies, fazendo obstáculo a que a dimensão cultural de gênero venha recobrir a sexuação. 
Diante do que lhes expus hoje fica aberta a questão que está proposta para esta série de seminários: Como é que, diante do sintoma, pode um sujeito formular uma demanda de análise e como pode um analista promover a escuta desta demanda e dirigir um tratamento a partir daí?
Até o próximo encontro dia 25 de abril de 2018 quando vamos conversar sobre “demanda de análise”!







quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Seminário na EBP-MG

Retomo neste semestre a transmissão da Psicanálise na EBP-MG.

Serão quatro seminários sobre o tema: CONSENTIR COM O INCONSCIENTE, divididos em quatro sub temas:

SINTOMA
DEMANDA DE ANÁLISE
ATO ANALÍTICO
MOMENTO DE CONCLUIR

Maiores informações poderão ser obtidas no App da EBP-MG (Apple Store e Google Play)


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Consentir com o inconsciente


Começo pela constituição do sintoma, partindo do seu "envelope formal": a cadeia significante, para dizer do que é o ser do sintoma: a castração. Deste ponto pode-se perceber sua função de se prestar a fazer laço entre o sujeito e o Outro, aí onde a incidência da fala abriu um espaço entre dois campos: o do sujeito e o do Outro. Em outras palavras, o sintoma está presente no ponto em que a transmissão da castração não se faz toda, enquanto um quarto nó que se presta a enlaçar o ponto mesmo de impossibilidade entre o real e o simbólico. Chama atenção a importância da particularidade do sintoma para aquele que se apresenta com uma queixa em busca de uma análise. A função do analista, neste momento, pode ser resumida da seguinte maneira: transformar o que lhe chega como queixa em sintoma analítico. É o que Lacan chamou, num certo momento de seu ensino, de retificação subjetiva. Operação necessária porque o sujeito da queixa se apresenta mostrando uma certa distância, um certo hiato, entre o que ele deseja ao nível das identificações e os efeitos próprios do sintoma pois, se o sujeito reconhece seu sintoma, ele não quer aí se reconhecer, o que nos leva a supor um caminho que vai desde identificar o sintoma, à entrada do tratamento, até saber do porque foi necessário. Em outras palavras, é fundamental situar o sintoma do lado do que não cessa de se escrever (necessário) que está aí para responder ao não cessar de não se escrever do impossível do real. Em outras palavras, "o ser do sintoma substitui o não-ser do sujeito a partir do lugar onde, no inconsciente, isso pensa. Identificar-se ao sintoma poderá ser entendido, então, como a subjetivação do saber, para o sujeito, do que causou seu sintoma." 
Dito isto, pode ser dada um passo a mais e afirmar, com Lacan, que "no começo da psicanálise está a transferência". Esta frase, escrita na Proposição de 9 de outubro ..., pode ser lida em suas duas vertentes. Por um lado ela diz que foi necessário escutar a ação da transferência, desde o relato de J.Breuer sobre o caso Anna O. e seu manejo (de empecilho para estratégia) para que o método de tratamento (psicanálise) se estabelecesse. Por outro lado, não é possível acontecer uma entrada em análise se a transferência não estiver presente, colocando em ato o laço analítico. A própria transferência é definida como a colocação em ato da realidade sexual do inconsciente. 
A partir desta afirmação, pode-se dizer, com Hervé Castanet, que "a referência à manobra estratégica do início indica, de resto, em que o analista está implicado na sua direção." E que lugar é esse? De uma forma simples, nada mais é que um lugar que trata de preservar um buraco, um vazio, de preferência sob a forma de uma interrogação, que o analisante tenta tamponar, cada vez mais completamente. É isso que o analista deverá manter por seu ato, desde as primeiras entrevistas: um lugar que Lacan especificou como sendo aquele do objeto “a”, mas que, à entrada da análise, toma a consistência do que ele chamou de sujeito suposto saber Este é o lugar que sustenta o analista, na vertente da transferência, como sintoma. Esta é a suposição estranha que traz cada um que chega à análise, de que o Outro sabe, de antemão, o que ele mesmo acredita não saber. Poder das palavras, já postulado no próprio endereçamento ao Outro, pois elas guardam em si mesmas algo do ser do sujeito que deverá vir à luz. 
É, pois, diante deste convite que faz o analisante ao analista: que ele ocupe um lugar que possa restituir o equilíbrio, a harmonia perdida no momento que o sintoma não pode mais sustentar o ponto de inconsistência do enlaçamento do simbólico e o imaginário, que este deverá manejar o tempo necessário para que a operação de esvaziamento dos outros discursos possa abrir espaço ao discurso analítico. Esta operação só é possível a partir do ponto onde o desejo do analista se faz operacionalizável.  Ao tratar deste ponto em sua Proposição..., Lacan, chama a nossa atenção para a objeção que a transferência, por sua estrutura mesma, faz à intersubjetividade. Ponto importante do início de sua teorização, a intersubjetividade cai por terra a partir mesmo do fato de que "nenhum sujeito é suposto por outro sujeito", pois "um sujeito não supõe nada, ele é suposto (...) pelo significante que o representa para um outro significante." 
Daí a fórmula:
                           
                      S ———————————> Sq    
                              s(S1, S2,.... Sn) 

onde "S é o significante da transferência, quer dizer de um sujeito, com sua implicação de um significante que diremos qualquer, quer dizer, que não supõe senão a particularidade". Lacan, mais adiante, nos diz que se ele é passível de ser nomeado por um nome próprio, não quer dizer que ele se distingue pelo saber. Se há um saber que faz toda a diferença, é que, diante da reciprocidade demandada na relação amorosa que se estabelece na transferência este, que se nomeia neste lugar, sabe que há uma dissimetria fundamental: ele não tem o que lhe é pedido. O saber que lhe é atribuído, na verdade está instalado sob a barra, sob o primeiro significante e representado pelo "s” que representa o sujeito que aí resulta implicando, ao parênteses, o saber, suposto presente, dos significantes no inconsciente, significação que toma o lugar do referente ainda latente nesta relação terceira que o une ao par significante-significado." 

A relação analítica, portanto, só se sustenta em função da introdução deste elemento terceiro que é o significante qualquer, consequência do discurso que se instaura: sujeito suposto saber. Saber que o analista não encarna, pois ele nada sabe deste saber suposto, "o Sq da primeira linha nada tem a ver com o S da segunda". Aceitar este traço deixar-se envolver nesta suposição só faz reduzir sua ação à produção de uma identificação que vai reforçar a inércia própria do eixo imaginário. Na verdade, o que se coloca neste momento, é que há um saber a ser construído a partir "do não-saber que se ordena como o quadro do saber, (...) indicando aqui sua relação ao desejo que lhe deu consistência." 
Vamos retomar a clínica para dizer que um sujeito procura análise no momento em que "o sintoma se  apresenta como impossível a assumir" porque o rompimento de seu envelope formal vai colocar a céu aberto o que escapa à representação, à ação do pensamento (gedanken) e que permanece como um resto que Freud, no seu "Projeto ..." denominou de "a coisa" (das Ding). 
Buscar um analista torna-se, então, uma das saídas possíveis. Busca-se, no analista, um saber, como já lhes disse acima, que possa restituir a eficácia do envelope rompido. Na verdade, o analista é o único parceiro que tem a oportunidade de responder à esta demanda. A verdade é que todos procuram um analista, mesmo quando não se dirigem a um. Eles buscam um Outro que responda. Daí as paixões que se desenvolvem em torno da figura paterna, no sujeito histérico, que passa a vida inteira esperando que o pai diga alguma coisa de peso, e no sujeito obsessivo, de outra maneira, que, finalmente, possa falar com ele. Todo este movimento tem como causa a esperança de que seja devolvida, ao sujeito, a sua certeza de ser na singularidade própria de seu sintoma. É Albert Camus, numa passagem que só os escritores criativos produzem, quem diz muito bem do que se trata: "Ele não era nada senão esse coração angustiado, ávido de viver, revoltado contra a ordem mortal do mundo que o tinha acompanhado durante quarenta anos, esse coração que batia sempre com a mesma força contra o muro que o separava de toda e qualquer vida, querendo ir mais longe, ir além e, sobretudo saber*, saber antes de morrer, saber finalmente para ser*, uma só vez, um só segundo, mas para sempre." 
É, portanto, pela via do saber que começa uma análise e neste começo está a transferência: o amor ao saber. 
Responder deste lugar de saber, no entanto, poderá produzir alguns efeitos, mas nunca uma análise. Por isso é importante distinguirmos, com Gerard Miller, "a entrada em análise de seu começo (...) se quisermos dar conta desses alongamentos que se estiram sob o nome de uma análise, sem jamais iniciarem".
Para que uma análise possa acontecer é fundamental a intervenção de um analista. 
Novamente uma distinção se faz necessária. Quando Lacan, em sua conferência intitulada "A terceira" nos diz que "chama sintoma ao que vem do real", ele explicita que este, o sintoma, só se acalma se lhe nutrem de sentido, de tal maneira que só há duas saídas: ou o sintoma prolifera ou se reinventa. Ora, proliferar o sintoma não é bem o objetivo de uma análise, nem muito menos é seu objetivo extinguí-lo. O fundamental é que não nos esqueçamos de que na base do sintoma está uma impossibilidade que, sendo de estrutura, se define por: "não há relação sexual". É a partir mesmo desta impossibilidade que o sentido insiste no 'automaton' da cadeia significante.
Não nutrir o sintoma para que este prolifere, ou como usualmente escutamos: não responder às demandas do analisante propiciando a ele a oportunidade de escutar por detrás dos ditos, é função do analista. Uma interpretação não é, pois, aberta a todos os sentidos (como quiseram estabelecer alguns, entre eles Leclaire e Laplanche) mas ao real que constitui o núcleo do sintoma e aí se coloca como um “x” impedindo que as coisas andem. Ao visar este núcleo, este para-além da significação, a interpretação ou o dizer silencioso do analista - e aqui me refiro ao silêncio da falta de palavras [S(A/)], "porque o que é dito numa interpretação não é o sujeito do analista" - é que vão promover uma volta a mais a partir mesmo do um-a-menos de sua resposta.
  
Esta volta a mais só será possível se o analista não ceder de seu desejo, permitindo que os efeitos do reinado do objeto 'a', enquanto semblante, levem o sujeito à experiência de desamparo (Hilflösigkeit), condição primordial ao surgimento do desejo. É o que pretendo mostrar ao desenhar sobre a topologia do Grafo do Desejo, um Oito Interior. (Vide figuras acima)
Esta volta a mais podemos dizê-la correlativa de um tempo para compreender na medida que, frente à frente com a demanda do Outro, e não mais submetido a um "querer" do analista, o analisante poderá dizer, como o fez outro dia uma cliente: "Saí daqui preocupada com a última sessão. Parece que eu estava sempre querendo falar coisas que lhe interessassem." Este é um sinal claro da presença de uma transferência e, mais ainda, de um certo saber que aponta para um mais-além da demanda, dizendo que uma análise poderá acontecer. 
No entanto, muitas vezes este percurso é paralisado, é interrompido, ou pode até ir um pouco além deste ponto, quando o saber que o sujeito adquiriu durante este tempo de compreender apresenta-se como "suficiente". Para manter-se não sabendo o analisante faz a opção pelo luto do analista para, assim, poder sustentar seus ideais e a crença num Outro. Esta é a esperança de poder evitar saber o que há para saber da "perda forçada" que a entrada na linguagem impõe ao sujeito.
Podemos denominar este momento de uma saída terapêutica aí, onde uma análise poderia ter começado.
Em sua "Nota aos Italianos" Lacan já dizia desta possibilidade ao afirmar que a humanidade não deseja saber e que "não há analista, senão quando um desejo lhe vem"..
Quando, portanto, este certo desejo lhe vem, este analista pode sustentar uma "subversão topológica" e um passo a mais pode ser dado, o que temos é um começo, ou uma "segunda entrada em análise". Este termo, introduzido por Gerard Miller é relembrado por J. A. Miller em seu artigo sobre "As saídas de Análise": "poderíamos nos perguntar se não há sempre, em certo sentido, uma segunda entrada em análise. O sujeito entra em análise antes de efetivamente saber o que é uma análise; por isso é necessário que o analista intervenha para confirmar sua opção".
A confirmação desta opção, acredito, não se faz pela via do saber, mas sim por um consentimento com a experiência do inconsciente. Quando me refiro a consentimento, tenho em mente o que Lacan nos diz em seu Seminário VII - A Ética da Psicanálise: quando, uma vez cumprido o ato do assassinato do pai da horda primitiva, "se instaura um consentimento inaugural que é um tempo essencial na instituição da lei, quanto à qual a arte de Freud será vinculá-la ao assassinato do pai, de identificá-la à ambivalência que então funda as relações do filho com o pai, isto é, ao retorno do amor após efetuado o ato."
Destaco o "retorno do amor" para dizer que aqui também, nesta passagem, o amor de transferência se enlaça neste ponto onde o sujeito vê, para além do narcisismo, o Outro como a própria presença da morte, espreitando. É o momento em que, já não mais podendo ter a garantia da sobrevivência deste Outro de suas virtudes, o sujeito encontra no amor o signo que vai sustentar o giro de quarto de volta  do discurso. Uma segunda entrada em análise poderá acontecer.
Neste ponto convém destacarmos uma diferença entre o que podemos chamar de efeitos da psicoterapia e o que se espera numa análise, a partir mesmo dos efeitos de uma interpretação: as psicoterapias buscam restaurar as significações, ou seja, restaurar a sutura da fantasia. A passagem referida acima, dizendo da "subversão topológica" visa justamente o efeito de separação entre o sujeito e o objeto da fantasia, produzindo um novo sujeito (ein neues subjekt) "no sentido de um efeito novo de separação, na fronteira entre o sujeito e o objeto".


Este percurso descrito até aqui aponta para a passagem de um saber sobre o inconsciente para consentir com a experiência do inconsciente
Este consentimento, obtido a partir da operação do ato analítico, quando o analista não aceita a negociação proposta pelo analisante, é o que permite que se continue o caminho na construção da fantasia fundamental. Construção esta que abre a possibilidade de escolhas, na medida em que o enigma subjetivo, que se mantem sob a máscara da demanda do Outro vai, passo a passo, se fechando. 
Afinal, "obter um sujeito idêntico a si próprio, que não desliza mais na diferença significante" e que possa ter um saldo de gozo possível ao fim de seu trajeto pulsional é o que se espera de análise.




terça-feira, 2 de maio de 2017

Sobre o Sem-sentido e o “Sentido Gozado” (Jouis-sense)

“O que se goza fica esquecido por detrás do dito.” Esta pode ser considerada uma tradução do que se encontra em uma forma mais enigmática no texto L`Etourdit (Scilicet n. 4, pag. 5) – “o que se diz permanece esquecido por detrás do dito, no que se compreende” (Qu`on dise reste oublié derrière ce que se dit dans ce qui s`entend). Esta tradução pode esclarecer uma dificuldade que se apresenta quando articulamos o sentido com o sentido-gozado. Para responder a esta dificuldade, vamos fazer, primeiro, uma transformação em uma pergunta que está sempre presente no nosso dia-a-dia: o que quer dizer? que se transforma, neste momento em: o que quer gozar?
Sabemos que o sentido se escreve a partir do Outro (A), o que nos leva a escrever que o sentido é um “efeito de”. O sentido, portanto, não existe por conta própria. Sua produção implica um Outro: 
                               A s(A)
No entanto, quando estamos tratando da psicanálise, para além deste sentido que se apresenta como efeito do Outro nós implicamos, também, o sentido-gozado. Lembremos que este sentido-gozado foi identificado como parte da própria estrutura da fantasia fundamental:                                             

                                 ($<>a)
s(A)

Podemos ler isto que acabamos de escrever, tomando o Grafo do Desejo como referência, da seguinte forma: “não existe prática analítica sem que o efeito de sentido esteja parasitado pelo efeito de sentido-gozado.” (JAM – Los signos del goce – pag. 315). Esta afirmação implica uma posição ética do analista que se traduz nos seguintes termos: mais além da teoria que sustenta sua prática, o analista sempre se orienta pelo que pode perceber como efeito de sentido-gozado e que se apresenta, simplesmente, como antinômico ao efeito de sentido que se compreende. Em outras palavras, a atenção flutuante do analista deverá ser capaz de captar o que se apresenta como sem sentido dentro de todo o sentido que a palavra nos oferece à compreensão. Desta forma, podemos dizer que o sem sentido é um dos nomes do sentido-gozado. Assim, todas as vezes em que manipulamos o significante produzimos  um sem sentido no sentido à compreender, ao mesmo tempo que o transformamos em sentido para gozar. Este sentido para gozar é o que vai nos tocar, de alguma forma, como por exemplo, no chiste. Se tomarmos o momento do passe como uma referência, verificamos que ele se define pela transformação de um significante que, se destacando do conjunto pleno de sentido, vai produzir um sem sentido e retornar ao sujeito, deslocando-o da posição que, até então, sustentava. Pode-se fazer alusão, aqui, ao sintagma lacaniano que se encontra como título de uma de suas lições de um de seu seminário “L`insu que sait de l`une-bevue s`aille a mourre”: Vers a signifiant nouveau.

Quando um sujeito entra em análise, ele o faz pela via da transferência e, consequentemente, da instalação do Sujeito Suposto Saber - pivô disto que Freud chamou de sintoma analítico. Este Sujeito Suposto Saber só faz nomear, explicitar este efeito de sentido que vem do Outro. Em contra partida, o sem sentido é o que permanece separado do Outro ficando silencioso neste processo de proliferação do sentido a partir do sujeito suposto saber. Este sem sentido, que habita o núcleo da fantasia, é o responsável pela paralisia do sujeito diante de uma frase. No exemplo que Freud constrói, esta frase é: “bate-se numa criança”. O sujeito se detêm diante dela, na ânsia de restabelecer um elo perdido entre o sem sentido que ela aponta e o Outro do discurso. Esta frase, podemos dizer, vale por um significante unário, um S1, que leva o sujeito a inquietar-se, a buscar um outro significante que possa fazer as vezes de S2, estabelecendo um sentido qualquer. Mas, é fundamental se ter em mente que existe, neste ponto,  um paradoxo pois, este S1 além de não pedir uma outra palavra ou outra frase, S2, ele se recusa a isso.

Este ponto exige um pequeno comentário: apenas na psicose  tem-se um sentido-gozado que se relaciona ao Outro. Isto pode ser escrito, com JAM, na seguinte fórmula: js(A), indicando que o Outro está aí para gozar. Está afirmação se justifica a partir da proposição de Lacan que define o paranóico como aquele que identifica o gozo no lugar do Outro. Este Outro, da psicose, não é nunca um Sujeito Suposto Saber, mas sim um Sujeito Julgado Gozar.
Retomando nosso fio condutor reafirmo que um Sujeito Suposto Saber designa a presença de um significante, ou seja, indica um efeito de sentido, enquanto que o sentido-gozado não é suposto, mas experimentado. Quando acontece experimentá-lo, apenas se julga que está aí e se diz: é isso!
É necessário distinguir, do sentido-gozado, o que lhe permite acesso na teoria analítica: a fantasia que está, de alguma forma, articulada ao Outro.
Partindo do andar inferior do grafo: As(A), podemos seguir Lacan e buscar a posição do Outro no efeito de sentido, quando se trata da fantasia:
A/ ($<>a)
A     s(A)
Nestes dois esquemas pode-se perceber uma diferença fundamental que se apresenta em relação ao Outro. Enquanto na relação de sentido temos um Outro sem barra – o que indica a alienação - o Outro que corresponde à fantasia é um Outro modificado, um Outro barrado – que aponta para a separação. Nesta perspectiva a fantasia se coloca como o que responde, no sujeito, à angústia produzida pela presença do desejo do Outro. A barra sobre este Outro nos diz que ele é desejante. A fantasia pode, inclusive, ser considerada como o desejo do Outro ou, mais especificamente, como a interpretação que se fez do desejo do Outro:  de um Outro que não é o da linguagem, mas do desejo. 
Uma outra modificação se impõe na medida em que trabalhamos com a perspectiva de que a fantasia, tal como está escrita no grafo do desejo é uma formação imaginária – por isso está escrita em itálico - (Subversão do Sujeito... Edição JZ, pagina 830-831) e que agora se veste de gozo que é da ordem do real:

                        ($<>a)
                                             a

Duas vertentes podem ser destacadas da fórmula da fantasia a partir de como o objeto a aí se coloca: uma diz respeito ao objeto a na sua função de dividir, a outra, inversamente, na sua função de complementar.
Uma linha de trabalho pode levar pelos caminhos onde a problemática do tamponamento está presente. Se existe uma falta no Outro, e inclusive a falta do Outro, a fantasia estaria aí para fazer-se de tampão. Desde este ponto de vista, a idéia de um atravessamento da fantasia iria implicar no ultrapassamento disso que tampona a falta no Outro, para, consequentemente, acomodar-se a ela. 
Ora, a própria escritura da fórmula da fantasia, por Lacan, implica esta vertente do tamponamento, desta vez de um sujeito que, como falta a ser, se vê compelido a buscar uma figura imaginária, o objeto a, para complementá-lo. Até mesmo quando Lacan trata do objeto a como real, a problemática do tamponamento persiste. No entanto, passo a passo, uma outra vertente vai se impondo que é inversa à precedente: o objeto não tampona, mas divide, barra. Esta divisão é que serve de ponto de partida ao discurso do analista, no qual o objeto a aparece como divisor e não como tampão.
Se levamos em conta a estrutura de extimidade do objeto a poderemos escrever:                                           
                                           a A/

Esta nova perspectiva nos abre caminho para esclarecer que: quando se trata do objeto a como divisor, quando o que está em jogo não é a encenação da fantasia, mas o gozo que o habita, não se pode afirmar que a é sentido-gozado, efeito de sentido, porque o escrevemos como causa. E quando assinala-se ao objeto a função de causa da divisão do sujeito que, a partir daí resultará sensível aos efeitos de sentido, a não é efeito. De modo que não o convertemos no efeito de sentido, mas sim na referência dos efeitos de sentido e, mais ainda, na referência dos efeitos de sentido-gozado.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Eficácia da Psicanálise - O que faz um psicanalista?

O que se espera de um analista? A esta questão que Lacan se propos ele mesmo produziu, na ocasião, uma resposta  contundente e, como não poderia deixar de ser, enigmática: O que se espera de um analista é uma análise. O que faz um analista, portanto, é uma análise!. Isso nos dois sentidos possíveis que o verbo fazer, neste caso, nos aponta: 1- se espera que um analista seja capaz de levar uma análise até seu ponto de impossibilidade e, 2- que um analista possa advir de uma análise.
Encontro, em Silet (1994-1995), a seguinte afirmação de JAMiller: “O que faz o analista: falar do silêncio”. Por isso, certamente, o matema de Lacan que nos diz do silêncio do analista assim escrito: S(A/). Este matema defino  como a própria estrutura do falasser (parlêtre). O falasser tem, como enlaçamento lógico de sua estrutura, o silêncio e o analista deverá, quando falar, falar a partir do silêncio, ou, como nos diz JAM: “guardar o silêncio totalmente, ao falar”. Este é o segredo da interpretação que deverá preservar o lugar do que não se diz, ou melhor ainda, do que não se pode dizer. Esta talvez seja a mais preciosa das interpretações: o desacordo do analista em ocupar um lugar, que lhe demanda o analisante, que permita ao sujeito nutrir seu sintoma de sentido. Desta forma, o analista deverá se colocar mais ao lado daquilo que se cala do que ao lado do que fala, no analisante. 
O S(A/) nos diz do que permanece do significante após a palavra ter sido eliminada. Esta é a consequência da intervenção de um analista que vai propiciar ao significante da falta no Outro assumir seu valor de letra, ou seja, o valor de significante escrito. A escritura, podemos dizer, é a única forma que o ser falante tem para subtrair-se aos artifícios do inconsciente. Enquanto preso à palavra, o sujeito não tem como sair das artimanhas que o inconsciente apresenta e que Freud definiu como sendo suas formações. Isto se explica pelo fato de que, uma letra, ao contrário do significante, tem uma identidade. Enquanto que um significante só se apresenta a partir da diferença e sempre chama um segundo significante. Conhecemos bem as definições do significante que Lacan vai buscar em Saussure: que o significante é profundamente diacrítico – somente se coloca a partir da diferença e da distinção. A letra se basta. Um bom exemplo encontramos no número matemático. O número é cifra e não tem efeitos secundários de significado. Um significante, por outro lado, está posto como aquele que pode representar um sujeito para um outro significante. Ao sujeito, enquanto sujeito do inconsciente, sujeito dividido, só resta permanecer nesta brecha do significante como sujeito a advir, num futuro anterior.
A letra, por outro lado, tem uma identidade. O que se pode traduzir no inconsciente por uma letra, o sintoma, tem dois valores: S1 e a. Estes dois valores nos dizem que o Outro é uma matriz de dupla entrada: a e o Um do significante. 
Sabemos, a partir dos textos de Lacan dos anos setenta, que é possível articular uma certa contabilidade ao gozo. Isto se apresenta sob uma forma bem simples se pensarmos que o inconsciente está estruturado como uma linguagem e que, os significantes que constituem esta cadeia nada mais são do que uma forma que assume a transformação do gozo em algo contábil: a pulsão parcial e seu quantum de energia que Freud tratou de explicitar quando inventou a libido.  
O sintoma, faz o caminho inverso do que tenta o inconsciente. O sintoma é uma função: Lacan nos diz que é uma função matemática, um f(x) que realiza a transferência da contabilidade ao gozo, do simbólico ao real. E o faz ao traduzir o que há do inconsciente em uma letra.

Neste ponto devemos retomar a questão do silêncio do S(A/) ao acrescentarmos que a palavra, na verdade, guarda o silêncio e mesmo, podemos dizer, que ela falha diante do gozo. Por isso uma fantasia não pode ser falada, não pode ser interpretada, mas construída. É o que nos diz Freud a propósito do paradigma da fantasia que se define nos termos mesmo de sua construção como: “uma criança é espancada”. O cerne desta construção só a alcançamos a duras penas pois, o que se constitui como pivô desta cena é o que não nos lembramos, é o que não tem reminiscência e que precisa ser reconstruído. Não se trata, obviamente, de uma construção qualquer, mas de uma construção que responde a uma necessidade lógica em relação a algo que não se pode dizer. “Há o silêncio no coração da fantasia” (JAM).
Este silêncio, podemos correlacioná-lo ao famoso silêncio da pulsão de morte que Freud tão bem descreveu em seu texto “O Eu e o Isso” designando-lhe, como lugar, um possível núcleo do Isso. Assim, quando nos vemos aprisionados por uma pulsão qualquer, experimentamos o constrangimento de não podermos responder com palavras a este silêncio amedrontador que nos coloca servo de um circuito que só temos consciência no momento em que ele se fecha ao final de sua curva, fazendo retornar sobre o sujeito, um sentido-gozado sob a forma do discurso do Outro. 
Isso, que está no coração da fantasia e que habita o circuito pulsional nos diz de uma afinidade do silêncio com o gozo. Se, por um lado, esta afinidade se apresenta sob a forma da vergonha e da culpabilidade, tão comuns nos neuróticos, por outro lado ela nos diz deste ponto, sobre o qual insisto aqui: o silêncio diz respeito a uma falha mais essencial da palavra diante do gozo. O que talvez seja mais incisivo está expresso pelo que a mulher pode dizer de seu gozo: “Silet”, nos lembra Lacan.
Diante de tudo isto há um ponto que considero fundamental: se o analista se faz a partir do silêncio sobre o qual ele se assenta para sustentar uma análise até o seu final, ele precisa estar atento ao risco que existe da infiltração de gozo que este silêncio propicia. Uma das saídas possíveis para evitar este risco nos aponta na direção da importância da supervisão. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sobre a Pulsão

A Pulsão, assim como o conceito de Desejo do Analista, cunhado por Lacan , é um conceito limítrofe. Ele se apresenta no ponto de junção e disjunção, de união e de fronteira. A pulsão, entre o somático e o psíquico. O desejo do analista, entre o desejo e a demanda.  
A pulsão é um conceito inventado por Freud para dar conta de sua clínica e fazer frente às suas próprias demandas de prover sua teoria de um lastro científico. Por isso é que na primeira página do seu trabalho sobre “A pulsão e suas vicissitudes” ele discute, longamente sobre o cientificismo deste conceito, para concluir que a pulsão é um conceito bá­sico, apesar de ainda obscuro.
A noção de pulsão em Freud é absolutamente nova e a maneira como ele a constrói, a partir da experiência do inconsciente, impede que o pensamento psicológico ve­nha lançar mão ao recurso do instinto, disto que podemos chamar de uma moral da natu­reza, como forma de não pensar as consequências da brecha aonde o inconsciente se constitui. Esta é a forma encontrada para quebrar com o que poderia haver de resquícios de um uso, deste vocábulo, anterior à psicanálise como aconteceu e acontece com o conceito de inconsciente.
  Vamos dizer que a pulsão não é a pressão, nem mesmo pode­mos dizer que é natural esta sequência que se apresenta pelos termos: fonte (Quelle), objeto (Objekt) e alvo (Ziel). Ao contrário, produto da incidência da linguagem, a pulsão ex-siste, só se apresentando enquanto um circuito, um circuito que não é outro senão a via que a demanda traça no campo do Outro. Circuito este que deixa como questão saber como o su­jeito encontrará aí seu lugar, pois assim como o próprio conceito abriu sua via no real e se estabeleceu como um “Grundbegriff”, demarcando este real, a cada volta a pulsão produz como consequência um novo sujeito, que como tal permanece como um sujeito a vir, já que vai desaparecer sob o significante que o representa para outro significante. 
Vamos acompanhar, com Lacan cada um dos termos que constituem esta ficção que é a pulsão.
Comecemos pela pressão, que pode ser identificada, desde o princípio a uma pura e simples tendência à descarga, como produto de um estímulo, de um suplemento de energia: Qn, nos diz Freud no Projeto. No entanto, é preciso diferenciá-la quanto a sua origem, de onde ela vem. Esta excitação, “Reiz”, para empregar um termo de Freud, é interna. Nisto ela se diferencia fundamentalmente de todo estímulo externo. Podemos exemplificar com as chamadas necessidades, o “Not”, muito bem demonstrado pela fome ou sede. No entanto, é fundamental distinguí-la do que poderia ser uma manifestação a nível do or­ganismo como um todo. Esta excitação é uma manifestação do campo freudiano como tal, campo este que está descrito como “Real-Ich” no texto do Projeto, nos lembra Lacan, “Real-Ich” que é concebido como suportado, não pelo organismo inteiro, mas pelo sistema nervoso. Existe, nesta concepção do “Real-Ich”, uma característica de sujeito planificado, objetivado. Esta energia, esta “Triebreiz” é o que vai investir certos elementos do campo em questão, investi-los pulsionalmente. Este in­vestimento, ao contrário do que ocorre com as funções biológicas, que sempre tem um ritmo e se sustentam em uma força momentânea (“Momentane Stoss-kraft”) possui como carac­terística ser uma força constante (“Konstante Kraft”)
Para tratarmos do outro termo, alvo, vamos lembrar, com Lacan que a satisfação (Befriedigung) da pulsão consiste em atingi-lo. No entanto, convêm dizer que o próprio Freud vai nos afirmar que uma das quatro vicissitudes da pulsão é a sublimação, que esta,  exatamente, é inibida quanto a seu alvo. Nem por isso ela deixa de nos dizer da satisfação da pulsão. (O exemplo do beijo e da fala é dado por Lacan.) Esta afirmação nos leva ao fato de que “o uso da função da pulsão não tem, para nós, outro alcance que não o de colocar em questão isso que é da satisfação”.
A clínica nos coloca frente a frente com essas situações todos os dias. Cito Lacan: “os pacientes não se satisfazem, como se diz, disso que eles são. E, portanto, nós sabemos que tudo isso que eles são, tudo isso que eles vivem, seus sintomas mesmo, pro­vêem da satisfação. Eles  satisfazem qualquer coisa que vai, sem dúvidas, ao encontro disso que poderia lhes satisfazer ou, talvez melhor, eles satisfazem a qualquer coisa”. Em outras palavras, podemos dizer que eles se dividem entre estar satisfeitos por algo e satisfazer a algo. Toda a nossa questão é procurarmos saber o que é que é isso que é aí satis­feito. 
Vamos tentar esclarecer esta questão do prazer/desprazer e satisfação. O primeiro ponto sera a distinção entre o prazer e a satisfação: a clínica se explica pela diferença entre o que dá prazer e o que satisfaz.
É fundamental não confundir o que satisfaz a alguém, com o que lhe dá prazer. Na neurose, o que parece estranho, fora do sentido, para o sujeito é que seu sintoma produz desprazer, mas eles têm a idéia de que há uma razão para isso: “Deus escreve certo por linhas tortas”, p. ex..
No entanto, quando o sujeito extrai um pouco de prazer com o que está mais além do prazer, isto é, consegue um pouco de prazer com o gozo, trata-se aí de sua fantasia. Mas, quando o sujeito vai satisfazer a algo que o confronta com o mais além do princípio do prazer, dizemos que é um assunto que se passa entre a satisfação e o gozo, e que o que está em questão é a pulsão. Em outras palavras, se colocamos o sujeito do lado da fantasia, ele será satisfeito por algo, se o colocamos do lado da pulsão, teremos um sujeito que satisfaz a algo. Isto é para dizer que, de modo algum o sintoma será o mesmo se o abordamos pela dimensão do prazer e do gozo, ou do gozo e da satisfação. 
Podemos abordar o sintoma de duas maneiras, conforme nos aproximamos dele pela via da fantasia ou da pulsão.
Pela via da fantasia, aqui localizado entre os pontos de gozo e prazer, vemos que o sintoma vai se instalar neste ponto para fazer valer uma certa proteção, ignorar, aquilo que é a causa do desejo. No entanto, estando assim colocado, ele também é capaz de tirar proveito da operação da fantasia que consiste em transformar gozo em prazer, de forma tal que os benefícios secundários vêem para propiciar prazer no desprazer. É o que escapa, apesar do recalque, que retorna como mais-de-gozar, e não como causa. 
Por outro lado, se examinamos o sintoma pelo viés da pulsão, o que vamos constatar é que o sintoma satisfaz a um gozo, exatamente pela interpretação que o neurótico faz da demanda do Outro, como sendo equivalente ao seu desejo. No entanto, colocadas as coisas deste lado, do lado do tesouro de significantes, a possibilidade de transformarmos a queixa em bem-dizer vai se apresentar de uma forma que pode ser descrita desta forma: Até onde se satisfazia gozar, deverá agora tentar examinar a que gozo satisfaz esta divisão sobre a qual você tem o dever de bem-dizer. Ali onde você tinha benefícios secundários, terá agora um gozo permitido. Em outras palavras, o benefício secundário - que é da categoria do gozo clandestino - se transforma num bem dizer - gozo permitido.
Retomemos o nosso percurso: estando satisfeitos o que levaria sujeitos neuróticos a procurar uma análise? Podemos dizer que é na tentativa de se satisfazerem que o desprazer advém e que por isso, eles se dão muito mal. “Até um certo ponto, é esse muito mal a única justificativa de nossa in­tervenção”, como analistas. 
Quanto ao alvo, alcançar a satisfação, não podemos dizer que ele não seja alcançado, mesmo produzindo um desprazer. “O que temos diante nós em aná­lise, é um sistema onde tudo se arranja, e que atinge seu próprio tipo de satisfação.” E, exatamente por sabermos que é possível utilizar-se de outras vias, é que nos autorizamos a ofertar nosso trabalho. E estas outras vias só são possíveis, no que se refere ao nível da pulsão, quando o estado de satisfação pode, aí, ser retificado.
Quanto ao objeto, para podermos tratar dele será necessário lembrar aqui a categoria do impossível. Este impossível é o real, que aparece em Freud como o “obstáculo ao princípio de prazer. O real é o choque, é o fato de que isso não se arranja logo, como quer a mão que se estende em direção aos objetos exteriores. O real, continua Lacan , se distingue pela sua separação do campo do princípio do prazer, por sua desexualiazação, pelo fato de que sua economia admite qualquer coisa de novo, que é justamente o impossível.” Ora, o princípio do prazer pode ser caracterizado exatamente pelo fato de que o impossível, aí estando presente, não é jamais reconhecido como tal. A satisfação pela via da alucinação é uma ilustração de como o princípio do prazer não reconhece o impossí­vel. Esta possibilidade de tratar o impossível é que nos leva a concluir que não é pela apreensão do seu objeto que a pulsão se satisfaz. A distinção entre “Not” e “Bedürfnis”, ou seja, entre necessidade e exigência pulsional aponta para o fato de que nenhum objeto da necessidade pode satisfa­zer a pulsão. A pulsão se satisfaz de seu percurso, de tal maneira que, no que diz respeito à pulsão oral, não é bem da nutrição que ela vai se satisfazer, mas sim ao “escolher o cardápio”. É como ela  recorta o campo do Outro e traz de volta significantes: “isso que vai à boca retorna à boca”. “É isso que nos diz Freud, nos lembra Lacan: O objeto na pulsão, sabemos que não tem, falando propriamente, nenhuma impor­tância. Ele é totalmente indiferente”.
O objeto da pulsão oral, por exemplo, nunca é lembrado como sendo o ali­mento, mas sim o seio. Seio este que, no que diz respeito à sua função na satisfação da pul­são seria formulada desta forma: ele aí se coloca para que “a pulsão aí faça a volta” (Lacan nos chama a atenção para a ambigüidade que tem este “faire le tour” na língua francesa: dar a volta ou escamo­tear).
Uma palavra mais sobre o objeto da pulsão: é dito que eles são objetos par­ciais, mas não porque “eles sejam parte de um objeto total que será o corpo, mas, sim, em função de que eles só representam parcialmente a função que os produz”.
Vejamos agora o que podemos dizer sobre a fonte. A delimitação mesma da “zona erógena”, que a pulsão isola do metabolismo da função, ou seja a diferencia do estômago, esôfago, etc, é feita de um corte que a entrada do significante promove no corpo e vai encontrar subsídio na sua própria estrutura anatômica de ser uma margem ou uma borda. É a brecha do inconsciente que se apresenta no corpo, para dar-lhe testemunho e manter o nível mínimo de tensão, manter uma força constante (Konstante Kraft). 
Para concluir vamos dizer que a partir do que vimos com este desmonte é que a pulsão só se sustenta enquanto uma mon­tagem, uma montagem que se apresenta como não tendo nem pé nem cabeça, bem ao estilo surrealista, nos lembra Lacan. Mas, na verdade esta montagem - longe de ser uma monta­gem imaginária  como podem sugerir as imagens do circuito pulsional que Lacan utiliza - é uma montagem gramatical, onde as inversões tais como exibicionismo - voyeurismo, ou masoquismo - sadismo, são inversões gramaticais, “inversões do sujeito e do objeto, como se o objeto e o sujeito gramaticais fossem funções reais”.

A ética da Psicanálise, portanto, se refere a uma identificação, no cerne da relação ética ao desejo com o limite mesmo que a verdade impõe à toda tentativa de se totalizar o campo de determinação da estrutura. A conexão ética do bem dizer ao que não pode ser totalmente dito, passa portanto, necessariamente, pelo trabalho da pulsão que, sendo parcial sustenta o saber inconsciente através da articulação dos significantes em uma gramática capaz de nos dizer do lugar do sujeito diante do Outro, na medida mesmo em que este lugar está, fundamentalmente, determinado pela relação que este sujeito estabelece com o objeto ao qual se liga, na tentativa de não desaparecer nos intervalos da cadeia significante. É por isso que podemos dizer que a ética que nos concerne pode ser localizada nesta brecha, matemizada como S(A/), onde a falta de garantias se abre à dimensão da responsabilidade. “Não há clínica sem ética”, nos diz JAMiller. Não há clínica Psicanalítica se não levarmos em conta que o desejo que move a ética da psicanálise é co-extensivo dessa falha que define o inconsciente como falta-a-ser. É nesse topos que vamos ver operar o desejo inédito que surge no momento em que um analisante se torna analista. 
Assim como “A Mulher”, o analista que advém desta operação vai ocupar um lugar onde a estrutura não dá conta de conter: a extimidade do objeto “a” que vai, ali,  apresentar-se, na medida que o analista se coloca numa posição tal que possa fazer reinar este objeto como causa de desejo. 

sábado, 18 de março de 2017

Sobre o final de análise

(Para comemorar os 50 anos da Proposição de 9 de outubro de 1967 de Jacques Lacan)

Toda a Proposição de 09 de outubro de 1967 podemos dizer, gira em torno de um “Tornar-se responsável do progresso da Escola, tornar-se psicanalista de sua experiência mesma(1), que continua vivo instituindo o novo no funcionamento(2).
O dispositivo do Passe construído - prudentemente, como nos diz o próprio Lacan - com a “intenção de isolar o que existe do discurso analítico”(3), segue levando à frente o seu objetivo de poder emprestar alguma luz ao princípio que está inscrito nos textos originais da Escola: “o analista só se autoriza de si mesmo”(4). Em outras palavras, é o dispositivo do Passe que “permite a quem pensa poder ser analista, comunicar o que o fez decidir-se e engajar-se num discurso do qual não é, certamente, fácil, ser o suporte”(5).
Mas de que experiência se trata? J. A. Miller nos diz que não é uma experimentação qualquer. “É a experiência entendida como subjetiva”(6), onde o “sujeito se dispõe a experimentar uma, talvez várias transformações, ou ao menos (...) certos estados inéditos para ele”(7). É uma experiência, podemos dizer, que implica num consentimento. Um consentimento com a experiência do inconsciente(8). Uma experiência que só se faz conhecer no “só depois” da significação, ponto onde se pode enlaçar, “no horizonte mesmo da psicanálise em extensão, o círculo interior que traçamos como hiância da psicanálise em intensão”.(9)

Proponho começarmos pelo “envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico...”(10) para examinarmos a incidência de uma interpretação que possibilitou a entrada em análise e, em seguida, trabalharmos a estrutura do sintoma enquanto “geometria do real”(11) para, assim, esclarecermos a interpretação que propiciou a criação de um ponto de báscula no quadro de uma cena onde a travessia do fantasma aconteceu.
O conceito, “envelope formal”, vamos encontrá-lo quando Lacan menciona a genialidade clínica de Clérambault, numa época em que desenvolvia sua teorização a partir da barra que mantinha separado significante e significado. Esta proposta girava em torno da possibilidade do simbólico recobrir todo o campo do imaginário. Nesta perspectiva, o sintoma seria o que vem atrapalhar a bela ordem articulando-se ao que “representa o retorno da verdade como tal na falha do saber”(12).
Minha proposta é instalar o “envelope formal do sintoma”, no andar inferior do Grafo do Desejo. Assim, a “verdade como falha do saber”, vai mobilizar o sujeito na busca de um “suposto saber” que possa restabelecer a estabilidade perdida instalando, na transferência, o sintoma analítico. Este momento de alienação ao Outro vai requerer uma intervenção do analista para que uma entrada em análise possa acontecer.
Se for bem sucedida, esta intervenção vai propiciar ao sujeito um encontro com as demandas do Outro que designam o ponto de fixação do circuito pulsional.
No segundo andar do Grafo, proponho trabalhar o sintoma como “geometria do real”(13). Ora, é o simbolicamente imaginário que vai constituir a verdadeira geometria e não o que surge dos espíritos puros. A geometria do real, nos diz Lacan, é a que tem um corpo, é a que nos referimos quando falamos de estrutura [S(A/)].
Nesta “geometria do real”, o sintoma é o que faz laço com o inconsciente, colocando-se como o quarto elo do nó para, assim, manter ligados o Imaginário, enquanto corpo, ao Simbólico da fala, enquanto o que produz efeitos sobre este mesmo corpo. O Real é o furo que o simbólico promove e contorna.
Esta última formalização, Lacan só pôde construí-la ao deslocar a ênfase que estava colocada sobre a barra do algoritmo S/s o que implicava uma esperança do simbólico recobrir todo o imaginário, para a relação do Simbólico com o Real onde o que está em jogo é um corte que deixa um resto.
Proponho-lhes localizar o final de análise neste ponto onde, depois de um percurso em que uma cena da fantasia fundamental pode ser construída vai acontecer uma interpretação que poderá desmontar o enlaçamento do sofrimento que trouxe o sujeito à análise, ou seja: a fantasia e o sintoma, deixando o sujeito frente a frente com o seu desejo.


Notas:
(1)Lacan, J., “Proposition  du 9 october 1967...”, in Scilicet nº 1, Ed. du Seuil, Paris, 1968, pag. 14.
  NOTA: Esta frase foi motivo de amplo debate entre Guy Clastres e J.A. Miller, publicado em Revue d’École de la Cause Freudienne, nº 18, pag. 209.
(2) Ibidem.
(3)Lacan, J., “Sur l’experience de la passe”, in ORNICAR? 12/13, Ed. du Seuil, Paris, pag. 117.
(4)Lacan, J., “Proposition...” op. cit. pag. 14.
(5)Lacan, J., “Sur l’experience de la passe”. Op. cit. pag. 118.
(6)Miller, J.A., ”Donc, je suis ça”, in Revue de Psychanalyse nº 27, pag. 10.
(7) Ibidem.
(8)Lima, C.R., “A segunda entrada em análise...”, in Opção Lacaniana nº 15, pags. 66-68
(9) Ibidem.
(10)Lacan, J., “De nos antécédents”, in Écrits, Seuil, Paris, 1966,pag. 66.
(11)Lacan, J., “Conferences et Entretiens”, in Scilicet 6-7, Seuil, Paris, 1976, pag. 40.
(12)Idem, - “Du sujet enfim en questions”, in Écrits, Op. cit. pag. 234.
(13)“Symboliquement imaginaire - c’est la geometrie ... la geometrie véritable n’est pas celle que l’on croit, celle que relève des purs esprits, mais celle qu’a un corps. C’est ce que nous voulons dire quand nour parlons de structure.”
- Imaginairement Symbolique - ça s’appelle la vérité.
- Symboliquement rèel - c’est l’angoisse (ce qui du rèel se connote à l’interieur du symbolique)
- Rèellement symbolique - c’est le symbolique inclus dans le réel - le mensonge.
 Lacan, J., “Vers un signifiant noveau”, in ORNICAR? nº17/18, pag. 9.