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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Seminário na EBP-MG : Demanda de Análise

Seminário na EBP-MG
Demanda de análise 
25 de Abril de 2018
“Na ética que inaugura o ato analítico a lógica governa”
(Jacques Lacan,  citado por JA-Miller em  "Lógica da la cura Y posición feminina (El homologo de Málaga)
O saber no real coloca à prova o direcionamento ético dos psicanalistas, pois é 
inquestionável que há “um real em jogo na formação do psicanalista”. É o saber 
portanto que, acedendo ao real o determina ou, em outras palavras, aponta para o 
impossível do real da estrutura do Inconsciente: S (A/). Essa estrutura, como real, deverá 
ser subjetivada na experiência de uma análise e exigirá um franqueamento que se dará 
em salto – da realidade fantasmática ao saber no real – marcando a verdade como um 
lugar onde se escreve esse saber. 



Ao se tratar da clínica psicanalítica é fundamental que se fale da entrada em análise pois somente uma “boa entrada” pode promover uma “boa saída" e, uma “má entrada”, muitas vezes, provoca uma interrupção precoce do tratamento. É evidente que praticamos a Psicanálise desde o momento em que recebemos um candidato a analisante pela primeira vez em nosso consultório pois, o que se espera de um analista é que ele possa assumir esta condição desde este início. 
No nosso primeiro encontro falamos do sintoma. Definimos o sintoma como “uma solução para evitar a castração”. Ressalto que nossa referência é o sujeito da linguagem, o sujeito do inconsciente, e não a pessoa ou indivíduo. Esse sujeito nasce como efeito de um menos (-). Lacan define esse (-) como “menos de gozo”. Para evitar qualquer mal entendido a vertente do gozo de que vamos tratar se refere àquele estado em que o sujeito está ali, sem existir como sujeito, mas sim como coisa. 
Nestas circunstâncias, a percepção de um significante, de uma palavra que veio do Outro cava, neste espaço vazio, uma extração. Retira-se um elemento e, desse lugar onde o elemento foi retirado, pode surgir ali um sujeito. Isso é o que Lacan define, de uma forma concisa e às vezes enigmática: o sujeito é a resposta do real. Isso porque no lugar onde deveria haver um significante que o designaria totalmente tem-se um vazio. Diante desse vazio que Lacan chama de Real tem-se uma resposta que é o sujeito. 
Essa operação de extração de gozo do campo do Outro é uma operação que instala o que se pode denominar de mal-estar ou incômodo. Esse incômodo foi definido por Freud no “Projeto de uma Psicologia Científica” como encontro com o das Ding que produz, como consequência, uma busca incessante ali, onde algo se perdeu numa tentativa de reduzir a zero o que incomoda, dando início a uma repetição infinita. 
Essa repetição, como já vimos no nosso último encontro, Lacan chamou de automaton no Seminário 11: uma repetição que não é a repetição de um mesmo significante, mas sim, a repetição da impossibilidade. A cadeia significante constitui-se em automaton porque nela se repete a impossibilidade. O que não cessa de se não escrever. 
Lacan denominou isto que não cessa de não se escrever de objeto “a”, ou seja, algo que escapa à tentativa do significante de apreender em suas malhas e que dele temos apenas as bordas. 
Assim, pode-se dizer que a repetição acontece porque algo não cessa de não se escrever, e porque algo não cessa de não se escrever promove-se um movimento que não cessa de se escrever: a palavra. Ou seja, uma necessidade. Essa necessidade nada mais é que o sintoma que nasce exatamente a partir do recalque originário, aquele que Freud definiu como o primeiro impossível da existência de um sujeito. 
Esse movimento só se sustenta porque nesse “não cessa de não se escrever” fica uma promessa, a promessa de que um dia, quem sabe, isso que “não cessa de não se escrever” vai se escrever. Lacan nos diz que quando se está na cadeia de significantes, sob o regime do automaton, pode-se eventualmente se deparar com uma tyke, um encontro. É um encontro sempre faltoso que exige, como diz Freud, um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer original que a falta constitutiva do sujeito promoveu. Esse desprazer ou sofrimento é o que pode promover a criação do novo. 
Portanto, vamos ao que é importante: o sintoma é algo da ordem da necessidade que está regida pelo automaton e que pode, na sua repetição, promover uma tykhe, ou seja, um encontro; encontro este que pode propiciar uma retificação qualquer neste sintoma. É por isso que Lacan, num texto muito interessante que está nos Escritos – “De Nossos Antecedentes” – nos diz que o envelope formal do sintoma - que eu entendo como a cadeia de significantes - pode nos levar a um ponto de encontro onde o sintoma reverte-se em efeito de criação. Em outras palavras, uma análise acontece porque o sintoma propicia, na sua repetição, pontos onde uma intervenção pode acontecer e trazer um novo sujeito como efeito de criação. 
Cabe agora uma pergunta: por que o sujeito procura um analista? A maioria das pessoas não procura a análise porque o sintoma delas funciona. Só se procura uma análise quando o sintoma deixa de funcionar. Esse é o momento em que acontece uma conjunção entre queixa e sofrimento. 
Nós conhecemos um grande número de pessoas que passa a vida se queixando e não aceita nenhuma indicação de análise. Por que isso? Porque o "sujeito é feliz", nos diz Lacan em "Televisão". “Eis justamente sua definição dado que ele só pode tudo dever à sorte (heur), à fortuna, dizendo de outro modo, e que toda sorte (heur) lhe é boa para o que o mantém, ou seja, para que ele se repita.” Traduzindo, ele se satisfaz porque está sob a regência de uma pulsão e não de instintos, portanto, ele se satisfaz com qualquer coisa. Em outras palavras, o sujeito se satisfaz, simplesmente, com o fato da pulsão fazer o seu trajeto, para logo se lançar novamente.
A diferença entre a pulsão e o instinto é que o instinto não se satisfaz se não tiver o seu objeto. Quando se está com fome não nos interessa o que comer, um pedaço de pão serve. Agora, quando se está sob a regência da pulsão, quando a fome não está se sobrepondo à pulsão oral enquanto elemento da necessidade, do instinto, pode-se, perfeitamente, ter prazer em assentar à mesa de um restaurante e escolher o cardápio. Esse é o exemplo que Lacan nos dá no Seminário 11 para dizer que à pulsão só interessa o percurso. Imaginem o cardápio como o campo do Outro. O sujeito passa por ele e escolhe seus significantes e fica satisfeito só com o fato de escolher. 
A pulsão diferencia-se do instinto porque à pulsão não interessa o objeto. Freud descobriu isso a partir das pulsões sexuais e sabemos muito bem que a diferenciação da via da pulsão e do instinto é clara. Basta observarmos as escolhas sexuais. O fetichismo, por exemplo. 
O sujeito busca uma análise, portanto, quando seu sintoma falha. O que esse sujeito busca é recolocar o sintoma no lugar onde estava antes, fazendo-o funcionar. Assim uma demanda de análise acontece no momento em que uma queixa se associa a um sofrimento. Na verdade, o que acontece é um pedido a uma outra pessoa, a um Outro que ele escolhe da seguinte forma: “estou aqui porque eu percebi que você sabe, porque eu acho que você sabe e, como eu não quero saber, suponho que você saiba como restituir meu sintoma ao ponto em que ele me dava satisfação sem este excesso de sofrimento”. Em outras palavras, é assim que chegam os candidatos à análise: quando o seu sintoma falha e ele procura alguém, qualquer um, a quem ele empresta um saber sustentado por um traço que ele acredita vai restituir-lhe um sintoma que funcione. 
É assim que se instala o que chamamos de transferência. Em outras palavras, a criação de um sujeito suposto saber restituir ao seu estado anterior um sintoma que deixou de funcionar.
Temos então a seguinte situação: o sujeito chega e dirige seu pedido, sua queixa, sua demanda, a um Outro qualquer ou, em outras palavras, ele chega com o significante de sua queixa e se dirige a um significante qualquer. Lacan diz que é um significante qualquer mas não é qualquer um. É um significante qualquer porque pode-se escolher entre muitos, mas no momento em que se escolhe, esse "qualquer um" deixa de ser qualquer para ser aquele: o significante da transferência. É esse significante que vai nos dizer do sintoma, pois ele indica a borda onde um menos se instalou. Sintoma, este que se sustenta na fantasia fundamental e que nada mais é, portanto, que uma interpretação feita sobre o desejo do Outro. Por isso o sintoma implica numa certa alienação ao Outro. 

         
S …………………………………    Sq
_____________________________

S ( S1, S2, S3 .................Sn )

          
O matema da transferência, desenhado por Lacan no texto da "Proposição de 9 de Outubro", pode ser lida da seguinte forma: Um sujeito chega ao analista trazendo consigo um significante (S), sua queixa e transfere a um significante qualquer (Sq) uma suposição de saber sobre o sujeito em questão, constituindo esse outro como “sujeito suposto saber” decifrar todo o conteúdo do inconsciente. 
Diante deste movimento, o analista tem duas possibilidades, pelo menos. Primeiro, ele pode acreditar que sabe e, segundo, ele pode ter certeza de que não sabe. Na primeira possibilidade vamos ter a Psicoterapia e, na segunda, uma possibilidade de análise. 
Em 1957/58 Lacan estava seriamente empenhado em esvaziar a parafernália imaginária que os supostos freudianos fizeram com a Psicanálise. Nos anos 30, nos anos pós-guerra e principalmente nos anos 50, a Psicanálise inflou-se de imaginário de uma forma insuportável. Lacan, então, se dedicou a esvaziar esse imaginário ou, em outras palavras, reduzir o processo analítico a certas fórmulas que ele chamou de matemas que pudessem trazer, como consequência, uma operação lógica e não uma operação imaginária, plena de sentido. O uso das pequenas letras pode, também, ser visto como uma tentativa de Lacan de trazer a pureza da letra destituída de seu significado e sua possibilidade de produzir poesia que, por não ter uma significação vinculada a ela, oferece a  chance de criação a quem pode ler. Uma dessas possibilidades foi criada com o Grafo do desejo. “… o Grafo - que serviu de referência a Lacan durante anos para a direção do tratamento - apresenta um percurso que segue uma estrutura lógica e oferece a sequência de uma conclusão possível. No essencial inclui duas: o bem uma conclusão em curto-circuito que termina em uma identificação, ou um fim desenvolvido da análise que termina nesse ponto superior que Lacan chamou S(A/).” (J-A Miller, Conferência de fechamento das X Jornadas do Campo Freudiano na Espanha. Málaga, 28 de fevereiro de 1993).
Vamos a ele: No Grafo do desejo o s(A) significa, em linguagem lacaniana, “significação do Outro”. O sujeito procura a análise porque ele interpretou a significação que o Outro deu a ele... estou falando em interpretação porque isso diferencia do que o sujeito viveu na realidade. Vive-se muito mais essa realidade que é nossa interpretação do que aquilo que podemos chamar de realidade exterior. Na verdade nossa realidade, definida como "pouco de realidade" por Lacan, acaba por se constituir a partir mesmo do que foi a interpretação feita pelo sujeito: sua fantasia fundamental. Assim sendo, o que Lacan chama de significação do Outro é o que se constitui como um sintoma. 
Quando a significação do Outro falha o sujeito vai perguntar ao Outro “o que foi mesmo que você falou comigo?” “Repete o que você quer!” Lacan, em seu Seminário XI, nos diz que a única coisa que justifica a nossa intervenção como analista é este mal-mais que acontece quando o sintoma claudica e, se há uma retificação a ser feita na relação do sujeito com a satisfação, esta deverá ser a nível da pulsão. 
Neste momento um suposto analista pode dizer, se ele acreditar que sabe: “faça assim, seja assim, faça como eu”. Vai mostrar, uma série de modelos sustentados em um ideal do que deveria ser, para fornecer um ideal de identificação, como tal, imaginária. Ou seja, inundar de sentido o vazio que se faz presente na fala do sujeito. Seguindo o matema do Grafo do desejo, pode-se dizer que a esse sujeito lhe é oferecido uma i(a), um modelo “x” qualquer a partir do qual ele pode constituir no “m” (moi = eu) a partir da esperança de ser igual àquele modelo.
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Esta pode bem ser uma primeira consequência da queixa transformar-se em sintoma e permanecer sintoma, e não passar a sintoma analítico. 
Existe uma outra vertente. O sujeito encontra um analista que o acolhe em seu sofrimento. A partir daí as demandas poderão ser dirigidas àquele analista. Então, é colocada a questão da existência do sujeito a partir do esvaziamento dos significantes da demanda do Outro. Em outras palavras, é quando o envelope formal do sintoma não mais faz frente ao desamparo (Hiflosigkeit), que o sujeito vai encontrar a dor de existir.
Para que esta experiência possa ser levada a cabo é fundamental um silêncio. Um silêncio que é muito mais que um simples calar-se. É o silêncio da falta de palavra que coloca o sujeito num lugar de onde ele não tem outra saída senão construir algo.
O sujeito busca, então, um significante que poderia representá-lo – o matema da transferência , exposto acima, nos diz isto:
Ele se depara com uma falta e vai, então, se agarrar a um objeto apontado pelo significante que ele escolheu. Ele vai tentar se articular com esse objeto de alguma maneira. E ele o faz a partir dos restos perceptivos que o constituíram num primeiro momento. São as percepções de sua primeira experiência de satisfação e que nunca sofreram tradução de traços de percepção para traços de memória. Alguns destes traços ficam como restos e são estes restos que colocam para o sujeito a pergunta: Que queres? É a partir destes restos, que surgem no trajeto de uma análise, que o sujeito vai construir sua fantasia fundamental.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz: “Não nos interessa explicar porque sua filha é muda, do que se trata  é fazê-la falar !” Ora, a fantasia é muda. Ela é construída a partir de dois elementos estranhos entre si: Simbólico e Real, e se manifesta no Imaginário pois ela nada mais é que a colocação em cena dos significantes primordiais do sujeito.
É, pois, fundamental, que se faça falar o sintoma para construir a fantasia.
Para isto é preciso que o analista se cale como fez Freud diante de suas histéricas. Pois ao “calar-se” coloca aí uma pergunta a mais e cria a possibilidade para que, ao fim do tratamento, a experiência da fantasia fundamental se torne a pulsão.
Escutar as demandas, portanto, não implica ter que respondê-las. Aliás, longe disto. As demandas não são feitas para serem respondidas. Sabe-se que toda demanda, na verdade, é demanda de amor. E o amor? É dar o que não se tem, define muito bem o Dr. Lacan! 
Exatamente por saber da não reciprocidade amorosa - e isto o analista tem que saber - , ele deve fazer silêncio para que as demandas que lhe são dirigidas possam retornar levando a própria mensagem de volta a quem demanda. Importante assinalar que esse silêncio não é qualquer um. Ele está muito bem matemizado por S(A/). Em outras palavras, ali onde se espera uma resposta do Outro é preciso que o falaser se responsabilize.
Essas duas situações aqui definidas como próprias à uma Psicoterapia e à uma Psicanálise, podem ser ditas de outra forma. Na Psicoterapia temos dois sujeitos em questão, o sujeito que sofre e o sujeito que sabe e diz as soluções. Numa Psicanálise temos apenas um sujeito em questão: o analisante. O sujeito do analista fica fora e aí se mantém graças ao exercício do desejo do Analista. 
O discurso do mestre é o discurso do inconsciente. É o discurso que está o tempo todo produzindo sentido. É o discurso do sintoma. É o discurso que mantém sob a barra o sujeito e seu objeto, é o discurso com o qual normalmente o sujeito chega aos nossos consultórios. 
No discurso do mestre, debaixo da barra, está o desejo inconsciente do sujeito: sujeito desejo de objeto.

O discurso do analista vai acontecer quando conseguirmos inverter isso, ou seja, passar para cima da barra os elementos que estão escondidos abaixo da barra no discurso do mestre. 
Quando Lacan disse que o discurso do analista é o avesso do discurso do mestre, ele tinha em mente a estrutura moebiana. A banda de Moebius é aquela fita na qual se faz uma meia torção e se cola as pontas de tal maneira que podemos percorrer toda a fita sem tirar os dedos de cima dela. Ela é muito interessante porque diz do movimento do discurso do analista. A banda de Moebius tem somente um lado e uma borda, portanto diz muito bem que numa análise só tem um sujeito em questão, o analisante.

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Ela demonstra bem como sair do discurso do mestre para o discurso do analista percorrendo um só lado pois, topologicamente, a banda tem um só lado. Ao fazer isso expõe-se a cena que sustenta o sujeito na vida: a cena da fantasia fundamental. 
O discurso do analista é pontual porque ele é insuportável. Ninguém consegue estar frente a frente com sua verdade muito tempo e o objeto a é a verdade do falasser do sintoma: é o ser de verdade do sintoma. Lacan define o sintoma como contendo duas partes. Uma é o ser de verdade que remete ao real da castração, e a outra é o seu invólucro formal: a cadeia de significantes, as palavras, enfim. Então, cada vez que se pronuncia uma palavra, diz-se da fantasia fundamental. É isso que se chama estilo. A forma que cada um dá ao pouco de realidade que o circunda. 
Sabendo que a estrutura do matema dos discursos traz na sua forma a Banda de Moebius verificamos que ao possibilitar o seu giro vemos passar para cima da barra, no discurso do Analista (a - $), o que está sob a barra no discurso do Mestre ($ - a). 
Importante concluirmos dizendo que este giro só acontece se sustentado pelo amor. Pelo amor de transferência. Este amor que se instaura a partir de uma suposição de saber atribuída a quem se oferece como causa. No entanto cumpre ressaltar que esta causa só se sustenta se o analista sabe que ele não tem o “saber” a ele atribuído. Para isto é preciso fazer operar o desejo do analista. Este desejo construído em análise que propicia ao sujeito do analista ficar fora da cena. Esta é a ética que rege o encontro com um analista e que lhe fornece condições para que um ato analítico possa acontecer. 
E para concluir e abrir um espaço para nosso próximo encontro posso, sem receio de estar exagerando, afirmar que uma análise só acontece a partir de um ato que coloque o sujeito em questão.

Até dia 23 de Maio de 2018, quando vamos conversar sobre “O ato analítico

sexta-feira, 23 de março de 2018

Seminário na EBP-MG - Sintoma


Seminário na EBP-MG

Consentir com o inconsciente

O Sintoma

Dia 21 de Março de 2018

Quem não sabe o que busca não identifica o que acha! (Immanuel Kant)

A noção de sintoma analítico é muito importante, pois somente ela nos permite diferenciar a psicanálise de toda outra prática que se refere à psicopatologia.
Hoje se fala muito de sintomas, sintomas do corpo, sintomas psíquicos, anorexia, bulimia, toxicomania, depressão, entre outros, como se existissem categorias capazes de definir um conjunto de indivíduos pelo que sofrem. Esse é todo o esforço do DSM.
Frente a esta objetivação do sintoma que se inscreve em uma política de identificação, é fundamental sustentar a definição do sintoma analítico que diz respeito à singularidade de um sujeito em sua relação ao Outro.
A constituição do sintoma analítico supõe, portanto, ir além dos fenômenos e das aparências do sintoma onde se nutre a queixa, para o articular aos significantes decisivos, produzidos pelo sujeito no seu endereçamento ao analista. O sintoma analítico exige, portanto, que seja decifrado.
É nesta perspectiva que, hoje, vamos trabalhar o conceito de sintoma e todas as suas consequências para a prática de uma psicanálise digna deste nome. 
O sintoma, visto pela psicanálise, pode ser definido de uma forma bem simples: é uma solução para se evitar o encontro com a castração ou se preferirem, com a falta. 
A castração, o “ser do sintoma”, pode ser entendida como um “menos-de-gozo" que advém da extração que o significante opera no campo do Outro. Isto esclarece a idéia de que, para o ser humano, o gozo — termo que deve ser situado em oposição a um outro: o prazer — está desde sempre marcado por uma perda, o que implica que a insatisfação é a marca que caracteriza todo psiquismo. Essa é a operação que traz como consequência, como efeito, o sujeito do inconsciente, e instala, no mesmo movimento, o que se denomina um mal-estar, um certo incômodo representado pela presença de um objeto que foi extraído do campo do Outro e que permanece como um resto não absorvido pelo simbólico, ou seja, um resto que permanece como o mais íntimo e, também, absolutamente estranho para cada sujeito. Essa presença, marcando um impossível, vai gerar um movimento de busca incessante. Esse movimento tem a intenção explícita de restituir o status quo anterior na busca do gozo perdido, esclarecendo que é a partir do que se chama “menos-de-gozo" que vai se instalar o que Lacan denominou Automaton — a repetição da impossibilidade na cadeia significante. Essa repetição, ou seja isso que “não cessa de se escrever” é uma necessidade que vem dizer da impossibilidade (o que “não cessa de não se escrever”) que o próprio recalque originário (Urverdrängung) produz. (Lacan, em Le Sinthome, S. 23, nos diz que não há nenhuma redução radical do quarto termo, mesmo na análise, pois Freud pode enunciar, não sabemos por qual via, que há uma Urverdrangung, um recalque que não é jamais anulado. É da natureza mesma do simbólico de comportar este buraco. É esse buraco que eu viso, e onde  eu reconheço a própria Urverdrangung.)    Contudo, todo esse movimento só se sustenta por existirem pontos de encontros — tiqué — que, pelo fato mesmo de serem sempre faltosos, acenam com a possibilidade de uma certa realização. 
Assim, entre o que “não cessa de não se escrever” (o impossível) e o que “não cessa de se escrever” (necessário), depara-se com um sujeito que, como diz Freud, tem que se haver com um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer (Unlust) ou sofrimento (Leiden) que essa situação cria. Sendo isso o que todo ser falante tem como fundamento de sua estrutura, existe, ainda conforme Freud, uma precondição na formação de sintomas para cada sujeito. 
O sintoma, tal como definido por Freud, é “o resultado de um conflito, que surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido (Libidobefriedigung). As duas forças que entraram em luta — que poderiam ser representadas pelos dois movimentos: “não cessa de não se escrever” e “não cessa de se escrever” — encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado. Em outras palavras pode-se dizer que esse “acordo” seria uma negociação feita de tal forma que o sujeito diria assim: “pago um preço para não saber que existe algo que 'não cessa de não escrever', e esse preço é uma satisfação substitutiva que, ao mesmo tempo em que provoca um certo desprazer (Unlust), é onde posso obter minha satisfação". 
Então, aqui tem alguns dados que são muitos importantes para o desenvolvimento deste seminário: o sintoma é uma tentativa de criar uma harmonia, ali, onde um menos se instalou, provocando uma desarmonia. Ou, levando em conta os desenvolvimentos construídos no último ensino de Lacan, podemos dizer que o sinthoma é um arranjo que cada sujeito cria para sustentar funcionando o enlaçamento de RSI. Este arranjo se define pela presença de um quarto nó, o sinthoma. J.A Miller no texto Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas. (JAMiller in Opção Lacaniana, 60. setembro 2011) nos diz: “Parece-me que, para Lacan, trata-se, em certo momento de seu ensino, de aprender a pensar o sintoma sem o conflito, de subtrair a perspectiva do conflito, apesar do sofrimento, e privilegiar o real da satisfação. A clínica dos nós é uma clínica sem conflitos.
O único conflito é que não conseguimos fazer os nós que queremos -  o que gera sofrimento, indicado às vezes por Lacan. Mas a novidade invisível desta clínica, que agora procuro evidencia-la, é que se trata de uma clínica sem conflito. É uma clínica do engodamento e não da oposição, dos arranjos que permitem uma satisfação e conduzem ao gozo. Há dificuldades, mas não há conflito. A estrutura mesma dos nós não permite a dimensão do conflito. 
(…) Nesta clínica não se trata, como em Freud, de resolver o conflito, mas de obter um novo arranjo, um funcionamento menos custoso para o sujeito.
É nesse ponto que se pode ver uma discordância fundamental entre os conceitos de sintoma para a medicina e para a psicanálise. Se, por um lado, a posição médica se refere à noção de harmonia como um objetivo a alcançar quando se está diante de um sintoma — este, portanto, aparecendo como o que perturba e destrói a harmonia —, o sentido do sintoma vai mudar caso a referência não for mais a harmonia que ele vem perturbar, mas, sim, o fato de que ele é harmônico a uma falta, a um menos, ou seja, à castração. J.- A. Miller, em um texto sobre o envelope formal do sintoma, diz que a palavra sintoma contém o radical “sin”, que quer dizer síntese, reunião, conjunto, o que vem junto, o que coincide. Dessa forma, o sintoma é o que faz coincidir duas coisas: a castração e a satisfação. 
A castração é “o ser do sintoma”, seu núcleo. Esse núcleo vai se apresentar embrulhado, envolvido pelo “envelope formal do sintoma” — seu invólucro significante. Esse termo, utilizado por Lacan no texto De nossos antecedentes, surge de um certo retorno à psiquiatria clássica de Clérambault e da “necessidade que levou Lacan à psicanálise” por ocasião do seu famoso caso Aimée: “Pois a fidelidade ao envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico do qual tomamos o gosto, leva-nos a esse limite onde ele retorna em efeitos de criação”. Esta afirmação de Lacan, feita em 1966, aparece como um prenúncio do que, mais tarde, será definido como “saber aí fazer com seu sinthoma”. “É na medida que o o sintoma faz um falso-furo com o simbólico que existe uma prática qualquer, quer dizer, algo que aparece do dizer, o que, no caso, chamarei de a art-dizer para deslizar rumo ao ardor.”(S.23)
E Lacan continua mais adiante neste seminário: “Eu não penso que a psicanálise seja um sinthoma. Eu penso que ela é uma prática cuja eficácia, apesar de tudo tangível, implica, para mim, que faça isso que chamam meu nó, a saber, esse nó triplo (que posso desenhar)no quadro.” (E neste nó) “O Real, sendo desprovido de sentido, eu estou seguro que o sentido desse real não poderia ser esclarecido senão por  tomá-lo por nada menos que um sinthoma.” 
E, para concluir essa passagem ele afirma: “Não é a psicanálise que é um sinthoma, é o psicanálista.”
Retomando a frase de Lacan descrita acima,  sobre o envelope formal, vemos Miller chamar a atenção para os dois eixos do sintoma: (1) existe, por um lado, um núcleo que se pode denominar castração, sofrimento, “mais-de- gozo” em consequência do “menos-de-gozo” da operação significante. (2) Existe, por outro lado, no sintoma, uma mensagem endereçada ao Outro e que espera uma decifração. 
Em outras palavras, é possível um trajeto na formação do sintoma que, a partir de um "menos" que se instala como consequência da extração do objeto "a" pela operação significante, fazer surgir uma intenção de significação que produz uma resposta que, exatamente por ser da ordem do impossível, relança a busca de significação. Essa busca de significação é a transformação da queixa que emerge do fundo do desprazer em mensagem, fazendo existir o sujeito de uma maneira nova no campo do Outro e sob forma constituída. No entanto, quando se formata uma queixa ou, como nos diz M. Silvestre, quando fazemos coincidir uma queixa e um sofrimento, vamos perceber que ela se desnatura, pois há o que se pode dizer e o que não se pode dizer pela própria impossibilidade do significante em dizer tudo. 
Essa dificuldade é o que faz com que a lógica própria do Outro, ao estabelecer essa relação entre queixa e sofrimento, vá congelar e fixar a queixa numa certa cena. Ou seja, do que se trata aqui é de um certo percurso pulsional que se estabelece na relação do sujeito com um dos objetos que havia anteriormente abandonado, porque a libido é induzida a tomar o caminho da regressão pela fixação que deixou atrás de si, nesses pontos do seu desenvolvimento. Pontos em que queixa e sofrimento, gozo e mensagem, castração e envelope formal se fizeram coincidir. 
Quando alguém vai até um analista, o que se espera é que ele faça um relato de sua infelicidade. Nesse relato, pode-se, então, perceber que há uma harmonia, há um arranjo que faz existir uma satisfação ali mesmo onde o sujeito se queixa de dor. Esse é o paradoxo que Lacan define em Televisão, quando nos diz que “o sujeito é feliz”. E continua: “É mesmo sua definição, pois que ele não pode nada dever senão ao momento oportuno (heur), à sorte (fortune) - em francês felizidade é bonheur -  dito de outra forma, e todo momento oportuno é bom para isso que o mantém, ou seja, o porque ele se repete”. 
Por tudo isso se pode afirmar que o sintoma analítico, quando formatado no campo do Outro, constituído como o que se instaura da cadeia significante, tem estrutura de ficção. Isso demonstra-o muito bem o sintoma histérico, à medida que, na histeria, vê-se o sintoma como ser de verdade do sujeito. Quer dizer, no sintoma histérico o objeto ‘a’ como real virá no lugar da verdade, como muito bem o mostra a estrutura do Discurso da Histeria
Pode-se acrescentar, ainda, que, ao se instalar como “ser de verdade”, o sintoma promove a construção de uma suposição de saber no campo do Outro. Partindo da premissa estrutural de que não há relação entre o sujeito e o Outro, o sujeito está, desde sempre, afastado de sua verdade. O laço possível entre o sujeito e o Outro faz-se pelo sintoma. E se faz com a criação de um “ser de saber” ali, onde a verdade lhe está vetada. 
Sintoma: um novo caminho 
Estrutura de ficção, queixa, sofrimento... não importa como a ele se refira, a verdade é que o sintoma é o que vai dizer de algo que não vai bem e o “clamor da humanidade” é pelo apaziguamento do mal-estar que isso provoca. 
No entanto, é preciso repetir aqui uma afirmação que merece toda atenção: o sintoma é o mais particular que cada um tem e, por outra parte, o mais real. O sintoma é, precisamente, o que faz com que cada um, em alguma coisa, não consiga fazer absolutamente o que lhe está prescrito pelo discurso de seu tempo. Esta afirmação alerta para uma questão de ordem prática e, por que não?, ética. É fundamental ao se escutar o relato da infelicidade de alguém, que se tenha em conta o fato de que essa infelicidade é o que há de mais particular, é o que sustenta esse sujeito como constituído e, mesmo que tenha sido por não estar mais funcionando, como antes, que ele procura uma análise, ainda assim é seu traço mais particular: “Eu sou assim!”, dizem de várias maneiras os candidatos à análise. Talvez, por isso, é que, ao se diferenciar o lugar do analista do lugar do terapeuta, diremos de um compromisso que não é com o movimento humanitário que, com seu clamor, espera poder universalizar o que há de mais particular. O compromisso que se estabelece é com a particularidade de cada um. Pôr-se a serviço dessa verdade supõe um desejo que já foi qualificado de inumano. Talvez, por isso, é que Lacan, em sua Nota Italiana, diz que o analista é o rebotalho da humanidade, à medida que quer saber daquilo que todos querem esquecer. Ou seja, Lacan vai afirmar que o mal-estar na civilização consiste em gozar da renúncia ao gozo. Sim, porque, ao estabelecer uma solução de compromisso entre as duas forças opostas que estão em conflito, o sujeito renuncia a uma possibilidade de um gozo possível. Gozo este que só será possível à medida que o Outro é, por sua vez, esvaziado de gozo, ou seja, à medida que o sujeito deixa de acreditar que o Outro quer dele sua castração, que o Outro vai retirar o que ele tem de mais precioso: seu pequeno nada. Uma analisante explicita muito bem essa questão ao pronunciar esta frase: “Percebi que sempre tive medo de perder o que nunca tive.” 
Na verdade, o que estamos falando pode muito bem ser melhor esclarecido quando colocamos a questão da sexualidade em pauta. Ora, o que está no cerne do que se entende por sexo, mais precisamente por relação sexual — e aqui se refere, obviamente, ao que diz a psicanálise — é a sua impossibilidade, o menos, o resto irredutível de gozo que se assinalou há pouco. Assim, a única possibilidade de estabelecer uma relação com o Outro sexo é pelo viés do sintoma, este sustentado pela fantasia fundamental: [($<> a) - A]. É por isso que as tentativas de se curar o “sexo”, seja pela medicina, seja pelas terapias “sexológicas”, acabam, na maioria das vezes, em fracasso, pois apenas reforçam a impossibilidade que já existe ali. 
Mas, seria possível curar o sexo através da psicanálise? Talvez o que se possa dizer é que, diante da impossibilidade da relação sexual, ela deixe claro que homem e mulher estão do mesmo lado, qual seja, ambos têm apenas uma única maneira de representar o sexo: o simulacro fálico. Em outras palavras, pode-se dizer que ambos os gêneros têm em comum uma só espécie de gozo: o gozo fálico. O que vai diferencia-los é o acesso ao Outro. É essa diferença que os reparte em duas espécies, fazendo obstáculo a que a dimensão cultural de gênero venha recobrir a sexuação. 
Diante do que lhes expus hoje fica aberta a questão que está proposta para esta série de seminários: Como é que, diante do sintoma, pode um sujeito formular uma demanda de análise e como pode um analista promover a escuta desta demanda e dirigir um tratamento a partir daí?
Até o próximo encontro dia 25 de abril de 2018 quando vamos conversar sobre “demanda de análise”!







quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Seminário na EBP-MG

Retomo neste semestre a transmissão da Psicanálise na EBP-MG.

Serão quatro seminários sobre o tema: CONSENTIR COM O INCONSCIENTE, divididos em quatro sub temas:

SINTOMA
DEMANDA DE ANÁLISE
ATO ANALÍTICO
MOMENTO DE CONCLUIR

Maiores informações poderão ser obtidas no App da EBP-MG (Apple Store e Google Play)


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Consentir com o inconsciente


Começo pela constituição do sintoma, partindo do seu "envelope formal": a cadeia significante, para dizer do que é o ser do sintoma: a castração. Deste ponto pode-se perceber sua função de se prestar a fazer laço entre o sujeito e o Outro, aí onde a incidência da fala abriu um espaço entre dois campos: o do sujeito e o do Outro. Em outras palavras, o sintoma está presente no ponto em que a transmissão da castração não se faz toda, enquanto um quarto nó que se presta a enlaçar o ponto mesmo de impossibilidade entre o real e o simbólico. Chama atenção a importância da particularidade do sintoma para aquele que se apresenta com uma queixa em busca de uma análise. A função do analista, neste momento, pode ser resumida da seguinte maneira: transformar o que lhe chega como queixa em sintoma analítico. É o que Lacan chamou, num certo momento de seu ensino, de retificação subjetiva. Operação necessária porque o sujeito da queixa se apresenta mostrando uma certa distância, um certo hiato, entre o que ele deseja ao nível das identificações e os efeitos próprios do sintoma pois, se o sujeito reconhece seu sintoma, ele não quer aí se reconhecer, o que nos leva a supor um caminho que vai desde identificar o sintoma, à entrada do tratamento, até saber do porque foi necessário. Em outras palavras, é fundamental situar o sintoma do lado do que não cessa de se escrever (necessário) que está aí para responder ao não cessar de não se escrever do impossível do real. Em outras palavras, "o ser do sintoma substitui o não-ser do sujeito a partir do lugar onde, no inconsciente, isso pensa. Identificar-se ao sintoma poderá ser entendido, então, como a subjetivação do saber, para o sujeito, do que causou seu sintoma." 
Dito isto, pode ser dada um passo a mais e afirmar, com Lacan, que "no começo da psicanálise está a transferência". Esta frase, escrita na Proposição de 9 de outubro ..., pode ser lida em suas duas vertentes. Por um lado ela diz que foi necessário escutar a ação da transferência, desde o relato de J.Breuer sobre o caso Anna O. e seu manejo (de empecilho para estratégia) para que o método de tratamento (psicanálise) se estabelecesse. Por outro lado, não é possível acontecer uma entrada em análise se a transferência não estiver presente, colocando em ato o laço analítico. A própria transferência é definida como a colocação em ato da realidade sexual do inconsciente. 
A partir desta afirmação, pode-se dizer, com Hervé Castanet, que "a referência à manobra estratégica do início indica, de resto, em que o analista está implicado na sua direção." E que lugar é esse? De uma forma simples, nada mais é que um lugar que trata de preservar um buraco, um vazio, de preferência sob a forma de uma interrogação, que o analisante tenta tamponar, cada vez mais completamente. É isso que o analista deverá manter por seu ato, desde as primeiras entrevistas: um lugar que Lacan especificou como sendo aquele do objeto “a”, mas que, à entrada da análise, toma a consistência do que ele chamou de sujeito suposto saber Este é o lugar que sustenta o analista, na vertente da transferência, como sintoma. Esta é a suposição estranha que traz cada um que chega à análise, de que o Outro sabe, de antemão, o que ele mesmo acredita não saber. Poder das palavras, já postulado no próprio endereçamento ao Outro, pois elas guardam em si mesmas algo do ser do sujeito que deverá vir à luz. 
É, pois, diante deste convite que faz o analisante ao analista: que ele ocupe um lugar que possa restituir o equilíbrio, a harmonia perdida no momento que o sintoma não pode mais sustentar o ponto de inconsistência do enlaçamento do simbólico e o imaginário, que este deverá manejar o tempo necessário para que a operação de esvaziamento dos outros discursos possa abrir espaço ao discurso analítico. Esta operação só é possível a partir do ponto onde o desejo do analista se faz operacionalizável.  Ao tratar deste ponto em sua Proposição..., Lacan, chama a nossa atenção para a objeção que a transferência, por sua estrutura mesma, faz à intersubjetividade. Ponto importante do início de sua teorização, a intersubjetividade cai por terra a partir mesmo do fato de que "nenhum sujeito é suposto por outro sujeito", pois "um sujeito não supõe nada, ele é suposto (...) pelo significante que o representa para um outro significante." 
Daí a fórmula:
                           
                      S ———————————> Sq    
                              s(S1, S2,.... Sn) 

onde "S é o significante da transferência, quer dizer de um sujeito, com sua implicação de um significante que diremos qualquer, quer dizer, que não supõe senão a particularidade". Lacan, mais adiante, nos diz que se ele é passível de ser nomeado por um nome próprio, não quer dizer que ele se distingue pelo saber. Se há um saber que faz toda a diferença, é que, diante da reciprocidade demandada na relação amorosa que se estabelece na transferência este, que se nomeia neste lugar, sabe que há uma dissimetria fundamental: ele não tem o que lhe é pedido. O saber que lhe é atribuído, na verdade está instalado sob a barra, sob o primeiro significante e representado pelo "s” que representa o sujeito que aí resulta implicando, ao parênteses, o saber, suposto presente, dos significantes no inconsciente, significação que toma o lugar do referente ainda latente nesta relação terceira que o une ao par significante-significado." 

A relação analítica, portanto, só se sustenta em função da introdução deste elemento terceiro que é o significante qualquer, consequência do discurso que se instaura: sujeito suposto saber. Saber que o analista não encarna, pois ele nada sabe deste saber suposto, "o Sq da primeira linha nada tem a ver com o S da segunda". Aceitar este traço deixar-se envolver nesta suposição só faz reduzir sua ação à produção de uma identificação que vai reforçar a inércia própria do eixo imaginário. Na verdade, o que se coloca neste momento, é que há um saber a ser construído a partir "do não-saber que se ordena como o quadro do saber, (...) indicando aqui sua relação ao desejo que lhe deu consistência." 
Vamos retomar a clínica para dizer que um sujeito procura análise no momento em que "o sintoma se  apresenta como impossível a assumir" porque o rompimento de seu envelope formal vai colocar a céu aberto o que escapa à representação, à ação do pensamento (gedanken) e que permanece como um resto que Freud, no seu "Projeto ..." denominou de "a coisa" (das Ding). 
Buscar um analista torna-se, então, uma das saídas possíveis. Busca-se, no analista, um saber, como já lhes disse acima, que possa restituir a eficácia do envelope rompido. Na verdade, o analista é o único parceiro que tem a oportunidade de responder à esta demanda. A verdade é que todos procuram um analista, mesmo quando não se dirigem a um. Eles buscam um Outro que responda. Daí as paixões que se desenvolvem em torno da figura paterna, no sujeito histérico, que passa a vida inteira esperando que o pai diga alguma coisa de peso, e no sujeito obsessivo, de outra maneira, que, finalmente, possa falar com ele. Todo este movimento tem como causa a esperança de que seja devolvida, ao sujeito, a sua certeza de ser na singularidade própria de seu sintoma. É Albert Camus, numa passagem que só os escritores criativos produzem, quem diz muito bem do que se trata: "Ele não era nada senão esse coração angustiado, ávido de viver, revoltado contra a ordem mortal do mundo que o tinha acompanhado durante quarenta anos, esse coração que batia sempre com a mesma força contra o muro que o separava de toda e qualquer vida, querendo ir mais longe, ir além e, sobretudo saber*, saber antes de morrer, saber finalmente para ser*, uma só vez, um só segundo, mas para sempre." 
É, portanto, pela via do saber que começa uma análise e neste começo está a transferência: o amor ao saber. 
Responder deste lugar de saber, no entanto, poderá produzir alguns efeitos, mas nunca uma análise. Por isso é importante distinguirmos, com Gerard Miller, "a entrada em análise de seu começo (...) se quisermos dar conta desses alongamentos que se estiram sob o nome de uma análise, sem jamais iniciarem".
Para que uma análise possa acontecer é fundamental a intervenção de um analista. 
Novamente uma distinção se faz necessária. Quando Lacan, em sua conferência intitulada "A terceira" nos diz que "chama sintoma ao que vem do real", ele explicita que este, o sintoma, só se acalma se lhe nutrem de sentido, de tal maneira que só há duas saídas: ou o sintoma prolifera ou se reinventa. Ora, proliferar o sintoma não é bem o objetivo de uma análise, nem muito menos é seu objetivo extinguí-lo. O fundamental é que não nos esqueçamos de que na base do sintoma está uma impossibilidade que, sendo de estrutura, se define por: "não há relação sexual". É a partir mesmo desta impossibilidade que o sentido insiste no 'automaton' da cadeia significante.
Não nutrir o sintoma para que este prolifere, ou como usualmente escutamos: não responder às demandas do analisante propiciando a ele a oportunidade de escutar por detrás dos ditos, é função do analista. Uma interpretação não é, pois, aberta a todos os sentidos (como quiseram estabelecer alguns, entre eles Leclaire e Laplanche) mas ao real que constitui o núcleo do sintoma e aí se coloca como um “x” impedindo que as coisas andem. Ao visar este núcleo, este para-além da significação, a interpretação ou o dizer silencioso do analista - e aqui me refiro ao silêncio da falta de palavras [S(A/)], "porque o que é dito numa interpretação não é o sujeito do analista" - é que vão promover uma volta a mais a partir mesmo do um-a-menos de sua resposta.
  
Esta volta a mais só será possível se o analista não ceder de seu desejo, permitindo que os efeitos do reinado do objeto 'a', enquanto semblante, levem o sujeito à experiência de desamparo (Hilflösigkeit), condição primordial ao surgimento do desejo. É o que pretendo mostrar ao desenhar sobre a topologia do Grafo do Desejo, um Oito Interior. (Vide figuras acima)
Esta volta a mais podemos dizê-la correlativa de um tempo para compreender na medida que, frente à frente com a demanda do Outro, e não mais submetido a um "querer" do analista, o analisante poderá dizer, como o fez outro dia uma cliente: "Saí daqui preocupada com a última sessão. Parece que eu estava sempre querendo falar coisas que lhe interessassem." Este é um sinal claro da presença de uma transferência e, mais ainda, de um certo saber que aponta para um mais-além da demanda, dizendo que uma análise poderá acontecer. 
No entanto, muitas vezes este percurso é paralisado, é interrompido, ou pode até ir um pouco além deste ponto, quando o saber que o sujeito adquiriu durante este tempo de compreender apresenta-se como "suficiente". Para manter-se não sabendo o analisante faz a opção pelo luto do analista para, assim, poder sustentar seus ideais e a crença num Outro. Esta é a esperança de poder evitar saber o que há para saber da "perda forçada" que a entrada na linguagem impõe ao sujeito.
Podemos denominar este momento de uma saída terapêutica aí, onde uma análise poderia ter começado.
Em sua "Nota aos Italianos" Lacan já dizia desta possibilidade ao afirmar que a humanidade não deseja saber e que "não há analista, senão quando um desejo lhe vem"..
Quando, portanto, este certo desejo lhe vem, este analista pode sustentar uma "subversão topológica" e um passo a mais pode ser dado, o que temos é um começo, ou uma "segunda entrada em análise". Este termo, introduzido por Gerard Miller é relembrado por J. A. Miller em seu artigo sobre "As saídas de Análise": "poderíamos nos perguntar se não há sempre, em certo sentido, uma segunda entrada em análise. O sujeito entra em análise antes de efetivamente saber o que é uma análise; por isso é necessário que o analista intervenha para confirmar sua opção".
A confirmação desta opção, acredito, não se faz pela via do saber, mas sim por um consentimento com a experiência do inconsciente. Quando me refiro a consentimento, tenho em mente o que Lacan nos diz em seu Seminário VII - A Ética da Psicanálise: quando, uma vez cumprido o ato do assassinato do pai da horda primitiva, "se instaura um consentimento inaugural que é um tempo essencial na instituição da lei, quanto à qual a arte de Freud será vinculá-la ao assassinato do pai, de identificá-la à ambivalência que então funda as relações do filho com o pai, isto é, ao retorno do amor após efetuado o ato."
Destaco o "retorno do amor" para dizer que aqui também, nesta passagem, o amor de transferência se enlaça neste ponto onde o sujeito vê, para além do narcisismo, o Outro como a própria presença da morte, espreitando. É o momento em que, já não mais podendo ter a garantia da sobrevivência deste Outro de suas virtudes, o sujeito encontra no amor o signo que vai sustentar o giro de quarto de volta  do discurso. Uma segunda entrada em análise poderá acontecer.
Neste ponto convém destacarmos uma diferença entre o que podemos chamar de efeitos da psicoterapia e o que se espera numa análise, a partir mesmo dos efeitos de uma interpretação: as psicoterapias buscam restaurar as significações, ou seja, restaurar a sutura da fantasia. A passagem referida acima, dizendo da "subversão topológica" visa justamente o efeito de separação entre o sujeito e o objeto da fantasia, produzindo um novo sujeito (ein neues subjekt) "no sentido de um efeito novo de separação, na fronteira entre o sujeito e o objeto".


Este percurso descrito até aqui aponta para a passagem de um saber sobre o inconsciente para consentir com a experiência do inconsciente
Este consentimento, obtido a partir da operação do ato analítico, quando o analista não aceita a negociação proposta pelo analisante, é o que permite que se continue o caminho na construção da fantasia fundamental. Construção esta que abre a possibilidade de escolhas, na medida em que o enigma subjetivo, que se mantem sob a máscara da demanda do Outro vai, passo a passo, se fechando. 
Afinal, "obter um sujeito idêntico a si próprio, que não desliza mais na diferença significante" e que possa ter um saldo de gozo possível ao fim de seu trajeto pulsional é o que se espera de análise.




terça-feira, 2 de maio de 2017

Sobre o Sem-sentido e o “Sentido Gozado” (Jouis-sense)

“O que se goza fica esquecido por detrás do dito.” Esta pode ser considerada uma tradução do que se encontra em uma forma mais enigmática no texto L`Etourdit (Scilicet n. 4, pag. 5) – “o que se diz permanece esquecido por detrás do dito, no que se compreende” (Qu`on dise reste oublié derrière ce que se dit dans ce qui s`entend). Esta tradução pode esclarecer uma dificuldade que se apresenta quando articulamos o sentido com o sentido-gozado. Para responder a esta dificuldade, vamos fazer, primeiro, uma transformação em uma pergunta que está sempre presente no nosso dia-a-dia: o que quer dizer? que se transforma, neste momento em: o que quer gozar?
Sabemos que o sentido se escreve a partir do Outro (A), o que nos leva a escrever que o sentido é um “efeito de”. O sentido, portanto, não existe por conta própria. Sua produção implica um Outro: 
                               A s(A)
No entanto, quando estamos tratando da psicanálise, para além deste sentido que se apresenta como efeito do Outro nós implicamos, também, o sentido-gozado. Lembremos que este sentido-gozado foi identificado como parte da própria estrutura da fantasia fundamental:                                             

                                 ($<>a)
s(A)

Podemos ler isto que acabamos de escrever, tomando o Grafo do Desejo como referência, da seguinte forma: “não existe prática analítica sem que o efeito de sentido esteja parasitado pelo efeito de sentido-gozado.” (JAM – Los signos del goce – pag. 315). Esta afirmação implica uma posição ética do analista que se traduz nos seguintes termos: mais além da teoria que sustenta sua prática, o analista sempre se orienta pelo que pode perceber como efeito de sentido-gozado e que se apresenta, simplesmente, como antinômico ao efeito de sentido que se compreende. Em outras palavras, a atenção flutuante do analista deverá ser capaz de captar o que se apresenta como sem sentido dentro de todo o sentido que a palavra nos oferece à compreensão. Desta forma, podemos dizer que o sem sentido é um dos nomes do sentido-gozado. Assim, todas as vezes em que manipulamos o significante produzimos  um sem sentido no sentido à compreender, ao mesmo tempo que o transformamos em sentido para gozar. Este sentido para gozar é o que vai nos tocar, de alguma forma, como por exemplo, no chiste. Se tomarmos o momento do passe como uma referência, verificamos que ele se define pela transformação de um significante que, se destacando do conjunto pleno de sentido, vai produzir um sem sentido e retornar ao sujeito, deslocando-o da posição que, até então, sustentava. Pode-se fazer alusão, aqui, ao sintagma lacaniano que se encontra como título de uma de suas lições de um de seu seminário “L`insu que sait de l`une-bevue s`aille a mourre”: Vers a signifiant nouveau.

Quando um sujeito entra em análise, ele o faz pela via da transferência e, consequentemente, da instalação do Sujeito Suposto Saber - pivô disto que Freud chamou de sintoma analítico. Este Sujeito Suposto Saber só faz nomear, explicitar este efeito de sentido que vem do Outro. Em contra partida, o sem sentido é o que permanece separado do Outro ficando silencioso neste processo de proliferação do sentido a partir do sujeito suposto saber. Este sem sentido, que habita o núcleo da fantasia, é o responsável pela paralisia do sujeito diante de uma frase. No exemplo que Freud constrói, esta frase é: “bate-se numa criança”. O sujeito se detêm diante dela, na ânsia de restabelecer um elo perdido entre o sem sentido que ela aponta e o Outro do discurso. Esta frase, podemos dizer, vale por um significante unário, um S1, que leva o sujeito a inquietar-se, a buscar um outro significante que possa fazer as vezes de S2, estabelecendo um sentido qualquer. Mas, é fundamental se ter em mente que existe, neste ponto,  um paradoxo pois, este S1 além de não pedir uma outra palavra ou outra frase, S2, ele se recusa a isso.

Este ponto exige um pequeno comentário: apenas na psicose  tem-se um sentido-gozado que se relaciona ao Outro. Isto pode ser escrito, com JAM, na seguinte fórmula: js(A), indicando que o Outro está aí para gozar. Está afirmação se justifica a partir da proposição de Lacan que define o paranóico como aquele que identifica o gozo no lugar do Outro. Este Outro, da psicose, não é nunca um Sujeito Suposto Saber, mas sim um Sujeito Julgado Gozar.
Retomando nosso fio condutor reafirmo que um Sujeito Suposto Saber designa a presença de um significante, ou seja, indica um efeito de sentido, enquanto que o sentido-gozado não é suposto, mas experimentado. Quando acontece experimentá-lo, apenas se julga que está aí e se diz: é isso!
É necessário distinguir, do sentido-gozado, o que lhe permite acesso na teoria analítica: a fantasia que está, de alguma forma, articulada ao Outro.
Partindo do andar inferior do grafo: As(A), podemos seguir Lacan e buscar a posição do Outro no efeito de sentido, quando se trata da fantasia:
A/ ($<>a)
A     s(A)
Nestes dois esquemas pode-se perceber uma diferença fundamental que se apresenta em relação ao Outro. Enquanto na relação de sentido temos um Outro sem barra – o que indica a alienação - o Outro que corresponde à fantasia é um Outro modificado, um Outro barrado – que aponta para a separação. Nesta perspectiva a fantasia se coloca como o que responde, no sujeito, à angústia produzida pela presença do desejo do Outro. A barra sobre este Outro nos diz que ele é desejante. A fantasia pode, inclusive, ser considerada como o desejo do Outro ou, mais especificamente, como a interpretação que se fez do desejo do Outro:  de um Outro que não é o da linguagem, mas do desejo. 
Uma outra modificação se impõe na medida em que trabalhamos com a perspectiva de que a fantasia, tal como está escrita no grafo do desejo é uma formação imaginária – por isso está escrita em itálico - (Subversão do Sujeito... Edição JZ, pagina 830-831) e que agora se veste de gozo que é da ordem do real:

                        ($<>a)
                                             a

Duas vertentes podem ser destacadas da fórmula da fantasia a partir de como o objeto a aí se coloca: uma diz respeito ao objeto a na sua função de dividir, a outra, inversamente, na sua função de complementar.
Uma linha de trabalho pode levar pelos caminhos onde a problemática do tamponamento está presente. Se existe uma falta no Outro, e inclusive a falta do Outro, a fantasia estaria aí para fazer-se de tampão. Desde este ponto de vista, a idéia de um atravessamento da fantasia iria implicar no ultrapassamento disso que tampona a falta no Outro, para, consequentemente, acomodar-se a ela. 
Ora, a própria escritura da fórmula da fantasia, por Lacan, implica esta vertente do tamponamento, desta vez de um sujeito que, como falta a ser, se vê compelido a buscar uma figura imaginária, o objeto a, para complementá-lo. Até mesmo quando Lacan trata do objeto a como real, a problemática do tamponamento persiste. No entanto, passo a passo, uma outra vertente vai se impondo que é inversa à precedente: o objeto não tampona, mas divide, barra. Esta divisão é que serve de ponto de partida ao discurso do analista, no qual o objeto a aparece como divisor e não como tampão.
Se levamos em conta a estrutura de extimidade do objeto a poderemos escrever:                                           
                                           a A/

Esta nova perspectiva nos abre caminho para esclarecer que: quando se trata do objeto a como divisor, quando o que está em jogo não é a encenação da fantasia, mas o gozo que o habita, não se pode afirmar que a é sentido-gozado, efeito de sentido, porque o escrevemos como causa. E quando assinala-se ao objeto a função de causa da divisão do sujeito que, a partir daí resultará sensível aos efeitos de sentido, a não é efeito. De modo que não o convertemos no efeito de sentido, mas sim na referência dos efeitos de sentido e, mais ainda, na referência dos efeitos de sentido-gozado.