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quinta-feira, 24 de maio de 2018

Seminário na EBP-MG - Ato Analítico: Uma Formalização


“… a psicanálise não poderia se instaurar sem um ato, sem um ato daquele que aí autoriza a possibilidade, sem um ato do psicanalista, e que no interior deste ato do psicanalista, a tarefa psicanalisante se inscreve …”
(J. Lacan, Sem. O Ato Psicanalítico. Lição de 21/02/68)

“Tornar visível o que não é, fazendo sofrer o olho” (Paul Klee) 
Numa determina passagem de seu livro “O terceiro Ouvido” Theodor Reik (1) nos diz que, assim como um observador que assiste a um trem adentrar um túnel e sair do outro lado, sem nada saber do que se passou lá dentro, o psicanalista faz uma interpretação e reconhece os resultados sem saber bem o que aconteceu.
Esta passagem, que mantenho guardada na memória há alguns muitos anos, é despertada de seu sono em função do tema deste seminário pois, se há algo que um analista pode, e deve, é tentar formalizar os passos da direção de um tratamento de tal modo que eles possam deixar o obscuro inefável para se tornarem fatos transmissíveis.

Nesta linha afirmo que formalizar o momento de uma análise onde o ato analítico acontece, instalando no lugar da verdade um saber que “possa operar enquanto verdade”, é nosso objetivo. Podemos dizer que um sujeito procura análise no momento em que se torna insuportável para ele sua divisão entre saber e verdade. Isto se dá no ponto onde o deslizamento metonímico da cadeia significante se interrompe: “As coisas até aqui caminharam, nos diz alguém, mas não sei porque pararam de andar e até pioraram”. Lacan no seu seminário XI nos diz que “os pacientes, não se satisfazem, como se diz, do que eles são. E portanto, nós sabemos que tudo isso que eles são, tudo isso que eles vivem, seus sintomas mesmo, surgem da satisfação, (...) eles satisfazem a qualquer coisa (...) e estando neste estado de tão pouco “contentamento, eles se contentam”. Só que “por este tipo de satisfação eles se dão muito mal. Até certo ponto é este mal-a-mais que é a única justificativa de uma intervenção" para que no nível da pulsão este estado de satisfação possa ser retificado. 
Assim, sendo, é a partir deste “mal-a-mais” que, surgindo neste ponto em que o saber constituído do sintoma deixa de obturar a verdade da qual o sujeito não quer nada saber, que vamos ver nascer uma demanda de análise e com ela a transferência. 
Uma pequena palavrinha sobre essa verdade da qual o sujeito não quer nada saber: Segundo J. A . Miller no seu seminário de 09.05.90, os escritos de Lacan dividem seu ensino em duas partes e terminam por uma exaltação da verdade, com o texto “A Ciência e a Verdade” (...) Na primeira fase deste ensino a verdade é colocada em oposição ao saber pelo seu caráter nascente na palavra. Ela corresponde à verdade horrível da castração. Já na 2a fase, a verdade não é mais formulada no singular e torna-se uma variável. Em 1973, na “Nota italiana”, o horror da verdade é deslocado para o saber: Lacan vai opor ao horror de saber, o desejo de saber do psicanalista.
A transferência, portanto, está no início do tratamento e se instala aí na tentativa mesmo de, atribuindo a um Outro o saber que falta, alcançar uma resposta que seja o saber último sobre esta sua verdade. É o Sujeito Suposto Saber que surge, fazendo valer um significante qualquer como aquele onde um sujeito poderia ser representado.
Este atribuir a um Outro o que lhe falta é a base da relação amorosa por excelência. Ama-se no Outro o “agalma”, objeto precioso, essência de um ser-em-falta que se ilude no amor ao saber.
Em se tratando da transferência, no entanto, vemos uma dissimetria colocada a priori já que nesta relação há pelo menos um que quer a mudança, há pelo menos que calcula e, ao recusar o lugar de amante que lhe é oferecido responde, por seu não-saber, com um Che Voui ?, um desejo de saber.
Isto nos aponta uma mudança na maneira de ver as coisas pois, se no início da psicanálise muitos pensavam que o inconsciente era um não sabido que iria se tornando cada vez mais sabido, a introdução do objeto pequeno “a” por Lacan, nos diz de uma exteriorização do não-sabido que escapa à cadeia significante e se coloca radicalmente excluído dela.
Fazer operar este objeto “a” enquanto semblante no discurso do analista é tarefa a ser sustentada por alguém: um analista. “A psicanálise é o que se espera de um analista” nos diz Lacan no seu seminário XVII, e continua “e o que se espera de um analista é que faça funcionar seu saber em termos de verdade. É bem por isso que ele se confina num meio-dizer”. 
Em outras palavras podemos dizer que é preciso que exista um analista e este analista só existe na medida em que se colocando como ponto fora da linha, faz operar o vazio onde uma verdade poderá ser transmitida e não um saber ser ensinado. 
Esta operação de transmissão só se faz em ato, ato analítico que, preparado pelo amor de transferência – é o amor que possibilita, enquanto signo, o giro do discurso da histérica para o discurso do analista – se conclui pelo vazio do sujeito. O ato acontece ali onde um sujeito deverá advir. Esta operação que tem como pivô o Sujeito Suposto Saber e por objetivo a destituição deste sujeito suposto, só se sustenta pelo desejo do analista.
Esta é uma operação lógica. O ato enquanto puro não-sentido institui um dizer e cria um fato, onde o axioma da existência – que Lacan traduziu por “Há do UM” (Y a d’l’ UN) – aponta todo o tempo para a impossibilidade do desejo e o infinito da demanda fazendo valer a castração como saída do Édipo.
Lacan, desde o início de sua atividade de transmissão da psicanálise, coloca a topologia, a lógica, e a matemática – enquanto campos da ciência que não comportam nenhuma afirmação de sentido – para auxilia-lo em suas elaborações teóricas.
Escolhi a topologia para tentar levar adiante minha elaboração. Na topologia, escolhi este objeto estranho e de tão difícil apreensão que é a esfera provida de um Cross-Cap, “asfera” como a denomina Lacan. Produto da imersão de uma superfície de duas dimensões no espaço de três dimensões, o Cross-Cap é um objeto também abstrato engendrado teoricamente e sem impurezas. 

                                                                 








No entanto, se admitirmos uma linha de sutura onde existe abstratamente duas componentes conexas que não se cruzam, podemos obter uma imagem concreta do Cross-Cap. 
O Cross-Cap com o qual Lacan trabalhou, e que nos interessa aqui, é aquele que podemos visualizar mas ao qual atribuímos as propriedades daquele que não podemos ver. Dentre as muitas propriedades que este objeto apresenta escolhi algumas que mais convém ao meu propósito. Resumi-la-ei assim: no processo de imersão o ponto do infinito vem instalar-se exatamente ali onde as duas componentes conexas constituem esta linha de falsa auto-intersecção. Esta redução do horizonte a um ponto se precisa disso que esse ponto seja tal que toda linha traçada para aí chegar não o ultrapasse senão passando da face direita do plano a sua face avessa, após sofrer uma torção. Continuando meu pensamento posso dizer, com Lacan, que essa linha traçada é a “linha sem pontos” do corte que representa o dito que faz sujeito e que não pode se produzir senão de uma superfície já marcada de um “ponto fora da linha” ponto este que só se especifica de uma dupla volta instalada sobre uma esfera.
 Suponhamos agora, e aqui está a minha contribuição, que esta linha enquanto percorrendo a face direita da “asfera” seja a mostração do trajeto do sujeito na medida em que se faz representar na cadeia significante que sustenta o saber do seu sintoma. Suponhamos ainda que esta cadeia deslize sem maiores problemas até um ponto em que uma estagnação acontece. Ora é em função desta estagnação que vamos ver surgir aquilo que chamamos a pouco de “mal-a-mais” e que vai levar um sujeito a formular uma demanda de análise e uma transferência vai acontecer. 
Agora, se esta estagnação ocorre durante o tratamento é porque a transferência está operando enquanto resistência. Bom, Freud já nos esclareceu que estes pontos de resistência, pontos de silêncio que acontecem quando a associação livre é interrompida, são a consequência do analista estar ocupando um lugar destacado no pensamento do analisante. Estes momentos de estagnação, no entanto, longe de serem tempos mortos, perdidos para o sujeito, são ao contrário intervalos onde desponta um material específico, aquele da relação ao objeto, quer dizer, aquele da fantasia. 

Momento crucial onde o ato não deve faltar pois somente um ato vai restaurar a função do objeto “a” enquanto semblante, assim como foi um ato que colocou o sujeito em análise. E não deve faltar sob pena do analista, então, se apresentar como presença maciça, fixa, entravando a espontaneidade da fala. Importante assinalar  neste ponto que esta operação se sustenta no desejo do analista que faz barra ao gozo que aí se apresenta relançando o vector na direção de uma construção da fantasia. 
Retomando o nosso modelo topológico podemos dizer que se o ato falta o analista vai ocupar, não este ponto fora da linha (a), mas um ponto na linha (I (a)), impedindo o deslizamento metonímico ao não permitir o ultrapassamento no ponto do infinito, ao não permitir uma passagem da face direita para a face avessa. Em outras palavras, eu diria que teremos então um duplo corte e não mais uma dupla volta. Isto transforma as propriedades do objeto, criando uma banda circular e não mais uma banda de Moebius e um disco. Talvez então, agora, possa afirmar que é exatamente o ato, o ato da interpretação que, tal qual o dedo de São João de Leonardo Da Vinci apontando para o vazio, enquanto fio cortante da verdade e considerando “a necessidade lógica do momento onde o sujeito como X se constitui da “Urverdrängung, da queda necessária do significante primeiro”, restaura o significante enquanto puro não sentido e portador da infinitização do valor do sujeito. Temos aí então a verdade não enquanto horror mais enquanto uma variável quântica: A verdade é não toda! Desta forma vamos ter não a instalação de um único sentido com se tenta, quando se ensina um saber a alguém, nem muito menos a abertura a todos os sentidos. O ato analítico simplesmente abole todos os sentidos. Desta forma, não se deixa outra saída ao analisante senão que aí, neste ponto do infinito, neste ponto onde um puro não-sentido foi produzido faça uma passagem e construa um saber no campo que se abre em consequência da incidência do fio cortante da verdade, pelo ato psicanalítico. Podemos concluir dizendo que este saber que se constrói, tem como centro um “não-saber” que, sendo o núcleo do entusiasmo, não surge por uma relação a si-mesmo, mas como pertencendo à estrutura de um modo essencial, até o ponto de constituir a possibilidade do “Único saber oportuno”. 
Para concluir posso dizer que esta mostração, a partir do Corss-Cap, torna-se melhor compreendida se acrescentar algumas observações de ordem teórica:
1 – A castração e o infinito estão enlaçados e marcam da mesma maneira, essencial, a ordem do desejo. Castração, infinito e desejo têm o mesmo alcance “lógico”, aquele de um axioma ou teorema da existência.
2 – A interpretação é do sentido (na mostração que lhes apresento, sentido da linha que visa para além deste ponto do infinito) e vai contra a significação.
3 – A fantasia, esta que se apresenta nos momentos de estagnação da cadeia significante, não se interpreta e a interpretação visa recolocar a “causa” em função de agente para que uma construção desta fantasia possa ser efetivada. Da fantasia em sua relação com a cadeia significante posso apenas dizer, com Jacques-alain Miller que ela é “uma fixidez silenciosa”.
4 – Se a interpretação nos deixa uma certa liberdade quando a seu modo, o modelo topológico que escolhi para esta mostração nos aponta para o contrário quando se refere ao seu momento. O instante de olhar coincidindo com o momento de concluir nos diz disso que funda, no sentido e não-sentido radical do sujeito, a função da liberdade, como sendo propriamente um significante que mata todos os sentidos.
5 – Infinito e castração, representados no Cross-Cap pelo ponto do infinito, apontam para o “existe UM” fazendo limite ao “todo” e nos diz que a razão aí é que isso que o discurso analítico diz respeito é o sujeito que, como efeito de significação, é resposta do real.

NOTAS:

(1) - O livro mais famoso de Reik, O terceiro ouvido (1948) descreve como psicanalistas usam seu próprio inconsciente para detectar e decifrar os desejos inconscientes e fantasias de seus paciente. De acordo com Reik, analistas conseguem entender seus pacientes mais profundamente examinando suas próprias intuições inconscientes sobre seus pacientes. (Wikipedia)


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Seminário na EBP-MG : Demanda de Análise

Seminário na EBP-MG
Demanda de análise 
25 de Abril de 2018
“Na ética que inaugura o ato analítico a lógica governa”
(Jacques Lacan,  citado por JA-Miller em  "Lógica da la cura Y posición feminina (El homologo de Málaga)
O saber no real coloca à prova o direcionamento ético dos psicanalistas, pois é 
inquestionável que há “um real em jogo na formação do psicanalista”. É o saber 
portanto que, acedendo ao real o determina ou, em outras palavras, aponta para o 
impossível do real da estrutura do Inconsciente: S (A/). Essa estrutura, como real, deverá 
ser subjetivada na experiência de uma análise e exigirá um franqueamento que se dará 
em salto – da realidade fantasmática ao saber no real – marcando a verdade como um 
lugar onde se escreve esse saber. 



Ao se tratar da clínica psicanalítica é fundamental que se fale da entrada em análise pois somente uma “boa entrada” pode promover uma “boa saída" e, uma “má entrada”, muitas vezes, provoca uma interrupção precoce do tratamento. É evidente que praticamos a Psicanálise desde o momento em que recebemos um candidato a analisante pela primeira vez em nosso consultório pois, o que se espera de um analista é que ele possa assumir esta condição desde este início. 
No nosso primeiro encontro falamos do sintoma. Definimos o sintoma como “uma solução para evitar a castração”. Ressalto que nossa referência é o sujeito da linguagem, o sujeito do inconsciente, e não a pessoa ou indivíduo. Esse sujeito nasce como efeito de um menos (-). Lacan define esse (-) como “menos de gozo”. Para evitar qualquer mal entendido a vertente do gozo de que vamos tratar se refere àquele estado em que o sujeito está ali, sem existir como sujeito, mas sim como coisa. 
Nestas circunstâncias, a percepção de um significante, de uma palavra que veio do Outro cava, neste espaço vazio, uma extração. Retira-se um elemento e, desse lugar onde o elemento foi retirado, pode surgir ali um sujeito. Isso é o que Lacan define, de uma forma concisa e às vezes enigmática: o sujeito é a resposta do real. Isso porque no lugar onde deveria haver um significante que o designaria totalmente tem-se um vazio. Diante desse vazio que Lacan chama de Real tem-se uma resposta que é o sujeito. 
Essa operação de extração de gozo do campo do Outro é uma operação que instala o que se pode denominar de mal-estar ou incômodo. Esse incômodo foi definido por Freud no “Projeto de uma Psicologia Científica” como encontro com o das Ding que produz, como consequência, uma busca incessante ali, onde algo se perdeu numa tentativa de reduzir a zero o que incomoda, dando início a uma repetição infinita. 
Essa repetição, como já vimos no nosso último encontro, Lacan chamou de automaton no Seminário 11: uma repetição que não é a repetição de um mesmo significante, mas sim, a repetição da impossibilidade. A cadeia significante constitui-se em automaton porque nela se repete a impossibilidade. O que não cessa de se não escrever. 
Lacan denominou isto que não cessa de não se escrever de objeto “a”, ou seja, algo que escapa à tentativa do significante de apreender em suas malhas e que dele temos apenas as bordas. 
Assim, pode-se dizer que a repetição acontece porque algo não cessa de não se escrever, e porque algo não cessa de não se escrever promove-se um movimento que não cessa de se escrever: a palavra. Ou seja, uma necessidade. Essa necessidade nada mais é que o sintoma que nasce exatamente a partir do recalque originário, aquele que Freud definiu como o primeiro impossível da existência de um sujeito. 
Esse movimento só se sustenta porque nesse “não cessa de não se escrever” fica uma promessa, a promessa de que um dia, quem sabe, isso que “não cessa de não se escrever” vai se escrever. Lacan nos diz que quando se está na cadeia de significantes, sob o regime do automaton, pode-se eventualmente se deparar com uma tyke, um encontro. É um encontro sempre faltoso que exige, como diz Freud, um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer original que a falta constitutiva do sujeito promoveu. Esse desprazer ou sofrimento é o que pode promover a criação do novo. 
Portanto, vamos ao que é importante: o sintoma é algo da ordem da necessidade que está regida pelo automaton e que pode, na sua repetição, promover uma tykhe, ou seja, um encontro; encontro este que pode propiciar uma retificação qualquer neste sintoma. É por isso que Lacan, num texto muito interessante que está nos Escritos – “De Nossos Antecedentes” – nos diz que o envelope formal do sintoma - que eu entendo como a cadeia de significantes - pode nos levar a um ponto de encontro onde o sintoma reverte-se em efeito de criação. Em outras palavras, uma análise acontece porque o sintoma propicia, na sua repetição, pontos onde uma intervenção pode acontecer e trazer um novo sujeito como efeito de criação. 
Cabe agora uma pergunta: por que o sujeito procura um analista? A maioria das pessoas não procura a análise porque o sintoma delas funciona. Só se procura uma análise quando o sintoma deixa de funcionar. Esse é o momento em que acontece uma conjunção entre queixa e sofrimento. 
Nós conhecemos um grande número de pessoas que passa a vida se queixando e não aceita nenhuma indicação de análise. Por que isso? Porque o "sujeito é feliz", nos diz Lacan em "Televisão". “Eis justamente sua definição dado que ele só pode tudo dever à sorte (heur), à fortuna, dizendo de outro modo, e que toda sorte (heur) lhe é boa para o que o mantém, ou seja, para que ele se repita.” Traduzindo, ele se satisfaz porque está sob a regência de uma pulsão e não de instintos, portanto, ele se satisfaz com qualquer coisa. Em outras palavras, o sujeito se satisfaz, simplesmente, com o fato da pulsão fazer o seu trajeto, para logo se lançar novamente.
A diferença entre a pulsão e o instinto é que o instinto não se satisfaz se não tiver o seu objeto. Quando se está com fome não nos interessa o que comer, um pedaço de pão serve. Agora, quando se está sob a regência da pulsão, quando a fome não está se sobrepondo à pulsão oral enquanto elemento da necessidade, do instinto, pode-se, perfeitamente, ter prazer em assentar à mesa de um restaurante e escolher o cardápio. Esse é o exemplo que Lacan nos dá no Seminário 11 para dizer que à pulsão só interessa o percurso. Imaginem o cardápio como o campo do Outro. O sujeito passa por ele e escolhe seus significantes e fica satisfeito só com o fato de escolher. 
A pulsão diferencia-se do instinto porque à pulsão não interessa o objeto. Freud descobriu isso a partir das pulsões sexuais e sabemos muito bem que a diferenciação da via da pulsão e do instinto é clara. Basta observarmos as escolhas sexuais. O fetichismo, por exemplo. 
O sujeito busca uma análise, portanto, quando seu sintoma falha. O que esse sujeito busca é recolocar o sintoma no lugar onde estava antes, fazendo-o funcionar. Assim uma demanda de análise acontece no momento em que uma queixa se associa a um sofrimento. Na verdade, o que acontece é um pedido a uma outra pessoa, a um Outro que ele escolhe da seguinte forma: “estou aqui porque eu percebi que você sabe, porque eu acho que você sabe e, como eu não quero saber, suponho que você saiba como restituir meu sintoma ao ponto em que ele me dava satisfação sem este excesso de sofrimento”. Em outras palavras, é assim que chegam os candidatos à análise: quando o seu sintoma falha e ele procura alguém, qualquer um, a quem ele empresta um saber sustentado por um traço que ele acredita vai restituir-lhe um sintoma que funcione. 
É assim que se instala o que chamamos de transferência. Em outras palavras, a criação de um sujeito suposto saber restituir ao seu estado anterior um sintoma que deixou de funcionar.
Temos então a seguinte situação: o sujeito chega e dirige seu pedido, sua queixa, sua demanda, a um Outro qualquer ou, em outras palavras, ele chega com o significante de sua queixa e se dirige a um significante qualquer. Lacan diz que é um significante qualquer mas não é qualquer um. É um significante qualquer porque pode-se escolher entre muitos, mas no momento em que se escolhe, esse "qualquer um" deixa de ser qualquer para ser aquele: o significante da transferência. É esse significante que vai nos dizer do sintoma, pois ele indica a borda onde um menos se instalou. Sintoma, este que se sustenta na fantasia fundamental e que nada mais é, portanto, que uma interpretação feita sobre o desejo do Outro. Por isso o sintoma implica numa certa alienação ao Outro. 

         
S …………………………………    Sq
_____________________________

S ( S1, S2, S3 .................Sn )

          
O matema da transferência, desenhado por Lacan no texto da "Proposição de 9 de Outubro", pode ser lida da seguinte forma: Um sujeito chega ao analista trazendo consigo um significante (S), sua queixa e transfere a um significante qualquer (Sq) uma suposição de saber sobre o sujeito em questão, constituindo esse outro como “sujeito suposto saber” decifrar todo o conteúdo do inconsciente. 
Diante deste movimento, o analista tem duas possibilidades, pelo menos. Primeiro, ele pode acreditar que sabe e, segundo, ele pode ter certeza de que não sabe. Na primeira possibilidade vamos ter a Psicoterapia e, na segunda, uma possibilidade de análise. 
Em 1957/58 Lacan estava seriamente empenhado em esvaziar a parafernália imaginária que os supostos freudianos fizeram com a Psicanálise. Nos anos 30, nos anos pós-guerra e principalmente nos anos 50, a Psicanálise inflou-se de imaginário de uma forma insuportável. Lacan, então, se dedicou a esvaziar esse imaginário ou, em outras palavras, reduzir o processo analítico a certas fórmulas que ele chamou de matemas que pudessem trazer, como consequência, uma operação lógica e não uma operação imaginária, plena de sentido. O uso das pequenas letras pode, também, ser visto como uma tentativa de Lacan de trazer a pureza da letra destituída de seu significado e sua possibilidade de produzir poesia que, por não ter uma significação vinculada a ela, oferece a  chance de criação a quem pode ler. Uma dessas possibilidades foi criada com o Grafo do desejo. “… o Grafo - que serviu de referência a Lacan durante anos para a direção do tratamento - apresenta um percurso que segue uma estrutura lógica e oferece a sequência de uma conclusão possível. No essencial inclui duas: o bem uma conclusão em curto-circuito que termina em uma identificação, ou um fim desenvolvido da análise que termina nesse ponto superior que Lacan chamou S(A/).” (J-A Miller, Conferência de fechamento das X Jornadas do Campo Freudiano na Espanha. Málaga, 28 de fevereiro de 1993).
Vamos a ele: No Grafo do desejo o s(A) significa, em linguagem lacaniana, “significação do Outro”. O sujeito procura a análise porque ele interpretou a significação que o Outro deu a ele... estou falando em interpretação porque isso diferencia do que o sujeito viveu na realidade. Vive-se muito mais essa realidade que é nossa interpretação do que aquilo que podemos chamar de realidade exterior. Na verdade nossa realidade, definida como "pouco de realidade" por Lacan, acaba por se constituir a partir mesmo do que foi a interpretação feita pelo sujeito: sua fantasia fundamental. Assim sendo, o que Lacan chama de significação do Outro é o que se constitui como um sintoma. 
Quando a significação do Outro falha o sujeito vai perguntar ao Outro “o que foi mesmo que você falou comigo?” “Repete o que você quer!” Lacan, em seu Seminário XI, nos diz que a única coisa que justifica a nossa intervenção como analista é este mal-mais que acontece quando o sintoma claudica e, se há uma retificação a ser feita na relação do sujeito com a satisfação, esta deverá ser a nível da pulsão. 
Neste momento um suposto analista pode dizer, se ele acreditar que sabe: “faça assim, seja assim, faça como eu”. Vai mostrar, uma série de modelos sustentados em um ideal do que deveria ser, para fornecer um ideal de identificação, como tal, imaginária. Ou seja, inundar de sentido o vazio que se faz presente na fala do sujeito. Seguindo o matema do Grafo do desejo, pode-se dizer que a esse sujeito lhe é oferecido uma i(a), um modelo “x” qualquer a partir do qual ele pode constituir no “m” (moi = eu) a partir da esperança de ser igual àquele modelo.
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Esta pode bem ser uma primeira consequência da queixa transformar-se em sintoma e permanecer sintoma, e não passar a sintoma analítico. 
Existe uma outra vertente. O sujeito encontra um analista que o acolhe em seu sofrimento. A partir daí as demandas poderão ser dirigidas àquele analista. Então, é colocada a questão da existência do sujeito a partir do esvaziamento dos significantes da demanda do Outro. Em outras palavras, é quando o envelope formal do sintoma não mais faz frente ao desamparo (Hiflosigkeit), que o sujeito vai encontrar a dor de existir.
Para que esta experiência possa ser levada a cabo é fundamental um silêncio. Um silêncio que é muito mais que um simples calar-se. É o silêncio da falta de palavra que coloca o sujeito num lugar de onde ele não tem outra saída senão construir algo.
O sujeito busca, então, um significante que poderia representá-lo – o matema da transferência , exposto acima, nos diz isto:
Ele se depara com uma falta e vai, então, se agarrar a um objeto apontado pelo significante que ele escolheu. Ele vai tentar se articular com esse objeto de alguma maneira. E ele o faz a partir dos restos perceptivos que o constituíram num primeiro momento. São as percepções de sua primeira experiência de satisfação e que nunca sofreram tradução de traços de percepção para traços de memória. Alguns destes traços ficam como restos e são estes restos que colocam para o sujeito a pergunta: Que queres? É a partir destes restos, que surgem no trajeto de uma análise, que o sujeito vai construir sua fantasia fundamental.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz: “Não nos interessa explicar porque sua filha é muda, do que se trata  é fazê-la falar !” Ora, a fantasia é muda. Ela é construída a partir de dois elementos estranhos entre si: Simbólico e Real, e se manifesta no Imaginário pois ela nada mais é que a colocação em cena dos significantes primordiais do sujeito.
É, pois, fundamental, que se faça falar o sintoma para construir a fantasia.
Para isto é preciso que o analista se cale como fez Freud diante de suas histéricas. Pois ao “calar-se” coloca aí uma pergunta a mais e cria a possibilidade para que, ao fim do tratamento, a experiência da fantasia fundamental se torne a pulsão.
Escutar as demandas, portanto, não implica ter que respondê-las. Aliás, longe disto. As demandas não são feitas para serem respondidas. Sabe-se que toda demanda, na verdade, é demanda de amor. E o amor? É dar o que não se tem, define muito bem o Dr. Lacan! 
Exatamente por saber da não reciprocidade amorosa - e isto o analista tem que saber - , ele deve fazer silêncio para que as demandas que lhe são dirigidas possam retornar levando a própria mensagem de volta a quem demanda. Importante assinalar que esse silêncio não é qualquer um. Ele está muito bem matemizado por S(A/). Em outras palavras, ali onde se espera uma resposta do Outro é preciso que o falaser se responsabilize.
Essas duas situações aqui definidas como próprias à uma Psicoterapia e à uma Psicanálise, podem ser ditas de outra forma. Na Psicoterapia temos dois sujeitos em questão, o sujeito que sofre e o sujeito que sabe e diz as soluções. Numa Psicanálise temos apenas um sujeito em questão: o analisante. O sujeito do analista fica fora e aí se mantém graças ao exercício do desejo do Analista. 
O discurso do mestre é o discurso do inconsciente. É o discurso que está o tempo todo produzindo sentido. É o discurso do sintoma. É o discurso que mantém sob a barra o sujeito e seu objeto, é o discurso com o qual normalmente o sujeito chega aos nossos consultórios. 
No discurso do mestre, debaixo da barra, está o desejo inconsciente do sujeito: sujeito desejo de objeto.

O discurso do analista vai acontecer quando conseguirmos inverter isso, ou seja, passar para cima da barra os elementos que estão escondidos abaixo da barra no discurso do mestre. 
Quando Lacan disse que o discurso do analista é o avesso do discurso do mestre, ele tinha em mente a estrutura moebiana. A banda de Moebius é aquela fita na qual se faz uma meia torção e se cola as pontas de tal maneira que podemos percorrer toda a fita sem tirar os dedos de cima dela. Ela é muito interessante porque diz do movimento do discurso do analista. A banda de Moebius tem somente um lado e uma borda, portanto diz muito bem que numa análise só tem um sujeito em questão, o analisante.

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Ela demonstra bem como sair do discurso do mestre para o discurso do analista percorrendo um só lado pois, topologicamente, a banda tem um só lado. Ao fazer isso expõe-se a cena que sustenta o sujeito na vida: a cena da fantasia fundamental. 
O discurso do analista é pontual porque ele é insuportável. Ninguém consegue estar frente a frente com sua verdade muito tempo e o objeto a é a verdade do falasser do sintoma: é o ser de verdade do sintoma. Lacan define o sintoma como contendo duas partes. Uma é o ser de verdade que remete ao real da castração, e a outra é o seu invólucro formal: a cadeia de significantes, as palavras, enfim. Então, cada vez que se pronuncia uma palavra, diz-se da fantasia fundamental. É isso que se chama estilo. A forma que cada um dá ao pouco de realidade que o circunda. 
Sabendo que a estrutura do matema dos discursos traz na sua forma a Banda de Moebius verificamos que ao possibilitar o seu giro vemos passar para cima da barra, no discurso do Analista (a - $), o que está sob a barra no discurso do Mestre ($ - a). 
Importante concluirmos dizendo que este giro só acontece se sustentado pelo amor. Pelo amor de transferência. Este amor que se instaura a partir de uma suposição de saber atribuída a quem se oferece como causa. No entanto cumpre ressaltar que esta causa só se sustenta se o analista sabe que ele não tem o “saber” a ele atribuído. Para isto é preciso fazer operar o desejo do analista. Este desejo construído em análise que propicia ao sujeito do analista ficar fora da cena. Esta é a ética que rege o encontro com um analista e que lhe fornece condições para que um ato analítico possa acontecer. 
E para concluir e abrir um espaço para nosso próximo encontro posso, sem receio de estar exagerando, afirmar que uma análise só acontece a partir de um ato que coloque o sujeito em questão.

Até dia 23 de Maio de 2018, quando vamos conversar sobre “O ato analítico

sexta-feira, 23 de março de 2018

Seminário na EBP-MG - Sintoma


Seminário na EBP-MG

Consentir com o inconsciente

O Sintoma

Dia 21 de Março de 2018

Quem não sabe o que busca não identifica o que acha! (Immanuel Kant)

A noção de sintoma analítico é muito importante, pois somente ela nos permite diferenciar a psicanálise de toda outra prática que se refere à psicopatologia.
Hoje se fala muito de sintomas, sintomas do corpo, sintomas psíquicos, anorexia, bulimia, toxicomania, depressão, entre outros, como se existissem categorias capazes de definir um conjunto de indivíduos pelo que sofrem. Esse é todo o esforço do DSM.
Frente a esta objetivação do sintoma que se inscreve em uma política de identificação, é fundamental sustentar a definição do sintoma analítico que diz respeito à singularidade de um sujeito em sua relação ao Outro.
A constituição do sintoma analítico supõe, portanto, ir além dos fenômenos e das aparências do sintoma onde se nutre a queixa, para o articular aos significantes decisivos, produzidos pelo sujeito no seu endereçamento ao analista. O sintoma analítico exige, portanto, que seja decifrado.
É nesta perspectiva que, hoje, vamos trabalhar o conceito de sintoma e todas as suas consequências para a prática de uma psicanálise digna deste nome. 
O sintoma, visto pela psicanálise, pode ser definido de uma forma bem simples: é uma solução para se evitar o encontro com a castração ou se preferirem, com a falta. 
A castração, o “ser do sintoma”, pode ser entendida como um “menos-de-gozo" que advém da extração que o significante opera no campo do Outro. Isto esclarece a idéia de que, para o ser humano, o gozo — termo que deve ser situado em oposição a um outro: o prazer — está desde sempre marcado por uma perda, o que implica que a insatisfação é a marca que caracteriza todo psiquismo. Essa é a operação que traz como consequência, como efeito, o sujeito do inconsciente, e instala, no mesmo movimento, o que se denomina um mal-estar, um certo incômodo representado pela presença de um objeto que foi extraído do campo do Outro e que permanece como um resto não absorvido pelo simbólico, ou seja, um resto que permanece como o mais íntimo e, também, absolutamente estranho para cada sujeito. Essa presença, marcando um impossível, vai gerar um movimento de busca incessante. Esse movimento tem a intenção explícita de restituir o status quo anterior na busca do gozo perdido, esclarecendo que é a partir do que se chama “menos-de-gozo" que vai se instalar o que Lacan denominou Automaton — a repetição da impossibilidade na cadeia significante. Essa repetição, ou seja isso que “não cessa de se escrever” é uma necessidade que vem dizer da impossibilidade (o que “não cessa de não se escrever”) que o próprio recalque originário (Urverdrängung) produz. (Lacan, em Le Sinthome, S. 23, nos diz que não há nenhuma redução radical do quarto termo, mesmo na análise, pois Freud pode enunciar, não sabemos por qual via, que há uma Urverdrangung, um recalque que não é jamais anulado. É da natureza mesma do simbólico de comportar este buraco. É esse buraco que eu viso, e onde  eu reconheço a própria Urverdrangung.)    Contudo, todo esse movimento só se sustenta por existirem pontos de encontros — tiqué — que, pelo fato mesmo de serem sempre faltosos, acenam com a possibilidade de uma certa realização. 
Assim, entre o que “não cessa de não se escrever” (o impossível) e o que “não cessa de se escrever” (necessário), depara-se com um sujeito que, como diz Freud, tem que se haver com um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer (Unlust) ou sofrimento (Leiden) que essa situação cria. Sendo isso o que todo ser falante tem como fundamento de sua estrutura, existe, ainda conforme Freud, uma precondição na formação de sintomas para cada sujeito. 
O sintoma, tal como definido por Freud, é “o resultado de um conflito, que surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido (Libidobefriedigung). As duas forças que entraram em luta — que poderiam ser representadas pelos dois movimentos: “não cessa de não se escrever” e “não cessa de se escrever” — encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado. Em outras palavras pode-se dizer que esse “acordo” seria uma negociação feita de tal forma que o sujeito diria assim: “pago um preço para não saber que existe algo que 'não cessa de não escrever', e esse preço é uma satisfação substitutiva que, ao mesmo tempo em que provoca um certo desprazer (Unlust), é onde posso obter minha satisfação". 
Então, aqui tem alguns dados que são muitos importantes para o desenvolvimento deste seminário: o sintoma é uma tentativa de criar uma harmonia, ali, onde um menos se instalou, provocando uma desarmonia. Ou, levando em conta os desenvolvimentos construídos no último ensino de Lacan, podemos dizer que o sinthoma é um arranjo que cada sujeito cria para sustentar funcionando o enlaçamento de RSI. Este arranjo se define pela presença de um quarto nó, o sinthoma. J.A Miller no texto Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas. (JAMiller in Opção Lacaniana, 60. setembro 2011) nos diz: “Parece-me que, para Lacan, trata-se, em certo momento de seu ensino, de aprender a pensar o sintoma sem o conflito, de subtrair a perspectiva do conflito, apesar do sofrimento, e privilegiar o real da satisfação. A clínica dos nós é uma clínica sem conflitos.
O único conflito é que não conseguimos fazer os nós que queremos -  o que gera sofrimento, indicado às vezes por Lacan. Mas a novidade invisível desta clínica, que agora procuro evidencia-la, é que se trata de uma clínica sem conflito. É uma clínica do engodamento e não da oposição, dos arranjos que permitem uma satisfação e conduzem ao gozo. Há dificuldades, mas não há conflito. A estrutura mesma dos nós não permite a dimensão do conflito. 
(…) Nesta clínica não se trata, como em Freud, de resolver o conflito, mas de obter um novo arranjo, um funcionamento menos custoso para o sujeito.
É nesse ponto que se pode ver uma discordância fundamental entre os conceitos de sintoma para a medicina e para a psicanálise. Se, por um lado, a posição médica se refere à noção de harmonia como um objetivo a alcançar quando se está diante de um sintoma — este, portanto, aparecendo como o que perturba e destrói a harmonia —, o sentido do sintoma vai mudar caso a referência não for mais a harmonia que ele vem perturbar, mas, sim, o fato de que ele é harmônico a uma falta, a um menos, ou seja, à castração. J.- A. Miller, em um texto sobre o envelope formal do sintoma, diz que a palavra sintoma contém o radical “sin”, que quer dizer síntese, reunião, conjunto, o que vem junto, o que coincide. Dessa forma, o sintoma é o que faz coincidir duas coisas: a castração e a satisfação. 
A castração é “o ser do sintoma”, seu núcleo. Esse núcleo vai se apresentar embrulhado, envolvido pelo “envelope formal do sintoma” — seu invólucro significante. Esse termo, utilizado por Lacan no texto De nossos antecedentes, surge de um certo retorno à psiquiatria clássica de Clérambault e da “necessidade que levou Lacan à psicanálise” por ocasião do seu famoso caso Aimée: “Pois a fidelidade ao envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico do qual tomamos o gosto, leva-nos a esse limite onde ele retorna em efeitos de criação”. Esta afirmação de Lacan, feita em 1966, aparece como um prenúncio do que, mais tarde, será definido como “saber aí fazer com seu sinthoma”. “É na medida que o o sintoma faz um falso-furo com o simbólico que existe uma prática qualquer, quer dizer, algo que aparece do dizer, o que, no caso, chamarei de a art-dizer para deslizar rumo ao ardor.”(S.23)
E Lacan continua mais adiante neste seminário: “Eu não penso que a psicanálise seja um sinthoma. Eu penso que ela é uma prática cuja eficácia, apesar de tudo tangível, implica, para mim, que faça isso que chamam meu nó, a saber, esse nó triplo (que posso desenhar)no quadro.” (E neste nó) “O Real, sendo desprovido de sentido, eu estou seguro que o sentido desse real não poderia ser esclarecido senão por  tomá-lo por nada menos que um sinthoma.” 
E, para concluir essa passagem ele afirma: “Não é a psicanálise que é um sinthoma, é o psicanálista.”
Retomando a frase de Lacan descrita acima,  sobre o envelope formal, vemos Miller chamar a atenção para os dois eixos do sintoma: (1) existe, por um lado, um núcleo que se pode denominar castração, sofrimento, “mais-de- gozo” em consequência do “menos-de-gozo” da operação significante. (2) Existe, por outro lado, no sintoma, uma mensagem endereçada ao Outro e que espera uma decifração. 
Em outras palavras, é possível um trajeto na formação do sintoma que, a partir de um "menos" que se instala como consequência da extração do objeto "a" pela operação significante, fazer surgir uma intenção de significação que produz uma resposta que, exatamente por ser da ordem do impossível, relança a busca de significação. Essa busca de significação é a transformação da queixa que emerge do fundo do desprazer em mensagem, fazendo existir o sujeito de uma maneira nova no campo do Outro e sob forma constituída. No entanto, quando se formata uma queixa ou, como nos diz M. Silvestre, quando fazemos coincidir uma queixa e um sofrimento, vamos perceber que ela se desnatura, pois há o que se pode dizer e o que não se pode dizer pela própria impossibilidade do significante em dizer tudo. 
Essa dificuldade é o que faz com que a lógica própria do Outro, ao estabelecer essa relação entre queixa e sofrimento, vá congelar e fixar a queixa numa certa cena. Ou seja, do que se trata aqui é de um certo percurso pulsional que se estabelece na relação do sujeito com um dos objetos que havia anteriormente abandonado, porque a libido é induzida a tomar o caminho da regressão pela fixação que deixou atrás de si, nesses pontos do seu desenvolvimento. Pontos em que queixa e sofrimento, gozo e mensagem, castração e envelope formal se fizeram coincidir. 
Quando alguém vai até um analista, o que se espera é que ele faça um relato de sua infelicidade. Nesse relato, pode-se, então, perceber que há uma harmonia, há um arranjo que faz existir uma satisfação ali mesmo onde o sujeito se queixa de dor. Esse é o paradoxo que Lacan define em Televisão, quando nos diz que “o sujeito é feliz”. E continua: “É mesmo sua definição, pois que ele não pode nada dever senão ao momento oportuno (heur), à sorte (fortune) - em francês felizidade é bonheur -  dito de outra forma, e todo momento oportuno é bom para isso que o mantém, ou seja, o porque ele se repete”. 
Por tudo isso se pode afirmar que o sintoma analítico, quando formatado no campo do Outro, constituído como o que se instaura da cadeia significante, tem estrutura de ficção. Isso demonstra-o muito bem o sintoma histérico, à medida que, na histeria, vê-se o sintoma como ser de verdade do sujeito. Quer dizer, no sintoma histérico o objeto ‘a’ como real virá no lugar da verdade, como muito bem o mostra a estrutura do Discurso da Histeria
Pode-se acrescentar, ainda, que, ao se instalar como “ser de verdade”, o sintoma promove a construção de uma suposição de saber no campo do Outro. Partindo da premissa estrutural de que não há relação entre o sujeito e o Outro, o sujeito está, desde sempre, afastado de sua verdade. O laço possível entre o sujeito e o Outro faz-se pelo sintoma. E se faz com a criação de um “ser de saber” ali, onde a verdade lhe está vetada. 
Sintoma: um novo caminho 
Estrutura de ficção, queixa, sofrimento... não importa como a ele se refira, a verdade é que o sintoma é o que vai dizer de algo que não vai bem e o “clamor da humanidade” é pelo apaziguamento do mal-estar que isso provoca. 
No entanto, é preciso repetir aqui uma afirmação que merece toda atenção: o sintoma é o mais particular que cada um tem e, por outra parte, o mais real. O sintoma é, precisamente, o que faz com que cada um, em alguma coisa, não consiga fazer absolutamente o que lhe está prescrito pelo discurso de seu tempo. Esta afirmação alerta para uma questão de ordem prática e, por que não?, ética. É fundamental ao se escutar o relato da infelicidade de alguém, que se tenha em conta o fato de que essa infelicidade é o que há de mais particular, é o que sustenta esse sujeito como constituído e, mesmo que tenha sido por não estar mais funcionando, como antes, que ele procura uma análise, ainda assim é seu traço mais particular: “Eu sou assim!”, dizem de várias maneiras os candidatos à análise. Talvez, por isso, é que, ao se diferenciar o lugar do analista do lugar do terapeuta, diremos de um compromisso que não é com o movimento humanitário que, com seu clamor, espera poder universalizar o que há de mais particular. O compromisso que se estabelece é com a particularidade de cada um. Pôr-se a serviço dessa verdade supõe um desejo que já foi qualificado de inumano. Talvez, por isso, é que Lacan, em sua Nota Italiana, diz que o analista é o rebotalho da humanidade, à medida que quer saber daquilo que todos querem esquecer. Ou seja, Lacan vai afirmar que o mal-estar na civilização consiste em gozar da renúncia ao gozo. Sim, porque, ao estabelecer uma solução de compromisso entre as duas forças opostas que estão em conflito, o sujeito renuncia a uma possibilidade de um gozo possível. Gozo este que só será possível à medida que o Outro é, por sua vez, esvaziado de gozo, ou seja, à medida que o sujeito deixa de acreditar que o Outro quer dele sua castração, que o Outro vai retirar o que ele tem de mais precioso: seu pequeno nada. Uma analisante explicita muito bem essa questão ao pronunciar esta frase: “Percebi que sempre tive medo de perder o que nunca tive.” 
Na verdade, o que estamos falando pode muito bem ser melhor esclarecido quando colocamos a questão da sexualidade em pauta. Ora, o que está no cerne do que se entende por sexo, mais precisamente por relação sexual — e aqui se refere, obviamente, ao que diz a psicanálise — é a sua impossibilidade, o menos, o resto irredutível de gozo que se assinalou há pouco. Assim, a única possibilidade de estabelecer uma relação com o Outro sexo é pelo viés do sintoma, este sustentado pela fantasia fundamental: [($<> a) - A]. É por isso que as tentativas de se curar o “sexo”, seja pela medicina, seja pelas terapias “sexológicas”, acabam, na maioria das vezes, em fracasso, pois apenas reforçam a impossibilidade que já existe ali. 
Mas, seria possível curar o sexo através da psicanálise? Talvez o que se possa dizer é que, diante da impossibilidade da relação sexual, ela deixe claro que homem e mulher estão do mesmo lado, qual seja, ambos têm apenas uma única maneira de representar o sexo: o simulacro fálico. Em outras palavras, pode-se dizer que ambos os gêneros têm em comum uma só espécie de gozo: o gozo fálico. O que vai diferencia-los é o acesso ao Outro. É essa diferença que os reparte em duas espécies, fazendo obstáculo a que a dimensão cultural de gênero venha recobrir a sexuação. 
Diante do que lhes expus hoje fica aberta a questão que está proposta para esta série de seminários: Como é que, diante do sintoma, pode um sujeito formular uma demanda de análise e como pode um analista promover a escuta desta demanda e dirigir um tratamento a partir daí?
Até o próximo encontro dia 25 de abril de 2018 quando vamos conversar sobre “demanda de análise”!







quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Seminário na EBP-MG

Retomo neste semestre a transmissão da Psicanálise na EBP-MG.

Serão quatro seminários sobre o tema: CONSENTIR COM O INCONSCIENTE, divididos em quatro sub temas:

SINTOMA
DEMANDA DE ANÁLISE
ATO ANALÍTICO
MOMENTO DE CONCLUIR

Maiores informações poderão ser obtidas no App da EBP-MG (Apple Store e Google Play)