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quarta-feira, 8 de julho de 2020

Stories do Facebook - I

07.05.2020

J. A. Miller em seu artigo sobre "As saídas de Análise" nós diz que “poderíamos nos perguntar se não há sempre, em certo sentido, uma segunda entrada em análise. O sujeito entra em análise antes de efetivamente saber o que é uma análise; por isso é necessário que o analista intervenha para confirmar sua opção".
A confirmação desta opção, acredito, não se faz pela via do saber, mas sim por um consentimento com a experiência do inconsciente. Quando me refiro a consentimento, tenho em mente o que Lacan nos diz em seu Seminário VII - A Ética da Psicanálise: quando, uma vez cumprido o ato do assassinato do pai da horda primitiva, "se instaura um consentimento inaugural que é um tempo essencial na instituição da lei, quanto à qual a arte de Freud será vinculá-la ao assassinato do pai, de identificá-la à ambivalência que então funda as relações do filho com o pai, isto é, ao retorno do amor após efetuado o ato."

08.06.2020

Não nutrir o sintoma para que este prolifere, ou como usualmente escutamos: não responder às demandas do analisante propiciando a ele a oportunidade de escutar por detrás dos ditos, é função do analista. Uma interpretação não é, pois, aberta a todos os sentidos mas ao real que constitui o núcleo do sintoma e aí se coloca como um x impedindo que as coisas andem. 

09.06.2020

Um sujeito procura análise porque o saber constituído de seu sintoma claudica. Este é o momento em que “o sintoma se apresenta como impossível a assumir”, porque o rompimento de seu envelope formal coloca a céu aberto o que escapa à representação, à ação do pensamento (gedanken) e que permanece como um resto que Freud, no seu “Projeto ...” denominou de “a coisa” (das Ding). Em consequência, a angústia surge como sinal.

10.06.2020

Lacan, em seu percurso nos leva gradativamente a diferenciar o filosofar da “praxis” psicanalítica ao desenhar as diferenças entre o “penso” cartesiano e o “isso fala” freudiano. Sem deixar de frisar que o Cogito é um momento fundamental da história humana, posto que divide o sujeito num saber reflexivo e numa verdade recalcada. Lacan infere que Freud não inventa nem suprime o sujeito, mas se apodera dele ali onde o encontra, ou seja, no rebote da perspectiva cartesiana, que inaugura, depois de Galileu, a ciência moderna. Desta forma somos introduzidos à questão do sujeito tal como a psicanálise a subverte propriamente.

11.06.2020

Em outras palavras, é a partir do recalque originário, que trouxe como con­sequência a impossibilidade de um primeiro traço sofrer uma tra­dução, que se criou um pequeno intervalo entre os significantes que passaram a se ordenar a partir da história de cada sujeito. Esta ordenação não é aleató­ria e vai se sujeitar a uma estruturação que não é outra, senão a da linguagem. Isto é o que foi acres­centado ao legado freudiano: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” o que o autorizou a dizer que, “se o campo é freudiano, o inconsciente é lacaniano”

12.06.2020

Lacan, no seu retorno à Freud, se perguntou como poderia dar uma forma, formalizar isso que Freud chamou de atemporalidade do inconsciente. Para obter resultados foi à ciência que estuda as formas do pensamento. A lógica. Lacan pensou o tempo lógico antes do significante. Foi a partir do ponto em que ele, sabendo que o inconsciente é atemporal e que é estruturado a partir de um desejo indestrutível, pensou um tempo absolutamente particular: o tempo do sujeito do inconsciente, que é um outro tempo que não o cronológico. O trabalho do psicanalista talvez pudesse ser dito como sendo o de escutar alguém no seu tempo lógico para que ele possa tornar-se alguém no tempo cronológico. 

13.06.2020

Muitos sujeitos hoje, que apresentam o que chamamos de “novos sintomas”, diante da força unificadora da globalização, lançam mão de sintomas impermeáveis à intervenção do analista, na esperança de fazerem sobreviver uma singularidade ali, onde se está cada vez mais submetido às demandas de um discurso que tenta, de todas as formas, apagar a possibilidade da escolha e, consequentemente, do desejo.

14.06.2020

Gradativamente, durante seu ensino, Lacan vai nos levando a pensar o sujeito, não como uma “unidade” como quer a psicologia, mas como “sujeito do inconsciente” para dizê-lo sujeito da enunciação enquanto evanescente no enunciado, apenas apreendido na representação que lhe permite o significante.

16.06.2020

Seja qual for a vertente do sintoma que escolhermos, por um lado um “memorial de gozo” (o sintoma como metáfora), e por outro um “cativador de gozo” (o sintoma como função da letra), - até mesmo quando estamos falando da transferência como sintoma analítico -, vamos nos haver com um sinal de que alguma coisa não anda pois há um real que se coloca como uma pedra no caminho do sujeito: o real da privação que se explicita no fato de que homens e mulheres, desde sempre, estão privados do elemento que poderia propiciar a escritura da relação sexual.

17.06.2020

Em seu primeiro encontro com o Outro, consequência da incidência de um significante, o sujeito tem de lidar com um incurável, que não se subjetiva, que não permite que desejo e percepção coincidam. Ponto de opacidade e de silêncio, nos diz Lacan, que indica o lugar onde poderá se edificar a determinação significante capaz de escrever o fenômeno sintomático, na esperança de se “curar” a diferença que se instala na contingência deste primeiro encontro

18.06.2020

No Seminário XX, Mais Ainda, Lacan vai nos apresentar uma topologia para explicitar uma articulação entre gozo e sexualidade, uma vez que eles não poderão ser reduzidos ao orgasmo, seja masculino ou feminino. Uma articulação que encontra obstáculos postos em evidência pela psicanálise que afirma que “não há relação sexual”. Impasses que vão se resolver pelo recurso ao amor que vem ao lugar desta ausência. “O que vem em suplência à relação sexual, é precisamente o amor”. (S.XX, pag. 62)

19.06.2020

O sintoma, sendo a primeira mensagem cifrada, pleno de sentido, traz em si a cifra do gozo, que se apresenta como um ponto sem sentido.
Enquanto cifra, do gozo, o sintoma implica um endereçamento onde ele se decifra. Assim, de acordo com M. Silvestre, o que temos é: “de um lado, um sofrimento que o sujeito pode suportar com heroísmo estóico e sem dizer palavra. De outro, os portadores de sintomas que banham seu ambiente com eles, sem sofrerem eles mesmos absolutamente nada. Na medida em que os dois se conectam na mesma pessoa, isto pode produzir uma demanda de análise”.

20.06.2020

A queixa, quer dizer, a demanda, demanda de análise entre outras, e o sofrimento são duas coisas. Pode-se sofrer – mentalmente – e se recusar a qualquer queixa... Há uma distinção radical entre a queixa e o sofrimento. Ela é radical pois oferece uma escolha ao psicanalista: aquela de tratar a queixa ou de colocar em causa o sofrimento. (...) a queixa é uma fala, o sofrimento é uma paixão (...) o sintoma.”

21.06.2020

Podemos resumir a descoberta maior da psicanálise assim: no fundamento do nosso mundo, esse mundo ordenado pelos semblantes fálicos, não existem dois sexos, não existe uma mistura original, o que existe é a "não relação". Tal é o real da sexuação ao qual homem e mulher tem que se haver no encontro com o outro sexo.

23.06.2020

É pela via do saber que começa uma análise e neste começo está a transferência: o amor ao saber. Responder deste lugar de saber, no entanto, poderá produzir alguns efeitos, mas nunca uma análise. Por isso é importante distinguirmos a entrada em análise de seu começo, se quisermos dar conta desses alongamentos que se estiram sob o nome de uma análise, sem jamais iniciarem. Para que uma análise possa acontecer é fundamental a intervenção de um analista.

24.06.2020
J. A. Miller, em seu curso “Silet”, nos lembra que uma intervenção preciosa do analista é seu eventual ‘sem acordo’ (pas d’accord), pois no inconsciente não há a menor possibilidade de uma harmonia, muito menos de uma “negociação”, pois falta o significante que poderia estabelecer a proporção sexual.

25.06.2020

O objetivo do ato do psicanalista é desfazer o enlaçamento do Simbólico e Imaginário feito pelo sintoma aí mesmo onde, por estrutura, incide a falha na transmissão da castração. Esse é lugar aonde a fantasia se articula nos dizendo do desejo que a sustenta e do gozo que a mantêm. É neste ponto que uma passagem pode acontecer possibilitando ao “novo sujeito” que daí resulta efetuar um novo enlaçamento do Real, Simbólico e Imaginário.

26.06.2020

O Outro foi introduzido como uma forma de assegurar o ‘ao menos três’ da função simbólica. É no Outro que vai se manter o automatismo do simbólico, o ‘automaton’. É ele quem fala no lapsus quando o discurso se impõe à significação falha.

27.06.2020

A verdade, que se instala a partir da psicanálise está mais do lado do non-sens que do sentido, está na letra do inconsciente, nos dizendo da excentricidade de si a si mesmo, própria do sujeito, e que implica esta concepção e se explicita na fórmula: “ O inconsciente é o discurso do Outro”.

28.06.2020

Podemos dizer que um sujeito procura análise no momento em que se torna insuportável para ele sua divisão entre saber e verdade. Isto se dá no ponto aonde o deslizamento metonímico da cadeia significante se interrompe.

30.06.2020

A transferência, portanto, está no início do tratamento e se instala aí na tentativa mesmo de, atribuindo a um Outro o saber que falta, alcançar uma resposta que seja o saber último sobre esta sua verdade. É o Sujeito Suposto Saber que surge, fazendo valer um significante qualquer como aquele através do qual um sujeito poderia ser representado.

01.07.2020

Em seu primeiro encontro com o Outro, consequência da incidência de um significante, o sujeito tem de se haver com um real que não se subjetiva. Ponto de opacidade, nos diz Lacan, ponto de silêncio que indica o lugar onde poderá se edificar a determinação significante capaz de escrever o fenômeno sintomático, na esperança de se dar conta da impossibilidade que se instala na contingência deste primeiro encontro.

03.07.2020

“O Cogito é um momento fundamental da história humana, posto que divide o sujeito num sabe reflexivo e numa verdade recalcada ... Lacan infere que Freud não inventa nem suprime o sujeito, mas se apodera dele ali onde o encontra, ou seja, no rebote da perspectiva cartesiana, que inaugura, depois de Galileu, a ciência moderna” (Roudinesco, E., História da Psicanálise na França, vol II, pág. 324).

05.07.2020

No que diz respeito à interpretação, vamos delineá-la, com Lacan, como tendo a estrutura de “um saber entanto que verdade”, e se situando em algum lugar entre um enigma, que é o que podemos chamar de “uma enunciação da qual encarregamos que façam enunciado”, e uma citação, que colocamos como sendo “um enunciado solidamente apoiado no nome de um autor”.

07.07.2020
A fantasia do sujeito obsessivo demonstra o seu esforço na direção de manter intacto o Outro. Ainda que o desejo, que se constituiu na presença da falta de um significante,  esteja presente em todas  as  demandas.


08.07.2020

A liberdade, tão almejada, nunca passa de um sonho no horizonte de cada um dos seres falantes. Isto pode ser apreendido quando vislumbramos o fato de que a linguagem que nos constitui estabelece limites impondo sua sintaxe e estrutura ao mesmo tempo que nos diz da impossibilidade de se dizer tudo. Ha sempre um resto que permanece e que pode, quando possível, ser elevado à condição de causa de desejo.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Entrada em Análise: Uma Interpretação Memorável (2ª Parte)


A CLÍNICA
Carlos procura análise pela terceira vez. Quanto às duas vezes anteriores alega ter feito “final de análise!”, conforme declarações de seus analistas. No entanto, seus sintomas persistem: mais uma vez se encontra envolvido em dívidas e conflitos familiares. Sendo um trabalhador que podemos qualificar de compulsivo, Carlos tem passado sua vida pagando as dívidas que faz além de, constantemente, pagar dívidas de seus pais. Isto não só na área financeira pois até mesmo seu sucesso profissional foi uma forma de “resgatar o nome do pai”, que, como explicitou certa vez, sempre fracassou em sua vida profissional.
Durante um bom tempo, veio às sessões regularmente e trabalhou bastante. Acredito que, como das outras vezes, foi gradativamente alimentando seu sintoma de sentido, a partir mesmo de seu saber e perspicácia. Com isto, eles foram sendo apaziguados, uma ‘melhora’ logo surgiu e, com ela, idéias de concluir mais esta análise. No entanto uma pequena dívida bancária, com o ‘cheque especial’, permanecia ali, sempre presente. Este momento prolongou-se até certo dia, quando Carlos, mais uma vez, disse que esquecera o dinheiro para pagar a sua sessão. Desta vez o analista pontuou que estes ‘esquecimentos’ estavam se tornando um ritual.
Esta intervenção no sintoma marcou um primeiro ponto de virada na história desta análise. Como pode alguém dizer isto de um sujeito que era tão honesto e tão cumpridor de seus deveres? Mas a verdade é que havia sido colocado o dedo na ferida, e o sintoma de Carlos não tardou a se manifestar novamente, reforçado, como nos diz Freud. Após fazer algumas contas, Carlos chegou a conclusão que, para saldar sua dívida com o ‘cheque especial’, era necessário cortar despesas aqui e ali e ter os recibos de sua análise. A esta demanda o analista respondeu com um simples: “aqui não há negociação”. J.A. Miller, em seu curso “Silet”, nos lembra que uma intervenção preciosa do analista é seu eventual ‘sem acordo’ (pas d’accord)(10), pois no inconsciente não há a menor possibilidade de uma harmonia, muito menos de uma negociação, pois falta o significante que poderia estabelecer a proporção sexual.
Esta intervenção do analista marcou, definitivamente, a reviravolta do curso desta análise e, algum tempo depois, um sonho veio testemunhar disto: Carlos sonhou que voltava de um lugar onde vivenciou uma situação que descreveu como muito prazerosa. Apesar de não conseguir identificá-la, acreditava ser uma situação sexual. Chega em sua casa e se depara com dois familiares seus que, muito tristes e num tom acusatório dizem: Ela morreu! Neste ponto acorda.
Logo que relatou este sonho, Carlos decidiu que este era um sonho que apontava para o final de sua análise. Mais uma vez, se lhe apresentou o “final de análise”, como uma saída antecipada. Na verdade, ele fez uma interrupção neste ponto para retornar logo em seguida. Este seu retorno nos propicia, hoje, a oportunidade de verificar que a intervenção do analista, ao apontar a falta de um significante que pudesse estabelecer uma “negociação”, produziu uma experiência que, podemos dizer, marcou uma segunda entrada em análise. Em outras palavras, as intervenções do analista promoveram uma retificação exatamente onde uma retificação deve ser feita: ao nível da pulsão. Nesta perspectiva é que o sonho de Carlos, ao dizer de um trajeto em torno de um vazio ali, onde durante toda a sua vida Carlos insistia em colocar uma mulher, marca o que poderíamos chamar de o lugar da verdade. Este lugar que delimita, no discurso do analista, um espaço onde um saber pode ser reinventado: “Descobri outro dia que, por mais que eu trabalhe, não poderei nunca dar à minha mãe o pedaço que faltou a meu pai”, disse Carlos recentemente, se referindo ao “não” que disse às novas demandas de sua mãe para quitar suas dívidas.
Esta segunda, ou verdadeira, entrada só aconteceu depois de um longo percurso até que acontecesse a passagem de um saber sobre o inconsciente para um consentimento com a experiência do inconsciente. 


A INTERPRETAÇÃO MEMORÁVEL

Esta intervenção que marcou uma passagem, promovendo uma verdadeira entrada em análise, abre-nos a possibilidade de trabalharmos, no âmbito da clínica apresentada, o que é uma interpretação memorável.
A expressão “interpretação memorável”, criada por Jacques-Alain Miller, chamou minha atenção para as “poucas ilustrações concretas” de interpretações que poderíamos chamar de memoráveis nos relatos de análises ao cartel do passe, acrescentando que talvez exista uma dificuldade estrutural para elucidar essa passagem para cada sujeito, pois o momento dessa mutação é difícil de apreender”
É a partir deste ponto que me ponho a trabalho para desenvolver uma hipótese dizendo que esta dificuldade se deve ao fato de que uma interpretação só se torna passível de ser memorável se ela for capaz de promover uma transmutação de registro, ou seja, traduzir “Traços de percepção (Wahrnemungszeichen)” em “Traços duradouros (Dauerspuren)” ou “Traços de memórias (Erinnerungspuren)”. Estando fazendo referência ao esquema do aparelho psíquico proposto por Freud na Carta 52 de sua correspondência a Fliess(11) permito-me introduzir, a partir do desenvolvimento de Lacan, a incidência do traço unário (Einziger Zug) entre as camadas dos “Traços de percepção” (Wahrnemungszeichen) e o “Inconsciente” (Unbewusst), na medida em que é a presença deste traço (Zug), após o assentimento primordial (Bejahung), o que vai possibilitar a estruturação do inconsciente (Unbewusst) a partir do seu limite: o “Unbegriff” - conceito criado por Lacan para nos dizer do UM do inconsciente.(12) 
Como já convocamos a “Carta 52”, continuaremos com sua referência para dizer que a interpretação vai se mostrar eficaz e permanecer como memorável quando ela for capaz de promover o “despertar de um novo desprazer”(der Erweckung(13) neuerlich Unlust(14)) ali onde “uma memória se comporta como um evento corriqueiro” (Die Erinnerung benimmt sich dann wieetwas Aktuelles) com a intenção de promover uma inibição à liberação de desprazer (Unlust)(15).
Minha proposta se sustenta em uma pesquisa (16) no texto freudiano, onde pude constatar que, ao contrário do que observamos nas traduções (português, inglês, espanhol ou francês), são utilizadas três palavras distintas para a palavra traço que, longe de ser apenas uma questão de retórica, vão nos apontar recortes conceituais diferentes, propiciando a uma formalização do que penso ser uma “interpretação memorável”
Zeichen - Freud utiliza este significante na Carta 52 quando nos diz: “o essencialmente novo em minha teoria é a afirmação de que a memória se apresenta não de uma forma, mas de várias formas, em diferentes maneiras de traços (Zeichen = indícios, insígnias).”
Ele aí está nos apresentando “Traços de percepção” (Wahrnemungszeichen), o primeiro registro (Niederschrift) “absolutamente incapaz de se tornar consciente, e organizado de acordo com associações por simultaneidade (Gleichzeitigkeitsassoziation)”(17). Estes traços “nós podemos”, nos diz Lacan, “dar-lhes imediatamente seu nome verdadeiro de significantes.”(18)
Zug - Este significante é utilizado por Freud em poucas ocasiões: “Uma criança é batida” e “Psicologia das massas - parte VII”, onde Lacan vai buscar o conceito de traço unário (EinzigerZug). Trata-se de um traço, de um puxão, de uma espécie de sulco inaugural que tem, como consequência lógica, a Bejahung primordial.
Spur - Esta é a palavra alemã para traço que Freud mais utiliza ao longo de sua obra. Na Carta 52, vamos vê-lo utilizar Spur quando diz que, se na camada denominada “Percepção” (Wahrnemung) nenhum traço (kein Spur) do que acontece permanece, isto só será possível quando do segundo registro (Niederschrift): “Inconsciente” (Unbewusst), onde “traços do inconsciente (Unbewusstspuren) são algo equivalentes a lembranças conceituais (Begriffserinnerungen), também inacessíveis à consciência”(19).  
Acrescento que é a incidência do traço unário (Einzeger Zug) o que promove a reorganização das “associações por simultâneidade” em “lembranças conceituais”, a partir mesmo da instalação do “UM”, do Unbegriff, do vazio como causa.
Freud é bastante claro, portanto, em dizer que é somente quando o traço (Spur) está registrado, é que vai ser possível o próximo passo: “a transcrição (Umschrift) ligada à representação de palavra”(20).
Ora, uma intervenção que se sustentar no deslizamento do sentido permanecerá apenas como traços de percepção (Wahrnemungszeichen) pois, sendo uma indicação, insígnia de um Outro que se apresenta como ideal [I(a)], vai impedir a que uma marca (Zug) possa produzir o  “despertar de um desprazer particular liberando um novo desprazer que, então, não pode mais ser inibido”(21). Este “despertar” só será possível pela ação de um corte, uma separação que, apontando para o vazio que o traço (Zug) deixou ao ser assimilado, vai abrir o caminho (bahnung) para que um traço de memória (Erinnerungsspur) possa se apresentar à transcrição (Umschrift), ligado-se á representação de palavra (Wortsvorstellung). Assim será possível à interpretação produzir ondas e promover uma construção que leve ao atravessamento da fantasia.
Em outras palavras, podemos dizer que é a partir deste sulco (Zug) produzido pelo corte que o esvaziamento do sentido vai ocorrer, apontando a “separação entre S1 e S2  que se inscreve sobre a linha inferior do ‘discurso analítico’”,  como nos esclarece J. A. Miller(22). É este corte que possibilita uma retificação no trajeto da satisfação pulsional, ao desviar o vetor do sentido, para a causa de desejo.                        
                                        a        $
                                        S2.  //   S1

(O S1 vai então se endereçar ao a, explicitado no matema do Discurso do Analista)
Esta é a intervenção de um analista que pode propiciar a um sujeito dar um passo a mais e confirmar a sua decisão pela análise, conforme o fragmento clínico que lhes apresentei acima.
Podemos, à luz da articulação que lhes apresento, dizer que a interpretação que estabeleceu, definitivamente, a reviravolta do curso desta análise abriu um vazio onde Carlos esperava a perpetuação de uma sequência plena de sentido, trazendo o “despertar de um desprazer” que estava apaziguado no “Automaton” de significantes regido por sua crença em ser “tão honesto”.
Em outras palavras, a partir do traço (Zug) que se reinscreveu, o que estava inibido sob as insígnias (Zeichen) do Outro, foi escutado e pode promover a transmutação de memórias conceptuais (begriffserinnerungen) em representação de palavras (wortvorstellungen), dando a Carlos condições de efetuar construções em suas sessões(23).
A operação da interpretação, separando S1 do S2, ou seja, estabelecendo o avesso da proposta do inconsciente, trouxe à luz o intervalo e a possibilidade de uma construção. Com isto, surgiu a esperança de poder ir mais além do sentido, mais além das insígnias ou traços (Zeichen) do Outro, que só fazem produzir um certo conforto. Mais que isso, a incidência da interpretação à maneira de um estilo que sulca a tábua de cera ao imprimir a letra, reabriu os caminhos e fez surgir, em Carlos, o desejo de ir mais além ....

Notas:
          

            10 - Miller, J.A. - “Silet”, Curso do dia 23/11/94.
            11 - Freud, S., “Aus den Anfängen der Psycoanalysis”, Imago Pub. London, 1950, pag. 185.
            12 - Lacan, J., - “Le Séminaire XI - Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse”, Seuil, Paris, 1973, pag. 28.
            13 – Nota(1): Erwecken pode significar tanto “despertar” quanto “ressuscitar”. No sentido figurativo é usado como “provocar”.
             14 - Nota (2): Lembro-lhes aqui que Unlust é um dos nomes freudianos para gozo. 
             15 - Freud, S., - Op. cit. pag. 188.
             16 - Rennó Lima, C. - “Uma brecha na fantasia” in Opção Lacaniana, nº11, pags. 55-59.
             17 - Freud, S., - Op. cit. pag. 186.
             18 - Lacan, J., - “Le Seminaire XI ...”, op. cit. pag. 46
             19 - Freud, S., - Op. cit. pag. 186.
             20 - Ibidem.
             21 - Idem, pag.188.
             22 - Miller, J.A., “L’interpretation à l’envers”, in Revue de La Cause Freudienne nº 32, Paris, 1996, pag. 12
             23 - Miller, J.A., - “L’interpretation a l’envers”, op. cit., pag. 13.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Entrada em Análise: Uma Interpretação Memorável (1ª Parte)

Um sujeito procura análise porque o saber constituído de seu sintoma claudica. Este é o momento em que “o sintoma se  apresenta como impossível a assumir”(1), porque o rompimento de seu envelope formal coloca a céu aberto o que escapa à representação, à ação do pensamento (gedanken) e que permanece como um resto que Freud, no seu “Projeto...”(2) denomina de “a coisa” (das Ding). Em consequência, a angústia surge como sinal.
Buscar um analista torna-se, então, uma das saídas possíveis. Busca-se, no analista, um saber que possa restituir a eficácia do envelope rompido, na esperança de que seja devolvido, ao sujeito, sua certeza de ser na singularidade própria de seu sintoma. É Albert Camus, numa passagem que só os escritores criativos produzem, quem diz muito bem do que se trata: “Ele não era nada senão esse coração angustiado, ávido de viver, revoltado contra a ordem mortal do mundo que o tinha acompanhado durante quarenta anos, esse coração que batia sempre com a mesma força contra o muro que o separava de toda e qualquer vida, querendo ir mais longe, ir além e sobretudo saber, saber antes de morrer, saber finalmente para ser, uma só vez, um só segundo, mas para sempre.” (3)
É, portanto, pela via do saber que começa uma análise e neste começo está a transferência: o amor ao saber. 
Responder deste lugar de saber, no entanto, poderá produzir alguns efeitos, mas nunca uma análise. Por isso é importante distinguirmos, com Gerard Miller, “a entrada em análise de seu começo (...) se quisermos dar conta desses alongamentos que se estiram sob o nome de uma análise, sem jamais iniciarem” (4).
Para que uma análise possa acontecer é fundamental a intervenção de um analista. 
Novamente uma distinção se faz necessária. Quando Lacan  nos diz , em sua conferência intitulada “A terceira”, que “chama sintoma ao que vem do real” (5), ele explicita que este, o sintoma, só se acalma se lhe nutrem de sentido, de tal maneira que só há duas saídas: ou o sintoma prolifera ou se reinventa. Ora, proliferar o sintoma não é bem o objetivo de uma análise, assim como não o é, extinguí-lo.  O fundamental é que não nos esqueçamos de que na base do sintoma está uma impossibilidade que, sendo de estrutura, define-se por: “não há relação sexual” - dizer que Lacan extrai dos ditos freudianos. É a partir mesmo desta impossibilidade que o sentido insiste no ‘automaton’ da cadeia significante.
Não nutrir o sintoma para que este prolifere ou, como usualmente escutamos: não responder às demandas do analisante, propiciando a ele a oportunidade de escutar por detrás dos ditos, é função do analista. Uma interpretação não é, pois, aberta a todos os sentidos(6), mas ao real que constitui o núcleo do sintoma e aí se coloca como um x, impedindo que as coisas andem. Ao visar este núcleo, este para-além da significação, a interpretação, ou o dizer silencioso do analista - e aqui me refiro ao silêncio da falta de palavras [S(A/)] - é que vai promover uma volta a mais a partir mesmo do um-a-menos de sua resposta.
Esta volta a mais só será possível se o analista não ceder de seu desejo, permitindo que os efeitos do reinado do objeto ‘a’, enquanto semblante, levem o sujeito à experiência de desamparo (Hilflösigkeit), condição primordial ao surgimento do desejo. É o que pretendo mostrar ao desenhar, sobre a topologia do Grafo do Desejo, um Oito Interior. (Vide figuras abaixo)

                                                  
                    Grafo do Desejo
                  
                  
                              Oito interior
Esta volta a mais, podemos dizê-la correlativa de um tempo para compreender na medida que, frente a frente com a demanda do Outro, e não mais submetido a um “querer” do analista, o analisante poderá dizer, como o fez outro dia uma cliente: “Saí daqui preocupada com a última sessão. Parece que eu estava sempre querendo falar coisas que lhe interessassem.” Este é um sinal claro da presença de uma transferência e, mais ainda, de um certo saber que aponta para um mais-além da demanda, dizendo que uma análise poderá acontecer. 
No entanto, muitas vezes este percurso é paralisado, é interrompido, ou pode até ir um pouco além deste ponto, quando o saber que o sujeito adquiriu durante este tempo de compreender apresenta-se como suficiente. Com a intenção de manter-se não sabendo, o analisante faz a opção pelo luto do analista para, assim, poder sustentar seus ideais e a crença num Outro. Esta é a esperança de poder evitar saber da perda forçada que a entrada na linguagem impõe ao sujeito.
Podemos denominar este momento de uma saída terapêutica aí, onde uma análise didática poderia ter começado.
Em sua “Nota aos Italianos”, Lacan já dizia desta possibilidade ao afirmar que a humanidade não deseja saber e que “não há analista, senão quando um desejo lhe vem” (7).
Quando, ao contrário, um passo a mais pode ser dado, vamos ter o que pode ser chamado de uma “segunda entrada em análise”. Este termo, introduzido por Gerard Miller é relembrado por J. A. Miller em seu artigo sobre “As saídas de Análise”: “poderíamos nos perguntar se não há sempre, em certo sentido, uma segunda entrada em análise. O sujeito entra em análise antes de efetivamente saber o que é uma análise; por isso é necessário que o analista intervenha para confirmar sua opção” (8).
A confirmação desta opção, acredito, não se faz pela via do saber, mas sim por umconsentimento com a experiência do inconsciente. Quando me refiro a consentimento, tenho em mente o que Lacan nos diz em seu Seminário VII - “A Ética da Psicanálise”: quando, uma vez cumprido o ato do assassinato do pai da horda primitiva, “se instaura um consentimento inaugural que é um tempo essencial na instituição da lei, quanto à qual a arte de Freud será vinculá-la ao assassinato do pai, de identificá-la à ambivalência que então funda as relações do filho com o pai, isto é, ao retorno do amor após efetuado o ato.”(9)
Destaco o “retorno do amor” para dizer que aqui também, nesta passagem, o amor de transferência se enlaça neste ponto onde o sujeito vê, para além do narcisismo, o Outro como a própria presença da morte, espreitando. É o momento em que, já não mais podendo ter a garantia da sobrevivência deste Outro de suas virtudes, o sujeito encontra no amor o signo que vai sustentar o giro de quarto de volta do discurso. É quando uma segunda entrada em análise poderá acontecer.
(Continua...)


Notas:

1 - Soler, C. - “Variáveis do fim da análise”. Papirus Ed., Campinas, SP. 1995. Pag. 73
2 - Freud, S. - “Aus den Anfängen der Psychoanalyse” Imago Pub. London, 1950. Pag. 
3 - Camus, A. - “O primeiro homem”. Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1994. Pag. 26
              4 - Miller, G. - “La seconde entrée in analyse”, in Actes de l’Ecole, nº 3, Paris. 1982. Pag. 46
              5 - Lacan, J. - “La Tercera”, in Intervenciones y textos, Ed. Manantial, B. Aires, 1988. Pag. 84  
              6 - Lacan, J. - “Le Séminaire XI - Les quatre concepts ...” Ed. du Seuil, Paris. 1973. Pag. 226
              7 - Lacan, J. - “Nota aos Italianos”, in Opção Lacaniana, nº 11, Ed. Eolia, SP Nov 1994. Pag. 6
           8 - Miller, J. A. - “As saídas de análise”, in Opção Lacaniana, nº 7/8. Pag.
           9 - Lacan, J. - “Le Séminaire VII - L’éthique de la psychanalyse”. Ed. du Seuil, Paris, 1986, pag.        207



segunda-feira, 22 de junho de 2020

ENTRADA EM ANÁLISE E O GRAFO DO DESEJO

Em seu texto, “Amanhã a psicanálise”, Michel Silvestre nos diz que “a queixa, quer dizer, a demanda, demanda de análise entre outras, e o sofrimento são duas coisas. Pode-se sofrer – mentalmente – e se recusar a qualquer queixa... Há uma distinção radical entre a queixa e o sofrimento. Ela é radical pois oferece uma escolha ao psicanalista: aquela de tratar a queixa ou de colocar em causa o sofrimento. (...) a queixa é uma fala, o sofrimento é uma paixão (...) o sintoma.” Continua M. Silvestre, “ é isso que claudica, mas é também isso que se soma ao sofrimento para aí fazer uma queixa. O sintoma implica um endereço onde ele se decifra (...) temos, portanto, de um lado, um sofrimento que o sujeito pode suportar com um heroísmo estóico e sem dizer palavra. De outro, os portadores de sintomas que banham seu ambiente com eles, mas sem sofrerem, eles mesmos, absolutamente nada. Na medida em que os dois se conectam na mesma pessoa, isso pode produzir uma demanda de análise.”
Esta longa citação tem como proposta dizer-lhes que é preciso algo mais, talvez o que Lacan chamou de “um-mal-a-mais” para que a nossa intervenção como analista se justifique.
É disto que tratarei agora, tomando como referência o grafo do desejo tal como Lacan o elaborou em sua forma final no texto “subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano”.

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Comecemos por instalar o sintoma aí mesmo onde Lacan o instalou no seu grafo: s(A) ponto onde a interseção de duas demandas vai produzir a significação do Outro. Este ponto, que vem a ser s(A) somente no “a posterior”, é de onde parte o endereçamento para onde um decifração poderá ocorrer, ao A. “Lugar mais que espaço”, o A tem sua inconsistência estrutural pois traz no seu seio sua própria contradição na forma deste objeto que lhe é o mais íntimo e o mais estranho: o objeto a.
É pois aí, neste ponto de extimidade que denuncia a falta do significante que podeira apaziguar o mal-estar do sintoma é que vamos ver instalar-se o sujeito suposto Saber na esperança de se fazer restaurar a consistência perdida. Este sujeito se faz presente enquanto um significante qualquer que poderia produzir uma representação total do sujeito em questão.
Sabemos, desde Freud, que o fato de um sujeito buscar análise não implica dizer que ele entrou em análise. Este circuito que acabo de lhes descrever pode muito bem permanecer assim de modo circular através de um curto-circuito pelo i(a) que é a imagem especular do objeto e reforçando o eu (moi) para, então, relançar a demanda fechando o circuito.
No entanto, algo precisa acontecer para que este circuito seja interrompido e o vetor seja lançado para o outro andar do grafo, aquele onde Lacan nos diz referir-se à enunciação.
Freud esclarece que, se num primeiro momento o sujeito se coloca a repetir suas experiência para não rememora-las, o fato de as estar rememorando depois de um tempo ainda não é indicativo de que um certo umbral foi ultrapassado para que possamos dizer que está acontecendo uma análise. É somente quando há uma mudança de posição do sujeito na sua relação ao gozo do sintoma que vamos ver acontecer o que Freud chamou de “Durcharbeit” ou perlaboração.
O que vai sustentar esta passagem, ou melhor, este salto, é o desejo do analista. A partir de não responder ás demandas, um vazio vai ser mantido e o sujeito vai, fatalmente, se deparar com sua própria demanda fundamental. É o que nos indica, no grafo do desejo, o matema  $ ◊ D.
É neste ponto que o sujeito vai se deparar com sua própria castração e com a questão do Outro que lhe retorna do lugar de onde ele espera um oráculo, sob o libelo de um Che voui? Que queres? É isto que lhe conduz melhor ao caminho do seu desejo.
Este vetor vai completar sua volta esbarrando no matema $ ◊ a  que Lacan diz ser a maneira como o desejo se articula para o sujeito. É esta a interpretação que se faz da falta no Outro S(A/)   e que põe a nu a estrutura que sustenta, na sua articulação, o desejo do sujeito em questão.
É assim que uma análise pode acontecer e uma retificação a nível da pulsão, que sustenta a articulação do sujeito e seu objeto, pode ser feita Uma nova interpretação do encontro com Outro surge, então, no horizonte promovendo uma nova aliança pulsional e abrindo para o sujeito a possibilidade dele exercitar a mais humana das condições: a possibilidade de escolher. Poder escolher é o que diferencia a pulsão, tal como Freud a apresenta, do instinto, onde não esta colocada nenhuma possibilidade de escolha.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Sobre a realidade psíquica e o desejo do analista - Revisitando o Seminário XI

Vou partir da noção de realidade psíquica como realidade sexual para saber da pulsão e seu circuito, com a intenção de esclarecer o que está escrito ao final do Seminário XI: “... após a distinção do sujeito em relação ao objeto“a", a experiência da fantasia fundamental se torna a pulsão”.
O incons­ciente, enquanto um campo aberto por Freud aponta para o “não nascido”, para uma brecha, para “uma forma desconhecida do Un, do Unbewusste, cujo limite é o Unbegriff - não um não conceito, mas o conceito da falta”. 
Em outras palavras, é a partir do recalque originário, que trouxe como con­sequência a impossibilidade de um primeiro traço sofrer uma tra­dução, que se criou um pequeno intervalo entre os significantes que passaram a se ordenar a partir da história de cada sujeito. Esta ordenação não é aleató­ria e vai se sujeitar a uma estruturação que não é outra, senão a da linguagem. Isto é o que foi acres­centado ao legado freudiano: “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” o que autorizou Lacan a dizer que, “se o campo é freudiano, o inconsciente é lacaniano”.
Ora, é exatamente esta brecha, este intervalo, o responsável pela repetição. A repetição, este outro con­ceito clínico importante, se escla­rece sob os termos aristotélicos de automaton e  tiquê: o automaton representado, de maneira sucinta, pela cadeia significante e a tiquê se apresentando nos seus intervalos como um encontro sempre faltoso.
Na verdade, este encontro sempre faltoso é que vai designar o lugar do Real. Lugar este que se instaura pelo trauma inicial e que vai se constituir na fantasia fundamental, na medida que a fantasia funda­mental é esta tela que vai dissimular o que aí permanece como motor da repetição. 
Assim, se colocando entre o sonho e o despertar, este Real pode se repre­sentar pelo acidente como o da vela que tomba, no sonho relatado pela paciente de Freud, ou pelo pequeno barulho da batida à porta, descrito no seminário XI, ou ainda por este pouco de realidade que vai nos dizer que não so­nhamos mais. “Mas, por outro lado, esta realidade não é pouca, pois isso que nos acorda é a outra realidade es­condida por detrás da falta disso que se constrói no lugar de representação - é o “Trieb”, nos diz Freud...”Trieb a vir”.
Por outro lado temos o olhar como objeto pequeno a, a partir da divisão entre o olho e o olhar. Esta divisão que nos interessa, nada tem a ver com as formas impostas pelo mundo, em direção às quais vai nos dirigir a fenomeno­logia, no que diz respeito ao visível e o invisível. “o olhar vai apresentar-se a nós sob a forma de uma estranha contingência simbólica disso que encontramos no horizonte e como fim de nossa experiência, a saber, a falta constitutiva da angús­tia de castração”.
Divisão entre olho e olhar é como se manifesta a pulsão ao nível do campo escópico. Em outras palavras, podemos dizer que esta divisão se demonstra na medida em que olhar, en­quanto objeto a, vem simbolizar a falta central, expressa no fenômeno da castração, e se reduz, por sua natureza, a uma função punti­forme, evanescente, deixando o sujeito na ignorância disso que existe para além da aparência”. 
Uma outra questão presente no Seminário XI passa pela certeza cartesiana, e coloca em questão a verdade do “eu minto”, para constatar que um entrelaçamento “entre o campo do inconsciente e o momento de Freud, onde este campo se revelou”. Campo este que não é qualquer e que se organiza como um campo magnético, onde sua subsistência se assegura por “ser um campo que, por sua natureza, se perde”. É aqui que a presença do analista vai se tornar irredutível, como testemunha desta perda ... que é “uma perda seca, que não se salda por nenhum ganho” 
Sustentado no que acabo de citar, e configurando a sua nova aliança com a descoberta de Freud, Lacan vai nos dizer que: ”isto que é a causa do inconsciente deve ser fundamen­talmente concebida como uma causa perdida. E é essa a única chance que temos de ganhá-la”. 
Uma brecha, uma falha na tradução de um traço, um conceito de falta (Unbewusste - Unbegriff), um lugar que se abre à representação, ao significante enquanto Vorstellunngsrepräsentantz e que vai promo­ver a instalação de uma tela protetora na medida em que um sujeito, constituído pelos efeitos da fala vai estabelecer uma relação com este resto que permaneceu sem tradução. A partir daí uma realidade vai se constituir e só a análise vai ter condições de sabê-la pois, é na transferência que esta realidade vai ser colocada em ato. E, ao analista, cabe apenas persistir como testemunha desta perda pura em que se cons­titui o inconsciente a cada vez que um sujeito se apresenta como consequência dos efeitos da fala. Sujeito que estará, a partir daí, para sempre representado por um significante, para outro significante. E será apenas na psicanálise que se pode constatar esta presença da realidade do inconsciente, ”que nossa intervenção não somente traz à luz, mas até um certo ponto a engendra”. E a engendra, pela via da trans­ferência. A partir dessa afirmação, um passo a mais pode ser dado: “A realidade do inconsci­ente é ... a realidade sexual”.
Impossível negar os progressos da ciência no que diz respeito à sexuali­dade. “Hoje sabemos um pouco mais sobre o sexo, do que em 1900”, assim com também é inegável que a espécie só subsiste sob a forma de seus indivíduos que, através da reprodução vão perpetuá-la até sua ex­tinção. Desta forma, um indivíduo de qualquer espécie é transitório e mortal, o que nos leva a associar, como o fez Freud no texto “Para Além do Princípio do Prazer”, sexualidade e morte. Em algumas espécies vemos isto se demonstrar de forma imediata e drástica. 
Para além das funções de reprodução se associam à diferenciação sexual caracteres e funções secundárias que vão ser bem delimitadas pelo estruturalismo moderno. Quando se colocam essas características e fun­ções sexuais em oposição à geração natural, à linhagem biológica, para se dizer das trocas fundamentais, estas se dão ao nível do significante, nos termos de uma combinatória. 
O trabalho desenvolvido por Levi-Strauss nos coloca  diante da seguinte  questão:  o significante não teria chegado ao mundo do homem quando da integração desta combi­natória à realidade sexual? 
Foi só depois que, pela realidade sexual, o significante entrou no mundo, que o homem começou a pensar.
Há, sem dúvidas, uma afinidade entre os enigmas da sexualidade com o jogo dos significantes, aí incluído o que fica excluído como resto. 
Neste ponto do Seminário XI é feita uma alusão às ciências primitivas como demonstração desta afini­dade e, ilustrando esta sua afirmação com a as­trologia chinesa, nos diz que “a ciência primitiva seria, ...uma espécie de técnica sexual”. 
Ao se questionar  sobre aonde nos leva todo este discurso e se devemos considerar o inconsciente como uma remi­niscência das funções arcaicas do pensamento com a realidade sexual,  passamos rapidamente pela tentativa junguiana de eliminar o conceito da libido, exaltando esta conjunção histórica sob a égide dos arquétipos. Ora, “a libido é a presença efetiva, como tal, do desejo ... que não é uma substância, que está aí no nível do processo primário, e que comanda, até mesmo, a maneira de nossa abordagem”. 
A introdução, como tal, do desejo, vai abrir espaço para  começar a seguinte discussão: “É ao nível da análise que deverá se revelar isso que aí é desse ponto nodal pelo qual a pulsação do inconsciente está ligada à realidade sexual. Esse ponto nodal se chama desejo. (...) Desejo este que se situa na dependência da de­manda - a qual, por se articular em significantes, deixa um resto metonímico que corre sob ela, elemento que não é indeterminado, que é uma condição, ao mesmo tempo, absoluta e inapreensível, elemento neces­sariamente em impasse, impossível, desconhecido, elemento que se chama desejo. É isto que faz a junção com o campo definido por Freud como aquele da instância sexual ao nível do pro­cesso primário”. 
“A função do desejo é resíduo por detrás do significante no sujeito.” 
Uma vez trazida à tona esta idéia de desejo, ponto nodal onde a pulsação do inconsciente esta ligada à realidade sexual, vai se introduzir a noção do ter­ceiro, que se apresentando sob a forma da lei, da interdi­ção, vai se fazer presente, vai incidir mesmo quando estamos a nível do processo primário, quando a descarga motora está impedida, levando como consequência, à uma regressão à percepção na tentativa da ratificação alucinatória. Nesse caso o que vemos é que se alucinam os objetos interditados, como no caso da pequena Anna Freud . 
Este terceiro, sem dúvidas, é o sujeito que deseja, e que deseja sexual­mente e que vai poder decidir da identidade desta percepção. É, pois, do ponto de onde o sujeito deseja  que vai ser dada a conotação da realidade na alucina­ção. (vide a teoria dos sonhos)
É a partir daí que podemos dizer, com Freud, que a diferença entre princí­pio do prazer e princípio de realidade é que este, o princípio da realidade, comporta um investimento de libido desexualizada. 
Talvez agora fique um pouco mais claro que é na transferência que vai se inscrever o peso da realidade sexual. Ou seja, aquilo que corre sob o que se passa a nível do discurso analí­tico (a -->$) e que sendo desconhecido em grande parte e, até um certo ponto, velada, vai tomar a forma de uma demanda.