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terça-feira, 25 de novembro de 2014

O IMAGINÁRIO E A PULSÃO ESCÓPICA (III)

A história de Otávio, o colecionador
 
​Para se dar conta de “escrever um quadro”, ou seja “escrever isso que não se pode dizer nem se ver e que se mostra ao capturar seu espectador”, vamos convocar, com Hervé Castanet, à Otávio: 66 anos, admirador do Marechal Petain, Professor de Direito Canônico e de Escolástica na Faculdade Católica. Otávio é casado com Roberta, uma jovem e bonita mulher. Seu hobby é colecionar quadros de um pintor desconhecido da segunda metade do século passado. Trata-se dos quadros de Frédéric Tonnerre. Otávio se orgulha de ser seu único colecionador.
​Otávio passa horas a olhar aquelas telas, a ponto de escrever, no seu diário que, pelo olhar, o seu, é que as telas tomam vida.
​Mas é exatamente nessa sua tentativa de “fazer” o quadro pelo olhar que Otávio fracassa. Ele fracassa diante do que ele denomina “a glória” da obra, glória, esta, que ele compara ao mistério do Santo Sacramento. “A glória do quadro, diz Castanet, é que há nele, segundo nosso colecionador, uma “presença real” que absolutamente a ultrapassa ...  Uma presença real que lhe olha, enquanto que ele, somente vê a pintura e a descreve” Assim, seu olhar não faz totalmente o quadro e alguma coisa perdura e o faz escrever longas descrições em seu diário.
​Mas, o que, na verdade prende Otávio e o faz estabelecer um catálogo de suas obras está na epígrafe de seu diário. Trata-se de uma frase de Quintiliano: “Alguns pensam que há um solecismo no gesto, todas as vezes que, por um movimento da cabeça ou da mão, damos a entender o contrário do que se diz”. É, portanto, o solecismo o único motivo pictorial dos quadros de Tonnerre.
​Diante deste ponto em que a pintura se cala é que Otávio vai dizer: “trata-se do desvelamento de uma violência, onde uma mulher está aí implicada. O que Tonnerre quer  exprimir é esta simultaneidade da repugnância moral e da irrupção do prazer na mesma alma, no mesmo corpo”. Este ponto de báscula, mostrado por uma mulher, é o que fascina Otávio.
​Isto se explicita no quadro de “Lucrécia”, a heroína romana, que Otávio descreve com precisão: “se ela cede, aos avanços de seu conquistador, ela trairá evidentemente; se ela não cede, ela passará por ter traído, pois, morta pelo seu agressor, ela será caluniada, por acréscimo”. Ao descrever o quadro, Otávio “vai perseguir aquele ponto de irrupção de prazer no corpo, ainda preso na repugnância, expressa pela posição das mãos que vão dizer de um desejo, ao mesmo tempo que evitam o crime”.
​Sabemos que o personagem sadiano não obtém a adesão de seu interlocutor pela argumentação, mas sim por sua cumplicidade, que é afinal de contas, o que Otávio aponta no solecismo, na ambiguidade dos gestos.
​Toda esta situação vai enfim questionar e embaraçar Otávio, “ao se fazer olhar, não é o ‘como pode gozar do Outro?’ que lhe atormenta, mas como e de que goza o corpo do Outro, prioritariamente tornado presente por uma mulher: ... Como mostrar e, portanto, como ver e fazer ver o gozo feminino?” É esta, no final das contas, a paixão de Otávio, que busca “este ponto onde o corpo da mulher dissimula os charmes, tanto mais exuberantes quanto mais eles são velados, pontos-bascula que a mancha de carne revela ao se furtar à vista” comenta Otávio e conclui que: “sem pintura não há dito”.
​Para levar isto às suas últimas conseqüências, Otávio passa a colecionar quadros vivos, colocando em cena personagens de carne, procurando imitar a arte pela vida: “a vida se dando em espetáculo ela mesma; a vida permanecendo em suspenso”, num esforço de “passar por detrás de nossa vida para olhá-la”.
​Todo o processo é de observar esta vida sob a “sensação de desaparecer como sujeito: (...) a visão é para mim, insiste Otávio, a última chance de saída (...) a única certeza de minha existência consiste no fato de ver isso que chega quando se crê que eu aí não sou”. É assim que Otávio se torna “todo inteiro olhar envolvido”. É deste lugar que ele vai colocando em cena, uma a uma, as pinturas de Tonnerre, na intenção de obter esta “simultaneidade da repugnância moral e da irrupção do prazer na mesma alma, no mesmo corpo”. E ele aí vai implicar, sistematicamente, sua mulher Roberta.
​Otávio passa, então, a descrever as cenas congeladas nestes quadros vivos, onde Roberta é a jovem pura, submetida aos impuros apelos  que vão despertar nela a irrupção do prazer. Cenas em que Roberta é descrita como estando inteiramente nas passagens e é reduzida ao ponto-báscula, imobilizada por homens desconhecidos que abusam dela. Otávio vai definindo, passo a passo, as regras perversas onde Roberta se torna uma puta: “É o momento tanto perseguido, nos diz Castanet, o instante da porta aberta onde os semblantes se desmancham deixando aparecer a verdade da essência da esposa: seu gozo próprio, o mal e sua irrupção, sem palavras, sinaliza a morte de Deus”.
​É a maneira de desconectar o corpo dele mesmo, de trazer à tona “uma força estranha ao interior do significante”: as forças da não palavra. Do que se trata, afinal de contas, é de extorquir ao outro, para-além do semblante fálico, o Outro gozo que ele esconde.
​A escolha dos homens estranhos acontece por produzir, em Roberta, exatamente o “frisson” que satisfaz e que sinalizará a irrupção do gozo que a divide e a deixa sem palavras.
​Mas, novamente Otávio fracassa, como diante dos quadros de Tonnerre. Para repetir infinitamente seus quadros vivos, ele segue atribuindo este fracasso à Roberta não ter seguido, precisamente, as suas regras. O que ele não sabe é que, na verdade, o que ele tenta é delimitar esse real (a glória da tela) que jamais será redutível à rede significante. Este real que é o buraco delimitado no coração central do quadro, ponto esvaziado, para o qual olha nosso herói, exatamente aí onde não pode vê-lo.
​Cada vez mais insuportável, o fracasso constante leva Otávio a lançar-se, ele mesmo na cena. O quadro escolhido é o da “Bela Envenenadora”. É um quadro que procura ilustrar uma cena de incesto. Otávio demanda a Roberta mais uma participação. Mais uma,  para que ele possa saber enfim! Para que ele saiba, enfim, o que é Roberta.
​E Otávio decide: “deve morrer para se reduzir a um puro olhar, propriamente falando, eterno: ‘Eu verei sempre! Exclama...’ Morrendo, nosso sujeito perverso tenta - tal é o ponto de sua fantasia que assim libera sua lógica - se colocar definitivamente do lado do Outro. Ao colocar em cena sua morte, ele ensaia se equivaler ao Outro, absoluto, não barrado, que concretizará o gozo que nenhum significante virá encantoar ou furar...  e se libertará definitivamente de sua divisão. (...) Morto, Otávio não dirá mais nada, nada mais de ‘Che Vuoi?’ tormentoso”. Assim ele tenta apagar do Outro toda falta que se simboliza pelo corpo dA mulher [S(A/)].

​Para concluir: “Tal teria sido, a partir desta Tiquê inaugural, o destino subjetivo de Otávio. Para se fazer olhar cego da ‘emoção satisfeita’ de sua esposa, onde ele tentou ver se desdobrar o gozo do corpo do Outro que não tem forma, nem nome, S(A/), ele vai até desaparecer. Otávio não pode chegar a se fazer voyeur absoluto de Roberta, tornando-se definitivamente Outro. Ele será, enfim ‘voyeur’ do gozo feminino, mas morto, Outro absolutamente”

terça-feira, 18 de novembro de 2014

O IMAGINÁRIO E A PULSÃO ESCÓPICA (II)

Do objeto pulsional, passemos agora à pulsão escópica. Em primeiro lugar quero lembrar-lhes que, no campo escópico, o olhar não é uma visão atenta e dirigida, “o olhar é inseparável da falta constitutiva da angústia de castração”. Desta forma, o olhar vale “como símbolo da falta, quer dizer, do falo, não enquanto tal, mas na medida que ele faz falta" (a/-j).                                                                                                              
​Para Lacan, “na nossa relação às coisas, tal que ela é constituída pela via da visão, e ordenada nas figuras de representação, qualquer coisa desliza, passa, se transmite, de estágio em estágio, para aí se ver sempre e a qualquer grau, elidida - é isto que chamamos o olhar”. (Lacan Sem. XI)
​Tal definição coloca o olhar fora do visível, fazendo furo no agenciamento das representações. Em outras palavras, no campo do percebido podemos dizer que o olhar torna presente a parte elidida como libidinal. Nisto, por ser presença de furo, um vazio, ele é condensador de gozo.
​É esta a divisão radical entre o olho, órgão da visão, e o olhar, objeto "a" da pulsão escópica, “reduzido, por sua natureza, à  uma formação puntiforme, evanescente” (Lacan, Sem. XI).
​Para o sujeito, o que vai se desnudar aí é a pré-existência de um olhar: “Eu só me vejo de um ponto, mas, na minha existência eu sou visto de todos os lados” (Lacan, Sem. XI)
​Ora, isto quer dizer que o olhar está fora e que é do lugar do Outro, em primeiro lugar, que  isso olha, assim como no sonho, podemos dizer, que isso mostra.
​Podemos, então, concluir o que seja o paradoxo desta divisão do olho e do olhar: isso que é mostrado do lugar do Outro ao sujeito, que não pode ver, o olha. Mas aí é que está o ponto: isso que o olha, que é o objeto "a" e o causa como aquele que quer ver, permanece impenetrável, para além da visão , deixando o sujeito na sua ignorância: “O olhar que eu encontro (...) não é, de jeito algum, um olhar visto, mas um olhar imaginado por mim, no campo do Outro” (Lacan, Sem.XI)
​No intuito de colocar às claras a teoria que desenvolvi até aqui, vou tomar a clínica. Trata-se de um caso de voyeurismo, retirado da literatura ficcional, e que está descrito num excelente artigo de Hervé Castanet intitulado : “Sobre um caso de voyeurismo tirado da obra de Pierre Klossowisk”. Este artigo está publicado na Revue de Psycalanyse, La Cause Freudienne, 25.
​Para que possamos acompanhá-lo, vou fazer duas escanções, na apresentação que Castanet faz a este caso. A primeira é sobre o “quadro” e a segunda, sobre “voyeurismo”.
​O quadro é inseparável da luz. O ponto luminoso é o “ponto de irradiação, jorro, fogo, fonte abundante de reflexos”. É desse ponto luminoso que tudo me olha. É exatamente porque o olhar está assim colocado que ele não está congelado, nem imóvel e, portanto, não é referendado como tal: “Isto que me olha é sempre algum jogo da luz e da opacidade (...) que participa sempre da ambigüidade da jóia”.
​O olhar se elide no espelhamento, no cintilar que especifica o ponto luminoso.
​O quadro é isto que, nos jogos de sombras e luz, faz tela, isso que faz mancha na visão. O sujeito, aí, deve ser colocado como estando sob o olhar do Outro, fora. É por isso que para este olhar do Outro, ele faz mancha no quadro. (É o que Lacan chamou, em Subversão do Sujeito de ponto de opacidade subjetiva) - “Sem dúvidas, no fundo de meu olho se pinta o quadro. O quadro visto, está no meu olho. Mas eu, eu estou no quadro” (Lacan, Sem. XI). Eu estou aí, preso, capturado por isso que me olha e que eu ignoro. No quadro, portanto, o sujeito deve se referendar como tal, na medida em que é aí que se encontra, cifrado, isso que o causa como desejoso.
​É como se disséssemos: você quer olhar, pois bem, veja então isto! E aí lhe será oferecido algo a ver (um quadro, p.ex.) que recobre, esconde, isso que o sujeito quer ver.
​A relação do olhar a isso que se quer ver é uma relação de engano. O sujeito se apresenta como outro que ele não é, e isso que se lhe dá a ver não é o que ele quer ver, pois o que ele quer ver, e que olha não é visível ... para além do quadro como tela não há nada.
​Esse nada é o olhar, é o buraco central e esvaziado que faz existir o quadro como tal e institui o sujeito no visível.
​A segunda escanção é em torno do voyeurismo:
​À pergunta:”o que se passa no voyeurismo?, Lacan vai responder que “no momento do ato do voyeur (...) o sujeito não está aí enquanto o que se trata de ver (...) ele está aí enquanto perverso e ele se situa no final da curva pulsional. Quanto ao objeto (...) a curva gira em torno dele, ele é o míssil (...) o objeto é aqui olhar - olhar que é sujeito (...) que faz a mosca do tiro ao alvo”.
​Isto  o sujeito alcança por um processo rigoroso de desubjetivação. Neste ponto o sujeito não pode mais nem dizer, nem ver porque, ao se tornar ele mesmo olhar, ele se tornou o que tão avidamente vinha buscando ver. Assim, ao se tornar o que buscava não verá mais nada e o objeto lhe escapará.
​Identificando-se, portanto, ao que lhe divide, este resto esvaziado do jogo significante, ele não pode mais dizer, nem explicar. Fascinado, ele estará silente e ... cego.
​Por isso é que Lacan nos diz que o voyeur, na verdade, busca “o objeto enquanto ausência. Isso que ele busca e encontra, não é mais que uma sombra, uma sombra por detrás da cortina... Isso que ele busca não é, como se diz, o falo, mas justamente sua ausência...”
​Em outras palavras, efetivamente, por detrás da cortina, para além da tela pintada, há nada, malgrado todas as elucubrações, e esse nada é o olhar que o sujeito se torna, para-além, quando seu alvo é atingido.
​Véu, tela, pintura, rasura, são artifícios para esconder o membro sexual, na medida mesmo de sua ausência na mãe (-j).
​Quer se queria ou não o falo está sempre velado, enquanto significante que inscreve que o gozo falta ao sujeito, que a relação sexual é impossível. Como consequência, o percurso vai se esgotar em verificar o falo, a tentar fazê-lo reentrar no campo do uso, a tentar devolver ao corpo o gozo perdido, se tornando “um recuperador de gozo e, o objeto que ele substitui ao Outro, será um condensador do gozo perdido”. É como o perverso vai, ao se colocar no lugar da falta fálica como objeto que se faz ver, tentar trazer a esse Outro uma consistência de ser sexuado.
​“Restituir o olhar como mais-de-gozar” ao Outro fará desse Outro um ser sexuado para-além da castração fazendo com que aí, onde corpo e gozo - incompatíveis desde a entrada do simbólico - sejam, enfim, compatíveis.
(Continua)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O IMAGINÁRIO E A PULSÃO ESCÓPICA (I)

Vou começar lembrando, com J.A.Miller que “o imaginário pós-simbólico é muito distinto do imaginário pré-simbólico”, levando-se em conta que se está  falando da introdução do simbólico por Lacan, por ocasião do “Estádio do Espelho”, quando ele estabelece uma disjunção entre o imaginário e a percepção, deixando claro que este imaginário de Lacan, de modo algum se vincula à imaginação, mas sim que  “o mais importante do imaginário é o que não se pode ver”.
​Esta passagem fundamental da obra de Lacan introduz a função do véu de tal maneira que a tela é o que vai converter o nada em ser, na medida em que vai esconder o que não há: “esconder o objeto, e esconder, ao mesmo tempo e com a mesma facilidade, a falta de objeto”. Em outras palavras, “graças ao véu, a falta de objeto se torna objeto e, ao mesmo tempo, se introduz no mundo o mais-além, de tal maneira que com o véu, disse Lacan, já há no imaginário o ritmo simbólico de sujeito, objeto e o mais-além”.
​Feita esta pequena introdução sobre o Imaginário, vou tratar agora da questão do objeto. Partirei da divisão entre o olho e o olhar e vamos falar do olhar como objeto da pulsão escópica.
​É no Seminário XI que Lacan vai enfatizar, inclusive colocar como ponto central, a pulsão e seu objeto. Este movimento marca uma escanção no seu ensino: a lógica da falta, presente desde o início, vai sofrer um remanejamento - “será deslocada da falta fálica, ordenada pelas referência simbólicas do Édipo (que são nada mais, nada menos que o contorno do buraco), para conceituar a falta real (o buraco enquanto tal), aí onde nenhum significante se inscreveu” (S(A/)).
​Esta falta real, este buraco, já se sabe que é precisamente o que a pulsão permite apreender no seu movimento de ir e vir, especificado no seu trajeto para alcançar o ser sexuado do Outro. Como isto é impossível pois o significante que inscreve a relação sexual, falta, este movimento é sempre acompanhado de um fracasso. São estes fracassos constantes em alcançar este ser sexuado após cada volta da pulsão que vai ser escrito pelo objeto "a" .
​Cumpre ressaltar aqui, que a pulsão só pôde ser abordada após ter sido colocada a dependência do sujeito em relação à lógica do significante. Ou seja, é exatamente porque no Outro significante há esta falha quanto à nomeação da diferença sexual, quanto à nomeação deste acidente que é o encontro do sujeito com o sexo feminino, que a pulsão vai emergir. Portanto a pulsão não é um antes ou um depois da estrutura S(A/)), ela é um efeito: “Ela designa a conjunção da lógica e da corporiedade”. Esta é uma outra maneira de dizer “a pulsão é um conceito limite entre o somático e o psíquico” (Freud, A pulsão e suas vissicitudes). É preciso que neste ponto se alerte para o que Lacan, ao longo de seu ensino, não cansou de repetir: “A pulsão não é a perversão” pois esta confusão - Pulsão = Perversão - poderá trazer, como conseqüência, sérios equívocos clínicos. Na perversão, o trajeto pulsional sofre um curto-circuito em consequência da relação que o sujeito perverso mantém com o Outro: nos seus rituais ele não leva em conta nem a demanda, nem o consentimento do parceiro. Pelo contrário, como me disse outro dia um paciente: “É preciso que o outro esteja morto para eu gozar, por isso escolho os sapatos, eles não falam. Se o outro fala, acaba tudo”.
​É, portanto, a partir deste curto-circuito na demanda do Outro que poderemos deduzir o curto-circuito pulsional. O sujeito perverso vai se fazer, ele mesmo, puro “míssil”, não aprisionado no trajeto pulsional, ou seja, vai se colocar fora deste trajeto da demanda articulada nos significantes do Outro.
​Desta forma, ao desconhecer (Verleugnung) “o que me quer o Outro”, a pulsão não vai se encaixar no seu ir e vir e o sujeito perverso vai se reduzir a um objeto heraldizado, na sua solidão.
​É assim que se por um lado, como nos lembra Lacan, “o catálogo das perversões pode ser desenhado no neurótico”, no perverso podemos estabelecer o catálogo do “como se fazer objeto”.
(Continua)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Objeto de Freud a Lacan ( 3ª Parte)

No seminário II, Lacan vai relacionar o final de análise com o reconhecimento, pois se baseia no esquema L. Mas já se vê delinear-se a importância da teoria do objeto para Lacan, quando ele tenta formalizar este final de análise. 
O termo reconhecimento, por outro lado, se contrapõe ao termo desconhecimento, que nos diz do que é próprio e fundamental do Eu imaginário. 
Desde cedo, Lacan vai rechaçar qualquer formulação em direção a uma teoria do conhecimento e coloca a experiência analítica como marcada pela díade desconhecimento-reconhecimento. Isto vai se estruturar, exatamente, pela presença do inconsciente que, como o próprio Lacan vai dizer mais tarde, é um “saber sem sujeito”.
Agora, cumpre ressaltar que este predomínio do reconhecimento como objeto simbólico coincide com o predomínio do significante do Ideal, que aponta para um Outro sem barra (A) e que vai ser escrito I(A) no grafo do desejo. Se este I(A) se confunde com o i(a) vai acontecer uma presença acachapante e fazer desaparecer o sujeito enquanto tal. Daí ser importante resgatar a função de causa que o semblante de ‘a’ faz ressurgir no giro de volta que instala o discurso do analista.
No seminário II Lacan vai demarcar o inominável como objeto de angústia ao trabalhar o sonho de Irma. Este Real, sem possibilidade de mediação, prepara o lugar do objeto ‘a’ como real, causa de desejo. No entanto, se neste período de seus trabalhos, Lacan apresentava a noção de causa como aquilo que tem como função mediar o Simbólico e o Real, esta noção de Real sem mediação que surge neste comentário, vai aí se opor.
Já, no final do Seminário II, Lacan vai relacionar o inominável com o incomensurável e articulá-lo com a função de causa em sua articulação com o desejo.
“A falta de mediação deste real se deve a que este escapa ao reconhecimento, que é impossível de ser reabsorvido por ele.” Ponto de separação que o desejo introduz no sujeito na medida em que a perda de seu objeto o torna inacessível. O objeto perdido cria, pois, uma dimensão que não se esgota nem no reconhecimento como objeto simbólico, nem o objeto imaginário inclui essa dimensão precocemente definida por Lacan como Real. Esta dimensão permanecerá em suspenso até os desenvolvimentos dos Seminários IX e X.
Vamos concluir este texto introduzindo uma pequena discussão sobre três conceitos que Lacan celebrizou: Necessidade, Demanda e Desejo.
Estas três formulações estão estruturalmente entrelaçadas aos efeitos da presença do significante.
Estes efeitos surgem, em primeiro lugar, em função dos desvios que sofrem as necessidades como consequência do fato de que o homem fala, “no sentido em que suas necessidades estão sujeitas à demanda, retornando a ele alienadas”.
É isto que ocorre como consequência “de sua confrontação como o significante enquanto tal e do fato de que sua mensagem é emitida desde o lugar do Outro. O que se encontra assim alienado nas necessidades, constitui uma ‘Urverdrängung’ por não poder, por hipótese, articular-se à demanda”  .
Esta Urverdrängung que é a anulação da particularidade da necessidade e que produz este ponto de “opacidade subjetiva” no Outro, é o lugar de onde emerge o objeto perdido do desejo em suas duas formas como significação: 

Objeto metonímico (no 2º andar do Grafo do Desejo)
Objeto metafórico (no 1º andar do Grafo do Desejo)

Se existe recalque o que devemos procurar não é o retorno do objeto, mas sim, da exigência da necessidade. Este retorno toma, por sua vez, duas formas: num primeiro termo, retorna como o caráter incondicional da demanda de amor, e em segundo, por ação dessa “potência de pura perda”, como uma inversão do incondicionado, em condição absoluta do desejo. Por isso podemos dizer, com Lacan, que “o desejo se esboça na margem onde a demanda se desgarra da necessidade” .
No entanto, uma mudança que vai ocorrer em Lacan em relação a estes três termos: esta tríade (demanda, desejo e necessidade) vai ser substituída por outra: demanda, desejo e gozo.
O que se vê é Lacan introduzir no lugar da necessidade biológica, neste lugar mítico de origem, lugar da essência perdida e do Real como exterior à experiência analítica, o lugar do gozo, este Real interno à experiência analítica, produto, ele mesmo, da ordem significante.
A demanda, por sua vez, é uma das grandes inovações da teoria lacaniana. Termo ausente em Freud, Lacan vai apoiar-se em indícios que encontrou no “Projeto...” e na reformulação das teorias da Relação de Objeto.
No início, Lacan deixa claro que a pulsão está presente na demanda, na medida em que logo após a sua aparição no Seminário IV vai instalar-se no Grafo do Desejo sob a forma do matema da pulsão ($<>D).
Esta fórmula pulsional leva em conta a determinação significante (significante da demanda) sobre a estrutura mesma da pulsão. 
Desta forma poderemos escrever a pulsão como uma substituição, uma nova forma de exigência, uma necessidade lógica.
Esta necessidade lógica é consequência da Urverdrängung, na cadeia significante que aponta, como sua condição, o fato de que “pela passagem mesma da necessidade pela cadeia significante, a necessidade apresenta já uma carência de satisfação universal”. 
Na demanda de amor a satisfação se transforma em mera prova, signo de presença. 
Na condição absoluta do desejo, no entanto, o Outro da demanda desaparece e o sim ou não já não interessam.
Neste ponto entra em cena o conceito de separação que tem como instrumento o objeto transicional - aqui se prepara o lugar do objeto como Real, lugar onde reside também o poder da condição do desejo, pois a Urverdrängung da necessidade pela demanda é uma operação alienante a partir mesmo de sua perda intrínseca.

O texto “A subversão do sujeito...” é um divisor de águas no que diz respeito à questão do objeto em Lacan. Aqui começa a se esboçar o objeto como Real e, ao final, a teoria do gozo já se faz presente.
É também neste texto que começa a ficar claro este segundo momento que se segue à alienação significante na demanda e que se articula com a separação - operação que, como já comentei, se faz utilizando como instrumento o objeto: “este que não é mais que emblema, nos diz Lacan, o representante da representação em sua condição absoluta e que está em seu lugar no inconsciente onde causa o desejo segundo a estrutura da fantasia” .
Para concluir, temos  este que não é mais que emblema, pois é assim que Lacan qualifica o objeto transicional. Isto quer dizer: o objeto, em seu caráter significante, oscila com a definição do mesmo como imaginário, porém ainda não definido como real. Este emblema remete ao Ideal do Eu, ao circuito da onipotência materna da demanda de amor - ainda não como causa, nem como real, mas sim como instrumento.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O OBJETO DE FREUD À LACAN (2ª Parte)

Em Lacan vamos ver, num primeiro momento, o predomínio do tema do imaginário quanto ao conceito de objeto, mas já estas primeiras referências estão entremeadas de indicações a uma outra dimensão, esta inseparável do objeto perdido do desejo freudiano. Estou me referindo à articulação entre o objeto e a ordem simbólica: a/-phi.
Lacan nunca se cansou de insistir na diferença entre este objeto e, de um lado o objeto do conhecimento e, de outro, o objeto do instinto - ambos formulados como harmônicos e que complementariam o sujeito.
Desta forma, já no texto “A carta roubada”, ficavam claras as características de não complementaridade sujeito-objeto, sua falta de harmonia fundamental e o caráter estrutural de sua perda condicionada pela captura na linguagem: “É no ponto zero do desejo, onde o objeto humano cai sob o efeito da captura que, anulando sua propriedade natural, o submete, desde este momento, às condições do símbolo” . 
                       s(A) -------> (A)
O Ponto zero, o nascimento do desejo é co-extensivo à perda da naturalidade instintiva do objeto, o que transmuta suas qualidades: Ele perde seu ser de objeto. “Esta perda é pois a condição que o objeto deve cumprir para tornar-se objeto de desejo” .
Esta é a característica da articulação primeira entre o objeto e o símbolo, em Lacan.
Neste ponto, Lacan faz um avanço em relação a Freud, apesar de se poder detectar na obra de Freud indicações da falta de fixidez como traço diferencial do objeto da pulsão em relação ao objeto instintivo.
Desde “Função e Campo ...” são claras as referências hegelianas de Lacan que, ao definir o desejo como desejo do Outro diferencia o objeto imaginário do estádio do espelho e o objeto de desejo próprio do desejo humano: este desejo do Outro deverá ser interpretado em função de que o objetIvo primeiro do ser humano é ser reconhecido pelo outro. “Este reconhecimento é um objeto simbólico por excelência, um nada” .
Cumpre ressaltar aqui que o conceito de símbolo, para Lacan, toma sua referência no pacto pacificador do imaginário da luta especular Senhor-escravo, e não nas teorias da aprendizagem. Do símbolo à linguagem há um passo importante: o símbolo se torna “uma presença feita ausência ... marca de um nada ... o conceito, salvando a duração do que passa, engendra a coisa”. 
Desde então, toma corpo um conceito que permaneceu presente, de várias maneiras, em toda a obra lacaniana: o conceito de separação. Nesta época, ele tem como efeito a perda, a falta-a-ser como tal.
É a transformação em um “sentido-essência” que se constitui como sendo “esta coisa mesma, menos sua existência” que se produz pela subtração do ser ao Ser, e que é o tempo mesmo.
A questão do tempo e a questão da historicidade do sujeito merecem uma nova leitura em psicanálise. Ela se coloca como inseparável da teoria da pulsão de morte e do conceito de repetição, este apontando para a experiência da transferência no que diz respeito à sua temporalidade histórica e, aquela, exprimindo o limite da função histórica do sujeito. 
É para tratar deste tema que Lacan introduz, em seu seminário, o exemplo do fort-da, para nos dizer:
1 - da solidariedade entre a humanização do desejo e o par presença-ausência
2 - da transformação do desejo em desejo do Outro.

Aqui, Lacan inaugura um novo matiz, permanecendo com Freud na sua conceituação de objeto perdido “cuja mira é a intrínseca relação entre a perda de naturalidade, o hic et nunc, e a instalação de uma falha, e uma perda de ser, determinada pelo poder de separação que introduz uma brecha própria à operação mesma do discurso ...”. É a ação de “destruição do objeto que, ao negá-lo entanto que ser dado, o cria”.
Assim, o passo da coisa ao objeto é, como disse Lacan parafraseando Heidegger: “o assassinato da coisa” e é inseparável da possibilidade de se tornar eterno, do desejo inconsciente em Freud.
Esta brecha provocada pela morte da coisa abre espaço para que, na dialética que se estabelece, o sujeito mesmo deixe de ser, para tornar-se, através do reconhecimento do Outro. O reconhecimento, como objeto único, vai substituir a pluralidade dos objetos imaginários do transitivismo especular e se instalar no eixo S-A, enquanto os outros ficam no eixo a-a’ do esquema L.
Ser reconhecido para a ser a satisfação própria do desejo inconsciente que insiste na cadeia significante e, por isso, o objeto do desejo, Strictus Sensus, é o reconhecimento. 

Objeto do reconhecimento - simbólico.  =  Objeto imaginário - libidinal

A sexualidade somente opera aqui, incidentalmente no simbólico, necessitando, para tanto, a mediação do reconhecimento: reconhecimento que implica, de um lado uma identificação mútua - reconhecer-se após uma longa separação, a exemplo do reencontro com o objeto freudiano -, por outro, é aceitar alguém. Esta última afirmação é mais hegeliana e parte do princípio que o sujeito recebe sua própria mensagem do Outro, invertida.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O OBJETO DE FREUD A LACAN (1ª Parte)

Desde o “Projeto...” vê-se presente na obra de Freud o objeto em seu sentido convencional - inclusive no clássico par sujeito-objeto da teoria do conhecimento, que o próprio Freud, desde então, descarta e diferencia do que vem a ser o objeto próprio da experiência analítica.
Pode-se delimitar, no entanto, três grandes dimensões do conceito de objeto em Freud: 
A) Do ponto de vista teórico, o primeiro a ser deslindado foi o objeto de desejo, o objeto perdido da experiência de satisfação alucinatória. O objeto em jogo a nível do processo primário. Aquele mesmo que se depreende como “Das Ding” quando a experiência do pensamento, ao fazer o julgamento das percepções depara-se com uma não coincidência entre os traços de percepção e os traços de memória. Ora é esta “não coincidência” mesma que provoca o pensar ou, como nos diz Freud, “erwecken das Interess” a partir de “Züge” (Traços) que se instalam na imagem construída do “Nebenmensch” (Homen ao lado): “Was wir Dinge nennen, sind Reste, die sich der Beurteilung entziehen”. (O que se chamam coisas, são resíduos que evitam serem julgados)  
O objeto perdido do desejo sexual infantil tem, como paradigma o objeto oral em sua articulação com a experiência de satisfação.
O objeto de desejo permanece, ao longo de toda obra de Freud, como o fio estável: é o objeto próprio do funcionamento inconsciente.
B) O segundo destes objetos, em Freud, é o objeto da pulsão parcial. Em 1905, no texto “Os três ensaios ...”, este objeto é descrito como muito próximo ao objeto de desejo, mas não idêntico. 
Na parte III, item 5 - “O Encontro do objeto” - , Freud assim descreve este processo de encontro: (Na puberdade) “Simultaneamente no lado psíquico, o processo de encontrar um objeto, para o qual preparações foram feitas desde a mais tenra infância, está completa.
“No momento em que as primeiras satisfações sexuais estão ainda ligadas com a amamentação, a pulsão sexual tem um objeto fora do próprio corpo do infans, na forma do seio de sua mãe. É somente mais tarde que a pulsão perde seu objeto, justamente no momento, talvez, quando a criança é capaz de formar uma idéia total (Gesamtvorstellung) da pessoa a quem o órgão que o satisfaz, pertence. Como regra, a pulsão sexual se torna auto-erótica e a relação original só é restaurada quando o período de latência foi ultrapassado. Há então, boas razões do porque uma criança sugando o seio materno tornou-se o protótipo de toda relação amorosa. O encontro de um objeto é, de fato, um reencontro.” 
Serge André, em seu Artigo “A pulsão no esquizofrênico”, resume de maneira brilhante este parágrafo de Freud, referindo-se ao auto-erotismo: “... o infans passa de uma posição onde ele é um corpo entregue aos caprichos do Outro, à posição onde ele tem um corpo que ele oferece a ser ‘self-service’ ... em suma, o sujeito vem do exterior, bater à porta de seu próprio corpo. A pulsão encontra nesta divisão (Outro exterior - zona erógena - corpo) a causa de sua bipolaridade fundamental: passividade - atividade.” 
Portanto, a proximidade destes objetos não os fazem idênticos e talvez seja mais propício, como nos sugere D. Rabinovich em sua tese de doutoramento, “perguntar-se sobre a interseção que se produz entre ambos: objeto de desejo e objeto da pulsão, mantendo, não obstante, a peculiar originalidade de ambos”, para concluir-se que “o objeto perdido do desejo é condição de produção do objeto pulsional na obra freudiana.”
C) O terceiro é o objeto de amor, que é o fio condutor de uma série que Freud separou da série dos estádios libidinais próprios da pulsão parcial. Esta série, inaugurada em 1911 com o “Caso Schreber”, e que tem seu ápice no texto “Introdução ao narcisismo” foi batizada de ‘eleição de objeto’.
Importante mencionar aqui o lugar que ocupa o Falo, este objeto excêntrico e que tem um surgimento tardio na obra freudiana (anos 20). Ele se articula de maneira diferente com cada uma das duas séries mencionadas acima.
Ao desenvolver sua tese, D. Rabinovich parte destas duas dimensões do objeto (objeto parcial e objeto amoroso) para dizer que elas produzem duas séries diferentes:
1 - A série pulsional com seus estádios toma ao outro somente como apoio. Ela nasce da necessidade e faz um uso particular das partes do corpo. A este uso Freud chamou de “prazer de órgão”. Aqui a contingência se opõe à eleição e o modelo em questão é o anaclítico.
2 - A série da eleição de objeto  é aquela que vai se desgarrar do auto-erotismo inicial, passar pelo narcisismo e culminar na eleição do objeto heterossexual. Nesta série, a eleição de objeto remete a um outro definido como pessoa, se referindo, portanto, ao campo que Se pode chamar de totalização sexual (outro sexuado: homo ou heterosexual). Este segundo processo se estrutura em torno do papel do narcisismo.

Para concluir este pequeno sobrevôo em Freud, digo-lhes que as duas séries aqui descritas convergem ao que Freud chamou de “fase fálica”.
O que se pode constatar é o complexo de castração no seu papel de articular ambas as séries, não só entre si, mas também delas com o Complexo de Édipo. 


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Da suposição à ex-sistência

 “Esta noção que se liga à ex-sistência a partir de um impasse lógico é o que explica a escolha que se faz do termo passe para essa virada da suposição à ex-sistência”
 
Esse tema foi escolhido, não só pela sua atualidade, mas para dizer que a direção do tratamento tem uma lógica que pode ser depreendida quando, uma vez construído um ponto final, a curva faz retorno e se debruça sobre um trajeto, possibilitando um eixo de pesquisa e trabalho. Afinal o mínimo que se espera de um analista que advém ao final de sua análise é que ele possa dar testemunho deste trajeto ao “tornar-se analista da própria experiência”. É, portanto, este retorno sobre o começo que propicia uma ordenação lógica e, consequentemente, a possibilidade de uma transmissão. De uma forma bem simples é a que se propõe um Passe. Após o ponto final trabalha-se, e muito, para depreender a consistência lógica dos acontecimentos que foram responsáveis pelas passagens que ajudaram a construir o que Lacan denominou de “atravessamento da fantasia” e o que pode daí advir quando se tira consequências desta passagem: da identificação ao sintoma a saber aí fazer com seu sintoma...
 
Um sujeito entra em análise pela via da transferência e, consequentemente, a partir da instalação do Sujeito Suposto Saber que é o pivô disto que Freud chamou de sintoma analítico. Esta via coloca em jogo o traço do “Ideal do eu” e sua articulação com a identificação oferecida pelo “eu ideal”. Esta possibilidade de identificação, que se qualifica como identificação ao pai, acontece  porque o Sujeito Suposto Saber só faz nomear, explicitar o efeito de sentido que vem do Outro. Em contra partida, o sem-sentido é o que permanece separado do Outro, ficando silencioso neste processo de proliferação do sentido a partir do Sujeito Suposto Saber. Este sem-sentido, que habita o núcleo da fantasia, é o responsável pela paralisia do sujeito diante de uma frase. No exemplo que Freud constrói, a frase é: “bate-se numa criança”. O sujeito se detêm diante dela, na ânsia de restabelecer um elo perdido entre o sem-sentido que ela aponta e o Outro do discurso. Esta frase, podemos dizer, vale por um significante unário, um S1, que leva o sujeito a inquietar-se, a buscar um outro significante que possa fazer as vezes de S2, estabelecendo um sentido qualquer. Mas, existe, neste ponto, um paradoxo, pois este S1, além de não pedir uma outra palavra ou outra frase, um S2, ele se recusa a isso.
Um Sujeito Suposto Saber, portanto, designa a presença de um significante, ou seja, indica um efeito de sentido, enquanto o que denominamos de sentido-gozado (jouis-sens) é o que não pode ser traduzido em significantes, mas desliza sob o sentido da cadeia significante impregnando as respostas do sujeito com o sem-sentido. Este sentido-gozado não é suposto, é experimentado.
Para abordarmos este sentido-gozado, que está no cerne de nossa questão neste percurso que vai do sintoma da identificação à identificação ao sintoma, será necessário distinguir, do sentido-gozado, o que lhe permite acesso na teoria analítica: a fantasia. Fantasia que está, de alguma forma, articulada ao Outro.
Partindo do andar inferior do grafo: A ----> s(A), podemos seguir Lacan e buscar a posição do Outro no efeito de sentido, quando se trata da fantasia:
A/ ---> ($<>a)
A ---->  s(A)
Nestes dois esquemas, que nos fornece Miller em seu seminário Los Signos del Gozo, podemos perceber uma diferença fundamental que se apresenta em relação ao Outro. Enquanto na relação de sentido temos um Outro sem barra – o que indica a alienação - o Outro que  corresponde à fantasia é um Outro modificado, um Outro barrado – que aponta para a separação. Nesta perspectiva a fantasia se coloca como o que responde, no sujeito, à angústia produzida pela presença do desejo do Outro. A barra sobre este Outro é que nos diz que ele é desejante. A fantasia pode, inclusive, ser considerada como a colocação em cena do desejo do Outro ou, mais especificamente, cena que nos diz como foi a interpretação que se fez do desejo do Outro. É por isso, talvez, que se pode falar, com Lacan, que a fantasia fundamental é a colocação em cena dos significantes primordiais do sujeito.
Pode-se ler o que se escreveu, citando J-A. Miller quando se refere ao Grafo do desejo, da seguinte forma: “não existe prática analítica sem que o efeito de sentido esteja parasitado pelo efeito de sentido-gozado.” Esta afirmação implica uma posição ética do analista que se pode traduzir, em termos freudianos, na atenção flutuante do analista que deverá ser capaz de captar o que se apresenta como sem sentido dentro de todo o sentido que a palavra oferece à compreensão para, exatamente, evitar que o sintoma da identificação venha a se perpetuar. Assim, todas as vezes que se manipula o significante produz-se o sem sentido no sentido à compreender, ao mesmo tempo que o transforma em sentido para gozar. Este sentido para gozar é o que vai tocar o sujeito, de alguma forma, como por exemplo, no chiste, em cuja estrutura Lacan se inspirou para construir o  dispositivo do Passe. De uma maneira simples, pode-se dizer que o momento do passe se define por uma transformação de um significante que, destacando-se do conjunto pleno de sentido, vai produzir um sem sentido, nos dizendo de uma pequena ponta do Real que retorna ao sujeito, deslocando-o da posição que, até então, sustentava. Este é o momento em que se produz um significante novo capaz de transmitir o que do sem sentido, ou melhor ainda, o que deste encontro com o Real foi elaborado. Em outras palavras, é o momento em que o corpo do significante permanece como um dizer que estava esquecido por trás dos ditos.
J-A. Miller diz que “a experiência analítica se desenvolve sob a chave de uma suposição e que, desta operação, algo venha a ex-sistir, nada mais é do que uma hipótese, quer dizer, que a suposição dá lugar, produz um lugar, introduz, permite o acesso a uma ex-sistência e, para dizê-lo ainda de uma outra forma, o sujeito que é apenas suposto, possa vir a ex-sistir no mesmo lugar em que Lacan batizou com o termo objeto pequeno a” .
Uma outra elaboração se impõe na medida em que se trabalha com a perspectiva da fantasia como uma formação imaginária que se veste do gozo, este da ordem do Real:
($<>a)
Duas vertentes podem ser destacadas da fórmula da fantasia a partir da perspectiva do objeto "a": uma diz respeito ao objeto "a" na sua função de dividir, a outra, inversamente, na sua função de complementar.
Se existe uma falta no Outro, e inclusive a falta do Outro, a fantasia estaria aí para fazer-se de tampão. Deste ponto de vista, a idéia de um atravessamento da fantasia iria implicar no ultrapassamento do que tampona a falta no Outro, para, consequentemente, acomodar-se a ela.
Ora, a própria escritura da fórmula da fantasia, por Lacan, implica esta vertente do tamponamento, desta vez de um sujeito que, como falta a ser, se vê compelido a buscar uma figura imaginária, o objeto "a", para complementá-lo. Até mesmo quando Lacan trata o objeto "a" como Real, a problemática do tamponamento persiste. No entanto, passo a passo, uma outra vertente vai se impondo, inversa a precedente: o objeto a não tampa, mas divide, barra. Esta divisão é que vai servir de ponto de partida ao discurso do analista, onde o objeto "a" vai aparecer como divisor e não como tampão:
a ----> $
S2 // S1
Esta nova perspectiva abre caminho para esclarecer que: “quando se trata do objeto "a" como divisor, quando o que está em jogo não é a encenação da fantasia, mas o gozo que a habita, não se pode afirmar que "a" é sentido-gozado, efeito de sentido, porque o escrevemos como causa. É quando assinala-se ao objeto a função de causa da divisão do sujeito que, a partir daí resultará sensível aos efeitos de sentido. Deste modo não o convertemos em efeito de sentido, mas sim na referência dos efeitos de sentido e, mais ainda, na referência dos efeitos de sentido-gozado”.
O que se transmite do momento do passe, portanto, e que indica que um analista pôde advir no final de uma análise, é o corpo da letra enquanto Real. Assim, partindo do sintoma da identificação o sujeito vai desconstruindo a palavra até que ela possa assumir o valor de letra, o valor de significante enquanto escrito: S(A/) “O S, o verdadeiro significante de A - o que do significante permanece, uma vez que se eliminou a palavra”. Esta é a escritura que permite ao falasser subtrair-se aos artifícios do inconsciente, ao mesmo tempo que deixa claro o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra: “que o decifrar se resuma ao que constitui a cifra, ao que faz com que o sintoma seja, antes de mais nada, algo que não cessa de escrever-se do Real...” Assim posto, uma nova identificação pode acontecer, uma identificação que não é ao inconsciente. Identificar-se ao inconsciente está fora de cogitação pois, como diz Lacan, “o inconsciente permanece, o inconsciente permanece Outro”. A identificação da qual se trata, quando se fala em final de análise, é à letra do sintoma, àquela que, uma vez rompido o circuito preestabelecido pelo sentido congelado da fantasia fundamental, poderá tornar-se um traço que desvela alíngua como corpo do Simbólico e enlaça o corpo do Imaginário ao corpo do Real fazendo consistir os três termos Real, Simbólico e Imaginário. Esse é o caminho que culmina na transformação da experiência da fantasia fundamental, em pulsão, ao restabelecer o vazio do lugar do objeto pulsional.
Em outras palavras, o ser que se fazia supor, vai eclipsar-se diante do real.