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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Re-escrevendo a Metáfora Paterna (I)


Só podemos trabalhar, hoje, a Metáfora Paterna na perspectiva da função do Pai Real. Para isto vamos fazer um trajeto que vai de Freud a Lacan no que diz respeito ao Édipo e ao mais-além. 
J-A. Miller nomeia o capítulo VIII, do Seminário XVII - O Avesso da Psicanálise - "Do mito à estrutura" para chamar a nossa atenção ao movimento que está presente ali e que pode ser resumido como sendo uma passagem do Pai Imaginário ao Pai Real, desmanchando a crença de que a castração fosse uma fantasia, ao dizê-la uma operação real introduzida pela incidência do significante. 
Para chegar até aí Lacan faz um percurso onde ressalta que a psicanálise, antes de ser uma religião, diz de um ateísmo onde, "a morte de Deus" tem como resposta o "nada é permitido". - Nietzsche nos lembra que se se acredita que Deus está morto, é preciso que se abandone a garantia do templo.
Este foi o trabalho de Freud na expectativa de dar conta da questão do gozo, mesmo que ele não tenha assim explicitado este motivo. Em outras palavras, Lacan parte da morte do pai, como Freud a anuncia, como sendo a "chave do gozo, do gozo do objeto supremo identificado à mãe, a mãe visada do incesto". É assim que Freud vai dizer que o assassinato do pai, "a morte do pai é que vai edificar a interdição desse gozo como primária”.
Podemos identificar aqui uma estrutura que Lacan tenta matemizar na "Metáfora Paterna": "O mito de Édipo, no nível trágico em que Freud se apropria dele, mostra precisamente que o assassinato do pai é a condição do gozo".
Um primeiro questionamento surge neste ponto, quando Lacan vai fazer uma passagem ao perguntar se será à custa desse assassinato que Édipo obtém o gozo no leito de Jocasta. Esta é a forma que Lacan encontra para introduzir a função da linguagem a partir do lugar do enigma que propõe a Esfinge: do que se trata é de uma resposta que acaba "suprimindo o suspense que a questão da verdade introduz no povo". É neste ponto que Lacan chama nossa atenção para que, ao lhe ser proposta uma escolha, Édipo acaba caindo na armadilha desta verdade.
E a verdade tem uma relação estreita com a castração, por isso a castração, ou essa verdade, se renova para Édipo que, mesmo sendo advertido por "sua mulher-mãe" de que todos os homens sonham com suas mães, ele vai à busca do que "podemos identificar com alguma coisa que, ao menos, tem relação com o preço pago de uma castração". A perda dos olhos deixa Édipo, como nos lembra Lacan "não a sofrer a castração, mas antes, a ser a própria castração, ou seja, aquilo que resta quando desaparece dele, na forma de seus olhos um dos suportes preferenciais do objeto ‘a’”.
Para introduzir de uma vez a questão do significante como aquele que vai determinar a estrutura subjetiva, Lacan nos chama a atenção para a articulação entre a sucessão de pai a filho e a castração como sendo o que aí se transmite. O que deve pagar Édipo é em função, exatamente, de ter acedido ao trono como o faz o mestre: "apagando a questão da verdade". 
A segunda parte desta lição do Seminário XVII traz a articulação entre o pai morto e o gozo. Para isso Lacan relembra uma de suas elaborações quando, utilizando o Grafo do Desejo, distribui os dizeres de um sonho que Freud trabalha no livro "A interpretação dos sonhos" onde um sujeito enuncia: “ele não sabia que estava morto". Lacan distribui esta elaboração nos andares da enunciação e do enunciado no Grafo
Este sonho diz de um paciente obsessivo que encontra a visão de seu pai depois de uma masturbação frente ao espelho. O pai tinha morrido há algum tempo. 
Este sonho se presta ao questionamento sobre o não saber sobre a morte e diz de um ponto de impossível que define a retomada, por Lacan, do mito do assassinato do pai em "Totem e Tabu" onde está colocada a equivalência entre o pai morto e o gozo. "Eis o que podemos qualificar como operador estrutural" nos diz Lacan. Em outras palavras, para além do mito encontramos na qualidade de real, que "o pai morto é aquele que tem o gozo sob sua guarda, é de onde partiu a interdição do gozo”.
(Continua)



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O que é a saúde para o sexo (III) - Sintoma: um novo caminho

Estrutura de ficção, queixa, sofrimento... não importa como a ele se refira, a verdade é que o sintoma é o que vai dizer de algo que não vai bem e o “clamor da humanidade” é pelo apaziguamento do mal-estar que isso provoca. 
No entanto, é preciso repetir aqui uma afirmação que merece toda atenção: “o sintoma é o mais particular que cada um tem e, por outra parte, o mais real. O sintoma é, precisamente, o que faz com que cada um, em alguma coisa, não consiga fazer absolutamente o que lhe está prescrito pelo discurso de seu tempo.” Esta afirmação alerta para uma questão de ordem prática e, por que não?, ética. É fundamental ao se escutar o relato da infelicidade de alguém, que se tenha em conta o fato de que essa infelicidade é o que há de mais particular, é o que sustenta esse sujeito como constituído e, mesmo que tenha sido por não estar mais funcionando como antes que ele procura uma análise, ainda assim é seu traço mais particular: “Eu sou assim!”, dizem de várias maneiras os candidatos à análise. Talvez, por isso, é que, ao se diferenciar o lugar do analista do lugar do terapeuta, diremos de um compromisso que não é com o movimento humanitário que, com seu clamor, espera poder universalizar o que há de mais particular. O compromisso que se estabelece é com a particularidade de cada um. Pôr-se a serviço dessa verdade supõe um desejo que já foi qualificado de inumano. Talvez, por isso, é que Lacan, em sua Nota Italiana, diz que o analista é o rebotalho da humanidade, à proporção que quer saber daquilo que todos querem esquecer. Ou seja, Lacan vai afirmar que o mal-estar na civilização consiste em gozar da renúncia ao gozo. Sim, porque, ao estabelecer uma solução de compromisso entre as duas forças opostas que estão em conflito, o sujeito renuncia a uma possibilidade de um gozo possível. Gozo este que só será possível à medida que o Outro é, por sua vez, esvaziado de gozo, ou seja, à medida que o sujeito deixa de acreditar que o Outro quer dele sua castração, que o Outro vai retirar o que ele tem de mais precioso: seu pequeno nada. Uma analisante explicita muito bem essa questão ao pronunciar esta frase: “Percebi que sempre tive medo de perder o que nunca tive.”
Talvez estejam se perguntando o que tudo isso tem a ver com o nosso tema? Ora, simplesmente o seguinte: na verdade o que está no cerne do que se entende por sexo, mais precisamente por relação sexual — e aqui se refere, obviamente, ao que diz a psicanálise — é a sua impossibilidade, o menos, o resto irredutível de gozo que se assinalou há pouco. Assim, a única possibilidade de estabelecer uma relação com o Outro sexo é pelo viés do sintoma: [($<> a) - A]. É por isso que as tentativas de se curar o “sexo”, seja pela medicina, seja pelas terapias “sexológicas”, acabam, na maioria das vezes, em fracasso, pois apenas reforçam a impossibilidade que já existe ali. 

Mas, seria possível curar o sexo através da psicanálise? Talvez o que se possa dizer é que, diante da impossibilidade da relação sexual, ela deixa claro que homem e mulher estão do mesmo lado, qual seja, ambos têm apenas uma única maneira de representar o sexo: o simulacro fálico. Em outras palavras, pode-se dizer que ambos os gêneros têm em comum uma só espécie de gozo: o gozo fálico. O que vai diferencia-los é o acesso ao Outro. É essa diferença que os reparte em duas espécies, fazendo obstáculo a que a dimensão cultural de gênero venha recobrir a sexuação. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O que é a saúde para o sexo? (II)

O sintoma: psicanálise e medicina

É nesse ponto que se pode ver uma discordância fundamental entre os conceitos de sintoma para a medicina e para a psicanálise. Se, por um lado, a posição médica se refere à noção de harmonia como um objetivo a alcançar quando se está diante de um sintoma — este, portanto, aparecendo como o que perturba e destrói a harmonia —, o sentido do sintoma vai mudar caso a referência não for mais a harmonia que ele vem perturbar, mas, sim, o fato de que ele é harmônico a uma falta, a um menos, ou seja, à castração. J.-A. Miller, em um texto sobre o envelope formal do sintoma, diz que a palavra sintoma contém o radical “sin”, que quer dizer síntese, reunião, conjunto, o que vem junto, o que coincide. Dessa forma, o sintoma é o que faz coincidir duas coisas: a castração e a satisfação. 
A castração é “o ser do sintoma”, seu núcleo. Esse núcleo vai se apresentar embrulhado, envolvido pelo “envelope formal do sintoma” — seu invólucro significante. Esse termo, utilizado por Lacan no texto De nossos antecedentes, surge de um certo retorno à psiquiatria clássica de Clérambault e da “necessidade que levou Lacan à psicanálise” por ocasião do seu famoso caso Aimée: “Pois a fidelidade ao envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico do qual tomamos o gosto, leva-nos a esse limite onde ele retorna em efeitos de criação”. Esta afirmação de Lacan, feita em 1966, aparece como um prenúncio do que, mais tarde, será definido como “saber aí fazer com seu sintoma”.
Partindo da frase de Lacan descrita acima, Miller chama a atenção para os dois eixos do sintoma: (1) existe, por um lado, um núcleo que se pode denominar castração, sofrimento, “mais-de-gozo” em conseqüência do “menos-de-gozo” da operação significante. (2) Existe, por outro lado, no sintoma, uma mensagem endereçada ao Outro e que espera uma decifração.
Em outras palavras, é possível um trajeto na formação do sintoma que, a partir de um "menos" que se instala como conseqüência da extração do objeto "a" pela operação significante, faz surgir uma intenção de significação que produz uma resposta que, exatamente por ser da ordem do impossível, relança a busca de significação. Essa busca de significação é explicada por Miller como sendo a “transformação da queixa que emerge do fundo do desprazer em mensagem [...] fazendo existir o sujeito de uma maneira nova no campo do Outro, e sob forma constituída”. No entanto, quando se formata uma queixa ou, como nos diz M. Silvestre, quando fazemos coincidir uma queixa e um sofrimento, vamos perceber que ela se desnatura, pois há o que se pode dizer e o que não se pode dizer pela própria impossibilidade do significante em dizer tudo. 
Essa dificuldade é o que faz com que a lógica própria do Outro, ao estabelecer essa relação entre queixa e sofrimento, vá congelar e fixar a queixa numa certa cena. Ou seja, do que se trata aqui é de um certo percurso pulsional que se estabelece na relação do sujeito com “um dos objetos que havia anteriormente abandonado”, porque “a libido é induzida a tomar o caminho da regressão pela fixação que deixou atrás de si, nesses pontos do seu desenvolvimento”. Pontos em que queixa e sofrimento, gozo e mensagem, castração e envelope formal se fizeram coincidir.
Quando alguém vai até um analista, o que se espera é que ele faça um relato de sua infelicidade. Nesse relato, pode-se, então, perceber que há uma harmonia, há um arranjo que faz existir uma satisfação ali mesmo onde o sujeito se queixa de dor. Esse é o paradoxo que Lacan define em Televisão, quando nos diz que “o sujeito é feliz”. E continua: “É mesmo sua definição, pois que ele não pode nada dever senão ao momento oportuno (heur), à sorte (fortune) dito de outra forma, e todo momento oportuno é bom para isso que o mantém, ou seja, porque ele se repete”.
Por tudo isso se pode afirmar que “o sintoma analítico, quando formatado no campo do Outro, constituído como o que se instaura da cadeia significante, tem estrutura de ficção”. Isso demonstra-o muito bem o sintoma histérico, à medida que, na histeria, vê-se o sintoma como ser de verdade do sujeito. Quer dizer, no sintoma histérico “o objeto ‘a’ como real virá no lugar da verdade”, como muito bem o mostra a estrutura do Discurso da Histeria.
Pode-se acrescentar, ainda, que, ao instalar-se como “ser de verdade”, o sintoma promove a construção de uma suposição de saber no campo do Outro. Partindo da premissa estrutural de que não há relação entre o sujeito e o Outro, o sujeito está, desde sempre, afastado de sua verdade. O laço possível entre o sujeito e o Outro faz-se pelo sintoma. E se faz com a criação de um “ser de saber” ali, onde a verdade lhe está vetada.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O que é a saúde para o sexo? (I)

Este título exige, primeiramente, uma pesquisa sobre os termos que compõem sua estrutura semântica: o que é a saúde para o sexo?
Pode-se recorrer, como usualmente se faz, à definição que se encontra no Aurélio para a palavra saúde: “[Do lat. salute, 'salvação', 'conservação da vida'.] S. f. 1. Estado do indivíduo cujas funções orgânicas, físicas e mentais se acham em situação normal; estado do que é sadio ou são”.
Mais do que a própria significação que se pode verificar, destaca-se a raiz latina, ou seja, “conservação da vida”, “salvação”.
No entanto, essa “conservação da vida”, essa “salvação” podem ter significados diferentes quando nos referimos à medicina ou à psicanálise. 
Enquanto na medicina a saúde pode ser definida como no Aurélio — estado do indivíduo cujas funções orgânicas, físicas e mentais se acham em situação normal — para a psicanálise o conceito de normal merece ser explicitado. 
Quanto ao sexo, pode-se assinalar que, para a medicina, ele está relacionado diretamente ao órgão e a seu funcionamento, sendo, por isso, que a medicina trata as disfunções a partir do órgão, confiando em poder fazer surgir o desejo. Para a psicanálise, o sexo é relativo a um sujeito que se caracteriza por sua "falta-a-ser", por isso vão-se tratar as disfunções pelas relações que esse sujeito estabelece com o objeto de seu desejo, na esperança, por que não?, de se resolver os impasses apresentados pelas anormalidades de função do órgão. 
Para levar à frente nosso trabalho, será preciso introduzir aqui um outro conceito: o sintoma. É pelo sintoma, como aquilo que diz de uma disfunção qualquer, que se pode verificar as diferenças, teórica e prática, das abordagens propostas pela medicina e pela psicanálise. Será, pois, através do sintoma que será encaminhada a questão: “O que é a saúde para o sexo?” Em outros termos, tratar-se-á o tema da saúde pelo sintoma para verificar que, como veremos adiante, a saúde, do ponto de vista psicanalítico, consiste em saber fazer algo com o sintoma.
O sintoma, visto pela psicanálise, pode ser definido de uma forma bem simples: é uma solução para se evitar o encontro com a castração. 
A castração, outro conceito aqui introduzido, pode ser entendida como um "menos-de-gozo" que advém da extração que o significante opera no campo do Outro. Isto esclarece a idéia de que, para o ser humano, o gozo — termo que deve ser situado em oposição a um outro: o prazer — está desde sempre marcado por uma perda, o que implica que a insatisfação é a marca que caracteriza todo psiquismo. Essa é a operação que traz como consequência, como efeito, o sujeito do inconsciente, e instala, no mesmo movimento, o que se denomina um mal-estar, um certo incômodo representado pela presença de um objeto que foi extraído do campo do Outro e que permanece como um resto não absorvido pelo simbólico, ou seja, um resto que permanece como o mais íntimo e, também, absolutamente estranho para cada sujeito. Essa presença, marcando um impossível, vai gerar um movimento de busca incessante. Esse movimento tem a intenção explícita de restituir o status quo anterior na busca do gozo perdido, esclarecendo que é a partir do que se chama "menos-de-gozo! que se vai instalar o que Lacan denominou Automaton — a repetição da impossibilidade na cadeia significante. Essa repetição, ou seja isso que “não cessa de se escrever” é uma necessidade que vem dizer da impossibilidade (o que “não cessa de não se escrever”) que o próprio recalque originário (Urverdrängung) produz. Contudo, todo esse movimento só se sustenta por existirem pontos de encontros — tiqué — que, pelo fato mesmo de serem sempre faltosos, acenam com a possibilidade de uma certa realização.
Assim, entre o que “não cessa de não se escrever” (o impossível) e o que “não cessa de se escrever” (necessário), vai-se deparar com um sujeito que, como diz Freud, tem que se haver com um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer (Unlust) ou sofrimento (Leiden) que essa situação cria. Sendo isso o que todo ser falante tem como fundamento de sua estrutura, existe, ainda conforme Freud, uma precondição na formação de sintomas para cada sujeito.
O sintoma, tal como definido por Freud, é “o resultado de um conflito, que surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido (Libidobefriedigung). As duas forças que entraram em luta — que poderiam ser representadas pelos dois movimentos: “não cessa de não se escrever” e “não cessa de se escrever” — encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado”. Em outras palavras pode-se dizer que esse “acordo” seria uma negociação feita de tal forma que o sujeito diria assim: “pago um preço para não saber que existe algo que 'não cessa de não escrever', e esse preço é uma satisfação substitutiva que, ao mesmo tempo em que provoca um certo desprazer (Unlust), é onde posso obter minha satisfação".
Então, têm-se alguns dados que são muitos importantes para o desenvolvimento deste trabalho: o sintoma é uma tentativa de criar uma harmonia, ali, onde um menos se instalou, provocando uma desarmonia.
(Continua)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A Função do Traço Unário e a Identificação ao Sintoma no Final de Análise

Neste texto destaco a função do traço na constituição do sintoma que leva um sujeito a análise, bem como o seu destino no final, propondo que o percurso de uma análise bem poderia ser resumido da seguinte forma: “Do sintoma da identificação à identificação ao sintoma”. Esta proposta nos diz que é possível redimensionar a função do traço que se decanta a partir da queda das identificações  -que, até então, sustentavam o sujeito na sua relação com o desejo do Outro -, num significante que permanece como ponto de articulação lógica, propiciando uma nova leitura do lugar do sujeito na sua relação com o Outro.
A instalação do Sujeito Suposto Saber é o que vem colocar um ponto de basta na circulação da angústia que, freqüentemente, se apresenta como sinal de uma desestabilização do sintoma. Esta significação que aí se produz, se faz a partir de um traço, o traço unário, que sustenta a transferência ao mesmo tempo em que, sob o signo do amor, possibilita ao discurso um giro de quarto de volta. Esse traço, este Sq, emprestado ao analista a partir mesmo do saber que sustenta a relação entre o significante da transferência e o significante qualquer no Outro, permanece até o final, permitindo que um tempo para compreender possa ser realizado. Sabe-se que esta é a solução que o sujeito, preso nas malhas do sentido que lhe propicia a cena de sua fantasia fundamental, busca para continuar sem nada saber do que causa seu desejo. É por isso que dizemos que o Sq não é qualquer significante, mas sim um significante que porta o traço unário que diz do objeto que constitui a cena da fantasia fundamental para cada sujeito. Estando, portanto, articulado, é por isso mesmo que ele não é articulável, impedindo que a terapêutica que pretende se sustentar na sugestão encontre sua eficácia. 
Tendo como função primordial a sustentação do terreno da transferência onde a batalha poderá ser vencida, o analista deverá aceitar o que lhe é oferecido mas, ao mesmo tempo, estar advertido que seu lugar é aquele que permite a constituição de um semblante, para que o objeto pequeno "a" possa reinar, possibilitando ao inconsciente, efeito do significante e estruturado como uma linguagem, ser retomado como pulsação temporal. Quando o analista, por uma razão ou outra não se coloca nesta posição, ele estará impedindo o “acontecimento imprevisto”  e privando o sujeito de saber das suas consequências. Na verdade, ele vai estar impedindo a abertura deste instante onde o saber e a verdade se tocam em um ponto de contingência, sem dúvida, mas que possibilita os efeitos de uma pulsação da falha de onde um traço de luz pode jorrar. Poder suportar este lugar e sustentá-lo a partir de um desejo, que Lacan definiu como inédito, é poder abrir-se ao novo. 
É na esperança de poder responder à demanda do Outro, que o analisante busca, imediatamente, uma identificação ao traço que foi emprestado ao analista. Esta identificação como sintoma só produz uma solução parcial, uma vez que, sustentada na metáfora paterna, sua resposta ao enigma do desejo da mãe apenas relança a curva pulsional nos caminhos balizados pelos ideais. 
Este circuito infernal regido pela monotonia da fantasia fundamental, no entanto, pode ser interrompido num momento preciso: os signos da atividade da cena da fantasia fundamental, que se apresentam nas cenas repetitas nas sessões sob o disfarce de rituais, propiciam uma intervenção do analista que vai incidir, exatamente, no acontecer da sessão analítica, abrindo caminho para o sujeito dar um passo a mais e confirmar a sua decisão pela análise em detrimento do sintoma da identificação ao traço emprestado ao analista. Trata-se de uma intervenção muito precisa: diante da demanda do analisante em fazer uma certa “negociação”, o analista responde com um simples “aqui não há negociação!”
Esta intervenção no sintoma que se constituiu no marco da Sessão analítica, propiciou um primeiro ponto de virada na história de uma análise ao evidenciar a impossibilidade de se retomar o sentido sustentado pela estrutura da fantasia fundamental. Foi uma intervenção que, promovendo o acontecimento imprevisto, deu oportunidade a que o Real que aí se desvelou pudesse se colocar em condições de ser tratado pelo simbólico. Um sonho, que se concluiu com a notícia da morte de uma mulher despertando o sujeito, testemunhou disso. 
Um ato só poderá ser julgado na sua sequência, a partir das conseqüências que dele advêm. Este sonho, que disse de um ponto de atravessamento da cena da fantasia fundamental, implicou o sujeito ali, onde o Outro falta. Se, até então, o sujeito tinha seu pequeno "a" num lugar que lhe permitia satisfazer-se a partir de um certo circuito pulsional congelado em seu sentido, era porque ele nada queria saber do objeto "a" como causa de seu desejo. Na verdade, a cada volta , a cada satisfação alcançada, o que restava era um mal-estar dizendo da presença insistente de um mais-de-gozar. Sabemos que o objeto enquanto mais-de-gozar porta a marca de um Real, digamos, não subjetivado. Em outras palavras traz a presença da castração da qual nada se quer saber, por isso a insistência do mal estar.  Para que uma retificação pudesse acontecer, portanto, foi necessário “ir olhar o Outro”, pois no plano do desejo, depende do Outro isso andar ou não. O movimento de “ir olhar o Outro” é o único que autoriza o ato que, neste caso, se resumiu em: “aqui não há negociação”. Este ato interrompeu o ritual que sustentava a monotonia da cena da fantasia fundamental, apontando a falta de um significante que pudesse estabelecer uma “negociação” ou, em outras palavras, afirmou a impossibilidade da “relação sexual”. Foi esta a intervenção do analista que abriu caminho para que uma retificação ao nível da pulsão pudesse acontecer: o que, até então, era o colocar em ato um sentido congelado, regido pela estrutura da fantasia fundamental, pode apresentar-se, agora, na realidade pulsional do inconsciente.
Partindo, pois, do “sintoma da identificação” o sujeito foi desconstruíndo a palavra até obter dela seu valor de letra, o valor de significante enquanto escrito: S(A/) “O S, o verdadeiro significante de A/ - o que do significante permanece, uma vez que se eliminou a palavra”. Esta é a escritura que permite ao ser falante subtrair-se aos artifícios do inconsciente, ao mesmo tempo em que deixa claro o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra: “que o desciframento se resuma ao que constitui a cifra, ao que faz com que o sintoma seja, antes de tudo, algo que não cessa de escrever-se do real...". Assim posto, uma nova identificação pode acontecer, uma identificação que não é ao inconsciente. Identificar-se ao inconsciente está fora de cogitação pois, como nos diz Lacan, “o inconsciente permanece, o inconsciente permanece Outro”. A identificação da qual se trata, quando falamos em final de análise, é à letra do sintoma, àquela que, uma vez rompido o circuito pré-estabelecido pelo sentido congelado da fantasia fundamental, poderá tornar-se um traço que desvela a alíngua como corpo do Simbólico e enlaça o corpo do Imaginário ao corpo do Real fazendo consistir os três termos Real, Simbólico e Imaginário. Esse é o caminho que culmina na transformação da experiência da fantasia fundamental, em pulsão, ao restabelecer o vazio do lugar do objeto pulsional. Este vazio que só se sustenta como tal pela função do traço unário que escreve a letra singular a cada sujeito. Singular tanto no que ela tem de mais particular quanto no que apresenta de determinante no destino do ser falante. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Os enigmas do masculino (III)

Os enigmas do masculino (III)O Seminário V: “As formações do inconsciente” de Lacan, na lição do dia 05/03/58 nos possibilita dar um passo a mais. Nesta lição Lacan vai trabalhar o que podemos chamar de vestimentas fálicas, roupagens com que se apresentam os sujeitos diante do real do sexo. Sabemos que o que vai caracterizar a posição perversa como recusa da mediação simbólica, ou até mesmo diante da falha no simbólico [S(A/)], é uma extrema valorização da imagem: “se trata de uma projeção disso que não se cumpriu na ordem simbólica, sobre o eixo imaginário”.
Após comentar sobre a ‘mascarada’ de Joan Riviére, com sua “assunção de todas as funções masculinas” e fazer um longo estudo sobre a escolha de Gide, Lacan passa a trabalhar com a comédia ‘O balcão’ de Jean Genêt.  
Por que comédia? Digamos que é para: “pela intervenção de um parecer que se substitui ao ter, para proteger (o sujeito) de um lado, para aí mascarar a falta no Outro, e que tem por efeito proteger inteiramente as manifestações ideais [I(a)] ou típicas do comportamento de cada um dos sexos, até o limite do ato da cópula ...”. A comedia não é o cômico. Para tomar apenas uma referência que nos fornece Lacan, podemos dizer que a comédia é aquele momento onde o sujeito toma sua relação à fala não como sendo seu ‘affaire’, mas como algo que, ao se articular ele mesmo como aquele que aí goza, ... está destinado a absorver a substância, a matéria. “A comédia, podemos dizer, é qualquer coisa como a representação do fim da refeição comunitária, a partir da qual a tragédia, ela mesma, invocou. É o homem, ao final das contas que consome tudo isso que esteve aí presente de sua substância e de sua carne, e se trata de saber isso que isso vai dar.” Ora, o que isso vai dar é que o seu próprio significado, ou seja, “ fruto da relação significante, vai surgir efetivamente sobre a cena da comédia plenamente desenvolvida. É esse termo que designa ele mesmo necessariamente, enquanto ele é significado, quer dizer, enquanto ele recolhe, ele assume, ele goza da relação a um fato que está, fundamentalmente, numa certa relação com a ordem significante, a aparição desse significado que se chama falo.”
É neste contexto que se apresenta, neste seminário de Lacan, “O Balcão” de J. Genêt, onde nos é apresentado, sob a forma da perversão, o que é definido por uma linguagem crua como sendo “todo o bordel no qual vivemos, na medida que é como toda sociedade, sempre mais ou menos em estado de degradação, pois a sociedade, continua Lacan, não sabe se definir de outra forma senão por um estado mais ou menos avançado de degradação da cultura”.
É neste estado de degradação, colocado a céu aberto pela confusão que se estabelece no momento em que a peça se desenvolve, é que vai “colocar em causa a relação do sujeito com a função da fala”. 
É neste contexto de total desordem que toda a manutenção da ordem vai se estruturar em torno do que se chama a polícia, encarnada pelo “resíduo de todo poder, o chefe de polícia”, o herói da peça.
Neste jogo de imagens, onde cada qual é somente pelo que o espelho lhe diz só se sustentando pela confirmação do outro, o Chefe de Polícia se encontra fora da “Nomenclatura”, como se denomina a lista dos que já tiveram suas “funções elevadas à uma nobreza suficiente para propor aos sonhadores uma imagem que os console”. Em outras palavras, como nos diz Lacan, o Chefe de Polícia não havia ainda sido elevado à dignidade dos personagens em cuja pele nos podemos gozar. 
O que é que pode ser gozar de, p. ex. seu estado de bispo, de juiz ou de general? O que nos apresenta este artifício é uma Casa das Ilusões onde, efetivamente, isto que se produz ao nível do Ideal do Eu. Isto não é, como se pode pensar, o efeito de uma duplicação do sentido onde a neutralização progressiva de funções enraizadas no interior é esperada, mas sim algo que “é sempre mais ou menos acompanhado de uma erotização da relação simbólica”. Em outras palavras, “gozar de seu estado com essa alguma coisa (...) essa alguma coisa com a qual ele se coloca em relação com uma imagem, com uma imagem portanto, na medida que ela é o reflexo de algo essencialmente significante”.
É este quadro que vai sendo desenhado por Gênet, levando cada um dos personagens a, pouco a pouco, ocuparem imaginariamente lugares de poder. A dona do bordel, p. ex. se transforma em rainha ...
O destino do chefe de polícia, é que vai dar o tom à peça na medida em que ele busca, insistentemente “seu lugar imaginário onde ele pode encontrar, nem que seja por um instante, uma satisfação difícil a obter”. Nesta busca ele apela para suas funções enquanto sendo o último baluarte da ordem, situação esta que não carece de significação se lembrarmos, com Lacan, “que a descoberta do Ideal do Eu foi, em Freud, coincidente com a inauguração deste tipo de personagem que oferece à comunidade política uma identificação única e fácil, a saber o ditador”.
É neste ponto que o chefe de polícia assusta a todos que o circundam ao propor o que será o símbolo de sua função, um falo. Após questionar a igreja, a magistratura e o exército sobre a conveniência de sua escolha, o chefe de polícia é levado a assistir a performance de alguém que havia, pela primeira vez, feita a opção de gozar de sua imagem. 
O desfecho desta cena mostra o freguês do bordel, sendo impedido pela prostituta de levar o personagem que escolheu ao ponto de seu destino, exclama no momento em que estava sendo retirado do local: “Nada! Não me resta mais nada! Mas ao Herói não restará grande coisa ...” e, dando as costas ao público, faz o gesto de se castrar.
Para concluir esta série de informações e articulações que, espero, possam trazer mais perguntas que respostas, relembro a pequena passagem do Silet de J.A. Miller, já citada no início deste seminário, quando ele nos fala do exemplo que Lacan nos fornece em seu Seminário VI da análise de um caso de exibicionismo reacional. “Trata-se, no fundo, nos diz Miller, de um comportamento exibicionista induzido por um momento da elaboração simbólica tal que ela se repercute na análise e testemunha um falha. A esta falha, a este déficit simbólico responde esse comportamento que consiste a apresentar ao Outro anônimo uma imagem fálica”.  De alguma maneira é o que pudemos ver se desenrolar no relato da peça de J. Gênet, ou seja, “na falta de uma harmonia com o símbolo viril, o sujeito apresenta ao Outro a imagem fálica (...) o que caracteriza a posição perversa como uma recusa da mediação simbólica, o que é correlativo de uma valorização da imagem, fôrma da perversão.” 

Mas, afinal, quais são os enigmas do masculino? Será que o “fato da feminilidade encontrar seu refúgio nesta máscara (fálica) pelo fato da Verdrängung inerente à marca fálica do desejo, (e) a curiosa consequência de fazer com que no ser humano o desfile viril, ele mesmo pareça feminino”, pode nos levar a pensar que, afinal de contas, o enigma do masculino é o feminino?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Os enigmas do masculino (II)

Ora, esta solução encontrada por Lacan e que vai estruturar, basicamente, a relação do sujeito e do objeto, vai nos dizer que o que existe fundamentalmente é uma falta, “que é efeito do significante, que à falta devido ao efeito mortificante do significante responde este elemento de vida, este elemento de gozo vivo que é o objeto pequeno ‘a’, que diz também, enfim, resumidamente, que isso que a alienação engendra pela ordem significante conclama a necessidade de um objeto (...) à tudo que é da ordem da castração significante, da perda de vida que vai com o significante, portanto, deve responder como um aporte suplementar, que Lacan designa como objeto pequeno ‘a’ e que tem a necessidade, em Freud, do conceito de pulsão”.
Esta articulação do objeto ‘a’ e pulsão é fundamental para se dar mais um passo nesta discussão que - é importante destacar aqui, parte de um não saber. Sim, o tema proposto nos coloca diante de um não saber fundamental pela novidade do tema, ao mesmo tempo que nos deixa em condições de repensar conceitos que, até então, acreditávamos muito bem estabelecidos - vai desembocar no conceito de falo. J.A. Miller, neste seminário que tantas vezes já foi mencionado aqui, discute a evolução do ensino de Lacan tomando um conceito: Pulsão. Ele nos diz que num primeiro momento Lacan vai colocar o conceito de falo no mesmo lugar que Freud coloca o conceito de pulsão: entre o simbólico e o imaginário, ou, em termos freudianos, como um “conceito limítrofe entre o somático e o psíquico, o representante psíquico da demanda feita à mente, pelo corpo, para que ela trabalhe...” Esta demanda feita pelo corpo à mente para que esta trabalhe é, como desenvolve Freud, consequência do recalque originário. Em outras palavras, o conceito de pulsão em Freud, tornou-se necessário pelo recalque do significante que diz do sujeito do inconsciente. Partindo desta premissa, Lacan vai nos dizer no seu texto “Posição do inconsciente” que o lugar do eu (je) recalcado é o lugar do gozo, ou seja, aí onde há o recalque, aí onde o sujeito não é passível de ser identificado por um significante, ele pode ser cercado ao nível da pulsão na presença do objeto. (Importante lembrar que se uma retificação há de ser feita, ela se localiza ao nível da pulsão, Lacan, S.XI)
Objeto ‘a’, pulsão, falo, conceitos que foram sendo trazidos para esta discussão, à medida que se desenvolveu o tema do enigma, mais especificamente dos enigmas do masculino. 
Porque O enigma do feminino e OS enigmas do masculino? 
Para tentar fazer avançar a discussão, parto da seguinte proposição de Lacan que se encontra no texto “A significação do falo”. Peço-lhes permissão para trazer um pequeno trecho, uma vez que ele poderá sustentar o debate que, tenho certeza, vai se seguir: 
“O falo aqui, se esclarece de sua função. O falo na doutrina freudiana não é um fantasma, se é preciso entender por aí um efeito imaginário. Ele também não é, como tal, um objeto (parcial, interno, bom, mau, etc...) na medida que este termo tende a apreciar a realidade interessada numa relação. Ele é menos ainda o órgão, pênis ou clitóris que ele simboliza. E não é sem razão que Freud tomou a referência do simulacro que ele era para os Antigos.
“Pois o falo é um significante, um significante cuja função na economia intrasubjetiva da análise eleva, talvez, o véu disto que ele tem nos mistérios. Pois é o significante destinado a designar no seu conjunto os efeitos de significado, na medida que o significante os condiciona pela sua presença de significante.”
Mais adiante, após dizer que “o falo é o significante privilegiado desta marca onde a parte do logos se conjuga ao advento do desejo”, Lacan aponta este significante privilegiado como “o mais destacado disso que podemos apreender no real da cópula sexual, assim como o mais simbólico no sentido literal (tipográfico) desse termo, porque ele aí equivale à cópula (lógica). Podemos dizer também que ele é, por sua turgidez a imagem do fluxo vital na medida que ele passa na geração”.
Continuando ainda com Lacan, “todos esse propósitos nada mais fazem que velar o fato de que ele não pode representar seu papel senão velado, quer dizer como signo ele mesmo da latência da qual é atingido todo significado, desde que ele seja elevado (aufgehoben) à função de significante.”
O fato de ser o falo o significante da marca da conjunção do logos e do desejo, a marca da refenda do sujeito a partir da diferença que resulta da subtração do “incondicional da demanda” à “condição absoluta do desejo”, vai estabelecer um “campo feito para que aí se produza o enigma que a relação (sexual - pois ela é que vai ocupar esse campo fechado do desejo, é aí que ele vai jogar sua sorte) provoca no sujeito ao lhe “significar” duplamente: retorno da demanda que ele suscita, em demanda sobre o sujeito do desejo....”.
O falo, portanto, sendo um significante vai engendrar significações. Estaria aí uma razão para falarmos em OS enigmas?