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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Seminário na EBP-MG - Momento de Concluir - 20 de Junho de 2018


Seminário na EBP-MG - Momento de Concluir
20 de Junho de 2018

É chegado o momento de concluir este nosso trabalho do semestre e trazemos com ele a esperança de que possa relançar o vetor do desejo na direção de um trabalho que pretende continuar vivo em função da causa que o sustenta.
Em seu primeiro encontro com o Outro, consequência da incidência de um significante, o sujeito tem de se haver com um real que não se subjetiva. Ponto de opacidade, nos diz Lacan, ponto de silêncio que indica o lugar onde poderá se edificar a determinação significante capaz de escrever o fenômeno sintomático, na esperança de se dar conta da impossibilidade que se instala na contingência deste primeiro encontro. O sintoma é o que vai representar, manifestar, significar a verdade deste encontro. Verdade que nos diz do real do gozo que é produzido pela inclusão do significante traumático no sujeito.
Desta forma, o sintoma poderá ser tomado em duas vertentes: por um lado temos o sintoma como metáfora, na medida em que faz valer um significante do traumatismo, um significante que vai funcionar como um índex da memória do que foi encontrado como traumático. O sintoma como metáfora é um sintoma significante que está conectado ao gozo, sem sê-lo. Por outro lado, se seguirmos o desenvolvimento da teorização de Lacan, vamos tratar o sintoma como função da letra, como signo desta distância insuplantável com o real. É fundamental distinguirmos, aqui, a letra do significante pois esta se relaciona diretamente ao gozo, enquanto o significante está referido ao sentido gozado (jouis-sens). Temos, então,  duas definições do sintoma: por um lado um “memorial de gozo”, e por outro um “cativador de gozo”. 
Seja qual for a vertente, temos no sintoma o sinal de que alguma coisa não anda pois há um real que se coloca como uma pedra no caminho do sujeito: o real da privação que se explicita no fato de que homens e mulheres, desde sempre, estão privados do elemento que poderia propiciar a escritura da relação sexual. 
Esta impossibilidade, que não cessa de não se escrever, promove o sintoma como única possibilidade de se fazer laço, ao mesmo tempo que se permite uma leitura, uma vez que ele participa de uma escritura, função da letra. Por isso J-A. Miller, em seu curso “O Outro que não existe...” nos diz que “o sintoma é uma mentira sobre o real ... especialmente um mentira sobre o real que a relação sexual não existe. (...) É bem por isso que Lacan pode dizer que é o sintoma que nós colocamos no lugar deste Outro que não existe. E, especialmente, é o sintoma que nós colocamos no lugar do outro sexo (...) talvez o único Outro que existe, é o sintoma.”
Há, portanto, um vazio sobre o qual o sintoma se apoia e vai construir seu envelope formal. Vazio que se instala no ponto mesmo em que a presença de um gozo singular, escandaloso foi recusado e recalcado pelo sujeito (Lacan nos lembra, em RSI, “O neurótico é alguém que não chega a atingir o que é para ele a miragem onde ele encontrará satisfação, a saber, uma perversão. Uma neurose é uma perversão que falhou - c’est une perversion ratée). Isto que é recalcado, Freud definiu como sendo a pulsão que se apresenta com seu caráter intratável, rebelde e refratário ao laço social. No entanto, este mecanismo falha e o sintoma vai surgir como uma forma de inscrever o que insiste como marcas da singularidade do sujeito e de suas fixações.
O sintoma, assim como a cena da fantasia fundamental, nada mais são do que envelopes da pulsão, modalidades de seu exercício, formas que o sujeito busca para apreender um objeto, no campo do Outro, que lhe sirva de parceiro.
Este objeto, que Lacan denominou “pequeno a”, se define a partir dos orifícios do corpo e marcam o ponto por onde o sentido não se deixa apreender nas malhas do discurso. É este objeto pequeno “a” que apresenta o vazio em torno do qual a pulsão faz seu circuito desenhando uma escritura que situa a repetição do sintoma. 
Uma cena que envolveu o ato de escrever e um olhar definiram um ponto de fixação de gozo, determinando um caminho e estabelecendo uma forma sintomática.
A busca da satisfação passava pelo conquista de ideais determinados pela demanda do Outro que, na impossibilidade de serem atendidas, deixavam permanecer um resto que se repetia no olhar de uma mulher. A marca da falta, presente neste olhar, era buscada como único sinal da existência de um Outro que pudesse ser inscrito na possibilidade da relação sexual. Sintoma que se fez valer, criando uma série cujo ponto de conclusão era postergado infinitamente. 
Lacan nos diz que “O Outro é uma matriz com duas entradas”. O objeto pequeno “a” constitui uma destas entradas. E a outra é o Um do significante. Dissolver a presença deste Outro era fundamental para que o sujeito pudesse se livrar das diretrizes que determinavam a fixação do circuito pulsional. 
 O sintoma, por comportar um efeito de sentido, sofre a ação da interpretação. O seu valor de gozo, no entanto, é antinômico ao sentido, só se deixando apreender pelo equívoco, de onde se deduz a função da letra. A redução do sintoma à letra é uma forma de renovar o estatuto do simbólico, resumindo a pulsão à função de furo.
Por isso, a interpretação do analista pôde apontar o vazio e, assim, esclarecer o circuito que delimitava o objeto e que estava velado pela interpretação que o inconsciente havia feito do encontro traumático com o Outro sexo.
Este objeto, desde o congelamento do sentido na cena da fantasia fundamental, passou ser incrustado em todos aqueles que apresentassem um traço que pudesse repetir a cena fundamental, nos dizendo de um ponto de fixação pulsional. Ora, a pulsão é a força real da fantasia ao mesmo tempo que denuncia o limite do sintoma à ação do simbólico. O resto que escapa, foge, retorna sob a forma de mal estar e relança o vetor pulsional sempre na direção determinada pelo imperativo do super-eu. Desfazer este circuito, devolvendo ao objeto sua característica de ser qualquer um, mobilizando o seu valor de gozo é um dos objetivos de uma análise.
Neste seu objetivo, a estratégia da qual se utiliza a psicanálise consiste em oferecer, àquele que a busca como solução, a possibilidade de que esta cena se repita na transferência, ao instalar, no ponto de não saber, um sujeito suposto saber da significação de seu sofrimento. Esta estratégia, se utiliza do fato de que o “inconsciente existe e sua existência se sustenta, exatamente no fato da inexistência da relação sexual e que a sexualidade só se representa no inconsciente pela pulsão”. Utilizando-se do objeto pequeno ‘a’, enquanto agalma, pode-se ter entrada ao Outro, fazendo possível a construção desta cena fundamental, a partir mesmo da determinação de uma constante através da qual o sujeito se relaciona ao real do gozo. Balizada por esta construção, uma interpretação operou separando S1 do S2 e criou um intervalo onde reinava a opacidade própria do gozo do sintoma. Este foi o momento em que aconteceu a produção de um significante que indexou a falta, um nome que estabeleceu novos rumos, fazendo desaparecer os pontos de suspensão sintomáticas e fazendo intervir a letra como borda ao real.  
 O amor, resposta ao real da não relação sexual, sustentou o trabalho da transferência nesta relação ao Outro do saber, e se esvaziou pela ação da interpretação que desfez o mistério da diferença sexual.  Este foi o momento em que o “analisante fez do objeto ‘a’ o representante da representação de seu analista”, abrindo uma nova relação ao saber e ao consentimento com seu modo próprio de gozo. 
Esta passagem estabeleceu uma subversão do sintoma que, a partir de então, passou a se sustentar na alienação, não mais a um Outro do saber, um Outro sem barra, como define Lacan, mas sim ao Outro barrado, marcado pelo silêncio da pulsão. Podemos dizer que aconteceu uma extração do objeto “a”, como causa de desejo, a partir do gozo que sustentava o sintoma. Como consequência o sujeito, por querer o que deseja, assumiu uma responsabilidade onde antes se esperava uma garantia. Responsabilidade que se verifica como a única posição política possível. Responsabilidade definida, por J-A. Miller da seguinte forma: “Se tudo fosse calculado, então não teríamos mais responsabilidade. Há uma responsabilidade, justamente, porque há um furo e que é necessário cobri-lo pelo ato, decidindo-se em função de seu julgamento íntimo”. 
Onde havia o trabalho de transferência, portanto, aconteceu a transferência de trabalho, dizendo de uma nova aliança com a pulsão. Esta nova aliança só pôde acontecer pela revitalização da marca do Nome próprio propiciando um “saber aí fazer com o sintoma”. “Saber aí fazer com o sintoma” se constitui numa das fórmulas possíveis da liberdade. “O ‘aí’ marca a suspensão de um ser que vai nomear o saber ou o fazer. É um ser que nomeia o ‘aí’ como o que vai para além de seu nome próprio, um nome para além da imagem de seu nome próprio. (...) É exatamente do nome próprio que nos fala Lacan a partir da fórmula “saber aí fazer com seu sintoma”.
Produzido um nome, retificado o circuito pulsional, foi possível dizer ao analista que o endereçamento do sujeito não mais se dirigia a ele, estabelecendo os parâmetros de uma nova parceria. 
Além destes vários aspectos teóricos que foram utilizados para dar conta do trajeto de uma análise, podemos trazer alguns outros extraídos do trabalho que fiz enquanto exercia minha função de AE na EBP.
Entre eles, destaco a função do traço na constituição do sintoma que levou um sujeito à análise, bem como o seu destino no final. A partir desta redefinição, o trajeto de uma análise bem poderia ser resumido da seguinte forma: “Do sintoma da identificação à identificação ao sintoma”. 
Assim pensando, pode-se redimensionar a função de traço que se decanta a partir da queda das identificações - exemplo representado pela imagem do Limão que, até então, sustentava o sujeito na sua relação com o desejo do Outro –, num significante que veio a se definir como Lima e que permaneceu como ponto de articulação lógica, propiciando uma nova leitura do lugar do sujeito na sua relação com o Outro. Na verdade, se Limão era um significante que se apresentou como resposta ao Desejo da Mãe, Lima foi extraído como Nome Próprio, cunhado na ranhura que inscreve o Nome do Pai. Herança que foi conquistada, fazendo-se sua. Uma questão então permanece, a partir desta evolução: O nome próprio seria um significante ou ele se apresenta ali, onde não pode ser pronunciado, apenas como a presença de uma letra? Uma letra que pode ser transmitida do momento do passe, digamos, clínico, e que vai indicar ao Cartel do Passe que um analista pôde advir no final de uma análise. Assim, partindo do sintoma da identificação o sujeito desconstruiu a palavra até obter dela seu valor de letra, o valor de significante enquanto escrito: S(A/) “O S, o verdadeiro significante de A - o que do significante permanece, uma vez que se eliminou a palavra”. Esta é a escritura que permite ao ser falante subtrair-se aos artifícios do inconsciente, ao mesmo tempo em que deixa claro o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra: “que o desciframento se resuma ao que constitui a cifra, ao que faz com que o sintoma seja, antes de tudo, algo que não cessa de escrever-se do real...” Assim posto, uma nova identificação pode acontecer, uma identificação que não é ao inconsciente. Identificar-se ao inconsciente está fora de cogitação pois, como nos diz Lacan, “o inconsciente permanece, o inconsciente permanece Outro”. A identificação da qual se trata, quando falamos em final de análise, é à letra do sintoma, àquela que, uma vez rompido o circuito preestabelecido pelo sentido congelado da fantasia fundamental, poderá tornar-se um traço que desvela a “alíngua” como corpo do simbólico e enlaça o corpo do imaginário ao corpo do real fazendo consistir os três termos Real, Simbólico e Imaginário. Esse é o caminho que culmina na transformação da experiência da fantasia fundamental em pulsão, ao restabelecer o vazio do lugar do objeto pulsional. 
O que se pode elaborar desta passagem – da experiência da fantasia fundamental à pulsão – mostrou que quando o sujeito extrai um pouco de prazer com o que está mais além do prazer, isto é, consegue um pouco de prazer com o gozo, trata-se aí da sua fantasia pois o vazio, em torno do qual a pulsão deveria fazer a volta, permanece preenchido pelo objeto que o sujeito interpretou como sendo do desejo do Outro. Mas, quando o sujeito vai satisfazer a algo que o confronta com o mais além do princípio do prazer, dizemos que é um assunto que se passa entre a satisfação e o gozo, colocando em questão a pulsão. Em outras palavras, se colocamos o sujeito do lado da fantasia, ele será satisfeito por algo, se o colocamos do lado da pulsão, teremos um sujeito que satisfaz a algo. Isto é para dizer que, de modo algum o sintoma será o mesmo se o abordamos pela dimensão do prazer e do gozo, ou do gozo e da satisfação.  
Assim, à luz do que pude introduzir acima, podemos pensar a Sessão Analítica como um lugar do possível que, orientado pela lógica própria a cada percurso, abre a possibilidade do acontecimento imprevisto colocando, em ato, a realidade sexual do inconsciente para que, desta forma, o sujeito tenha condições de tratar o real pelo simbólico. 
Neste ponto em que estamos examinando a Sessão Analítica será importante retomar a perspectiva do sintoma como sendo uma tentativa de restabelecer o laço entre o sujeito e Outro. Neste sentido, podemos dizer que ele é uma solução para evitar o encontro com a castração. O sujeito, pode-se dizer, nasce como efeito de um menos, um menos de gozo que advém da extração que o significante opera no campo do Outro. Esta operação traz, como consequência, um certo mal-estar, um certo incomodo que vai gerar um movimento de busca incessante, ali mesmo onde algo se perdeu. É a partir deste ‘menos’, portanto, que se instala o que Lacan denominou, de Automaton - a repetição da impossibilidade na cadeia significante. Esta repetição, ou seja isso que “não cessa de se escrever”, é uma necessidade que vem dizer da impossibilidade que o próprio recalque originário (Urverdrängung) aponta. Contudo, todo este movimento só se sustenta por que há pontos de encontros que, pelo fato mesmo de serem sempre faltosos, acenam com a possibilidade de uma certa realização.
 Assim, entre o que “não cessa de não se escrever” (o impossível) e o que “não cessa de se escrever” (necessário) vamos nos deparar com um sujeito que, como nos diz Freud, tem que se haver com um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer (Unlust) ou sofrimento (Leiden) que esta situação pode criar. Sendo isso o que todo ser falante tem como fundamento de sua estrutura, existe, ainda conforme Freud, uma pré-condição para a formação de sintomas em todos nós. O sintoma, portanto, poderá ser definido como “o resultado de um conflito, e que surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido (libidobefriedigung). As duas forças que entraram em luta (que poderíamos aqui representar pelos dois movimentos: “não cessa de não se escrever” e “não cessa de se escrever”) encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado”. Em outras palavras posso dizer-lhes que este “acordo” seria uma negociação feita de tal forma que o sujeito diria assim: “pago um preço para não saber que existe algo que ‘não cessa de não escrever’, e este preço é uma satisfação substitutiva que, ao mesmo tempo em que provoca um certo desprazer (Unlust), é onde posso obter minha satisfação”.
Temos, então, alguns dados que são muito importançtes para o desenvolvimento de nosso tema: o sintoma é uma tentava de criar uma harmonia ali, onde um menos se instalou provocando uma desarmonia.
Em outras palavras, um possível trajeto na formação do sintoma: a partir de um ‘menos’ que se instala como consequência da extração do objeto “a” pela operação significante, vai surgir uma intenção de significação que produz uma resposta que, exatamente por ser da ordem do impossível, vai relançar a busca de significação. Esta busca de significação é explicada por J.A.Miller como sendo a “transformação da queixa que emerge do fundo do desprazer em mensagem (…) fazendo existir o sujeito de uma maneira nova no campo do Outro, e sob forma constituída”. No entanto, quando se formata uma queixa, ou como nos diz M. Silvestre: quando fazemos coincidir uma queixa e um sofrimento, vamos perceber que ela se desnatura, pois há o que se pode dizer e o que não se pode dizer pela própria impossibilidade do significante em dizer tudo. Esta dificuldade é o que faz com que a lógica própria ao Outro, ao estabelecer esta relação entre queixa e sofrimento, vá congelar e fixar a queixa numa certa cena. Em outras palavras, do que se trata aqui é de um certo percurso pulsional que estabelece uma certa correlação entre o sujeito e “um dos objetos que havia anteriormente abandonado”, porque “a libido é induzida a tomar o caminho da regressão pela fixação que deixou atrás de si nesses pontos do seu desenvolvimento”, nos pontos em que queixa e sofrimento, gozo e mensagem, castração e envelope formal, se fizeram coincidir.
Talvez possamos afirmar, neste ponto, que “o sintoma analítico, enquanto que formatado no campo do Outro, constituído como o que se instaura da cadeia significante, tem estrutura de ficção”. Isto o demonstra muito bem o sintoma histérico, na medida em que, na histeria, vamos ver o sintoma como ser de verdade do sujeito pois ele é deslocado desde baixo e colocado em evidência. Em outras palavras, ela faz “o objeto ‘a’ como real vir ao lugar da verdade”.
Acrescento, neste ponto que é ao instalar-se como “ser de verdade” que o sintoma promove a construção de uma suposição de saber no campo do Outro. Partindo da premissa estrutural de que não há relação entre o sujeito e o Outro, o sujeito está, desde sempre, afastado de sua verdade. O laço possível, entre o sujeito e o Outro, se faz pelo sintoma. E se faz, com a criação de um “ser de saber” ali, onde a verdade lhe está vetada.
Estrutura de ficção, queixa, sofrimento, não importa como a ele nos referimos, a verdade é que o sintoma é o que vai dizer de algo que não vai bem e o “clamor da humanidade” é pelo apaziguamento do mal-estar que isso provoca. 
Um passo a mais pode ser dado para desvelarmos um pouco da importância que o sintoma tem para cada sujeito. Por todas estas características que acabo de trabalhar, podemos perceber que o sintoma é o que cada um tem de mais particular, e também o de mais real. Por isso o sujeito neurótico se apega tanto a ele, como uma possibilidade que se lhe apresenta como única, de fazer frente ao que lhe está prescrito pelo Outro. É fundamental, portanto que, ao escutarmos o relato da infelicidade de alguém, tenhamos em conta que esta infelicidade sendo o que há de mais particular, é o que sustenta este sujeito enquanto um ponto de identidade. Talvez por isso é que, ao diferenciarmos o lugar do analista, do lugar do terapeuta, estamos dizendo que nosso compromisso não é com o movimento humanitário que, com seu clamor, espera poder uniformizar o que há de mais singular. Nosso compromisso é, exatamente, com o singular de cada um. Pôr-se a serviço desta verdade supõe um desejo que poderemos qualificar de inumano. Talvez por isso é que Lacan, em sua Nota Italiana, nos diz que o analista é o rebotalho da humanidade, na medida em que quer saber disso que todos querem esquecer. Em outras palavras, Lacan vai afirmar que o mal-estar na civilização consiste em gozar da renuncia ao gozo. Sim, porque ao estabelecer uma solução de compromisso entre duas forças opostas que estão em conflito o sujeito renuncia à possibilidade de um gozo possível. Gozo este que é possível somente na medida que o Outro é esvaziado de gozo, ou seja, na medida em que o sujeito deixa de acreditar que o Outro quer dele sua castração, que o Outro quer retirar-lhe o que ele tem de mais precioso: seu pequeno nada
O sintoma é gozo e mensagem a ser decifrada e está submetida ao que costumamos chamar de horror da castração. É neste menos, a castração, que vamos encontrar o singular do sujeito. Este menos, sinalizado pela presença do traço unário (Einziger Zug) é o que vai fazer o mais singular de cada um. É isto que Lacan denominou “estilo” e o que pode ser transmitido. Podemos dizer, com Lacan que o estilo é o objeto ‘a’ enquanto que marcado pelo traço unário, marcado pela incidência do “dizer verdadeiro” que deixou uma “ranhura” indelével. É esta ranhura do dizer verdadeiro que o sintoma tenta preencher, a partir mesmo da cena da fantasia fundamental que os significantes primários do sujeito construíram, ordenados a partir deste mesmo traço (Zug). No centro, o vazio deixado pela extração do objeto ‘a’, promovendo o “pouco de realidade” que dá consistência à relação do sujeito com o Outro.  O final de análise passa por este traço unário. 
Vamos nos ater, no entanto, ao que um sujeito faz para evitar este encontro com a castração. Uma das estratégias utilizadas é a instalação de um princípio de consistência que é exterior ao sistema que o sustenta, ilustrado, no início, pela imagem do Limão que havia sido construída como resposta ao Desejo da Mãe. Ou seja, há uma busca de garantia que venha de um Outro, não importa qual. Quando esta garantia, construída na ficção do sintoma, deixa de cumprir sua função, o sujeito vem buscá-la na análise. Neste caso, o que se espera é que um princípio de consistência venha restituir a harmonia perdida. Esta busca de recurso no Outro dá ensejo à produção de uma significação que Lacan deu o nome de Sujeito Suposto Saber. Com isto, busca a certeza em uma afirmação que possa dizer do verdadeiro e do falso para tal ou qual proposição. Na verdade, o que se busca a partir do Sujeito Suposto Saber é a constituição de um ponto de estofo que possa manifestar uma consistência do discurso estabelecido. Só que este ponto de estofo estabelece um lugar de onde o sujeito vai receber seu próprio discurso de forma invertida, ou seja, o sujeito vai receber de volta uma significação, com a qual poderá ordenar o trajeto de sua existência: sou assim. Todo este processo só pode acontecer por que o ponto de estofo nos diz onde o desejo do Outro se coloca como ‘x’. Trata-se de um significante que busca dizer do que está para sempre recalcado (Urverdrängung), ou seja, questiona o Outro no ponto em que nada pode ser dito, a saber, o desejo. Desta forma, o problema da consistência virá à tona.
O que chamei a pouco de “desejo inumano”, para designar o desejo do analista, é o que vai operar neste momento da análise, instalando ali, onde se espera uma consistência, a própria verificação da inconsistência do Outro. 
Retomarei aqui algumas passagens do percurso que pôde se concluir, esperando poder destacar alguns aspectos que concernem ao manejo da sessão analítica.
A instalação do Sujeito Suposto Saber veio colocar um ponto de basta na circulação da angústia que se apresentava como sinal da desestabilização do sintoma. O traço que o sustentou até o final, permitindo que um trabalho pudesse ser realizado, passava pela possibilidade de aprender a escrever. Traço este que foi emprestado ao analista a partir mesmo do saber que sustentava a relação entre o significante da transferência e o significante qualquer no Outro. Sabe-se que esta é a solução que o sujeito, preso nas malhas do sentido que lhe propicia sua cena da fantasia fundamental, busca para continuar sem nada saber do que causa seu desejo.
Por isso mesmo emprestou-se ao analista um traço que pudesse restabelecer uma certa parceria que mantivesse distante a ameaça do desamparo. Este traço, que se constitui no que Lacan definiu como significante qualquer, não é qualquer um. Trata-se de um traço que se encontra o mais próximo possível do vazio onde reina o objeto da fantasia fundamental. 
Com função primordial na sustentação deste terreno onde a batalha poderá ser vencida, o analista se colocou num certo lugar que permitiu a constituição de um semblante, possibilitando ao inconsciente, efeito do significante e estruturado como uma linguagem, ser retomado como pulsação temporal. Quando o analista, por uma razão ou outra não se coloca nesta posição, ele estará impedindo o “acontecimento imprevisto”. Ele, na verdade vai estar impedindo a abertura deste instante onde o saber e a verdade se tocam em um ponto contingencial, sem dúvida, mas que possibilita a efetuação de uma pulsação da falha de onde um traço de luz pode jorrar. Poder suportar este lugar e sustentá-lo a partir de um desejo, que Lacan definiu como inédito, é abrir-se ao novo. 
A sessão de cinquenta minutos comportava um standard que podia até apaziguar o sujeito em questão porque ela comportava um “eu já o sabia”. O “imprevisto”, ao contrário, vai deixar o “eu já o sabia” de lado e colocar no horizonte de cada sessão a surpresa, o novo.. 
     Este percurso descrito até aqui aponta para a passagem de um saber sobre o inconsciente para consentir com a experiência do inconsciente
     Este consentimento, obtido a partir da operação do ato analítico, é o que permite que se continue o caminho na construção da fantasia fundamental. Construção esta que abre a possibilidade de escolhas, na medida em que o enigma subjetivo, que se mantem sob a máscara da demanda do Outro vai, passo a passo, se fechando. 
Afinal, "obter um sujeito idêntico a si próprio, que não desliza mais na diferença significante" e que possa ter um saldo de gozo possível ao fim de seu trajeto pulsional é o que se espera de análise.


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Seminário na EBP-MG - Ato Analítico: Uma Formalização


“… a psicanálise não poderia se instaurar sem um ato, sem um ato daquele que aí autoriza a possibilidade, sem um ato do psicanalista, e que no interior deste ato do psicanalista, a tarefa psicanalisante se inscreve …”
(J. Lacan, Sem. O Ato Psicanalítico. Lição de 21/02/68)

“Tornar visível o que não é, fazendo sofrer o olho” (Paul Klee) 
Numa determina passagem de seu livro “O terceiro Ouvido” Theodor Reik (1) nos diz que, assim como um observador que assiste a um trem adentrar um túnel e sair do outro lado, sem nada saber do que se passou lá dentro, o psicanalista faz uma interpretação e reconhece os resultados sem saber bem o que aconteceu.
Esta passagem, que mantenho guardada na memória há alguns muitos anos, é despertada de seu sono em função do tema deste seminário pois, se há algo que um analista pode, e deve, é tentar formalizar os passos da direção de um tratamento de tal modo que eles possam deixar o obscuro inefável para se tornarem fatos transmissíveis.

Nesta linha afirmo que formalizar o momento de uma análise onde o ato analítico acontece, instalando no lugar da verdade um saber que “possa operar enquanto verdade”, é nosso objetivo. Podemos dizer que um sujeito procura análise no momento em que se torna insuportável para ele sua divisão entre saber e verdade. Isto se dá no ponto onde o deslizamento metonímico da cadeia significante se interrompe: “As coisas até aqui caminharam, nos diz alguém, mas não sei porque pararam de andar e até pioraram”. Lacan no seu seminário XI nos diz que “os pacientes, não se satisfazem, como se diz, do que eles são. E portanto, nós sabemos que tudo isso que eles são, tudo isso que eles vivem, seus sintomas mesmo, surgem da satisfação, (...) eles satisfazem a qualquer coisa (...) e estando neste estado de tão pouco “contentamento, eles se contentam”. Só que “por este tipo de satisfação eles se dão muito mal. Até certo ponto é este mal-a-mais que é a única justificativa de uma intervenção" para que no nível da pulsão este estado de satisfação possa ser retificado. 
Assim, sendo, é a partir deste “mal-a-mais” que, surgindo neste ponto em que o saber constituído do sintoma deixa de obturar a verdade da qual o sujeito não quer nada saber, que vamos ver nascer uma demanda de análise e com ela a transferência. 
Uma pequena palavrinha sobre essa verdade da qual o sujeito não quer nada saber: Segundo J. A . Miller no seu seminário de 09.05.90, os escritos de Lacan dividem seu ensino em duas partes e terminam por uma exaltação da verdade, com o texto “A Ciência e a Verdade” (...) Na primeira fase deste ensino a verdade é colocada em oposição ao saber pelo seu caráter nascente na palavra. Ela corresponde à verdade horrível da castração. Já na 2a fase, a verdade não é mais formulada no singular e torna-se uma variável. Em 1973, na “Nota italiana”, o horror da verdade é deslocado para o saber: Lacan vai opor ao horror de saber, o desejo de saber do psicanalista.
A transferência, portanto, está no início do tratamento e se instala aí na tentativa mesmo de, atribuindo a um Outro o saber que falta, alcançar uma resposta que seja o saber último sobre esta sua verdade. É o Sujeito Suposto Saber que surge, fazendo valer um significante qualquer como aquele onde um sujeito poderia ser representado.
Este atribuir a um Outro o que lhe falta é a base da relação amorosa por excelência. Ama-se no Outro o “agalma”, objeto precioso, essência de um ser-em-falta que se ilude no amor ao saber.
Em se tratando da transferência, no entanto, vemos uma dissimetria colocada a priori já que nesta relação há pelo menos um que quer a mudança, há pelo menos que calcula e, ao recusar o lugar de amante que lhe é oferecido responde, por seu não-saber, com um Che Voui ?, um desejo de saber.
Isto nos aponta uma mudança na maneira de ver as coisas pois, se no início da psicanálise muitos pensavam que o inconsciente era um não sabido que iria se tornando cada vez mais sabido, a introdução do objeto pequeno “a” por Lacan, nos diz de uma exteriorização do não-sabido que escapa à cadeia significante e se coloca radicalmente excluído dela.
Fazer operar este objeto “a” enquanto semblante no discurso do analista é tarefa a ser sustentada por alguém: um analista. “A psicanálise é o que se espera de um analista” nos diz Lacan no seu seminário XVII, e continua “e o que se espera de um analista é que faça funcionar seu saber em termos de verdade. É bem por isso que ele se confina num meio-dizer”. 
Em outras palavras podemos dizer que é preciso que exista um analista e este analista só existe na medida em que se colocando como ponto fora da linha, faz operar o vazio onde uma verdade poderá ser transmitida e não um saber ser ensinado. 
Esta operação de transmissão só se faz em ato, ato analítico que, preparado pelo amor de transferência – é o amor que possibilita, enquanto signo, o giro do discurso da histérica para o discurso do analista – se conclui pelo vazio do sujeito. O ato acontece ali onde um sujeito deverá advir. Esta operação que tem como pivô o Sujeito Suposto Saber e por objetivo a destituição deste sujeito suposto, só se sustenta pelo desejo do analista.
Esta é uma operação lógica. O ato enquanto puro não-sentido institui um dizer e cria um fato, onde o axioma da existência – que Lacan traduziu por “Há do UM” (Y a d’l’ UN) – aponta todo o tempo para a impossibilidade do desejo e o infinito da demanda fazendo valer a castração como saída do Édipo.
Lacan, desde o início de sua atividade de transmissão da psicanálise, coloca a topologia, a lógica, e a matemática – enquanto campos da ciência que não comportam nenhuma afirmação de sentido – para auxilia-lo em suas elaborações teóricas.
Escolhi a topologia para tentar levar adiante minha elaboração. Na topologia, escolhi este objeto estranho e de tão difícil apreensão que é a esfera provida de um Cross-Cap, “asfera” como a denomina Lacan. Produto da imersão de uma superfície de duas dimensões no espaço de três dimensões, o Cross-Cap é um objeto também abstrato engendrado teoricamente e sem impurezas. 

                                                                 








No entanto, se admitirmos uma linha de sutura onde existe abstratamente duas componentes conexas que não se cruzam, podemos obter uma imagem concreta do Cross-Cap. 
O Cross-Cap com o qual Lacan trabalhou, e que nos interessa aqui, é aquele que podemos visualizar mas ao qual atribuímos as propriedades daquele que não podemos ver. Dentre as muitas propriedades que este objeto apresenta escolhi algumas que mais convém ao meu propósito. Resumi-la-ei assim: no processo de imersão o ponto do infinito vem instalar-se exatamente ali onde as duas componentes conexas constituem esta linha de falsa auto-intersecção. Esta redução do horizonte a um ponto se precisa disso que esse ponto seja tal que toda linha traçada para aí chegar não o ultrapasse senão passando da face direita do plano a sua face avessa, após sofrer uma torção. Continuando meu pensamento posso dizer, com Lacan, que essa linha traçada é a “linha sem pontos” do corte que representa o dito que faz sujeito e que não pode se produzir senão de uma superfície já marcada de um “ponto fora da linha” ponto este que só se especifica de uma dupla volta instalada sobre uma esfera.
 Suponhamos agora, e aqui está a minha contribuição, que esta linha enquanto percorrendo a face direita da “asfera” seja a mostração do trajeto do sujeito na medida em que se faz representar na cadeia significante que sustenta o saber do seu sintoma. Suponhamos ainda que esta cadeia deslize sem maiores problemas até um ponto em que uma estagnação acontece. Ora é em função desta estagnação que vamos ver surgir aquilo que chamamos a pouco de “mal-a-mais” e que vai levar um sujeito a formular uma demanda de análise e uma transferência vai acontecer. 
Agora, se esta estagnação ocorre durante o tratamento é porque a transferência está operando enquanto resistência. Bom, Freud já nos esclareceu que estes pontos de resistência, pontos de silêncio que acontecem quando a associação livre é interrompida, são a consequência do analista estar ocupando um lugar destacado no pensamento do analisante. Estes momentos de estagnação, no entanto, longe de serem tempos mortos, perdidos para o sujeito, são ao contrário intervalos onde desponta um material específico, aquele da relação ao objeto, quer dizer, aquele da fantasia. 

Momento crucial onde o ato não deve faltar pois somente um ato vai restaurar a função do objeto “a” enquanto semblante, assim como foi um ato que colocou o sujeito em análise. E não deve faltar sob pena do analista, então, se apresentar como presença maciça, fixa, entravando a espontaneidade da fala. Importante assinalar  neste ponto que esta operação se sustenta no desejo do analista que faz barra ao gozo que aí se apresenta relançando o vector na direção de uma construção da fantasia. 
Retomando o nosso modelo topológico podemos dizer que se o ato falta o analista vai ocupar, não este ponto fora da linha (a), mas um ponto na linha (I (a)), impedindo o deslizamento metonímico ao não permitir o ultrapassamento no ponto do infinito, ao não permitir uma passagem da face direita para a face avessa. Em outras palavras, eu diria que teremos então um duplo corte e não mais uma dupla volta. Isto transforma as propriedades do objeto, criando uma banda circular e não mais uma banda de Moebius e um disco. Talvez então, agora, possa afirmar que é exatamente o ato, o ato da interpretação que, tal qual o dedo de São João de Leonardo Da Vinci apontando para o vazio, enquanto fio cortante da verdade e considerando “a necessidade lógica do momento onde o sujeito como X se constitui da “Urverdrängung, da queda necessária do significante primeiro”, restaura o significante enquanto puro não sentido e portador da infinitização do valor do sujeito. Temos aí então a verdade não enquanto horror mais enquanto uma variável quântica: A verdade é não toda! Desta forma vamos ter não a instalação de um único sentido com se tenta, quando se ensina um saber a alguém, nem muito menos a abertura a todos os sentidos. O ato analítico simplesmente abole todos os sentidos. Desta forma, não se deixa outra saída ao analisante senão que aí, neste ponto do infinito, neste ponto onde um puro não-sentido foi produzido faça uma passagem e construa um saber no campo que se abre em consequência da incidência do fio cortante da verdade, pelo ato psicanalítico. Podemos concluir dizendo que este saber que se constrói, tem como centro um “não-saber” que, sendo o núcleo do entusiasmo, não surge por uma relação a si-mesmo, mas como pertencendo à estrutura de um modo essencial, até o ponto de constituir a possibilidade do “Único saber oportuno”. 
Para concluir posso dizer que esta mostração, a partir do Corss-Cap, torna-se melhor compreendida se acrescentar algumas observações de ordem teórica:
1 – A castração e o infinito estão enlaçados e marcam da mesma maneira, essencial, a ordem do desejo. Castração, infinito e desejo têm o mesmo alcance “lógico”, aquele de um axioma ou teorema da existência.
2 – A interpretação é do sentido (na mostração que lhes apresento, sentido da linha que visa para além deste ponto do infinito) e vai contra a significação.
3 – A fantasia, esta que se apresenta nos momentos de estagnação da cadeia significante, não se interpreta e a interpretação visa recolocar a “causa” em função de agente para que uma construção desta fantasia possa ser efetivada. Da fantasia em sua relação com a cadeia significante posso apenas dizer, com Jacques-alain Miller que ela é “uma fixidez silenciosa”.
4 – Se a interpretação nos deixa uma certa liberdade quando a seu modo, o modelo topológico que escolhi para esta mostração nos aponta para o contrário quando se refere ao seu momento. O instante de olhar coincidindo com o momento de concluir nos diz disso que funda, no sentido e não-sentido radical do sujeito, a função da liberdade, como sendo propriamente um significante que mata todos os sentidos.
5 – Infinito e castração, representados no Cross-Cap pelo ponto do infinito, apontam para o “existe UM” fazendo limite ao “todo” e nos diz que a razão aí é que isso que o discurso analítico diz respeito é o sujeito que, como efeito de significação, é resposta do real.

NOTAS:

(1) - O livro mais famoso de Reik, O terceiro ouvido (1948) descreve como psicanalistas usam seu próprio inconsciente para detectar e decifrar os desejos inconscientes e fantasias de seus paciente. De acordo com Reik, analistas conseguem entender seus pacientes mais profundamente examinando suas próprias intuições inconscientes sobre seus pacientes. (Wikipedia)


quinta-feira, 26 de abril de 2018

Seminário na EBP-MG : Demanda de Análise

Seminário na EBP-MG
Demanda de análise 
25 de Abril de 2018
“Na ética que inaugura o ato analítico a lógica governa”
(Jacques Lacan,  citado por JA-Miller em  "Lógica da la cura Y posición feminina (El homologo de Málaga)
O saber no real coloca à prova o direcionamento ético dos psicanalistas, pois é 
inquestionável que há “um real em jogo na formação do psicanalista”. É o saber 
portanto que, acedendo ao real o determina ou, em outras palavras, aponta para o 
impossível do real da estrutura do Inconsciente: S (A/). Essa estrutura, como real, deverá 
ser subjetivada na experiência de uma análise e exigirá um franqueamento que se dará 
em salto – da realidade fantasmática ao saber no real – marcando a verdade como um 
lugar onde se escreve esse saber. 



Ao se tratar da clínica psicanalítica é fundamental que se fale da entrada em análise pois somente uma “boa entrada” pode promover uma “boa saída" e, uma “má entrada”, muitas vezes, provoca uma interrupção precoce do tratamento. É evidente que praticamos a Psicanálise desde o momento em que recebemos um candidato a analisante pela primeira vez em nosso consultório pois, o que se espera de um analista é que ele possa assumir esta condição desde este início. 
No nosso primeiro encontro falamos do sintoma. Definimos o sintoma como “uma solução para evitar a castração”. Ressalto que nossa referência é o sujeito da linguagem, o sujeito do inconsciente, e não a pessoa ou indivíduo. Esse sujeito nasce como efeito de um menos (-). Lacan define esse (-) como “menos de gozo”. Para evitar qualquer mal entendido a vertente do gozo de que vamos tratar se refere àquele estado em que o sujeito está ali, sem existir como sujeito, mas sim como coisa. 
Nestas circunstâncias, a percepção de um significante, de uma palavra que veio do Outro cava, neste espaço vazio, uma extração. Retira-se um elemento e, desse lugar onde o elemento foi retirado, pode surgir ali um sujeito. Isso é o que Lacan define, de uma forma concisa e às vezes enigmática: o sujeito é a resposta do real. Isso porque no lugar onde deveria haver um significante que o designaria totalmente tem-se um vazio. Diante desse vazio que Lacan chama de Real tem-se uma resposta que é o sujeito. 
Essa operação de extração de gozo do campo do Outro é uma operação que instala o que se pode denominar de mal-estar ou incômodo. Esse incômodo foi definido por Freud no “Projeto de uma Psicologia Científica” como encontro com o das Ding que produz, como consequência, uma busca incessante ali, onde algo se perdeu numa tentativa de reduzir a zero o que incomoda, dando início a uma repetição infinita. 
Essa repetição, como já vimos no nosso último encontro, Lacan chamou de automaton no Seminário 11: uma repetição que não é a repetição de um mesmo significante, mas sim, a repetição da impossibilidade. A cadeia significante constitui-se em automaton porque nela se repete a impossibilidade. O que não cessa de se não escrever. 
Lacan denominou isto que não cessa de não se escrever de objeto “a”, ou seja, algo que escapa à tentativa do significante de apreender em suas malhas e que dele temos apenas as bordas. 
Assim, pode-se dizer que a repetição acontece porque algo não cessa de não se escrever, e porque algo não cessa de não se escrever promove-se um movimento que não cessa de se escrever: a palavra. Ou seja, uma necessidade. Essa necessidade nada mais é que o sintoma que nasce exatamente a partir do recalque originário, aquele que Freud definiu como o primeiro impossível da existência de um sujeito. 
Esse movimento só se sustenta porque nesse “não cessa de não se escrever” fica uma promessa, a promessa de que um dia, quem sabe, isso que “não cessa de não se escrever” vai se escrever. Lacan nos diz que quando se está na cadeia de significantes, sob o regime do automaton, pode-se eventualmente se deparar com uma tyke, um encontro. É um encontro sempre faltoso que exige, como diz Freud, um dispêndio de energia adicional para lutar contra o desprazer original que a falta constitutiva do sujeito promoveu. Esse desprazer ou sofrimento é o que pode promover a criação do novo. 
Portanto, vamos ao que é importante: o sintoma é algo da ordem da necessidade que está regida pelo automaton e que pode, na sua repetição, promover uma tykhe, ou seja, um encontro; encontro este que pode propiciar uma retificação qualquer neste sintoma. É por isso que Lacan, num texto muito interessante que está nos Escritos – “De Nossos Antecedentes” – nos diz que o envelope formal do sintoma - que eu entendo como a cadeia de significantes - pode nos levar a um ponto de encontro onde o sintoma reverte-se em efeito de criação. Em outras palavras, uma análise acontece porque o sintoma propicia, na sua repetição, pontos onde uma intervenção pode acontecer e trazer um novo sujeito como efeito de criação. 
Cabe agora uma pergunta: por que o sujeito procura um analista? A maioria das pessoas não procura a análise porque o sintoma delas funciona. Só se procura uma análise quando o sintoma deixa de funcionar. Esse é o momento em que acontece uma conjunção entre queixa e sofrimento. 
Nós conhecemos um grande número de pessoas que passa a vida se queixando e não aceita nenhuma indicação de análise. Por que isso? Porque o "sujeito é feliz", nos diz Lacan em "Televisão". “Eis justamente sua definição dado que ele só pode tudo dever à sorte (heur), à fortuna, dizendo de outro modo, e que toda sorte (heur) lhe é boa para o que o mantém, ou seja, para que ele se repita.” Traduzindo, ele se satisfaz porque está sob a regência de uma pulsão e não de instintos, portanto, ele se satisfaz com qualquer coisa. Em outras palavras, o sujeito se satisfaz, simplesmente, com o fato da pulsão fazer o seu trajeto, para logo se lançar novamente.
A diferença entre a pulsão e o instinto é que o instinto não se satisfaz se não tiver o seu objeto. Quando se está com fome não nos interessa o que comer, um pedaço de pão serve. Agora, quando se está sob a regência da pulsão, quando a fome não está se sobrepondo à pulsão oral enquanto elemento da necessidade, do instinto, pode-se, perfeitamente, ter prazer em assentar à mesa de um restaurante e escolher o cardápio. Esse é o exemplo que Lacan nos dá no Seminário 11 para dizer que à pulsão só interessa o percurso. Imaginem o cardápio como o campo do Outro. O sujeito passa por ele e escolhe seus significantes e fica satisfeito só com o fato de escolher. 
A pulsão diferencia-se do instinto porque à pulsão não interessa o objeto. Freud descobriu isso a partir das pulsões sexuais e sabemos muito bem que a diferenciação da via da pulsão e do instinto é clara. Basta observarmos as escolhas sexuais. O fetichismo, por exemplo. 
O sujeito busca uma análise, portanto, quando seu sintoma falha. O que esse sujeito busca é recolocar o sintoma no lugar onde estava antes, fazendo-o funcionar. Assim uma demanda de análise acontece no momento em que uma queixa se associa a um sofrimento. Na verdade, o que acontece é um pedido a uma outra pessoa, a um Outro que ele escolhe da seguinte forma: “estou aqui porque eu percebi que você sabe, porque eu acho que você sabe e, como eu não quero saber, suponho que você saiba como restituir meu sintoma ao ponto em que ele me dava satisfação sem este excesso de sofrimento”. Em outras palavras, é assim que chegam os candidatos à análise: quando o seu sintoma falha e ele procura alguém, qualquer um, a quem ele empresta um saber sustentado por um traço que ele acredita vai restituir-lhe um sintoma que funcione. 
É assim que se instala o que chamamos de transferência. Em outras palavras, a criação de um sujeito suposto saber restituir ao seu estado anterior um sintoma que deixou de funcionar.
Temos então a seguinte situação: o sujeito chega e dirige seu pedido, sua queixa, sua demanda, a um Outro qualquer ou, em outras palavras, ele chega com o significante de sua queixa e se dirige a um significante qualquer. Lacan diz que é um significante qualquer mas não é qualquer um. É um significante qualquer porque pode-se escolher entre muitos, mas no momento em que se escolhe, esse "qualquer um" deixa de ser qualquer para ser aquele: o significante da transferência. É esse significante que vai nos dizer do sintoma, pois ele indica a borda onde um menos se instalou. Sintoma, este que se sustenta na fantasia fundamental e que nada mais é, portanto, que uma interpretação feita sobre o desejo do Outro. Por isso o sintoma implica numa certa alienação ao Outro. 

         
S …………………………………    Sq
_____________________________

S ( S1, S2, S3 .................Sn )

          
O matema da transferência, desenhado por Lacan no texto da "Proposição de 9 de Outubro", pode ser lida da seguinte forma: Um sujeito chega ao analista trazendo consigo um significante (S), sua queixa e transfere a um significante qualquer (Sq) uma suposição de saber sobre o sujeito em questão, constituindo esse outro como “sujeito suposto saber” decifrar todo o conteúdo do inconsciente. 
Diante deste movimento, o analista tem duas possibilidades, pelo menos. Primeiro, ele pode acreditar que sabe e, segundo, ele pode ter certeza de que não sabe. Na primeira possibilidade vamos ter a Psicoterapia e, na segunda, uma possibilidade de análise. 
Em 1957/58 Lacan estava seriamente empenhado em esvaziar a parafernália imaginária que os supostos freudianos fizeram com a Psicanálise. Nos anos 30, nos anos pós-guerra e principalmente nos anos 50, a Psicanálise inflou-se de imaginário de uma forma insuportável. Lacan, então, se dedicou a esvaziar esse imaginário ou, em outras palavras, reduzir o processo analítico a certas fórmulas que ele chamou de matemas que pudessem trazer, como consequência, uma operação lógica e não uma operação imaginária, plena de sentido. O uso das pequenas letras pode, também, ser visto como uma tentativa de Lacan de trazer a pureza da letra destituída de seu significado e sua possibilidade de produzir poesia que, por não ter uma significação vinculada a ela, oferece a  chance de criação a quem pode ler. Uma dessas possibilidades foi criada com o Grafo do desejo. “… o Grafo - que serviu de referência a Lacan durante anos para a direção do tratamento - apresenta um percurso que segue uma estrutura lógica e oferece a sequência de uma conclusão possível. No essencial inclui duas: o bem uma conclusão em curto-circuito que termina em uma identificação, ou um fim desenvolvido da análise que termina nesse ponto superior que Lacan chamou S(A/).” (J-A Miller, Conferência de fechamento das X Jornadas do Campo Freudiano na Espanha. Málaga, 28 de fevereiro de 1993).
Vamos a ele: No Grafo do desejo o s(A) significa, em linguagem lacaniana, “significação do Outro”. O sujeito procura a análise porque ele interpretou a significação que o Outro deu a ele... estou falando em interpretação porque isso diferencia do que o sujeito viveu na realidade. Vive-se muito mais essa realidade que é nossa interpretação do que aquilo que podemos chamar de realidade exterior. Na verdade nossa realidade, definida como "pouco de realidade" por Lacan, acaba por se constituir a partir mesmo do que foi a interpretação feita pelo sujeito: sua fantasia fundamental. Assim sendo, o que Lacan chama de significação do Outro é o que se constitui como um sintoma. 
Quando a significação do Outro falha o sujeito vai perguntar ao Outro “o que foi mesmo que você falou comigo?” “Repete o que você quer!” Lacan, em seu Seminário XI, nos diz que a única coisa que justifica a nossa intervenção como analista é este mal-mais que acontece quando o sintoma claudica e, se há uma retificação a ser feita na relação do sujeito com a satisfação, esta deverá ser a nível da pulsão. 
Neste momento um suposto analista pode dizer, se ele acreditar que sabe: “faça assim, seja assim, faça como eu”. Vai mostrar, uma série de modelos sustentados em um ideal do que deveria ser, para fornecer um ideal de identificação, como tal, imaginária. Ou seja, inundar de sentido o vazio que se faz presente na fala do sujeito. Seguindo o matema do Grafo do desejo, pode-se dizer que a esse sujeito lhe é oferecido uma i(a), um modelo “x” qualquer a partir do qual ele pode constituir no “m” (moi = eu) a partir da esperança de ser igual àquele modelo.
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Esta pode bem ser uma primeira consequência da queixa transformar-se em sintoma e permanecer sintoma, e não passar a sintoma analítico. 
Existe uma outra vertente. O sujeito encontra um analista que o acolhe em seu sofrimento. A partir daí as demandas poderão ser dirigidas àquele analista. Então, é colocada a questão da existência do sujeito a partir do esvaziamento dos significantes da demanda do Outro. Em outras palavras, é quando o envelope formal do sintoma não mais faz frente ao desamparo (Hiflosigkeit), que o sujeito vai encontrar a dor de existir.
Para que esta experiência possa ser levada a cabo é fundamental um silêncio. Um silêncio que é muito mais que um simples calar-se. É o silêncio da falta de palavra que coloca o sujeito num lugar de onde ele não tem outra saída senão construir algo.
O sujeito busca, então, um significante que poderia representá-lo – o matema da transferência , exposto acima, nos diz isto:
Ele se depara com uma falta e vai, então, se agarrar a um objeto apontado pelo significante que ele escolheu. Ele vai tentar se articular com esse objeto de alguma maneira. E ele o faz a partir dos restos perceptivos que o constituíram num primeiro momento. São as percepções de sua primeira experiência de satisfação e que nunca sofreram tradução de traços de percepção para traços de memória. Alguns destes traços ficam como restos e são estes restos que colocam para o sujeito a pergunta: Que queres? É a partir destes restos, que surgem no trajeto de uma análise, que o sujeito vai construir sua fantasia fundamental.
Lacan, em seu Seminário XI, nos diz: “Não nos interessa explicar porque sua filha é muda, do que se trata  é fazê-la falar !” Ora, a fantasia é muda. Ela é construída a partir de dois elementos estranhos entre si: Simbólico e Real, e se manifesta no Imaginário pois ela nada mais é que a colocação em cena dos significantes primordiais do sujeito.
É, pois, fundamental, que se faça falar o sintoma para construir a fantasia.
Para isto é preciso que o analista se cale como fez Freud diante de suas histéricas. Pois ao “calar-se” coloca aí uma pergunta a mais e cria a possibilidade para que, ao fim do tratamento, a experiência da fantasia fundamental se torne a pulsão.
Escutar as demandas, portanto, não implica ter que respondê-las. Aliás, longe disto. As demandas não são feitas para serem respondidas. Sabe-se que toda demanda, na verdade, é demanda de amor. E o amor? É dar o que não se tem, define muito bem o Dr. Lacan! 
Exatamente por saber da não reciprocidade amorosa - e isto o analista tem que saber - , ele deve fazer silêncio para que as demandas que lhe são dirigidas possam retornar levando a própria mensagem de volta a quem demanda. Importante assinalar que esse silêncio não é qualquer um. Ele está muito bem matemizado por S(A/). Em outras palavras, ali onde se espera uma resposta do Outro é preciso que o falaser se responsabilize.
Essas duas situações aqui definidas como próprias à uma Psicoterapia e à uma Psicanálise, podem ser ditas de outra forma. Na Psicoterapia temos dois sujeitos em questão, o sujeito que sofre e o sujeito que sabe e diz as soluções. Numa Psicanálise temos apenas um sujeito em questão: o analisante. O sujeito do analista fica fora e aí se mantém graças ao exercício do desejo do Analista. 
O discurso do mestre é o discurso do inconsciente. É o discurso que está o tempo todo produzindo sentido. É o discurso do sintoma. É o discurso que mantém sob a barra o sujeito e seu objeto, é o discurso com o qual normalmente o sujeito chega aos nossos consultórios. 
No discurso do mestre, debaixo da barra, está o desejo inconsciente do sujeito: sujeito desejo de objeto.

O discurso do analista vai acontecer quando conseguirmos inverter isso, ou seja, passar para cima da barra os elementos que estão escondidos abaixo da barra no discurso do mestre. 
Quando Lacan disse que o discurso do analista é o avesso do discurso do mestre, ele tinha em mente a estrutura moebiana. A banda de Moebius é aquela fita na qual se faz uma meia torção e se cola as pontas de tal maneira que podemos percorrer toda a fita sem tirar os dedos de cima dela. Ela é muito interessante porque diz do movimento do discurso do analista. A banda de Moebius tem somente um lado e uma borda, portanto diz muito bem que numa análise só tem um sujeito em questão, o analisante.

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Ela demonstra bem como sair do discurso do mestre para o discurso do analista percorrendo um só lado pois, topologicamente, a banda tem um só lado. Ao fazer isso expõe-se a cena que sustenta o sujeito na vida: a cena da fantasia fundamental. 
O discurso do analista é pontual porque ele é insuportável. Ninguém consegue estar frente a frente com sua verdade muito tempo e o objeto a é a verdade do falasser do sintoma: é o ser de verdade do sintoma. Lacan define o sintoma como contendo duas partes. Uma é o ser de verdade que remete ao real da castração, e a outra é o seu invólucro formal: a cadeia de significantes, as palavras, enfim. Então, cada vez que se pronuncia uma palavra, diz-se da fantasia fundamental. É isso que se chama estilo. A forma que cada um dá ao pouco de realidade que o circunda. 
Sabendo que a estrutura do matema dos discursos traz na sua forma a Banda de Moebius verificamos que ao possibilitar o seu giro vemos passar para cima da barra, no discurso do Analista (a - $), o que está sob a barra no discurso do Mestre ($ - a). 
Importante concluirmos dizendo que este giro só acontece se sustentado pelo amor. Pelo amor de transferência. Este amor que se instaura a partir de uma suposição de saber atribuída a quem se oferece como causa. No entanto cumpre ressaltar que esta causa só se sustenta se o analista sabe que ele não tem o “saber” a ele atribuído. Para isto é preciso fazer operar o desejo do analista. Este desejo construído em análise que propicia ao sujeito do analista ficar fora da cena. Esta é a ética que rege o encontro com um analista e que lhe fornece condições para que um ato analítico possa acontecer. 
E para concluir e abrir um espaço para nosso próximo encontro posso, sem receio de estar exagerando, afirmar que uma análise só acontece a partir de um ato que coloque o sujeito em questão.

Até dia 23 de Maio de 2018, quando vamos conversar sobre “O ato analítico