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terça-feira, 6 de maio de 2014

“O inconsciente é a política”

Quando Lacan, em seu seminário sobre a “Lógica da fantasia” nos diz não afirmar que “a política é o inconsciente”, mas sim que “o inconsciente é a política” ele abre um novo espaço levando em consideração os efeitos que se faziam incidir, sobre sua época, do declínio da função paterna e das consequências do “discurso do capitalismo” que fazem chegar o objeto ao zênite de nossa cultura.
A inexistência do Outro, como muito bem podemos trabalhar junto com Miller e Laurent no Seminário que ditaram em 1996/97, acaba por se materializar na constituição de outro Outro, estabelecendo parâmetros para a subjetividade contemporânea.
Este aforismo, “o inconsciente é a política”, na verdade constitui um desdobramento da afirmação inicial de Lacan: “O inconsciente é o discurso do Outro”. Esse “Outro tem muitas dimensões: social, como no exemplo do chiste; lógica, quando é a verdade que ele valida; e também política, quando se reduz sua função à do significante-mestre que captura o sujeito e o atrela a um trabalho cujo gozo é roubado."1
Acompanhando Lacan em “o inconsciente é a política”, levamos em consideração o que Freud constrói em sua análise do chiste, ou seja, que a formação do inconsciente é um processo social.
Hoje, temos uma estrutura social diferente da que fazia parte da vida de Freud: a globalização. O próprio nascimento da psicanálise, como um efeito social do final do século XIX, fez transmudar a sociedade disciplinar, cheia de imperativos e interdições que marcaram, essencialmente, a sexualidade. Era uma sociedade organizada a partir de uma hierarquia e presença da função paterna.
Talvez possamos estabelecer outro ponto importante na construção da nossa cultura neste início de século com o que se resume pelos acontecimentos de maio de 1968.
Este momento é conhecido como a manifestação de uma sociedade que recusava tudo o que caracterizava as instituições, os lugares pré-determinados, enfim uma sociedade disciplinar: “E proibido proibir!” cantavam os poetas.
Com esse movimento aconteceu um deslocamento da política para o plano da vida cotidiana fazendo confundir o público com o privado. A liberação do sujeito e a libertação das massas estavam colocadas em um mesmo lugar.
A participação da psicanálise se percebe quando as neuroses e o mal-estar na cultura foram demonstrados como consequência da repressão sexual e dos valores morais que sustentavam a cultura através de suas instituições. A psicanálise mudou o mundo, nos diz Miller em “Lacan e a Política”, pela via da transformação dos costumes e dos valores morais. Ao levantar o véu do recalque estabeleceu o “reconhecimento e aceitação da carne”, ou seja, a necessidade de satisfação das pulsões. Se isto falta, o que vai surgir é o mal-estar, a neurose, os sintomas.
É neste ponto que o capitalismo se aproveitou para oferecer uma satisfação na figura de substitutos comercializáveis do objeto a, do prazer imediato, dos corpos esvaziados que se prestam a uma troca na crença de fazerem existir a relação sexual.
Em um determinado momento, temos uma cultura que se estruturou em torno de um Outro social construído a partir da exceção fundadora do pai morto, um Outro que fazia um todo limitado, regido pela lei do incesto – onde a função do pai fazia limite, organizava e sustentava. 
Como a globalização colocou em questão as hierarquias e a tradição em nome do sempre novo, a psicanálise, com Lacan, pode restabelecer uma nova lógica, a partir mesmo da questão do feminino e inverteu o clássico: “não havendo exceção não há todo”, para estabelecer que “não havendo exceção há o nãotodo”. Este é o Outro que se apresenta hoje, nãotodo, resultado do declínio da função paterna, da função de exceção fornecida pelo Nome-do-Pai. Um Outro furado, inconsistente, sem fronteiras.
Para concluir transcrevo uma passagem no texto de JAMiller “Lacan e a Política”, já citado acima. Penso que assim poderemos nos colocar a pensar, mais uma vez, o lugar da psicanálise e, claro, do psicanalista, nestes tempos do Outro que não existe: 
“A psicanálise não é revolucionária, mas ela é subversiva, o que não é semelhante, (...) porque ela vai contra as identificações, o ideais, os significantes-mestres. Aliás, todo mundo sabe disso. Quando vocês vêem alguém que lhes é próximo começar uma análise, vocês temem que ele cesse de honrar seu pai, sua mãe, seu parceiro e o bom Deus. Quiseram fazê-la mais adaptativa do que subversiva, mas foi em vão. Em geral, é quando o sujeito é subvertido, destituído de sua mestria imaginária, quando sai da gaiola de seu narcisismo, ele tem uma chance de enfrentar todas as eventualidades.”2
Notas Bibliográficas:

1 – Miller, J.A – Lacan e Política em Opção Lacaniana Nº 40
2 – Idem.

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