Total de visualizações de página

terça-feira, 29 de abril de 2014

“Au petit bonheur la chance!...ou quando a contingência de um bom encontro escapa ao discurso da ciência.”

Lacan nos lembra em seu texto “Auto comentário” que, partindo da chicane que desemboca no ato sexual possível é fundamental estabelecermos a estrutura do discurso que nos diz do mundo que habitamos. Estrutura que aponta para a felicidade do encontro, pois aos homens não lhes falta a felicidade. Acredito que a referência à felicidade se sustenta na pulsão e seu circuito. Esta nunca falha em atingir seu objetivo que se resume em seu trajeto em torno deste "troço" de Real que está aí enquanto objeto pequeno “a”. Objeto que, também, pode ser definido como um recorte de Das Ding. Por isso é fundamental que o percurso de uma análise chegue ao ponto de poder dar ao sujeito a chance de um bom encontro que, a partir mesmo do atravessamento da fantasia fundamental promove uma retificação na pulsão produzindo uma nova aliança.
Este recorte é que nos diz da impossibilidade do Real, expressa pela afirmação de que “não há relação sexual”.
 
Mas o que é o Real?

Este termo foi introduzido por Lacan, primeiramente, em relação a dois outros: Simbólico e Imaginário. Somente mais tarde ele acrescentou um quarto termo: o sinthoma.
Pierre Naveau, em seu texto “A teoria lacaniana do encontro” (Lettre Mensuelle, 161 pag. 22) nos diz que este Real (não há relação sexual) pode ser abordado de maneiras diferentes:

1 - porque o ser humano é um ser falante: a casa que habita é a linguagem.
2 - pelo viés do saber ou seja, entanto que ser de saber. (Em sua "Nota Italiana" Lacan diz que “neste Real - que não há relação sexual - é um saber que está em jogo”).
 
O fato de habitar a linguagem e neste Real existir um saber o que em jogo, podemos dizer que o impossível indicado por “não há” se refere a que algo não se escreve. O saber em questão, portanto, se baseia no fato de "a relação sexual" não poder se escrever, que é impossível escrevê-la. O Real coincide com o impossível. 
A relação sexual enquanto impossível de se escrever, não pode ser apreendida senão por acaso, no encontro. Este acaso implica uma operação que toca a escritura, ao fato de saber precisamente se no encontro, a relação sexual se escreve ou não.
Este encontro é abordado, por Lacan, a partir da relação entre as três modalidades de ordem lógica: a contingência, o impossível e o necessário.
P. Naveau é bastante claro na sua articulação entre estas três modalidades: “A diferenciação entre estas três modalidades é efetuada no modo da negação, que é susceptível de recair sobre o verbo cessar e sobre o verbo “se escrever”. Trata-se de saber, de fato, de uma parte, se isso cessa ou não cessa e, de outra parte, se isso se escreve ou não se escreve. Estamos diante, portanto, da questão da inscrição e da temporalidade da inscrição. O ponto-pivô da relação entre as três modalidades é a contingência, A impossibilidade está caracterizada pelo que não se escreve e o necessário pelo que se escreve. A passagem do impossível em direção ao necessário se opera por intermédio da contingência que introduz uma modificação, - o que não se escreve vem, neste instante, a se escrever. A felicidade (bonheur) do encontro se apega, agora, à possibilidade, tão súbita quanto imprevisível, da inscrição?”
É neste ponto que entra o amor, construindo uma relação de suplência a partir de um significante singular (o Falo) que se escreve, opondo-se à relação sexual que não se escreve. A suplência que se opera é, portanto, relativa à escritura e se funda na contingência do encontro. Sendo algo da ordem da escritura podemos dar um passo a mais, com Lacan, e dizer que o suporte do amor é o saber, não o saber da consciência, mas o saber inconsciente: “Todo amor se suporta de uma certa relação entre dois saberes inconscientes.” (Lacan, Encore, pag. 31). Onde não há relação entre os sexos se têm uma relação entre os saberes.
Ao nível do sexual, para retomarmos nosso fio da meada, o encontro amoroso leva a um impasse. De um lado temos o homem que toma a mulher como parceiro sexual e dela faz causa de seu desejo. Isto só é possível pela substituição de "a" por "A". O gozo do corpo do Outro J(A) o sujeito, enquanto barrado,o corta, o fragmenta. Desta forma o corpo da mulher é abordado pelo homem em um ponto: "a". É isso que conta para o gozo masculino. A mulher, de sua parte, está mergulhada na interrogação sobre seu próprio gozo que, mesmo para ela, é um enigma S(A/). É desta forma que a heterogeneidade entre o gozo masculino e o gozo feminino vai dar consistência a esse Real - que não há relação sexual. O que temos, neste ponto, é uma falha, um abismo entre o gozo do Um e o gozo do Outro.
Neste momento é preciso introduzir o quarto termo, o sinthoma que vai fazer consistir o encontro enquanto tal.
O que o sujeito vai encontrar no parceiro é a consequência desse Real (que a relação sexual não existe), ou seja, um traço do impossível é conservado pela contingência do encontro, pelos dois parceiros. P. Naveau nos diz que “o contigente traz a marca do impossível. O sujeito encontra, no parceiro, a consequência da heterogeneidade do gozo do Outro, quer dizer, o que faz a solidão e o exílio do ser do sujeito: o sinthoma. O sujeito encontra, no parceiro o sinthoma que, segundo Lacan, corresponde à maneira como o parceiro está afetado pela brecha do impossível.
Mas, precisamos da certeza porque só ela pode transmitir-se ao demonstrar.
É fundamental apreciarmos o valor da exigência de certeza que Lacan introduziu na clínica. Duas são as formas que esta certeza se apresenta e que estão explicitadas na frase acima: demonstração e transmissão. Em ambos os casos ele liga a certeza ao Real, mas para distinguir "dois reais":
1 - o da ciência que define, a princípio como o real do número, enraizado na linguagem e 
2 - o da psicanálise: o Real do inconsciente. É com respeito a este Real que só se aborda pela psicanálise que Lacan convoca a exigência de certeza, para elaborar um tipo de certeza que é própria à psicanálise.
Se tomamos o caminho da demonstração, vamos perceber que só podemos aceder ao Real pelo impossível. Na vertente da ciência verificaremos que é pelo viés da lógica como ele pode ser posto em valor. Pela psicanálise, seu acesso se dá por um impossível bem singular, que se enraíza na contingência e não na necessidade.
Esta demonstração, como a transmitimos? Na ciência ela é feita pela escritura, pelas fórmulas, etc., enquanto na psicanálise esta transmissão “é feita, exatamente pela fuga do sentido, por isso que foge, que corre, e não pelo que não se mexe, que fica lá no seu lugar, que não pode ser de outra maneira. Quer dizer que ela não responde aos critérios aristotélicos de épisteme” (JAMiller, Lettre Mensuelle 161).
É “au petit bonheur la chance”! 
O que existe é do contingente, por isso nosso discurso é arriscado e aparentemente impedido de qualquer certeza. Nada há de substancial, de tangível deixando o campo da certeza para o que estamos chamando de “au petit bonheur la chance”: “Nossa certeza está aí, na medida em que a contingência é suscetível de demonstrar o impossível”.
Dito isto, concluímos que a transmissão pela fuga do sentido é a transmissão que acontece na experiência analítica e que difere, essencialmente do ensino. A ciência, esta sim pode ser transmitida pelo ensino. A psicanálise, esta só pode transmitir o que é da ordem da sua certeza pela experiência analítica ela mesma.
A exigência científica que nos traz Lacan é feita para afirmar um Real próprio ao inconsciente e um modo de acesso à certeza próprio à psicanálise.

Nenhum comentário:

Postar um comentário