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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O OBJETO DE FREUD A LACAN (1ª Parte)

Desde o “Projeto...” vê-se presente na obra de Freud o objeto em seu sentido convencional - inclusive no clássico par sujeito-objeto da teoria do conhecimento, que o próprio Freud, desde então, descarta e diferencia do que vem a ser o objeto próprio da experiência analítica.
Pode-se delimitar, no entanto, três grandes dimensões do conceito de objeto em Freud: 
A) Do ponto de vista teórico, o primeiro a ser deslindado foi o objeto de desejo, o objeto perdido da experiência de satisfação alucinatória. O objeto em jogo a nível do processo primário. Aquele mesmo que se depreende como “Das Ding” quando a experiência do pensamento, ao fazer o julgamento das percepções depara-se com uma não coincidência entre os traços de percepção e os traços de memória. Ora é esta “não coincidência” mesma que provoca o pensar ou, como nos diz Freud, “erwecken das Interess” a partir de “Züge” (Traços) que se instalam na imagem construída do “Nebenmensch” (Homen ao lado): “Was wir Dinge nennen, sind Reste, die sich der Beurteilung entziehen”. (O que se chamam coisas, são resíduos que evitam serem julgados)  
O objeto perdido do desejo sexual infantil tem, como paradigma o objeto oral em sua articulação com a experiência de satisfação.
O objeto de desejo permanece, ao longo de toda obra de Freud, como o fio estável: é o objeto próprio do funcionamento inconsciente.
B) O segundo destes objetos, em Freud, é o objeto da pulsão parcial. Em 1905, no texto “Os três ensaios ...”, este objeto é descrito como muito próximo ao objeto de desejo, mas não idêntico. 
Na parte III, item 5 - “O Encontro do objeto” - , Freud assim descreve este processo de encontro: (Na puberdade) “Simultaneamente no lado psíquico, o processo de encontrar um objeto, para o qual preparações foram feitas desde a mais tenra infância, está completa.
“No momento em que as primeiras satisfações sexuais estão ainda ligadas com a amamentação, a pulsão sexual tem um objeto fora do próprio corpo do infans, na forma do seio de sua mãe. É somente mais tarde que a pulsão perde seu objeto, justamente no momento, talvez, quando a criança é capaz de formar uma idéia total (Gesamtvorstellung) da pessoa a quem o órgão que o satisfaz, pertence. Como regra, a pulsão sexual se torna auto-erótica e a relação original só é restaurada quando o período de latência foi ultrapassado. Há então, boas razões do porque uma criança sugando o seio materno tornou-se o protótipo de toda relação amorosa. O encontro de um objeto é, de fato, um reencontro.” 
Serge André, em seu Artigo “A pulsão no esquizofrênico”, resume de maneira brilhante este parágrafo de Freud, referindo-se ao auto-erotismo: “... o infans passa de uma posição onde ele é um corpo entregue aos caprichos do Outro, à posição onde ele tem um corpo que ele oferece a ser ‘self-service’ ... em suma, o sujeito vem do exterior, bater à porta de seu próprio corpo. A pulsão encontra nesta divisão (Outro exterior - zona erógena - corpo) a causa de sua bipolaridade fundamental: passividade - atividade.” 
Portanto, a proximidade destes objetos não os fazem idênticos e talvez seja mais propício, como nos sugere D. Rabinovich em sua tese de doutoramento, “perguntar-se sobre a interseção que se produz entre ambos: objeto de desejo e objeto da pulsão, mantendo, não obstante, a peculiar originalidade de ambos”, para concluir-se que “o objeto perdido do desejo é condição de produção do objeto pulsional na obra freudiana.”
C) O terceiro é o objeto de amor, que é o fio condutor de uma série que Freud separou da série dos estádios libidinais próprios da pulsão parcial. Esta série, inaugurada em 1911 com o “Caso Schreber”, e que tem seu ápice no texto “Introdução ao narcisismo” foi batizada de ‘eleição de objeto’.
Importante mencionar aqui o lugar que ocupa o Falo, este objeto excêntrico e que tem um surgimento tardio na obra freudiana (anos 20). Ele se articula de maneira diferente com cada uma das duas séries mencionadas acima.
Ao desenvolver sua tese, D. Rabinovich parte destas duas dimensões do objeto (objeto parcial e objeto amoroso) para dizer que elas produzem duas séries diferentes:
1 - A série pulsional com seus estádios toma ao outro somente como apoio. Ela nasce da necessidade e faz um uso particular das partes do corpo. A este uso Freud chamou de “prazer de órgão”. Aqui a contingência se opõe à eleição e o modelo em questão é o anaclítico.
2 - A série da eleição de objeto  é aquela que vai se desgarrar do auto-erotismo inicial, passar pelo narcisismo e culminar na eleição do objeto heterossexual. Nesta série, a eleição de objeto remete a um outro definido como pessoa, se referindo, portanto, ao campo que Se pode chamar de totalização sexual (outro sexuado: homo ou heterosexual). Este segundo processo se estrutura em torno do papel do narcisismo.

Para concluir este pequeno sobrevôo em Freud, digo-lhes que as duas séries aqui descritas convergem ao que Freud chamou de “fase fálica”.
O que se pode constatar é o complexo de castração no seu papel de articular ambas as séries, não só entre si, mas também delas com o Complexo de Édipo. 


3 comentários:

  1. quando você diz que " objeto perdido do desejo é condição de produção do objeto pulsional na obra freudiana.”, poderíamos pensar que é este objeto que faz o desenrolar da cadeia metonímica ?

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  2. Rivelli, sim, este é o objeto que faz desenrolar a cadeia metonímica. Se você tomar o matemático do Discurso do Mestre, que é o Discurso do Inconsciente você verificará que sobre a barra temos S1-S2 e sob a barra $<>a. A impossibilidade do objeto ser absorvido pela interpretação, representada pelo S2, sempre vai chamar um novo significante à série.

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