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segunda-feira, 23 de março de 2015

Os destinos do supereu no final de uma análise.

“O ideal, e o Ideal do Eu, em suma, seria terminar com o Simbólico, dito de outro modo, [não] dizer nada de nada. Qual é a força demoníaca que empurra a dizer algo, dito de outro modo a ensinar? Sobre isso eu chego a me dizer que isso é o Supereu. É o que Freud designa como Supereu, que seguramente, não têm nada a ver com nenhuma condição que se possa designar como natural.” 
(...)“Desde o ponto de vista ético, nossa profissão é insustentável, por outro lado é por isso que eu estou doente dela, porque tenho um supereu, como todo mundo.”
(Jacques Lacan
L'insu qui sait...Lição del 8 de Fevereiro de 1977)




Para falar dos destinos do Supereu no final de uma análise seria importante falar do que penso ser a função do Super Eu e como ele se apresenta no começo de uma análise. Deixando claro que se trata de um recorte particular que aponta para singularidade do sujeito em questão, vamos trabalhar alguns conceitos que, por serem produtos da observação e experiência clínica, não impedem de serem levados a categoria do universal, enquanto matemas. 
Tomo como referência conceitual um texto de J-A. Miller de setembro de 1981. Mesmo sendo tão antigo, suas elaborações continuam atuais e encontram sua ressonância na nossa clínica do dia-a-dia. Trata-se da “Clínica do Supereu”. Recorto alguns trechos que nos ajudarão em nosso trajeto. 
Primeiro é preciso distinguir a presença do supereu a partir de cada um dos registros: Imaginário, Simbólico e Real. 
Enquanto Imaginário, ele se apresenta como um personagem, “sombreado” como diz Lacan ao introduzir a equivalência dos três registros logo no início de seu Seminário “RSI”. Esclareço que o faz assim ao criticar a geometria de bolsa com a qual Freud estabelece as estruturas do Id, Eu e Supereu no texto “O Eu e o Isso”. No entanto, este personagem “sombreado” apresenta uma face que  é descrita pelo sintagma: “figura obscena e feroz”. É assim que as sombras imaginárias acabam por encarnar um outro da história de um sujeito. Miller completa esta referência ao supereu imaginário definindo-o pela comédia dell’arte como um Arlequim, para dize-lo ridículo. Talvez encontremos em uma passagem do “Balcão”, de Jean Genet, texto largamente comentado por Lacan em seu seminário sobre “As formações do inconsciente” onde o ridículo da autoridade do Chefe de Polícia acaba no palco transvestido em grande pênis com as cores da bandeira nacional. Este é o resultado da confusão de muitos que se fazem identificar, imaginariamente, com a autoridade do Outro. 

Tomando a questão pela vertente do Simbólico vamos verificar, com Miller que Lacan lhe designou grande importância, principalmente no momento de seu ensino em que estabelecia a supremacia do Simbólico sobre o Imaginário. Lacan nesta ocasião tratou de localizar o Simbólico como o sustentáculo mesmo do supereu, enquanto lei pacificadora, socializante. “Lei enquanto significante unário (S1), cuja significação desconhecemos, pois para conhece-la seria necessário um segundo significante a partir do qual, retroativamente, o primeiro toma sentido.“ Sendo único, o supereu acaba por parecer insensato. Por isso Miller propõe localizar o supereu em S(A/), o que “supõe que a suposta lei total do Outro pode ser percebida em sua falha.” É, portanto, quando esta lei falha que se pode escutar a voz insensata do Outro. Lembremos que esta referência ao Grafo do desejo abre uma possibilidade para se pensar algumas coisas. P. ex. que a voz está colocada por Lacan, em seu Grafo, como sendo aquilo que permanece depois que o grito sofre a ação do Outro, desnaturalizando a necessidade e a transformando em demanda. Há uma articulação, portanto, entre o “A” que se encontra no andar inferior como código, como Outro da boa fé, garantidor de uma significação e o S(A/) que se apresenta como ponto de basta ao gozo que está colocado na ante-sala do significante em seu trajeto para transformar-se no circuito da pulsão sob a ação da demanda do Outro. 
Miller destaca que este supereu como lei insensata está muito próximo ao desejo da mãe antes que ele seja metaforizado pelo Nome-do-Pai. Esta é a posição que se encontra na psicose e que o Caso Schreber vem testemunhar. 
A terceira vertente é a do Real, onde é importante assinalar a proximidade que existe entre o significante unário, enquanto insensato e o objeto “a” enquanto fora do sentido. Esta proximidade se dá em função do fato de que ambos estão em dificuldades no que diz respeito ao sentido. 
Neste momento posso acrescentar que estes dois elementos se articularão com o sentido no momento em que uma cena se estrutura e toma este significante insensato, enquanto unário, na relação de um sujeito com o objeto que se construí a partir da interpretação que se faz do encontro com o S(A/). Objeto de desejo, marcado pelo significante. A cena da fantasia fundamental é conseqüência da “separação interna do campo do significante, do S(A/) que poderíamos escrever Supereu (A).”
Esta proposta só pode ser feita a partir de um segundo movimento no ensino de Lacan que Miller demonstra ao nos dizer que “o ensino de Lacan começa verdadeiramente quando deixa cair esse termo, reconhecimento.” Neste processo de desimaginarizar a figura do supereu, Lacan vai esclarecer que, se num momento o supereu foi entendido como sendo o preço pago pela prevalência do Imaginário sobre o Simbólico que se caracterizava por dois traços: “a beatitude sem medida do sujeito e a ameaça que ao mesmo tempo lhe faz o supereu”, logo em seguida foi possível estabelecer a relação que existe entre esta beatitude e o gozo, definindo que a ameaça acontece por atribuir este gozo ao Outro. Afinal o medo dos neuróticos, diz Lacan em “A subversão do sujeito...” é exatamente que o Outro lhe peça seu pequeno nada. Esta ameaça encontra-se tanto mais presente quanto menos funciona o Falo enquanto significante que coordena o desejo. 
É neste ponto que Miller introduz o Φo para dizer da presença do desejo da mãe como função sem freio simbólico. Em outras palavras o Φo “escreve um gozo não congelado, não cativo do falo”, um gozo que não passa pela rede da fantasia fundamental, esta instância que está ali, presente e trabalhando para transformar gozo em prazer, ao mesmo tempo que insiste, em seu trabalho, fazer existir a “relação sexual” onde a brecha que se abre no Simbólico se apresenta como a impossibilidade mesmo deste objetivo.
A clínica de um sujeito mostrou, no inicio, a presença de um traço que durante sua vida havia se mostrado eficaz em sustentar o funcionamento da cena da fantasia fundamental, na medida que lhe proporcionava um prazer. Regido pelo traço, insígnia do Outro, ele seguia sua trajetória tentando fazer existir a “relação sexual”, submetendo-se às demandas do Outro. Desta forma sua ação se concentrava em aprender a escrever para evitar a bancarrota que se apresentava como possibilidade do gozo materno. Regência imperativa, a bancarrota ordenava uma vida fazendo valer o S(A/) em sua vertente de voz, resto da operação significante que exigia a busca constante de um olhar marcado pela falta. “Agora é por sua conta!” Sempre “dentro da lei” do Outro, seu desejo era postergado como forma de fazer existir esse Outro que se constituía do sacrifício de uma existência. 
Uma reviravolta ocorrida na análise esvazia este lugar do olhar deixando em evidência a falta em torno da qual pode circular a pulsão sem estar mais regida pelos traços do “Supereu (A)”, na medida em que pode fazer surgir um novo sujeito. A liberdade que então se fez presente acabou por se estruturar em caminhos balizados por significantes de marcam um desejo inédito, onde as insígnias do Outro permanecem como marcas, referências que se prestam a uma articulação lógica sustentando um lugar vazio. 

Sustentar este lugar vazio é um dever que se estrutura na responsabilidade, fazendo com que se esteja alerta para as várias formas com que o “Supereu (A)” se apresenta, ofertando insígnias que favorecem ao processo de identificação, com promessa de garantias pelo reconhecimento que acabam por apagar as diferenças. Diferenças estas que são conquistadas, uma a uma, nos lembrando que uma Escola de Psicanálise tem o dever ético de sustentar um espaço “que garanta que um analista advenha de sua formação”. Este ponto é fundamental para que o espaço de criação S(A/) mantenha viva a questão: o que é o analista?

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